Por Frei Almir R. Guimarães, OFM
Quanta delicadeza e quanto vigor na festa de hoje. Maria e José levam o Menino ao templo para a purificação da mãe e do filho, conforme a lei de Moisés.
Um casal, esposo e esposa, uma mãe e um pai. Gente simples. Ele, homem com as mãos marcadas pela profissão de carpinteiro. Ela, quase menina, aprendendo o jeito de cuidar de uma criança que veio em sua vida como o botão de uma flor. São pessoas piedosas. Querem ser fiéis á fé que professa seu povo. Trazem as oferendas de pombinhas ou rolas. Desejam apresentar o filho a Deus, esse que havia nascido num espaço de pobreza, mas iluminado pela estrela dos magos.
À porta do templo um rosto envelhecido, belo, claro com as tintas da fidelidade a Deus e da esperança no amanhã. Semblante sereno, feito de pedaços das Escrituras, dos sonhos dos profetas, da pertinácia dos pobres de Javé. Seu nome é Simeão. Quase no fim da vida. Cheio de anos. Um iluminado que encontramos todos os anos nesse dois de fevereiro.
O casal faz uma interrupção na caminhada. O rosto brilhante de Simeão ilumina a mãe e os panos brancos que envolvem o menino. Ou são aos panos brancos que jogam luz no rosto do ancião? E quando o rosto da criança é visto, os olhos do ancião têm chispas de luz e de fogo.
Agora podia acabar seus dias, partir em paz. “Meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos, luz para iluminar as nações”. Há qualquer coisa de natal na festa de hoje. O menino que veio na noite santa do Natal agora é “descoberto” diante de Simeão. Há qualquer coisa da epifania na festa de hoje. Mas há também lampejos pascais. Simeão se volta para Maria e adverte: “Esse menino vai ser causa de queda como de reerguimento… uma espada de dor te traspassará a alma” Mais tarde, como mulher já feita, no auge de sua feminilidade, essa menina que mostra o filho a Simeão estará vivendo momento de pobreza total e abandono indescritível ao lado da cruz do filho. Logo depois da noite escura da tarde das dores o corpo do Filho se iluminará na manhã da Páscoa. Esse menino se fará claridade.
Terminamos com as palavras inspiradíssimas de Eloi Leclerc: “Maria sentiu-se apertar-se lhe o coração. Viera muito feliz apresentar o filho ao Senhor e oferecer-lhe sacrifício de duas rolas. Mas as palavras do ancião e o Espírito que o inspirava projetaram de súbito em sua alma uma luz trágica. Não, ela não ficava desobrigada com as duas rolinhas brancas. Estas eram apenas uma figura pálida. A realidade era outra. “Não quiseste sacrifício nem oblação, mas preparaste-me um corpo. Os holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: Eis-me aqui, porque de mim está escrito no livro: Venho ó Deus para fazer a tua vontade” (Hb 10, 5-7). Maria contemplava o seu filho nos braços do ancião. A carne de sua carne seria um dia vítima. O seu filho seria o Servo desfigurado que se obstinariam em abater e que se ofereceria à morte para a salvação de todos. O silêncio era completo. Maria ouvia apenas as palpitações do seu próprio coração. Acabava de entrar na noite de Deus. Jamais se sentira tão pobre, tão afastada do Senhor. E contudo nunca estivera dele tão próxima” (O Povo de Deus no Meio da Noite, pp. 152-153). T