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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A vocação dos Frades "Leigos" ou "Irmãos Religiosos"

Por Frei Edson Matias, OFMCap.

Em nossas reflexões sempre é bom ter em mente nosso processo histórico. Francisco de Assis, quando movido por inspiração divina, começou a receber irmãos, não quis estabelecer diferenciações, considerando uns maiores outros menores em sua fraternidade. Os diversos ministérios que os frades exerciam eram colocados em função da fraternidade. Assim, tanto fazia se era leigo ou sacerdote, todos os frades deviam viver em comum-unidade.

Os frades leigos ou sacerdotes viviam em uma comunidade onde as relações injustas daquela época (feudos, comunas) não poderia ser o modelo. Francisco de Assis, como os diversos irmãos da primeira geração, viveram a não diferenciação. Logo, optaram pelas relações de iguais. Havia frades leigos e frades sacerdotes que exerciam os diversos trabalhos dentro da Ordem (guardiões, provinciais, etc). O que eles buscavam era a autêntica vivência do Evangelho e era isso que importava. Os demais trabalhos e funções – como o ministério ordenado e os demais ministérios – vinham depois. Assim, para nós franciscanos a nossa primeira vocação é para a vida consagrada, a vida em Cristo e todos, nessa fraternidade intuída por Francisco, podem realizar todas as funções de organização e de cuidado dessa família.

Com a morte de Francisco de Assis e a entrada de diversos irmãos ordenados e novas ordenações, as diferenças acabaram sendo reeditadas por alguns grupos. Assim, a ordem franciscana passou por um processo de clericalização. Ou seja, somente os frades ordenados (freis padres) podiam assumir os cargos (guardião, formador, provincial, geral, etc.). Lembremos que Francisco de Assis e Frei Elias, os primeiros ‘Ministros’ da Ordem, não eram freis sacerdotes. Somente depois do processo de clericalização que se passou a fazer distinções a partir dos ministérios. Algo que não foi intuído na vida dos nossos primeiros irmãos.

Sabemos que sendo frei leigo ou frei sacerdote todos estamos em uma Ordem de irmãos e nela não pode haver distinções por causa dos ministérios. Lógico, que os frades sacerdotes irão realizar aquilo que é especifico de seu ministério (e dizemos ‘ministério’ e não ‘vocação’): missas, confissões. Mas isso não nos torna melhores ou piores. Simplesmente são ministérios necessários a toda a Igreja e à Ordem. E a mesma forma que o frade leigo, sendo simples ou doutor, isso não o torna melhor ou pior, o que todos precisam fazer é adentrar na Vida Evangélica e jamais confundir vida ministerial com maturidade humano-espiritual, pois isso seria orgulho.

Tal descompasso histórico cometido na Ordem Franciscana também é conversado em certos encontros de Irmãos religiosos. A proposta que sempre estamos fazendo à Santa Sé é que nos considere uma Ordem de Irmãos, onde, frades leigos e frades sacerdotes, possam viver aquela Inspiração que tocou Francisco de Assis. Os encontros de frades leigos é um momento de aprofundar nosso carisma de religiosos, de frades, de uma fraternidade reconciliada que possa ser fermento no mundo, tendo este ou aquele ministério, pois é a fraternidade e não os trabalhos pastorais em si mesmos que é nossa marca registrada. Devemos estar no mundo e no meio do povo, mas nunca sem aquela inspiração primeira que trazemos no coração.

Os nossos vocacionados de hoje devem ter essa consciência quando começam o processo de conhecimento de nossa Ordem. Não somos uma Ordem de padres, somos de irmãos! Mas é preciso entendermos algo: Mesmo que toda Ordem chegasse a ser constituída somente por frades leigos ou frades sacerdotes, nossa vocação permaneceria a mesma: Vida Consagrada em uma Ordem de irmãos. Os ministérios serão bem desenvolvidos se nós nos dedicarmos àquilo que um dia nos enamoramos e cativarmos a cada dia. Caso contrário, serão apenas trabalhos vazios e sem inspiração. Nosso chamado primeiro é ao Reino e antes de ser trabalhadores do Reino do Senhor devemos viver a mensagem. (Cf. V CPO 41[1]).

Nosso perfil de irmãos é o reflexo de nossa mística. Fundados no Evangelho refletiremos o rosto: a luz de Cristo Jesus. Pois Nele “Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3,28). E para aprofundar cada vez mais nosso modo de ser (necessário hoje cultivar o ser antes do fazer) a oração-reflexão é essencial. Sem oração/meditação/contemplação ficaremos vivendo a superficialidade das diferenciações dos ministérios. Nossa mística nasce da ação do Espírito. E Nele, para Ele e com Ele que nos relacionamos para reler todas as nossas atividades. Nosso perfil resplandecerá quando estiver fundado no Evangelho.

Qualquer discriminação devido aos ministérios dentro de nossas fraternidades é fruto de nosso egoísmo. Normalmente as pessoas nas comunidades que trabalhamos são mais clericais, tendem sempre a considerar o frei sacerdote como mais importante – pois ele tem uma função social e normalmente de liderança na administração dos sacramentos – mas isso jamais pode deixar qualquer frade viciado nessa visão. Qualquer frade que caia em tais ilusões não compreendeu a dinâmica da Vida Consagrada.  As funções sociais, ministeriais que um frade desempenha, seja ele leigo ou sacerdote, não pode obscurecer aquilo que é mais importante: a vivência do Reino. Ou seja, nosso perfil está bem quando assentado no Reino e não nas aparências. E pela vida no Espírito que vamos amadurecer e não nos cargos ou ministérios por nós desenvolvidos.

Um frade sacerdote que não busca se aprofundar na vivência do Reino ou um frade leigo que, ocupado com mil e uma atividades e não medita, vivem fora do projeto de Jesus. Podem obter sucesso com as pessoas e muitos elogios colhidos, mas tem que ser bem sincero consigo mesmo para se perguntar se vive em função daquela Inspiração Primeira (o Reino) ou pelos louros das atividades desenvolvidas. Nesses casos, tanto os frades sacerdotes e leigos correm risco.


Perfil é o modo que desenvolveremos a intuição. Entretanto, jamais o perfil pode fixar e, como petrificado, não buscar mais na mensagem Evangélica o norte e viver dos ministérios. Ou seja, deixar de servir o Senhor para servir o servo. Logo, se queremos que nosso rosto transfigure a “Imagem e Semelhança” (Gn 1,26) deixemos nos sustentar por Aquele que nos chamou por primeiro. Para isso, precisaremos nos aprofundar em nossos Votos Evangélicos. Ser obediente Àquele que nos fala, ser pobre para que Ele seja e eu diminua e Casto, para que Ele fale através de mim em vez de eu falar em Seu lugar.

Os desafios são grandes, mas continuando essa nossa caminhada, e já percorremos um caminho significativo, amadureceremos para o Reino. Que Deus nos ajude! T

[1] V CPO. Nossa Presença profética no mundo hoje. Vida e atividade apostólica. Garibald. 1986.

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