Por Frei Dom, OFMConv.
Testemunho de sua estadia, quando foi missionário no Líbano.
Testemunho de sua estadia, quando foi missionário no Líbano.
O que faz com que alguém deixe sua casa, seu país, as pessoas que ama e vá evangelizar no Oriente Médio? A resposta é Deus. Quando escutamos esta voz sedutora de Deus que nos chama e nos diz: "Vem, vem comigo para onde eu te indicar. Eu estarei contigo todos os dias." Este apelo se torna irresistível. É um envio que começa com um sussurro. Nos perguntamos: "É o Senhor ou sou eu?" E as portas vão se abrindo, o caminho vai sendo trilhado e, quando olhamos para trás, percebemos que realmente foi a providência que nos guiou e que esteve sempre ao nosso lado.
A certeza do chamado se forma de sinais pequeninos, ínfimos, que vão se juntando, se esclarecendo, se concretizando. Ao longo de nosso caminho vocacional, ouvimos muitas perguntas: Por que você vai deixar tudo? Por que você vai ser frade franciscano? Por que você vai fazer voto de castidade? De pobreza? De obediência? Por que você está esfregando o chão da capela? Por que você vai ser missionário? A resposta é sempre a mesma: "Por causa do Amor de Deus." Deus é maravilhoso e sempre tem o melhor para cada um de nós. Apaixonado, Deus nos convida a partilhar esta paixão. Sem paixão, a vida não tem o mesmo sabor. Quando Jesus nos disse que somos nós o sal da Terra, creio que Nosso Senhor nos falava sobre sermos inflamados do Espírito Santo de Amor e apaixonados pela vida, pelos irmãos, pela criação. Ele veio para que todos tenham vida, e vida em plenitude. Por isso Ele nos dá a graça da vocação.
Olho para um ícone de São Francisco e penso: "Puxa, São Francisco de Assis também queria ser missionário no Oriente Médio... e hoje, eu estou aqui, no Líbano, ajudando a expandir o Reino de Jesus no mundo e o modo de vida religiosa que o Serafim de Assis aprendeu do próprio Cristo!" A experiência concreta de missão é nascer de novo. Chegamos num lugar onde ninguém nos conhece e onde não conhecemos ninguém. Nossos confrades são acolhedores e bem dispostos. Somos da mesma família. Contudo, não nos conhecemos! Como um filho que foi criado longe, sem conhecer os pais e irmãos e que, de repente, aparece e vem morar na casa. Não há aquela longa vida em comum, os confrades que seguiram a formação junto conosco, que são da mesma turma de noviciado ou que viveram juntos no seminário. Nada disto. A fraternidade precisa ser construída.
Outro desafio é a língua. Nunca tive problemas para me expressar em Português. No Líbano tive que aprender a falar, a ler e a escrever. Isto significa que, no começo, nossa evangelização se fará pelo sorriso e pela boa vontade. Sem palavras, nos restam as obras. Olho estas últimas três linhas que acabo de escrever. -Impossível - Não dá para querer exprimir em um parágrafo o que é ficar um ano tentando se comunicar de forma limitada. Chegar alguém na porta, tocar um telefone e você não poder fazer nada por semanas seguidas. Ler como um gago por meses. Querer ter uma conversa profunda, abrir o coração e dizer mais do que "bom dia, boa tarde, tudo bem" e não poder se expressar porque faltam as palavras. Imagine o que é para um Padre ficar meses sem fazer uma única homilia. Tudo bem, estes desafios nos fazem crescer bastante. O grau de interiorização que isto proporciona é maravilhoso. Há anos que eu não falava tanto com Jesus. Mas pouco tempo depois, já celebrava a Missa, conduzia adorações ao Santíssimo, fazia palestras e pregações com meu francês ainda imperfeito. E fui me virando nesta língua, começando tudo de novo. Em breve estaria de mudança para uma cidade no Vale da Bekaa, onde a população só fala árabe.
A Igreja no Líbano tem suas qualidades e aprendi muito por lá. Primeiro, éramos minoria. Nada de triunfalismos, nenhuma força de pressão. A comunidade latina de todo o país está dividida em nove paróquias. O ordinário do lugar é um Vigário Apostólico. Não há diocese latina no Líbano.
Outro aprendizado foi a vivência do ecumenismo na prática. Em nossas celebrações, menos de cinco por cento dos participantes são católicos latinos. Isto quer dizer que numa Missa com 400 pessoas, 20 são nossos paroquianos e todos os demais pertencem a outras igrejas. Isto influencia nossa liturgia e nosso calendário litúrgico, com datas de festas e estilos de solenidades um pouco diferentes das do Ocidente. A mentalidade oriental, as devoções, a própria realidade religiosa deste povo é tocante. A sociedade é muito menos secularizada. Nas entradas dos prédios, nas esquinas dos centros comerciais, nas casas, encontramos imagens de Nossa Senhora do tamanho daquela que fica no morro do Jardim da Imaculada (Cidade Ocidental-GO).
No plano social, vi um país com cinco milênios de história, onde foi criado o alfabeto, que tinha prosperidade, viver a decadência que provocam 15 anos de guerra civil e mais dez anos de invasão israelense. Outro dia, explodiu uma mega-bomba a quinhentos metros de nosso convento. Um carro com 50kg de explosivos arrebentou uma rua de prédios. Toneladas de vidros cortando as pessoas em suas casas, ferros retorcidos, carros voando pelos ares, lojas pegando fogo, pessoas em choque sangrando pelas ruas. Uma tragédia. Estamos num período eleitoral, época de atentados Este foi o décimo sexto atentado a um político em dois anos. O povo está cansado e sofrido. Em 2005, no verão, assassinaram o primeiro ministro e houve manifestações por todo o país. No verão seguinte, ataque de Israel destruindo pontes, estradas, fábricas. Neste ano, medo de guerra civil e combates em campo de refugiados palestinos. São três anos sem nenhum turista. Hotéis, parques, restaurantes e lojas falindo e fechando as portas. Desemprego crescente, famílias perdendo tudo e os jovens que se formam sentindo-se forçados a emigrar.
No meio de tantas trevas, podemos encontrar focos de luz, de solidariedade, de justiça e de amor. Quando um milhão de pessoas teve de se refugiar das bombas de Israel, muitas escolas se tornaram abrigos e as famílias foram ajudadas por outras comunidades. Nós, franciscanos conventuais, somos chamados a semear a justiça e a esperança nesta terra santa do Líbano, que viu passar Nosso Senhor Jesus Cristo e que tanto implora ao Príncipe da Paz pela Paz que só Ele pode dar. T

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