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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Essência e unicidade da Caridade

Da Ordinatio, do Bem-aventurado João Duns Scotus.
"A Caridade é a virtude pela qual amamos a Deus. Deus poderia ser amado com um amor exclusivo, isto é, de maneira que quem O ama não tenha um co-amante, como acontece com o amor dos ciumentos por suas mulheres. Mas tal atitude não seria nem ordenada nem perfeita.
Não seria ordenada, porque Deus é um bem para todos, e portanto não quer ser exclusivo de ninguém; e ninguém, de acordo com a reta razão, deve apropriar-se desse bem próprio, isto é, sem que possa ser co-amado e usufruído por outro, seria um amor desordenado.
Seria também uma atitude imperfeita, porque quem ama com perfeição quer que os outros amem o ser que ele ama. Por isso, ao infundir na alma a virtude através da qual ela O procura de maneira ordenada e perfeita, Deus infunde também a virtude pela qual Ele se torna amado com um bem comum, isto é, co-amado por outros. Deste modo, essa virtude, que vem de Deus, leva também a desejar que Ele seja querido e amado por outros.
Portanto, assim com essa virtude leva a pessoa a amar a Deus por si mesmo de maneira ordenada e perfeita, da mesma forma a dispõe a desejar que Ele seja amado por ela e por outra pessoa cujo amor lhe agrade.
Disto resulta claro que a virtude da Caridade é única, em primeiro lugar porque não se dirige a muitos destinatários, mas dirige-se somente a Deus, com seu primeiro destinatário e primeiro bem em si mesmo; e em segundo lugar a Caridade leva a querer que Deus seja amado e possuído pelo amor de qualquer pessoa, conforme sua própria capacidade de amar, porque é nisto que consiste seu perfeito e ordenado amor. E querendo isto amo-me a mim e ao próximo pela Caridade, desejando que tanto eu quanto ele amemos e queiramos possuir Deus em si mesmo pelo amor.
E assim se torna evidente que a mesma virtude me leva a amar a Deus e a desejar que Deus seja amado por ti. E este meu amor tem origem na Caridade, porque com isso te desejo o bem que é teu por justiça.
Por conseguinte, o próximo não deve ser considerado como um segundo destinatário totalmente acidental, como alguém que comigo pode co-amar o Amado de maneira perfeita e ordenada. E eu o amo precisamente para que ele seja co-amante. Com isso eu o amo quase acidentalmente, isto é, não por ele mesmo, mas em vista de Deus que desejo que ele também ame. E desejando que Deus seja amado por ele, implicitamente lhe desejo o bem, um bem que é seu por justiça." T
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