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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Autoconhecimento, Retribuição e Dualismo

Por Frei Edson Matias, OFMCap.


Viemos nas últimas reflexões discutindo sobre a importância do autoconhecimento na espiritualidade cristã. Neste momento talvez devêssemos fazer uma parada e nos perguntamos sobre nossa visão de Deus. Como é meu relacionamento com Ele? Onde e como posso dizer que tenho uma intimidade com Deus? Podemos partir de perguntas assim formuladas para analisar nosso modo de “ver” Deus.

Existem na atualidade diferentes espiritualidades – se assim podemos chamar, pois algumas parecem não corresponder a esta denominação – que tem como fundo a retribuição ou uma visão dualista do mundo. E em certas ocasiões estas duas visões são partes de uma só. Mas para compreender trataremos de forma resumida os dois modos de se relacionar com Deus separadamente. Ambas as concepções – dualista e de retribuição – muitas vezes estão enraizadas na nossa experiência cristã desde nossa história familiar e de catequese. Percebendo isto, podemos nos surpreender com nossas atitudes e entrarmos em uma crise. (momento precioso para rever nossa espiritualidade).

A teologia da retribuição foi uma concepção de Deus muito presente no Antigo Testamento. Cumprindo a Lei, o justo, receberá de Deus longevidade e prosperidade. Mas esta teologia logo entrou em crise, pois muitos justos sofriam e não se conseguia uma explicação dentro dessa ótica de retribuição. Em nosso meio ainda está presente esta espiritualidade. Um exemplo que talvez nos ajude a entender é a realização de uma novena. Muitas pessoas a fazem com o propósito de ganhar algo no final, seja uma graça, algo material, etc. E isto é muito comum em nossas comunidades. É como fazer uma barganha com Deus, um comércio, “eu dou isto e ganho aquilo”. Entretanto, um cristão amadurecido vai perceber que o Deus de Jesus Cristo é pura gratuidade e se faço algo, não é esperando algo de volta, mas simplesmente por amor. O cristão na busca de identificação com Cristo nada quer, nada tem, é simplesmente abertura para o outro. Age como age Jesus.

O dualismo é outra concepção que estorva o autoconheciemento. Colocar o diabo – ou os vários nomes que este recebe – como autor dos males de nossas vidas, tira nossa responsabilidade e nossa ação de co-criadores com Deus. Uma visão orgulhosa de si mesmo, não aceitando as próprias finitudes, pode gerar esta imaturidade espiritual perante a vida. O fim dessa postura irrefletida é a revolta contra Deus, pois não assume aquilo que o próprio Deus quis assumir em seu Filho: nossa humanidade.

Tanto a retribuição como o dualismo são visões fruto do egoísmo humano. As duas levam a um ateísmo e uma negação de si mesmo, obscurecendo a vida espiritual e assim o autoconhecimento. Como dizia Santa Tereza D’Avila, a pessoa nem mesmo sabe da existência do castelo (alma) e não entra em si mesma. Fica vagando nos arredores perdida e longe do centro: Cristo. Mesmo rezando e participando da comunidade, tendo uma concepção religiosa assim, a pessoa fica longe da experiência espiritual e cultiva um intimismo na espiritualidade. Vai aos encontros apenas para sentir se bem, quando isto não acontece pensa que tem algo errado consigo, ou que é obra do maligno. Mas na realidade é a própria pessoa que está fabricando para si um religiosidade enganosa e perigosa para si e para a comunidade. Em vez de se tornar cada dia mais humanizadora vai se destanciando de Cristo encarando, negando a si e aos irmãos.

Rever nossa postura pode ser um caminho difícil no inicio mais extremamente libertador. Que Deus nós ajude neste processo. Amém. T
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