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sábado, 16 de julho de 2011

São Boaventura e a Fidelidade à Igreja, por Pe. Paulo Ricardo


Franciscanos em Portugal - "Convento de Orgens ou do Monte Viseu"

Por Irmão Alberto Guimarães, OFS - Portugal


O Carinho dos Franciscanos

"Os frades capuchinhos de Orgens foram sempre um modelo de reforma e humildade, dedicação e virtude, pelo que os povos das terras circunvizinhas e da cidade de Viseu - homens e mulheres, pobres e ricos, velhos e crianças -, todos sem distinção, os adoravam. Eles eram os melhores irmãos, os melhores mestres e os melhores amigos de todos, a bonança, a paz e santelmo* nas grandes crises, a sombra e a voz de Deus ao lado dos moribundos, pelo que todo o ano e a toda a hora, de dia e de noite, muitas vezes debaixo de sol ardentíssimo, outras pisando neve e arrostando com os vendavais, eles, a pedido dos fiéis, caminhavam pressurosos para Viseu no exercício do seu santo ministério, já para confessarem e confortarem os doentes, já para assistirem aos moribundos e agonizantes.  (...)


Toda a cidade de Viseu adorava os humildes franciscanos, pelo que dali eram constantemente chamados para assistirem aos moribundos. Também eram preferidos para assistirem aos justiçados e para os acompanharem até ao patíbulo, como fizeram sempre com a maior dedicação e mais extrema caridade até 1832 e 1833, data das últimas execuções que ensanguentaram Viseu."

* Trata-se de São Pedro Gonçalves Telmo (1190?-1246?), advogado dos navegantes, que a ele acudiam no meio das tempestades. (PINHO LEAL - Portugal Antigo e Moderno, XII, 1890, pp. 1657 e 1543)

A Casa de Orgens subsistiria até 1834, data da extinção das Ordens religiosas. "O edifício conventual e a cerca foram vendidos e depois praticamente demolidos. A igreja passou para a posse da paróquia, que ainda hoje a conserva".

Abusos e Incompreensões

"A freguesia de Orgens ... tem como orago Sant' Ana... A [quinta] do Convento era a cerca do extinto convento de São Francisco do Monte, ou de Orgens. Foi vendida pelo nosso governo e comprou-a, em 1834, Antônio Rodrigues de Loureiro, chamado pelo povo de Antônio Jerônimo, o Pepino, que se tornou célebre pelas questões que teve com os habitantes desta freguesia por causa do convento.

Por vezes tentaram assassiná-lo, pois tendo o governo dado para matriz da paróquia a bela igreja do convento, ele tratou logo de o demolir quase todo; estragou a comunicação interior do convento para a igreja e sacristia, e tentou abrir nova comunicação para a igreja, o que o povo não consentiu por ser o dito homem uma criatura antipática e por estar destruindo bárbaramente o convento, que o povo tanto estimava, como diremos adiante.

O tal comprador destruiu inclusivamente as sepulturas do claustro e a formosa capela do Capítulo, etc... Do venerado convento, fundado em 1408 e que, por consequência, já contava 426 anos, apenas restam algumas celas e parte da cozinha para uso do proprietário e dos seus caseiros. A igreja e a sacristia pertencem à paróquia e estão bem conservadas.


Um dos recantos do convento perdido.
Apenas restam algumas celas e parte da cozinha, para uso do proprietário e dos seus caseiros.

Pormenor da sacristia, com o Crucifixo, painéis e teto pintado.

Um dos painéis da sacristia: São Francisco recebendo o Viático e a Santa Unção antes de morrer.

Desde a sua fundação, este convento foi um modelo de observância, muito estimado e favorecido pelo povo, pelos prelados viseenses e por muitas pessoas nobres, que lhe fizeram grandes doações e mesmo de distância ali foram enterrar-se, como os senhores de Molellos, que ali tinham capela sua, e os Albuquerques da nobilíssima Casa dos Coutos, padroeiros da capela do Capítulo, onde alguns deles jazem.

Tudo profanou o comprador, lançando ao monturo as ossadas de tantas famílias nobres! (...) Na Mata vêem-se ainda várias capelas, hoje todas arruinadas, e um lindo arvoredo novo, porque o antigo foi todo derrotado! É um sítio tão ameno e tão abundante de excelente água, que, ainda hoje, no Verão, muitas pessoas e famílias de Viseu ali vão passar o dia e jantar à sombra do arvoredo, que parece uma miniatura do Buçaco." (PINHO LEAL - Portugal Antigo e Moderno, XII, 1890, pp. 1542-1543).

"mata-frades" e a extinção das Ordens religiosas em Portugal

O liberalismo não esperou a vitória definitiva para começar a perseguir a Igreja. Apenas instalado em Lisboa, o governo de Dom Pedro começou a dar forma legal às disposições mais opressivas, com a aparência de reformas; inspirava-o secretamente a maçonaria, mas não lhe faltou a colaboração do clero.

Por decreto de 31 de Julho de 1833, instituiu-se uma Comissão de Reforma Geral Eclesiástica... Sob os auspícios desta comissão, foram publicados, em 5 de Agosto, quatro decretos que fixavam resoluções anteriores: o 1º declarava rebeldes e traidores os eclesiásticos seculares e regulares que tinham deixado os seus benefícios ou conventos, quando se fez a aclamação do governo da Rainha nas respectivas localidades; o 2º declarou vagos os bispados e quaisquer benefícios eclesiásticos providos por apresentação ou nomeação do governo de D. Miguel; o 3º extinguia, a favor do governo, todos os padroados eclesiásticos; o 4º proibia as admissões a Ordens sacras e a Noviciados monásticos. Em 9 de Agosto, um 5º decreto extinguia os prelados maiores das Ordens militares e monacais e de quaisquer outras corporações que vivessem em comunidade, subordinava os conventos aos Ordinários das dioceses e suprimia as casas religiosas com menos de doze conventuais.
Em 23 de Agosto, dissolvia-se a Comissão de Reforma e restaurava-se a Junta do Exame do Estado Actual e Melhoramento Temporal das Ordens Religiosas, extinta por Dom Miguel. Para esta Junta passaram todos os membros da Comissão anterior, e agregaram-se-lhe mais cinco eclesiásticos. Tinha ela por fim que executar os decretos de 5 e 9 de Agosto, mas, em provisão de 19 de Outubro de 1833, conferia-se-lhe também o poder de dispor dos benefícios eclesiásticos, pois era ela quem examinava e classificava os candidatos. Coadjuvado pela Junta, o liberalismo prosseguiu implacàvelmente a sua obra, arruinando em sucessivos diplomas as instituições e a disciplina da Igreja.

O decreto de 30 de Maio de 1834, referendado pelo ministro da Justiça, Joaquim Antônio de Aguiar, veio coroar essa obra com a extinção de "todos os conventos, mosteiros, hospícios e quaisquer casas de religiosos das ordens regulares" e com a incorporação dos seus bens "nos próprios da Fazenda Nacional". Concluída a sua triste missão, a Junta de Exame foi extinta por decreto de 10 de Outubro de 1834.

As disposições mais odiosas foram tomadas em plena guerra civil, mas a fúria liberal não abrandou com o triunfo. Executaram-se os decretos, perseguiu-se o clero, destruíram-se e profanaram-se templos. Nada lucrou o Estado com a espoliação da Igreja. Os bens eclesiásticos, vendidos a particulares habilitados com títulos de aquisição concedidos graciosamente, serviram em grande parte para satisfazer a simples cobiça de clientelas partidárias. E transferiu-se para o Estado o encargo de muitas obras de ensino e assistência, a que a Igreja anteriormente provia". (MIGUEL DE OLIVEIRA - História Eclesiástica de Portugal, 1958, pp. 350-352.)

Concluindo...

Acaba mal a história de Orgens. Como mal acaba a história de tantos edifícios levantados pela Igreja em benefício dela própria - Igreja - ou dos mais pobres. Acabam muitas vezes ou quase sempre nas mãos dos ricos ou do Poder! Santa Maria do Bouro, Serra do Pilar, Tibães, Pombeiro, Ferreirim, São João de Tarouca, Roriz..., um nunca mais acabar! Nunca mais aprendemos! T
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