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quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O "realismo" da serenidade do fundo das coisas

O que é a-létheia aparece de um modo muito bem ponderado na descrição feita por Martin Heidegger da obra de van Gogh, na qual o artista holandês pinta os sapatos da camponesa. Nessa obra o que na palavra a-létheia se refere à létheia ou léthe, isto é, o cultamento, retraimento é denominado de Terra. [1] O que na descrição do quadro de van Gogh se chama Terra é a pátria, a matriz do mito, que em grego-se diz com o termo mythos [2], cuja raiz significa toar, soar. 

Assim sendo, mythos não poderia ser a ressonância do assentamento do mundo na confiabilidade da Terra que aparece digamos onticamente nos afazeres e nas vicissitudes dos homens, de imediato, na maioria dos casos como anônima e silenciosa ocorrência de todos os dias? Seria o “realismo” bem “seguro” da serenidade do fundo de todas as coisas? Não seria, pois, a positividade da gratidão e gratuidade de ser, sob cuja tenaz e resistente pele, se oculta a finura e a sensibilidade da tênue vibração de uma dynamis que irriga todas as coisas na sua raiz, protege e conserva o sopro de Vida do Uni-verso?

Isto significa: a opacidade da nossa existência cotidiana, na qual se dá a fenda da criatividade, não é asfixia, decadência, ou modus deficiente da beleza, da originariedade ou da vivência do carisma criativa. É, pois, tênue superfície da imensidão, profundidade e simplicidade da jazida bem assentada no abismo inesgotável da presença do ser, a se desvelar e se ocultar, através da aberta e na clareira do Da-sein, onde toda e qualquer estruturação do ser como mundo é enraizada e entregue à insondável confiabilidade do mistério [3] de ser, isto é, do em-casa (= Ethos) da morada abissal da possibilidade inesgotável de ser. T

Continua... 

[1] Cf.: Para o maior aprofundamento do nosso tema, Heidegger, Martin, in:Holzwege: Der Ursprung der Kunstwerkes (A origem da obra de Arte) pp. 7-68; Vittorio Klostermann, Frankfurt a. M., 1950.
[2] Mythos, Ömü- toar, soar
[3] Mistério em alemão se diz Ge-heimnis. Ge indica densidade, ajuntamento. Heim, o lar, o ser em casa. 
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