frei Almir R. Guimarães,OFM
Reflexões em torno do tema da Oração
Vamos conversar sobre o tema da oração. Devemos acrescentar imediatamente duas passagens luminosíssimas de Francisco de Assis: “Os irmãos se esforcem, antes de tudo, em desejar o espírito do Senhor e seu santo modo de operar, rezar sempre a ele com o coração puro” (Regra Bulada, 10). “Aqueles irmãos aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem fiel e devotamente, de modo que, afastado o ócio que é inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e devoção” (Regra Bulada, n. 5).
Somos eternos noviços no tema da oração. Esta faz parte do dia-a-dia de todos os sinceros e honestos buscadores de Deus. Nunca descansaremos naquilo que já conseguimos. Há momentos em que temos uma imensa saudade do Senhor. Um versículo de salmo, uma palavra da Escritura despertam em nós o desejo de buscar as estrelas, o anseio da união com o Senhor, como a esposa busca seu Esposo. Tudo está feito e tudo precisa ser refeito. Não podemos fracassar em nossa vida de oração, porque, segundo Francisco tudo está submetido a ela. Será que isso é verdade para todos nós?
Costuma-se dizer que nossos contemporâneos buscam a oração, ou ao menos, uma oração menos mecânica e formal do que aquela que caracterizou outros tempos. Temos medo da palavra Escritura: Esse povo me honra com os lábios mas seu coração está longe de mim. São incontáveis, na verdade, os grupos de oração que existem em toda parte. Olhamos com simpatia, por exemplo, as Oficinas de Oração de frei Inácio Larañaga e tantos círculos bíblicos que são células de oração e meditação. Muitos movimentos da Igreja em nossos dias levam as pessoas a redescobrirem a oração e há famílias que rezam belamente na Igreja doméstica. Certas liturgias soturnas foram sendo substituídas por outras mais belas. Nossas celebrações eucarísticas foram se revestindo de um caráter festivo, alegre, infelizmente, por vezes um tanto estridente, sufocador e barulhento. Muitas modalidades de oração parecem buscar o emocional, exploram os sentidos e nós, frades, nem sempre nos sentimos bem.
Nesse contexto valeria a pena meditar em certas passagens de São Cipriano (séc. III), em seu Tratado sobre a Oração do Senhor:
“Haja ordem na palavra e na súplica dos que oram tranqüilos e respeitosos. Pensemos estar na presença de Deus. Sejam agradáveis aos olhos divinos a posição do corpo e a moderação da voz. Porque se é próprio do irreverente soltar a voz em altos brados, convém ao respeitoso orar com modéstia. Por fim, ensinando-nos, ordenou o Senhor orarmos em segredo, em lugares apartados e escondidos, até nos quartos, no que auxilia a fé, por sabermos estar Deus presente em toda parte, ouvir e ver a todos e na plenitude de sua majestade penetrar até no mais oculto . (...) Quando nos reunimos com os irmãos e celebramos com o sacerdote de Deus o sacrifício divino, temos de estar atentos à reverência e à disciplina devidas. Não devemos espalhar a esmo nossas preces com palavras desordenadas, nem lançar a Deus com tumultuoso palavrório os pedidos que deveriam ser apresentados com submissão, porque Deus não escuta as palavras e sim o coração” ( Liturgia das Horas, III, p. 314-315).
Há os que, experimentando dificuldade na arte da oração, preferem dizer que toda a sua vida é oração. Notamos ainda hoje, de modo particular no Ofício Divino, por vezes, uma recitação mecânica e ritualística, sem alma, sem o interior. Nem sempre nos lembramos das palavras de Francisco: “E embora eu seja simples e enfermo, quero, no entanto, ter sempre um clérigo que reze para mim o ofício, como consta da Regra” (Testamento 29). Pode ser que alguns tenhamos praticamente abandonado a recitação do Ofício. Há, quem sabe, os que abandonaram definitivamente a oração por entraram no processo de perda da fé. Há os que dizem, com razão, que em nossas comunidades franciscanas e paroquiais, há um empenho na busca de qualidade da oração em comum. Talvez sem muita interioridade e com pouco silêncio.
É possível que, durante um período mais ou menos longo, por diferentes razões, alguns de nós tenhamos deixado de lado a meditação. Nossa oração se limitou à celebração ou participação da missa. De outro lado, religiosos e leigos, vivendo em ambientes de carência não cessam de confessar que cuidando dos sem-terra e sem- teto, dos doentes nos hospitais e dos leprosos de nossos tempos, encontram neles o Cristo e fizeram de seu trabalho uma oração. Fato é que, mesmo com luzes, conhecemos todos sombras no campo da oração. A bem da verdade se deve dizer que muitas de nossas fraternidades têm uma vida de oração comunitária bem balanceada. Talvez nos falte a busca do contacto íntimo com o Senhor; quem sabe perdemos o esforço da disciplina da meditação e o gosto pela leitura espiritual. Abrimos os livros de oração para preparar coisas para os outros. Não temos gosto pelo ensinamento dos mestres de oração de nossa família franciscana e dos Padres. Pode ser que jovens irmãos, depois da profissão solene, não tenham atinado para a importância da oração. Foram perdendo aos poucos o gosto de voar para as alturas... T
Continua...
