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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ser como clareira* no ponto-núcleo da criação (Sentir e Pensar 6)

*Clareira é uma tradução bastante defasada da palavra alemã Lichtung. É o que se quer dizer com a palavra a aberta. Aqui na Lichtung a palavra Licht significa luz. Mas também conota leicht, isto é, leve.

Usualmente, quando usamos a palavra criar, pensamos na efetivação, produção, causação ou fabricação. Criar é efetivar, produzir, causar ou fabricar. Nesse sentido a criação (...) seria produção das obras (...). Estas, porém, como viemos refletindo, têm um quê todo próprio que as diferencia de outros tipos de produção fabril. Tentamos caracterizar esse quê diferente, dizendo que uma obra (...) é como uma fenda, como uma aberta que nos conduz para dentro de toda uma nova paisagem, até então nunca vista. Ou formulando-se de modo um pouco diferente, uma obra (...) é uma fenda, a partir e através da qual eclode todo um mundo de estruturações da possibilidade humana. O que aqui denominamos possibilidade humana é o que anteriormente expressamos como ser-no-mundo ou existência, ou Da-sein. Dasein é a interioridade do Homem, donde vem à luz, vem à fala obra que desvela toda uma nova paisagem da possibilidade de ser. Usualmente interpretamos essa interioridade como um núcleo, dentro do homem, como sujeito e agente da ação de produzir a coisa chamada, obra. E perguntamos: e esse sujeito homem, quando faz a ação de produzir o objeto ‘obra’, donde tira a ‘inspiração’?

Há algo ‘anterior’ a esse sujeito-homem que o toca, o move para ação criadora? Se aqui respondermos que há um outro anterior que inspira o sujeito-homem para a produção, a pergunta agora passa a ser aplicada a esse algo ou alguém que toca e move o sujeito-homem: quem move aquele que move o sujeito-homem? Desencadeia-se um regresso para o sujeito e agente cada vez “mais anterior”, a perder-se na repetição interminável de pergunta. Todo esse regresso só é possível, porque entendemos o Da-sein ou o Ser-no-mundo sempre ainda como sujeito-quê, isto é, algo, objeto, coisa chamado homem. Esse impasse no fundo é algo parecido com o movimento das rodas de uma locomotiva antiga que ao puxar numa subida os vagões pesados não dá conta do recado e fica a marcar passo, girando vazio, parado num mesmo lugar. É para evitar esse tipo de impasse, no qual sempre de novo ficamos girando vazio no esquema fixo sujeito-ato-objeto, que tentamos nas nossas reflexões repetir à saciedade a recondução ou a redução do modo de ser e pensar “empírico”, “ôntico” ou “positivista” ao “transcendental”, ao “ontológico”, ao “filosófico”, portanto, o homem ao seu fundo dinâmico, ao Da-sein. Esse fundo é sem fundo no sentido de não haver nada de algo, nada de objeto, nada de coisa, portanto nada de sujeito em si, anterior. O que se dá aqui no Da-sein é apenas o ser do Da. Para, de algum modo ‘ver’ como é esse ponto nevrálgico do caráter “criativo” da estrutura Da, usemos um conceito tirado da doutrina da Criação do universo na mundividência medieval cristã.

E assim, a nossa reflexão começa a ter afinidade com outras reflexões que buscam o ser da alma em Eckhardt. O conceito é aseidade e se refere à anterioridade de todas as coisas criadas. Como a aseidade é exclusivamente só atribuida ao Ente Supremo, Deus, corremos o risco de fazer uso inteiramente inadequado desse conceito medieval, se o usarmos para se referir ao ser do Homem que na mundividência medieval é denominado de ente finito. O nosso interesse aqui, porém, é apenas o de tentar à mão do conceito da aseidade ilustrar de que se trata, quando dizemos que o ser do Homem é Dasein, e colocamos o Da-sein como o ponto de salto do surgimento do mundo. T

Continua...
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