frei Almir R. Guimarães, OFM
Uma das marcas do carisma é o fato de nos termos como irmãos e irmãs, entre nós e com todos. O fraternismo é a conseqüência mais imediata da experiência de Deus como único Pai e Mãe de todas as criaturas. São claras a nós, talvez mais do que poderiam ter sido a Francisco, as graves conseqüências para nossa própria Casa comum e para o próprio ser humano, do que poderia ser chamado de antropolatria, o culto e a celebração do homem por si mesmo. Dotado das poderosas armas de seu espírito, o ser humano, há séculos, comporta-se no mundo como se fora seu próprio e único senhor, à serventia do qual, tudo, literalmente tudo, deve estar disponível. Os desastres deste modelo já não são, hoje, apenas pressentimentos e prognósticos. Eles vitimam não apenas outros seres criados, mas voltam-se sobre o próprio ser humano. Francisco aparece como aquele que compreendeu que a única forma possível de vivermos humanamente é vivermos fraternalmente.
Esta proximidade junto aos seres humanos, tão própria de nossa família franciscana, se traduz nessa sintonia com o coração do mundo e dos homens, pela qual nos colocaríamos em condições de captar afetiva, analítica e praticamente os reais apelos das verdadeiras necessidades de um mundo e de pessoas reais.
Os franciscanos sabem improvisar. Não desconhecemos a necessidade de analisar, de prever, de programar. Sempre foi próprio dos irmãos e das irmãs de Francisco e Clara a flexibilidade, a imediatez e a improvisação criativa no socorro à vida. Quaisquer que sejam nossos empreendimentos, jamais podem abafar ou substituir nossa proximidade com as pessoas, com o povo, e absorver os irmãos e irmãs na sua operacionalidade. Empreendimentos não substituem o ser fraterno e a fraternidade, antes existe para viabilizá-lo.
Os franciscanos se aproximam de vidas mais fragilizadas. O encontro de Francisco com os leprosos divide a vida em um antes e um depois. Francisco cuida desses seres como se fossem o corpo de Cristo. Volta-se com reverência e cortesia para as criaturas mais insignificantes. Alegra-se por tê-las tão perto e poder protegê-las. Experimenta a alegria e a dor dos seres todos. "Cuidando dos rejeitados do mundo, Francisco começava a ascender à genuína nobreza que buscava, que seria descoberta não nas armas, ou em títulos e batalhas, glórias ou desafios. A honra não estaria na companhia dos mais fortes, dos mais atraentes, dos mais bem vestidos ou mais seguros na sociedade, mas entre os mais fracos, os mais desfigurados, os que estavam marginalizados, dependentes e desprezados " (Donald Spoto, Francisco de Assis. O Santo relutante, p. 104).
Francisco abdica a todo poder, prestígio, ambições para escolher o caminho que desce socialmente. Sai de Assis e vai para a periferia, em sinal de seu desacordo com o sistema e em resposta ao amor do Filho de Deus que se esvazia de sua divindade para tornar-se pobre, servidor dos humildes e morrendo na cruz, fora da cidade.Os franciscanos se sentem bem entre os humildes. Alegram-se ao encontrarem pessoas insignificantes e desprezadas, entre pobres, fracos, enfermos, leprosos e os que mendigam pela rua. Aproximam-se das criaturas com um olhar não possessivo, por isso elas se lhes revelam como irmãs e aliadas. Os franciscanos criam laços afetivos e não meramente ideológicos. T
Continua...


