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quarta-feira, 28 de abril de 2010

28 de Abril - Memória dos Proto-Irmãos Penitentes

Tríptico de imagens pertencente à Igreja dos Terceiros, da Fraternidade Franciscana Secular de Braga, representando São Francisco a outorgar a São Luquésio e Santa Buonadonna a Regra da Ordem Terceira da Penitência, como então era chamada, aprovada pelo Papa Nicolau IV em 1221. Este conjunto foi fotografado em 1990 no Convento de Montariol, da Ordem dos Frades Menores, durante a exposição comemorativa do Centenário do Colégio das Missões Franciscanas, que ali funcionou durante quase um século. As imagens conservam-se numa vitrina da sacristia da Igreja dos Terceiros e saíam numa Procissão chamada "das Cinzas", que tinha lugar no 1º Domingo da Quaresma. A última dessas procissões teria saído nos inícios do século XX.

Segundo o calendário litúrgico português, hoje é permitida para toda a Ordem Terceira (depreendendo que extensiva aos dois ramos, secular e regular), a memória facultativa do Beato Luquésio que, com sua esposa Buonadonna, se teriam tornado, segundo a tradição, nos primeiros irmãos terceiros penitentes. Pelo menos foram os primeiros a serem beatificados. Inocêncio XII, em 1694, reconheceu as suas virtudes e autorizou o seu culto.  Consultada alguma literatura, constatei que em outros países a memória do casal se comemora conjuntamente, uma vez que o seu nascimento para a eternidade, isto é, a morte dos dois, se teria processado com o espaço de poucas horas um do outro, no dia 26 de Abril de 1260.

Resumindo a vida de Luquésio: Este teria nascido em Gaggiano, no ano de 1181, sendo, portanto, da mesma idade de S. Francisco. Como ele participou, pelo partido do Papa (Guelfos) em campanhas militares e lutas políticas. Retirou-se depois para Poggibonsi (Siena), onde se estabeleceu como comerciante e assim conseguiu recuperar o dinheiro perdido na guerra e na política. Porém, os seus negócios nem sempre primavam pela honestidade, e Buonadonna, a quem entretanto desposara, senhora piedosa e temente, sentia-se infeliz com toda aquela opulência que lhe soava a falso. Por ali passou São Francisco, a pregar, e o seu exemplo arrastou multidões, de tal modo que muitos estavam dispostos a distribuir os seus bens e das famílias, tal como o próprio santo fizera, e seguir aquela vida de itinerância apostólica e, quem sabe, de martírio. São Francisco já tinha os seus frades, homens que reuniam as condições necessárias para aquele estilo de vida. Clara estava também disposta a segui-lo, pensando talvez nas santas mulheres que também integravam o séquito de Jesus. Mas não era isso que Francisco queria: aceitou-a, mas criou a Segunda Ordem, a Ordem das Senhoras Pobres, e pô-las em clausura, em oração e trabalho silencioso.
E a multidão anônima de casais, de pessoas bem colocadas na sociedade, de muitos que tinham as suas terras, os seus negócios, os seus filhos muitas vezes por criar, ainda?

Homem verdadeiramente inspirado por Deus, Francisco criou uma terceira Ordem: a Ordem dos Penitentes, mais conhecida por Ordem Terceira, por ter sido a terceira a ser criada, e que serviu de modelo a outras Ordens Terceiras de outras famílias religiosas. É possível que com Luquésio e Buonadonna muitos outros penitentes tivessem recebido o hábito. Reza a tradição, oral e escrita, que Luquésio, homem inicialmente desonesto e avarento, tocado por S. Francisco e apoiado por sua esposa, se foi tornando mais liberal e piedoso. Fez uma verdadeira penitência, um volte-face na sua vida. Infelizmente, mesmo na formação de irmãos franciscanos seculares, não se fala muito deste casal de proto-irmãos seculares. Algumas Fraternidades mais antigas conservam imagens suas, geralmente de roca, e que eram destinadas a procissões penitenciais, onde figuravam outros vultos da OFS que hoje estão nos altares. A primeira vez que soube da existência deste casal de Bem-aventurados foi em 1968, durante a grandiosa Procissão dos Terceiros, que se realiza em Ovar no 2º Domingo da Quaresma:




Aqui aportuguesaram-lhe os nomes para São Lúcio e Santa Bona, e o andor é conhecido como o dos "Bem-Casados". É a piedade popular! Realizam-se outras poucas procissões penitenciais com imagens de santos franciscanos, em algumas outras localidades, ainda que não seja a Ordem Franciscana Secular a organizá-las. Outras (caso de Braga e de Vila do Conde) deixaram de se realizar devido à verba necessária para a sua realização. Para terminar: Que este casal de Bem-Aventurados, proto-irmãos ou não, interceda para que a mensagem franciscana toque os casais e os lares sejam imbuídos do estilo de vida que o Seráfico Pai nos deixou para exemplo! T

A Oração diante do Crucifixo de São Damião (Comentário II - 2ª parte)

O pobrezinho de Assis ao rezar “iluminai as trevas do meu coração”, reconhece ser ele um mísero verme, repleto de trevas; reconhece ser pecador e se apresenta diante de Deus, como fez Moisés na sarça ardente, com o rosto coberto, sinal de reconhecimento de suas próprias fragilidades. Aqui, “trevas” reportam à condição existencial humana, ou seja, à condição de infiéis e pecadores, repletos de fraquezas e obscuridades. Entendemos, porém, que tais termos, empregados aqui, para compreender o significado de trevas deve estar completamente livre de ‘pré-conceitos’. Quando Francisco usa “trevas do meu coração” simplesmente ele assume diante de Deus, o Sumo Bem que, enquanto vivente – existente na terra, seu coração está ainda na escuridão, e que é o próprio Senhor quem pode iluminar seu coração. É o próprio Senhor quem pode iluminar a sua condição existencial. Destarte, pedir que Deus ilumine as trevas do seu coração é reconhecer que o Senhor é a luz de sua vida, uma vez que enquanto seres humanos a nossa condição existencial está impossibilitada de clarividenciar as mazelas humanas, isto é, as trevas de nossa alma!

Francisco de Assis após pedir a Luz Divina sobre a sua existência continua pedindo que o Senhor possa conceder-lhe as três virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Numa das audiências que o papa Bento XVI concedeu, ele afirmou que “a fé, a esperança e a caridade são como três estrelas que se acendem no céu da nossa vida espiritual para nos guiarem rumo a Deus”. E justamente, é dentro deste sentido que o Homem de Assis rezou a Deus; no entanto, Francisco acrescentou junto a estas três virtudes, mais três qualidades – adjetivos; como podemos perceber: “dá-me fé reta, esperança certa e caridade perfeita”. Na época de Francisco a Europa estava repleta de homens e mulheres sedentos por viver os mandamentos de Deus, porém, nem todos conseguiam permanecer retamente nos princípios cristãos e que, por isso, acabavam por cair em heresias. Diferentemente a isto, Francisco pede ao Senhor que lhe dê uma fé reta, sem mais nem menos; reto aqui deve ser entendido como sendo o equilíbrio, o ponto do meio. Francisco, também, pede ao Altíssimo que lhe conceda uma esperança certa, uma esperança que possa partir do coração de Deus, uma esperança divina. Do mesmo modo, o Homem de Assis roga ao Glorioso Deus para que tenha uma caridade perfeita, aqui perfeita, do italiano perffeta, significa ‘per-fazer’, fazer com empenho. Então, para Francisco uma fé reta, esperança certa e caridade perfeita, só é possível pela ação divina em nós.

O Poverello ainda pede a Deus “senso e conhecimento”. Senso pode ser entendido como Juízo claro, equilíbrio, ponderação, prudência, senso crítico, ou ainda, tino. Todos esses sinônimos abordam a concepção de sensibilidade para com o que me circunda. Pedir a Deus senso é pedir o equilíbrio para sua vida, é colocar-se na rotação do amor. Junto com senso, Francisco pede conhecimento; conhecimento entendido não como um conhecer científico, mas sim um conhecer no âmbito do saber, que tem a ver com sabor, tomar gosto por algo. Conhecimento, do verbo conhecer, no italiano cognoscere diz respeito a um nascer com, um vir a ser junto a algo, ou seja, um nascer com sabor de algo. Para Francisco senso e conhecimento andam juntos, no cotidiano da vida o ser humano necessita ter sempre um equilíbrio – senso – e um conhecimento veraz – um nascer de junto das coisas com eqüidade, ao que para o Poverello é o Senhor quem possibilita vivemos em senso e conhecimento.

O Seráfico Pai Francisco, ao receber o mandato, a missão do Senhor: “Vai e reconstrói a minha casa”; reza esta oração diante do Crucifixo nas ruínas da igrejinha de São Damião, que fica fora dos muros da cidade de Assis, e pede a iluminação divina, a fé reta, a esperança certa, a caridade perfeita, o senso e o conhecimento, tudo isso, “para que possa fazer o santo e veraz mandamento!"

Fica aqui o desafio de nós, nos dias atuais, em meio a tanta complexidade em que vivemos, fazer como Francisco: pedir a Deus, através desta simples oração. Assim, poderemos como ele, reconstruir a casa do Senhor que está em ruínas. T
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