quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Especial: A "Grande Quaresma"
Neste início de Quaresma o Reflexões Franciscanas traz um especial sobre este Tempo Litúrgico tão rico para todos nós, filhos da Santa Igreja e também tão caro para nós Franciscanos.
Este dia e a sexta-feira santa são os únicos em que é pedido a todos os adultos que jejuem (isto é, que renunciem a uma das refeições importantes do dia) em sinal de disponibilidade e solidariedade. Dispobilidade à escuta de Deus, demonstrando dar mais valor à sua palavra que ao bem-estar imediato, sinal de conversão do coração; isto é o que significa o jejum dos cristãos, como o do Mestre no início de sua missão. Um jejum mais sensível neste dia, mas que se prolongará por todo o tempo da Quaresma, com outras iniciativas pessoais de desapego, renúncia às comodidades e satisfações mesmo legítimas, para maior liberdade interior. Assim o jejum ritual, feito com interioridade e não com mero formalismo, se torna sinal da fé e caminho de salvação para todo o nosso ser.
Por outro lado, sofrendo um pouco de privação, saibamos unir-nos de algum modo aos homens para os quais é habitual a privação de alimento, de meios econômicos, de bens culturais e de possibilidades concretas de desenvolvimento; o jejum se torna um gesto simbólico, denúncia profética da injustiça que nasce do egoísmo, solidariedade com os mais pobres. Assim, a preparação para a Páscoa se torna "Campanha da Fraternidade", e a ceia do Senhor um gesto de pobreza, contrição, esperança e anúncio. Quem participa seriamente da paixão do Senhor, ainda hoje viva nos pobres da terra, sabe que a volta do Pai (tanto a sua como a da comunidade) já começou e que, na mortificação da carne pode florescer o Espírito da ressurreição e da vida.A "Grande Quaresma" na vida de
São Francisco de Assis
Em seu ardente desejo de conformar-se a Cristo e com a intenção de reviver os mistérios que desfilam ao longo do ano litúrgico, "desde a Encarnação e Natividade até a Ascensão, o dia de Pentecostes e a expectação da feliz esperança e da vinda do Senhor", São Francisco não se contentou em viver a "Grande" Quaresma ou da "Redenção", em preparação para a Páscoa, nem mesmo se limitou à quaresma do Advento ou da Encarnação, em preparação para o Natal, mas com o mesmo espírito de compromisso e com o mesmo método quis viver outras quaresmas. Tanto essas duas quaresmas mais importantes como as outras Francisco passava-as em jejum e oração, distanciando-se do mundo, a sós com Deus, em ardente desejo de contínua conversão.A "Grande Quaresma", consagrada pelas leis da Santa Mãe Igreja, que a instituíra para oferecer possibilidade a seus filhos que participassem da suprema ação salvífica de Cristo, ou seja, de sua paixão, morte e ressurreição (=>Santo Sacrifício Eucarístico=>Missa), era para Francisco a "Quaresma das quaresmas", período em que queria, com maior empenho possível, responder ao amor do Filho de Deus que "ama até o fim" (Jo 13,1). O episódio a seguir, descrito com vivacidade poética, nos mostra o tipo de vida que levava o serafim penitente durante esta quaresma. Se irrepetível era seu modo de orar e de mortificar-se, é possível, no entanto, imitar-lhe o esforço de conformidade com Cristo e a atitude de minoridade com a qual distanciava de si toda presunção e vanglória.
"São Francisco estava no território de Perusa, perto de um lago, num dia de Carnaval, como hóspede de um homem devoto seu. Ao qual pediu, por amor de Cristo, que o levasse para uma ilha do mesmo lago onde não havia habitante, e o fizesse à noite, antes do dia das Cinzas, de modo que ninguém o soubesse. O hospedeiro, então, por causa da grande devoção que nutria por São Francisco, tudo realizou com a maior aplicação: levantou-se de noite, preparou o barco e, na madrugada do dia das Cinzas, levou São Francisco para a ilha supradita. São Francisco, porém, não levou nada consigo para comer senão dois pequenos pães.
Ao desembarcar na ilha, rogou ao barqueiro que nada disso se espalhasse e que o fosse buscar somente na Quinta-feira Santa. O barqueiro retirou-se da ilha e São Francisco ficou sozinho. Na ilha não havia nenhuma habitação onde pudesse reclinar sua cabeça. Assim, entrou num matagal cerrado onde os espinheiros haviam formado um abrigo. Meteu-se ali dentro e ali ficou sem sair por toda a Quaresma, sem comer nem beber.O hospedeiro, então, buscou o Bem-aventurado Francisco na Quinta-feira Santa, conforme o seu pedido e descobriu que, dos dois pãezinhos, fora a metade de um, nada mais havia sido tocado. Acredita-se que São Francisco comeu aquela metade para reservar a Cristo bendito, a glória do jejum quaresmal e para expelir o veneno da vanglória com aquele pouco de pão. Assim, a exemplo de Cristo, jejuou quarenta dias e quarenta noites." (Atos 6,3-10).
Depois de tê-la assim vivido, o seráfico Poverello pede a todos os seus frades menores, na força caritativa da obediência, que a observem também eles inviolavelmente. Primeiramente na Regra não bulada e depois na Regra bulada determinou que jejuassem "da Santa Quaresma até a Ressurreição do Senhor". Desta maneira, o santo fundador se propunha a convencer seus filhos espirituais da exigência de uma total conformidade a Cristo que sofre e levá-los a viver intensamente a disciplina penitencial da Igreja. T