Um homem debruçado sobre o órgão. Todo o seu ser é concentração. Ele é todo ouvido. Todo o vigor de sua concentração se recolhe para a ausculta. Esta ausculta é interioridade. Não por estar dentro do sujeito-organista, mas sim, porque a existência do artista consiste em ser a concentração do recolhimento como pura abertura da espera. O ser do organista é estar-alí inteiriço como espaço-plenitude de ressonância, como o campo da sensibilidade livre para o apelo do invisível, inaudível e inconcebível. Esse modo de ser ressoante é interioridade. A essência de Bach é um dom que cai no medium (meio) do silêncio da espera e toa, fazendo ressoar a música do organista. Não é mais o organista que toca. É Bach que entoa o organista. O organista não faz outra coisa do que seguir o fio da entoada, se deixa e-vocar, carregar pela presença do apelo que conduz. A evocação do apelo que se chama "fuga", de Bach, exige um estrito seguimento, total abertura na gratuidade, para que der e vier. Mas em cada passo, sempre na surpresa e no frescor da nascividade, o artista recebe a graça da medida certa. A "fuga" é articulação, ordenação, retomada do recolhimento, do envolvimento, do evento que é a graça da música, assim como acontece com a vocação para qual cada um foi [e é] chamado. T*Imagem: Pianista e Organista francês Pierre Pincemaille.