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Recesso

Caros leitores, o Reflexões Franciscanas entra em recesso por algumas semanas. Como de costume, algumas publicações foram programadas e notícias urgentes podem ser postadas a qualquer momento. As Homilias aos Domingos e o Santoral diário, bem como os "Ditos do Papa Francisco" continuarão sendo atualizados diariamente.
T

domingo, 19 de outubro de 2014

Homilia do 29º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



César não é Deus

“Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”: essa frase de Nosso Senhor, aparentemente simples, mudou toda a história da humanidade. Desde os primeiros mártires da fé católica até os difíceis dias de hoje, em que o Estado continua tentando subverter o poder divino, o Evangelho recorda que “é preciso obedecer antes a Deus que aos homens”. T





quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Nomeação de Bispo Franciscano: Bispo de Tortona, Itália


É uma nomeação significativa para a Igreja na Itália. Acolhendo a renúncia apresentada em 2013 pelo Bispo Martino Canessa, o Papa Francisco designou um novo pastor da Diocese de Tortona, o Frei Vittorio Viola, OFM, que há poucas semanas havia retornado para os serviços custodiais da Porciúncula, deixando o encargo de diretor da Cáritas de Assis.

Nascido em 4 de Outubro de 1965 em Biella, Frei Vittorio  ingressou na Ordem dos Frades Menores em 1985 e deu seguimento à sua formação na fraternidade franciscana até a profissão solene dos votos, feita em 1991. Depois da ordenação sacerdotal, em 1993, aprofundou os estudos até ser laureado em Liturgia, em 2000. Neste tempo, desempenhou diversos encargos na Ordem Franciscana, na Província, na Igreja e na universidade teológica, ensinando Liturgia. 

Frei Viola foi empossado oficialmente no dia 7 de Setembro, como Guardião da comunidade de Santa Maria dos Anjos, deixando a da Basílica de Santa Clara e o encargo de responsável pelo ofício diocesano da Cáritas de Assis. Como dito, na igreja de Santa Maria dos Anjos era Custódio do lugar mais caro a São Francisco de Assis, a pequena capela da Porciúncula. Em Outubro de 2013, Frei Viola havia acolhido o Papa Bergoglio à mesa da Cáritas, para o almoço com os pobres.

A Diocese de Tortona, que faz parte da Província eclesiástica de Gênova, é formada por 314 paróquias, distribuídas em suas 152 comunidades e deslocadas nas três Províncias de Alexandria, Pávia e Gênova. T


Trad. Adapt.: Cleiton Robsonn.



domingo, 12 de outubro de 2014

Homilia da Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, por Pe. Paulo Ricardo




Maria, medianeira de todas as graças

Neste Domingo, celebra-se, no Brasil, a Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Todas as leituras apresentam o mistério da intercessão de Maria Santíssima, culminando com o Evangelho, que narra o milagre das bodas de Caná.

No começo desta reflexão, é importante destacar que, quando se fala da mediação de Nossa Senhora, não se fala da mesma coisa que fazem os santos, quando intercedem. A intervenção de Maria possui uma peculiaridade, que está ligada ao seu papel único na obra da salvação. Desde o início, a Igreja tem consciência de que, embora seja um só o redentor do gênero humano, Jesus Cristo, essa redenção se operou com a colaboração direta da Virgem Santíssima. É por isso que, assim como São Paulo chama Jesus de “novo Adão” [1], a Igreja – por meio de padres como São Justino, Santo Inácio, Santo Irineu, Tertuliano etc. – nunca hesitou chamar Maria de “nova Eva”, pois, assim como um anjo visitou uma virgem, no Gênesis, para perder a humanidade, outro anjo visitou outra virgem, na plenitude dos tempos, para salvá-la.

Por isso, pode-se chamar Maria de “corredentora”. Assim como um fruto, ao mesmo tempo que vem de Deus, vem da árvore de que foi colhida, a redenção dos homens foi feita por Nosso Senhor, mas também por intervenção de Maria, que gerou a humanidade de Cristo.

É possível considerar a redenção sob dois aspectos: objetiva e subjetivamente. Objetivamente, Cristo morreu e derramou o Seu sangue por todos os homens, para que todos fossem salvos. Subjetivamente, como “o cálice da salvação humana (...), se não for bebido, não cura” [2], nem todos os homens de fato se salvam, não por um defeito do resgate operado por Jesus, mas pelo mau uso da liberdade humana. Na redenção objetivamente considerada, Maria Santíssima age como “corredentora”, pois, estando aos pés da Cruz, entrega o seu Filho pela salvação humana; e, subjetivamente falando, age como “medianeira de todas as graças”, já que, assim como gerou Cristo uma vez em seu ventre, é ela quem O gera para sempre nas almas. Como medianeira, a sua missão é justamente gerar os membros do Corpo Místico de Cristo. Na Cruz, Nosso Senhor entrega todos os cristãos à sua custódia, quando diz a São João: “Eis a tua mãe” [3].

Assim, absolutamente todas as graças que vêm aos homens passam pelas mãos de Maria. Foi o que Nossa Senhora das Graças revelou a Santa Catarina Labouré, em 27 de novembro de 1830, na França, quando, estendendo as suas mãos para baixo, fez sair raios delas, demonstrando a abundância de graças que irradia para todos os homens. Importa sublinhar que Nossa Senhora é medianeira não por necessidade, mas simplesmente por privilégio divino. Deus, onipotente, podia muito bem remir a humanidade de outro modo. No entanto, escolheu precisar do consentimento de uma mulher, a Virgem Maria.

De fato, várias passagens do Velho Testamento – como o trecho do livro de Ester, da primeira leitura, e o Salmo 44 – prefiguram a intermediação de Nossa Senhora na obra da salvação. No Novo Testamento, então, são inúmeros os exemplos de sua ação providencial: na Visitação [4], realiza-se o primeiro milagre da graça, quando, ao ouvir a voz de Maria, São João Batista exulta no seio de Santa Isabel, a ponto de a Tradição da Igreja dizer que, naquele momento, o santo precursor do Messias foi perdoado do pecado original; nas bodas de Caná, lembradas neste Domingo, dá-se o primeiro milagre na ordem da natureza, quando, por intercessão de Maria, Jesus transforma a água em vinho; e, por fim, em Pentecostes, quando as Escrituras dizem que os discípulos “perseveravam na oração em comum, junto com algumas mulheres – entre elas, Maria, mãe de Jesus” [5], a oração da Virgem Santíssima é providencial para a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja.

Importa explicar, à luz da passagem do casamento de Caná, que a oração da Virgem não age para “contrariar” a vontade de Cristo. Santo Tomás de Aquino ensina que “não oramos para mudar o que foi disposto pela providência divina, mas para que façamos o que Deus dispôs para ser realizado devido à oração dos santos”; “a nossa oração não objetiva mudar aquilo que foi disposto por Deus, mas conseguir d’Ele, pelas orações, o que Ele dispôs” [6]. A oração de Nossa Senhora, de modo especial, foi escolhida por Deus para mediar todas as Suas graças. E, embora essa verdade ainda não tenha sido definida solenemente pela Igreja, todos os tratados tradicionais de mariologia e os Papas do século XX falam de Maria como “medianeira de todas as graças”. Também respaldam esse título as inúmeras manifestações de piedade e amor à Virgem por parte do povo cristão, em todo o mundo, pelo que se confirma o adágio: “lex orandi, lex credendi – a lei da oração é a lei da fé”.

Ao celebrar a solenidade da Virgem de Aparecida, queremos pedir a sua intercessão por nosso país e colocá-lo debaixo de seu manto, especialmente nestes dias de eleições. Embora a Igreja não se deva meter em política partidária, é importante recordar o discurso do Papa Bento XVI, há quatro anos atrás, no qual ele advertia que, “quando (...) os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas” [7]. Não se pode esquecer que o partido que nos governa tem feito muito, há muito tempo, pela legalização do aborto e pela destruição da família. T

Que Nossa Senhora Aparecida, Imperatriz do Brasil, governe o destino de nossa nação!

Referências:

Cf. Rm 5, 17-18.
Sínodo de Quiercy, maio 853: DS 624.
Jo 19, 27.
Cf. Lc 1, 39-56.
At 1, 14.
Suma Teológica, II-II, q. 83, a. 2.




domingo, 5 de outubro de 2014

Homilia do 27º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo




Os frutos do amor

Deus nos cerca de carinho, faz em nós um lagar (um coração) capaz de amar, constrói uma torre de guarda que nos proteja. Mas depois de todo este amor, ele viaja para o estrangeiro, se esconde de nós, e espera os frutos do nosso amor. O mistério da parábola dos vinhateiros é o mistério de um Deus que se faz mendigo do amor humano. O onipotente espera o nosso amor, os nossos frutos no tempo devido… T





sábado, 4 de outubro de 2014

Francisco de Assis: um homem Santo!


Não é fácil falar de São Francisco como um personagem, "nem tanto santo, nem tanto pecador". Poderíamos dizer que, por vezes, Francisco parece-nos tão distante, tão longe da realidade do cotidiano em que vivemos. Mencionar São Francisco poeticamente é lirismo, até porque, nós ocidentais somos dotados de um romantismo em relação a ele, por causa dos cachorrinhos, dos passarinhos e de seu amor por todas as criaturas. Essa visão romântica retratada nos quadros pela nossa cultura ibérica não nos revela um autêntico São Francisco de Assis. Vale a pena falar um pouco sobre esta visão, porque São Francisco é um homem muito complexo. Não foi um palhaço, nem um boneco, nem alguém que não tivesse carne e osso, que não tivesse sentimentos, que não viveu os dramas da vida que nós "normais" vivemos, que não viveu também a felicidade e a tristeza, a dor e a plenitude da vida. Este Francisco pintado pelos artistas, talhado nas esculturas, descrito nos livros de romance, é uma leitura que nos encanta. Não nos deixa pasmados a sua vivência? Porém, a visão romântica e poética de São Francisco não nos ensina a sua realidade mais concreta, mas nos vicia catequeticamente. Ela não nos traz a espiritualidade autêntica do homem santo e real que foi Francisco de Assis. A verdadeira espiritualidade de São Francisco é encarnada, é muito viva e é muito completa.

Poderíamos também falar de São Francisco como "reconhecidamente" o homem deste último milênio. Vocês sabem que a revista Times elegeu São Francisco como a maior personalidade do último milênio? Foi ele um dos homens que influenciaram "efetivamente" a política do seu tempo, a cultura, a sociedade, a religião, gerando um Estado em transformação. Quando no pós feudalismo nascia a abertura das cidades e a sua formação, o desenvolvimento do mercado, a troca e a venda, o nascimento das universidades, São Francisco estava lá na praça, pregando o Evangelho, questionando os modelos da nascente burguesia, julgando-os à luz da dignidade cristã, trazendo às consciências a penitência que coloca o ser humano no seu original. Falando de assistência social, de política, do sagrado, de paz, São Francisco grita e denuncia, pelo seu exemplo, a entediante riqueza, a falta de distribuição de renda, tão presente na realidade em que vivemos hoje. São Francisco foi um homem encarnado em seu tempo, não isolado, mas um homem que foi capaz de encontrar-se com o outro, de olhar o próximo, de perceber o caminho que lhe conduzia a Deus. São Francisco que parece sempre debruçado sobre a rocha, contemplando a cruz, profundamente místico, não está muito distante de nós. Mas é importante desmistificar isso, para "encarnar" a realidade e aprender de forma catequética o modelo que foi e é Francisco. Diria que deveríamos gerar e transformar a ilusão de um "santinho" em realidade de um verdadeiro "Santo". Falo isso, porque esperamos, quando celebramos uma memória, uma festa, ouvir coisas bonitas acerca de um determinado santo ou beato, mas os santos, beatos e ainda outros que fazemos memória não estão aí para serem adorados, a exemplo do que faziam os gregos e romanos diante de seus deuses, mas a Igreja os colocou e os canonizou, não como grandes personalidades humanas que foram divinizadas, não só para serem pintados e aparecerem nas esculturas e ícones das igrejas, mas, porque são uma história concreta, que transformou vidas, que transformou a sociedade, o mundo, com o desapego e com suas virtudes.

Francisco é um modelo de ser humano que despertou o mundo para encontrar e experimentar o Cristo "humano, apesar do divino", não o Cristo "Divino, apesar de humano". Seria como encontrar em Cristo "o Jesus", muito próximo de nós e igual a nós, irmão, pobre, sofredor, amigo e amado. É muito interessante e inovadora essa visão simplória de Francisco. Para ele, isso era fundamental e de profunda sabedoria. Uma sabedoria que lhe foi dada na experiência do vazio "bom", da pobreza e da simplicidade.

São Francisco não buscou a sabedoria nos livros, nem nas pós graduações, nem nos mestrados, nem nos doutorados, dizem seus biógrafos "era um ignorante" e "sem letras". São Francisco foi direto à raiz essencial da existência humana, na raiz do que nos faz entender-se "criatura" como Deus nos fez e não como donos da criação. Encontrou ele, a verdadeira sabedoria em Deus, pois Deus é a fonte e a força motivadora da existência humana, é o criador. D'Ele provém o conhecimento verdadeiro, no mais estreito da palavra. Para esta sabedoria não se faz necessário o conhecimento palpável, mas àquela que vai além dos nossos sentidos, além do que pode ser contemplado ou verificável, a isso nós chamamos fé.

Francisco, após sua conversão, não quis acessórios para sua experiência de fé, não quis encher-se de supérfluos, pois uma só coisa lhe bastava, a cruz de sua existência. Neste estado entendeu o que é amar profundamente, o que é ser gratuito, o que é doar. No estado extremo de um limite ímpar ele viu em Jesus um aliado, no sofrimento, na dor, nas imperfeições, na fragilidade da Cruz e na morte corporal. A morte, para Francisco de Assis é a verdadeira desapropriação que imita o estado perfeito da criatura.

O mistério da cruz, do ponto de vista espiritual, não é dado a entender para quem quer fazer ciência, não é para quem quer fazer psicologia, não é para quem quer fazer teologia, indagando a si mesmo: como estava o corpo de Jesus naquele momento? Que tipo de sangue é o de Jesus? O mistério da cruz é um mistério profundamente espiritual, uma construção teológica da nossa própria existência, que é a minha vida, pois não consigo descrevê-la por palavras verbalmente. Viver é dar sentido a minha existência, isto é, a minha cruz com tudo o que ele me propõe.

Francisco tomou esta cruz e deu sentido a ela. Perguntaríamos ainda: qual é a razão de fazer memória deste homem? - Ele não quis nada, disse não à propriedade, não ao dinheiro, não às riquezas, não ao poder, não à autoridade. A razão de cultuá-lo é antes de tudo sugar dele um modelo espetacular de singularidade existencial. Uma doutrina que nos revela o Evangelho no mais original, sem véus e bem transparente, porque Francisco, viu em Jesus um "igual", daí que na doutrina franciscana somos todos iguais. Ninguém é maior do que ninguém. O Filho de Deus, para Francisco de Assis, é pobre, humilde, sem nada de próprio e casto. São Francisco de Assis recria uma fraternidade baseada na palavra de Deus, na descrição mais originária dos Evangelhos sobre o Messias.

Caros, não é à toa que desde o início do cristianismo, há dois mil anos, em lugares onde ocorriam os martírios foram construídas as primeiras igrejas. Um cristão ao morrer em nome de Cristo era sepultado em catacumbas subterrâneas. Nelas nasceu a igreja física e a partir delas a comunidade cristã dedicou essas igrejas aos mártires, aos santos. Percebe-se, pois, que não é em vão que uma igreja seja dedicada a São Francisco, que uma igreja seja dedicada a um santo qualquer, não é um fetiche religioso. Não é uma continuidade dos templos romanos dedicados a deuses de pedra, mas é uma dedicação que transborda em "espiritualidade" de vida concreta. Na prática, ter um padroeiro como São Francisco de Assis é ter uma espiritualidade que me una a Deus e me dê o limiar existencial e escatológico sobre a vida. É aprender com ele, é recolher da sua experiência de vida os elementos que me dão a razão de existir. Digo isto, porque tem gente que dá razão a sua existência em coisas temporais e efêmeras, dizendo: "eu sou feliz, porque eu tenho um bom emprego e um bom salário". Ledo engando, pois a nossa existência não tem sentido no estar e adquirir coisas, senão na essência da vida criada e gerada em Deus.

Fazer memória de São Francisco é um convite a entender a visão otimista da vida, do cosmos, do mundo. Entender que este santo viu nas misérias humanas, nas coisas terríveis da nossa coletividade e até no pecado, a grande possibilidade de entrar em harmonia com o universo, com a criação. São Francisco não se coloca como aquele que quis destruir e dominar as criaturas, como aquele que corta as árvores, que mata os animais, que polui as cidades. Não se achava ele um ser diferente em dignidade criacional melhor que as plantas e os animais, maior que a terra ou os astros. Para Francisco, os seres humanos foram presenteados por uma criação especial, porém não por uma matéria melhor ou diferente daquela de todo o Criado. A espiritualidade que emerge dessa fabulosa e fantástica capacidade integradora de São Francisco é a espiritualidade da inclusão, da harmonia, da gratuidade, da fraternidade, do encontro com o próximo. Daí em diante, ele abraçou todo mundo, lançou-se universalmente de uma forma integradora que culminou nos estigmas: sinal de seu mais profundo desejo de ser como Cristo o verdadeiro homem, já que Jesus foi o verdadeiro Filho de Homem.

Esse "Universalismo Franciscano" não é de se perder de vista, uma vez que nos lança sempre mais a um otimismo significativo, cheio de desejo, transformação, construção de um mundo novo e buscá-lo é nosso dever. Na prática da vida precisamos conquistar espaços para nos tornar significativos. Lembram daquela história que eu sempre conto nas homilias? Abrindo a janela do convento em que morei na Itália, na cidade de Roma, em um museu à frente, tem escrito - "Itália: terra de santos, heróis e navegadores" - está frase fica na fachada do museu e nos faz recordar a essência histórica de uma nação que transformou a realidade, que questionou a os sistemas, que deu exemplo de cultura, de dignidade à sociedade e nela inclusa os homens e as mulheres de muitos tempos. Francisco de Assis nasceu em uma terra de cultura "secular", para não falar em "milenar". Uma terra que deu testemunho da ação e construção do cristianismo ocidental, um povo que não ficou só na palavra. A exemplo dessa São Francisco se fez pobre com os pobres, para que os seus percebessem os excluídos, os pobres fora dos muros das cidades. Francisco não fez e nem realizou somente uma "assistência social", acolhendo, alimentando, cuidando ds leprosos, nem dando seu manto para um pobre, como se assistisse à miséria humana, mas São Francisco quis ser pobre com os pobres, em par de igualdade. Nós éramos quando entendemos a espiritualidade franciscana a partir do assistencialismo descomprometido com o ser humano, como fazem os sistemas de governo ao construir creches, dar cestas básicas, bolsa família, etc. Isto é assistência social ou simplesmente um assistencialismo. São Francisco não deu assistência material, contudo trouxe o sentido para vida dos pobres, percebem a diferença? - é para isso, "caros amigos", que nós somos convocados e questionados. Enfim, percebemos que a espiritualidade de São Francisco está muito longe de nós.

Vemos, então, claramente que São Francisco na sua dimensão encarnada e real, nos leva ao foco da existência humana. Desta forma, nos encontramos como que diante de nós mesmos, vazios e sem respostas. São Francisco nos arrasta junto com ele, porque não esteve no mundo como passivo, mas na ação a serviço do ser humano. A exemplo dele nós podemos transformar a sociedade, transformar a vida da minha família, da escola, do trabalho. Os valores que posso colher da vida dele, não são somente imagens, não é um romance, é real.

É imprescindível que com o otimismo universal de São Francisco, jamais percamos de vista sua história e exemplo. Que possamos levá-lo para a nossa vida real, mesmo que nos sintamos incomodados porque não sabemos como realizar o que ele nos ensinou. Porém, animados pela força que o impulsionou possamos dizer que é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna. T

Por Frei Marcelo Veronez, OFMConv., Homilias [04.10.2009]

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

São Miguel, São Gabriel e São Rafael, Arcanjos


“É preciso saber que a palavra anjo indica o ofício, não a natureza. Pois estes santos espíritos da pátria celeste são sempre espíritos, mas nem sempre podem ser chamados anjos, pois somente são anjos quando por eles é feito algum anúncio. Aqueles que anunciam fatos menores são ditos anjos; os que levam as maiores notícias, arcanjos.


Foi por isso que à Virgem Maria não foi enviado um anjo qualquer, mas o arcanjo Gabriel; para esta missão, era justo que viesse o máximo para anunciar a máxima notícia.

Por este motivo também a eles são dados nomes especiais para designar, pelo vocábulo, seu poder na ação. Naquela santa cidade, onde há a plenitude da ciência pela visão do Deus onipotente, não precisam de nomes próprios para se distinguirem uns dos outros. Mas quando vêm até nós para cumprir sua missão, trazem também entre nós um nome derivado desta missão. Assim Miguel significa: “Quem como Deus?”; Gabriel, “Força de Deus”; e Rafael, “Deus cura”.

Todas as vezes que se trata de grandes feitos, diz-se que Miguel é enviado, porque pelo próprio nome e ação dá-se a entender que ninguém pode por si mesmo fazer o que Deus quer destacar. Por isso, o antigo inimigo, que por soberba cobiçou ser igual a Deus, dizendo: Subirei ao céu, acima dos astros do céu erguerei meu trono, serei semelhante ao Altíssimo ( cf. Is 14, 13-14), no fim do mundo, quando será abandonado às próprias forças para ser destruído no extremo suplicio, pelejará com o arcanjo Miguel, como diz João: Houve uma luta com Miguel Arcanjo.

A Maria é enviado Gabriel, que significa “Força de Deus”. Vinha anunciar aquele que se dignou aparecer humilde para combater as potestades do ar. Portanto, deveria ser anunciado pela força de Deus o Senhor dos exércitos que vinha poderoso no combate.

Rafael, como dissemos, significa “Deus cura”, porque ao tocar os olhos de Tobias como que num ato de cura, lavou as trevas de sua cegueira. Quem foi enviado a curar, com justiça se chamou “Deus cura”. T

São Gregório Magno (540-604)


domingo, 28 de setembro de 2014

Homilia do 26º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo




O arrependimento

Jesus está em Jerusalém, sabendo que os mesmos que O aclamaram à entrada da cidade O condenarão à morte na Cruz. Então, em uma última tentativa de converter o coração dos judeus - principalmente, o dos sacerdotes e dos anciãos do povo -, ele conta a parábola dos dois filhos. Convidados por seu pai a trabalhar na vinha, o primeiro peca em um primeiro momento e diz não, mas, depois, se arrepende e vai; o segundo, a princípio, responde que sim, mas desobedece e não vai.

A pedagogia usada por Nosso Senhor nessa passagem é a mesma usada pelo profeta Natã para censurar o rei Davi, por ele ter matado Urias e tomado para si a sua esposa, Betsabeia. Na ocasião, Natã também se serve de uma parábola para se dirigir a Davi. Ele conta a história de um rico que tinha muitos bois e ovelhas e de um pobre que possuía apenas uma pequena ovelha, que “era para ele como uma filha”. Em um ato de grande injustiça, o rico, para dar de comer a um hóspede, ao invés de matar um de seus animais, mata o cordeiro do pobre e prepara-o para o visitante. Davi fica revoltado com a atitude do rico, ao que Natã o repreende: “Este homem és tu!” [1].

Com a sua parábola, Jesus quer que os judeus caiam em si e, condenando a atitude do segundo filho, ajam como o primeiro e se arrependam.

Ao se referir à atitude do primeiro filho, a palavra grega que, na versão litúrgica brasileira, é traduzida por “mudou de opinião”, é “μεταμεληθεὶς” (lê-se: metamelitheís), a mesma usada no versículo 32 para dizer que os sacerdotes e anciãos não se arrependeram (“οὐδὲ μετεμελήθητε”) para crer em São João Batista. De fato, o arrependimento é muito mais que uma simples “mudança de opinião”: inclui também um pungimento e uma comoção interior.

No entanto, só isso não é suficiente. É preciso, sobretudo, uma determinação firme de fazer a vontade de Deus. Por isso, Jesus questiona os sacerdotes e anciãos: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” O coração do ensinamento de Jesus nesta parábola é justamente este: “fazer a vontade do Pai”.

Santo Tomás de Aquino, ao responder se a penitência é uma virtude, explica:
“Fazer penitência é doer-se de algo cometido anteriormente. Já se viu também que a dor ou a tristeza pode ser considerada de duas maneiras. Primeira, enquanto é uma paixão do apetite sensitivo e, sob este aspecto, a penitência não é uma virtude, mas uma paixão. Segunda, enquanto é um ato da vontade e, nesse caso, ela implica certa escolha. E se esta é feita de maneira reta, pressupõe que seja um ato de virtude. Diz Aristóteles que a virtude é ‘um hábito de escolher conforme a reta razão’. Pertence, porém, à reta razão que alguém se doa daquilo de que se deve doer. E isso acontece na penitência, de que agora se trata. Pois, o penitente assume uma dor moderada dos pecados passados, com a intenção de afastá-los. Daí se segue que é claro ser a penitência, de que agora falamos, uma virtude ou ato de virtude.” [2]
Para arrepender-se de verdade, não basta “sentir-se mal”; é preciso que a “paixão do apetite sensitivo” se transforme em um ato da vontade. O arrependimento virtuoso deve terminar em uma escolha determinada, pois é nela que está o amor.

Um excelente comentário a essa lição é o episódio da pecadora que, “quando soube que Jesus estava à mesa na casa do fariseu [Simão], trouxe um frasco de alabastro, cheio de perfume, postou-se atrás, aos pés de Jesus e, chorando, lavou-os com suas lágrimas. Em seguida, enxugou-os com os seus cabelos, beijou-os e os ungiu com perfume” [3]. Na ocasião, o fariseu, preocupado com as aparências, achou inconveniente o comportamento daquela mulher. Ela, ao contrário, desprezando completamente o que os outros pensavam dela, queria tão somente amar Nosso Senhor. Embora exista uma carga emocional em seus atos, o que é determinante é a escolha que ela fez de um novo caminho para a sua vida.

No comentário a essa página do Evangelho de São Lucas, São Gregório Magno mostra como aquela mulher que tinha usado todo o seu ser para o pecado, voltou-o totalmente para Jesus:
“Com os olhos, desejara as coisas da terra; com os mesmos, agora, chorava, em sinal de penitência. Com os cabelos que serviam de enfeite para o seu rosto, agora, ela enxugava as suas lágrimas (...). Os lábios com que ela dissera palavras soberbas, agora, osculando os pés do Senhor, ela pregava aos passos de seu Redentor (...). O óleo que ela usara para perfumar o seu corpo de modo torpe agora ela oferecia a Deus de modo louvável (...). Enfim, tudo o que tinha para o próprio prazer, ela oferece em holocausto. Converteu em número de virtudes o número de seus crimes, a fim de consagrar-se inteiramente a Deus por meio da penitência, tanto quanto se tinha separado d’Ele por meio da culpa.” [4]
O amor daquela mulher é o que faz toda a diferença. “Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, pois ela mostrou muito amor” [5].

Muitas vezes, as pessoas, depois que cometem um pecado, entram em um beco sem saída, pois ficam remoendo constantemente o sentimento de culpa em seu coração. Não entendem que devem determinar-se, a fim de usar tudo o que são e têm para amar e servir a Deus, ao invés de ficarem alimentando inutilmente o que não é virtude, senão paixão.

Nesse caminho, é muito importante não se preocupar com as aparências, com o que os outros vão pensar de nós. A grande dificuldade dos sacerdotes e anciãos do povo, bem como de Simão, o fariseu, era a sua preocupação com o exterior. Por isso as figuras de São João Batista e de Jesus foram motivo de confusão para eles. Enquanto o primeiro pouco comia e bebia - e era repreendido pelos judeus -, o segundo comia e bebia - e era chamado de “comilão e beberrão, amigo de publicanos e de pecadores” [6]. Não aprenderam que a verdadeira religião não tem a ver com as aparências, mas com o coração.

Assim, no Evangelho, o primeiro filho aparentemente desobedece, mas, depois, faz a vontade do pai; e o segundo aparentemente obedece, mas, no fim, manifesta-se como um rebelde. Que o Senhor nos ajude a amá-Lo com verdadeiro amor e determinação e não nos deixe cair na tentação de viver segundo as aparências. T

Referências:

Cf. 2 Sm 12, 1-15.
Suma Teológica, III, q. 85, a. 1.
Lc 7, 37-38.
Apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Lucam, 7, 6.
Lc 7, 47.
Mt 11, 19.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Como a Igreja explica os Estigmas?




Os estigmas são chagas que surgem nos corpos de algumas pessoas, as quais tem uma certa relação com a crucifixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles podem ser visíveis ou invisíveis, permanentes ou transitórias, aparecer simultânea ou sucessivamente. Ao longo da história da Igreja cerca de 300 pessoas receberam os estigmas, dessas, cerca de 60 foram canonizadas. De uma forma geral, este fenômeno é maciçamente feminino, atingindo principalmente religiosas.

Apesar disso, o primeiro estigmatizado de que se tem notícia foi São Francisco de Assis que, no dia 17 de dezembro de 1224, teve a visão de um serafim e logo em seguida recebeu os sinais. O mais famoso da história recente certamente é São Pio de Pietrelcina, cujos estigmas foram analisados por médicos e estudiosos, mas permanecem ainda sem explicação científica.

Os estigmas podem ter três causas: 1. origem natural (caráter histérico); 2. origem demoníaca; 3. origem sobrenatural. No Brasil, o parecer mais adotado acerca dos estigmas foi o do Padre Oscar Quevedo. Para ele, as chagas são sempre meramente histéricas, ou seja, têm explicação natural. Contudo, essa explicação do Padre Quevedo está imbuída de um certo preconceito científico, pois parte do princípio da Navalha de Ockham, ou seja, se uma causa foi encontrada que explica suficientemente o fenômeno, ao menos em sua aparência, não há porque buscar outras causas. É justamente esse preconceito que leva o Pe. Quevedo a negar a existência do demônio e as possessões demoníacas ao constatar que o demônio é incapaz de milagres. Ora, a Igreja jamais disse isso, porém, ele pode sim agir como segunda causa, com dupla causalidade, utilizando-se de uma causa natural inferir nela a ação diabólica. Isso é possível e fica claro quando se pensa em como se dá a tentação (grosso modo, pode-se dizer que o inimigo usa uma inclinação natural da pessoa para determinados pecados e a potencializa).

Contudo, os estigmas podem realmente ter uma causa meramente natural e serem, portanto, um fenômeno histérico. Isso se vê com clareza quando os sinais aparecem em pessoas que não apresentam qualquer sinal de santidade ou em pessoas que professam religiões não cristãs. Nesses casos, além da explicação de causa natural, pode haver a causa demoníaca.

Na história dos santos existem aqueles chamados "almas vítimas", pessoas que se oferecem a Cristo com uma amor tão ardente que desejam se configurar ao Cristo Crucificado. Nem todos recebem os estigmas, como é o caso de Santa Terezinha do Menino Jesus, mas outros sim. Olhando para o caráter benéfico de santificação que os estigmas produziram na pessoa que os recebeu, bem como de evangelização ocorrido ao redor das sagradas chagas, não se pode deixar de reconhecer neles uma intervenção divina.

Atualmente, existe uma dificuldade geral em reconhecer que o sofrimento pode ser uma forma de participação na redenção. Bem entendido que Cristo é o Redentor, contudo, a própria Escritura nos diz que Ele completa em nossa carne, como diz São Paulo, aquilo que falta aos seus sofrimentos. Não que sejam incompletos, mas Ele quer a participação de pessoas generosas que se oferecem a Ele.

Um dos sinais de que os estigmas são de origem sobrenatural é que eles geralmente são precedidos por sofrimentos agudos, nos quais a pessoa se santifica, num processo de purificação. A maior parte dos santos estigmatizados os carregam quase como uma vergonha, pois gostariam de escondê-los. Santo Padre Pio de Pietrelcina, por exemplo, carregou os estigmas invisíveis durante anos e não contou para ninguém. Quando eles se tornaram visíveis foram causa de um sofrimento enorme, pois sentia-se humilhado e chegou a pedir a Deus que os escondesse.

Um outro sinal extraordinário observado em Padre Pio é que aquelas feridas não saravam, nenhum médico foi capaz de curá-las, nenhum remédio ou bandagem foi capaz de reter o sangramento. Os estigmas sumiram antes da morte de Padre Pio sem deixar qualquer marca, cicatriz ou sequela. O próprio Santo explica que Jesus lhe comunicou que os estigmas permaneceriam com ele durante 50 anos, não mais.

Como se vê, existem vários tipos de origem para os estigmas e é a Santa Igreja quem deverá discernir a origem e a natureza deles. T



domingo, 21 de setembro de 2014

Homilia do 25º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo




A recompensa será igual para todos?

No Evangelho deste Domingo, Nosso Senhor conta a seus discípulos a parábola dos trabalhadores na vinha. Após contratar várias pessoas para o trabalho, algumas de madrugada, outras às nove da manhã, outras ao meio-dia e às três, e outras ainda às cinco da tarde, o seu patrão remunera-os igualmente, com uma moeda de prata. Diante disso, os que haviam sido contratados primeiro “começaram a resmungar contra o patrão: ‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’”.

Para entender o significado dessa parábola, é preciso explicar o contexto do Evangelho de São Mateus. Ele foi escrito para comunicar a vida de Jesus aos cristãos convertidos da religião judaica, supondo que os seus ouvintes conheciam a história da Antiga Aliança, dos patriarcas e profetas do Velho Testamento, das festas religiosas do povo israelita etc. A partir dessa informação, é possível entender a parábola como uma resposta aos cristãos vindos do judaísmo, que são justamente os trabalhadores que foram contratados “de madrugada”, pois começaram a seguir o Deus verdadeiro ainda no começo da história.

Sabe-se que, no alvorecer das primeiras comunidades cristãs, houve um sério conflito por parte dos cristãos “judaizantes”, que queriam que os convertidos do paganismo se submetessem a algumas prescrições da Torá - como a circuncisão - antes de se batizarem e entrarem na Igreja. A controvérsia foi resolvida no episódio do Concílio de Jerusalém, no qual os apóstolos decidiram “não (...) inquietar os pagãos que se convertem a Deus” [1], mandando-os tão somente “abster-se de carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes de animais sufocados e das uniões ilícitas” [2].

Ao comparar o Reino dos céus ao patrão que premiou tanto os primeiros trabalhadores quanto os que foram contratados depois com a mesma recompensa, Nosso Senhor já resolvia essa dificuldade do futuro, ilustrando a generosidade de Deus, que se dá todo aos homens, seja aos judeus, seja aos pagãos.

Santo Tomás de Aquino, comentando este Evangelho [3], divide-o em duas partes: a da contratação e a da remuneração.

Com relação à contratação, percebe-se como “Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” [4]: o dia de que fala o Evangelho simboliza tanto a história da humanidade - Deus chamou alguns de madrugada, isto é, de Adão a Noé; outros na hora terça, de Noé a Abraão; outros na hora sexta, de Abraão a Moisés; e outros ainda na hora nona, de Moisés até a vinda de Cristo -, quanto a história de cada homem em particular - alguns o Senhor chama de madrugada, isto é, na infância; outros na hora terça, que é a adolescência; outros na hora sexta, que é a idade adulta; outros na hora nona, que é a velhice; e outros ainda chama na última hora, como chamou o bom ladrão [5].

Quanto à remuneração, a moeda de prata de que fala o Evangelho é a vida eterna, o patrão é Deus Pai e o administrador é Deus Filho. Ao distribuir a recompensa, o patrão dá uma moeda de prata aos trabalhadores, mostrando que a recompensa eterna é igual para todos. Mas, em que sentido se pode dizer isso? Santo Tomás explica:
“A bem-aventurança pode ser considerada quanto ao objeto, e, então, ela é uma só para todos; e quanto à participação do objeto, e, então, ela é diferente, pois nem todos participarão dela do mesmo modo, conforme está escrito em Jo 14, 2: Na casa de meu Pai, existem muitas moradas. É como se muitos fossem à procura de água, e um carregasse um vaso maior do que o outro: o rio está disponível a todos, mas nem todos levarão a mesma quantidade. Assim, quem tem a alma mais dilatada, mais caridade recebe.” [6]
Para entender o que diz o Aquinate, pode servir de apoio a parábola dos talentos [7], na qual o senhor retribui a cada um de seus servos de acordo com o seu trabalho. Embora pareça, essas duas passagens não estão em contradição. Deus, que é como um oceano infinito, é capaz de preencher totalmente tanto uma tampinha de garrafa quanto um copo, uma piscina ou uma Baía de Guanabara. De fato, o objeto da bem-aventurança é um só, Deus mesmo; no entanto, a participação de cada um nessa recompensa será diferente, pois cada um amou a Deus de forma diferente.

A grande lição deste Evangelho é recordar-nos que a recompensa divina não é merecida por nenhum de nós e, por isso, todos devemos viver em ato de contínua gratidão a Deus. Ao responder à murmuração dos primeiros trabalhadores, o patrão lhes pergunta se estão “com inveja”. No original grego, a expressão do Autor Sagrado é: ὀφθαλμός πονηρός [lê-se: ophthalmós poneirós], que quer dizer, literalmente, “olho mau”. Esse termo - que também já foi consagrado pela linguagem popular - descreve uma atitude espiritual: o invejoso, quando vê alguém feliz, se entristece com a sua alegria. Jesus denuncia que esse remordimento interno é causado por uma mentalidade mesquinha, a mesma mentalidade do fariseu que acha que é digno do Reino dos céus [8]. Ele se esquece que todos os que se salvarem o serão por pura misericórdia de Deus e que até os méritos que ele adquire só são possível graças à graça divina. Por isso, é importante dirigir o olhar ao Senhor, em meio ao cansaço e a fadiga do dia a dia, e dizer: Senhor, eu não mereço, mas deixe-me trabalhar pelo vosso Reino, viver o cansaço do dia a dia, por vosso amor.

É importante lembrar também que hoje, 21 de setembro, é justamente o dia da memória de São Mateus. Vivendo como publicano por muito tempo, o evangelista foi um desses agraciados de última hora, que deixou a coletoria de impostos e todo o resto para seguir Nosso Senhor. Depois de deixar a velha vida, Mateus também correspondeu ao amor de Deus, pregando o Evangelho até o martírio. Ele é, portanto, um exemplo das duas realidades: não só é o que se converteu, mas também aquele que trabalhou até o fim, ganhando do Senhor a graça de merecer morrer por Sua causa.

Como São Mateus, independentemente de nossa história de vida, alegremo-nos e correspondamos generosamente à graça superabundante que Deus derrama sobre nós. T

Referências:

At 15, 19.
At 15, 29.
Cf. Santo Tomás de Aquino, Super Evangelium Matthaei, 20, 1.
1 Tm 2, 4.
Cf. Lc 23, 39-43.
Santo Tomás de Aquino, Super Evangelium Matthaei, 20, 1. Cf. também Suma Teológica, I-II, q. 5, a. 2.
Cf. Mt 25, 14-30.
Cf. Lc 18, 9-14.



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