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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Homilia do 4º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



Pode haver verdadeira fé sem caridade?

Estamos ainda no início da narrativa de São Marcos, nos primeiros passos do ministério público de Nosso Senhor. Enquanto prega em Cafarnaum, "um homem possuído por um espírito mau" o interpela: "Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus". Cristo, porém, rejeita a confissão do demônio, intimando-o a calar-se (a palavra grega usada é "Φιμώθητι", a mesma para se referir a uma mordaça). Mas, por que Ele faz isso? Por que não aceita a profissão do diabo?

Porque, explica Santo Agostinho, nos demônios existe a ciência, mas sem a caridade [1]. E, no dizer do Apóstolo, "a ciência infla, mas a caridade edifica" [2]. De fato, Deus não quer de Suas criaturas uma mera profissão de conhecimento. Não basta conhecê-Lo, se não houver caridade; não basta dizer que se crê n'Ele, se não há amor. Os demônios sabiam quem era Jesus, mas não O amavam. A sua ciência era orgulhosa, assim como a de muitos homens desta "era científica": pensando conhecer as coisas, confundem-se em sua soberba e, sem amor, perdem a essência da Verdade.

Cristo também não quer para Si uma simples e superficial admiração, como a narrada pelo Evangelista: "todos ficaram muito espantados"; e "a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte". Ele quer verdadeiro compromisso por parte das pessoas. Uma coisa é admirar-se, outra é crer e evangelizar; uma coisa é ser "discípulo missionário", como pediu o Documento de Aparecida, outra é ser apenas um curioso fofoqueiro.

No que diz respeito à ciência destas coisas sobrenaturais, Santo Agostinho comenta que a situação dos homens é ainda pior que a dos demônios, os quais pelo menos alguma ciência têm acerca de Cristo. O que eles, por causa de sua soberba, não conseguem enxergar, bem como os seres humanos, é "Dei humilitas, quae in Christo apparuit, quantam virtutem habeat – quanto poder existe na humildade de Deus, que apareceu em Cristo" [3].

Na Primeira Leitura deste Domingo, tirada do livro do Deuteronômio, Deus revela a Moisés que suscitará para ele, do meio dele, dentre os seus irmãos, um profeta como ele. Ora, uma das características mais importantes deste patriarca era que ele se comunicava com Deus "face a face". Neste sentido, a promessa divina encontra seu pleno cumprimento em Nosso Senhor. Comenta o Papa Bento XVI, em seu livro "Jesus de Nazaré":
"Neste contexto devemos ler a conclusão do prólogo de S. João: 'Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito que repousa no seio do Pai é que no-lo deu a conhecer' (Jo 1, 18). Em Jesus cumpriu-se a promessa do novo Moisés. N'Ele se realiza agora plenamente o que em Moisés se encontrava apenas de um modo fraturado: Ele vive diante do rosto de Deus, não apenas como amigo, mas como Filho; Ele vive na mais íntima unidade com o Pai.
A partir deste ponto podemos então compreender realmente a figura de Jesus, tal como a encontramos no Novo Testamento, tudo o que nos é contado em palavras, ações, sofrimentos, na glória; tudo isto está ancorado aqui. Se omitirmos este autêntico centro, passamos ao lado da figura autêntica de Jesus; então ela se torna contraditória e, em última análise, incompreensível. A questão que cada leitor do Novo Testamento deve levantar - aonde é que Jesus foi buscar a sua doutrina, onde é que se pode esclarecer a sua aparição -, esta questão só a partir daqui é que pode ser realmente respondida. A reação dos seus ouvintes era clara: esta doutrina não tem a sua origem em nenhuma escola. Ela é totalmente diferente do que se pode aprender nas escolas. Ela não é uma explicação à maneira da interpretação tal como é dada nas escolas. Ela é diferente; é explicação 'com autoridade' (...).
A doutrina de Jesus não vem da aprendizagem humana, seja ela de que espécie for. Ela vem do contato imediato com o Pai, do diálogo 'face a face', da visão daquele que repousa no seio do Pai." [4]
O espanto das pessoas com a "autoridade" ("ἐξουσίαν", em grego) de Nosso Senhor nasce de Sua humildade e de Seu rebaixamento, atingindo o seu cume no Calvário, quando o centurião vê Jesus expirar e exclama: "Na verdade, este homem era Filho de Deus!" [5]. Não importa tanto, pois, entusiasmar-se com os sinais e prodígios operados por Cristo, mas enxergar o poder que tem "humilitas Dei – a humildade de Deus".

Percebendo esta realidade, então, estamos prontos para fazer um ato de fé verdadeiramente amoroso – já que não se pode conhecer autenticamente uma pessoa sem amá-la – e nos tornarmos discípulos de Cristo. Afinal, é para isto que o Evangelho, o Magistério da Igreja e a Tradição dos Santos existem: para nos levar à fé católica, íntegra e reta, sem mutilações.

Uma vez com esta fé, é importante fazê-la crescer. Não há melhor instrumento para isso do que a oração. Que, neste ano, tomemos o propósito de ser generosos com Deus e, à semelhança de Maria, irmã de Marta, nos coloquemos aos pés de Cristo, em adoração e escuta silenciosa. A soberba procura engrandecer o homem pelas vias erradas. Na verdade, nunca o ser humano é tão grande como quando se põe de joelhos diante de Deus. T

Referências:

De Civitate Dei, IX, 20: "Daemones enim dicuntur (quoniam vocabulum Graecum est) ab scientia nominati. Apostolus autem Spiritu Sancto locutus ait: Scientia inflat, caritas vero aedificat; quod recte aliter non intellegitur, nisi scientiam tunc prodesse, cum caritas inest; sine hac autem inflare, id est in superbiam inanissimae quasi ventositatis extollere."
1 Cor 8, 1.
De Civitate Dei, IX, 20: "Contra superbiam porro daemonum, qua pro meritis possidebatur genus humanum, Dei humilitas, quae in Christo apparuit, quantam virtutem habeat, animae hominum nesciunt immunditia elationis inflatae, daemonibus similes superbia, non scientia."
Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré: primeira parte: do batismo no Jordão à transfiguração, São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 25.
Mc 15, 39.



sábado, 31 de janeiro de 2015

Nomeação de Bispo Franciscano: Bispo de Lolo (República Democrática do Congo)


O Santo Padre o Papa Francisco, nomeou o reverendíssimo Frei Jean-Bertin Nadonye Ndongo, OFMCap. como Bispo da Diocese de Lolo, na República Democrática do Congo

O Bispo eleito nasceu em 1965 em Botuzu (República Democrática do Congo), pronunciou os votos perpétuos em 1992 e foi ordenado sacerdote em 1993. É licenciado em Teologia. Durante o seu ministério pastoral foi, entre outros, vigário paroquial, Mestre de noviços, pároco, reitor da "Casa de Estudos", em Kinshasa, ministro provincial de sua Ordem e presidente da Conferência dos Capuchinhos da África Central e Ocidental, presidente da ASUMA (Assembleia dos Superiores Maiores). Atualmente era Definidor General dos Frades Menores Capuchinhos em Roma. Sucede ao Bispo Ferdinand Maemba Liwonke, cuja renúncia ao governo pastoral da Diocese foi aceita por limite de idade. T

Fonte: news.va


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Nomeação de Bispo Franciscano: Bispo de Krk (Croácia)


O Santo Padre Francisco, nomeou no último sábado (24/01), o reverendo Frei Ivica Petanjak, OFMCap., como Bispo de Krk, na Croácia


O Bispo eleito nasceu em 1963 em Drenje (Croácia) e foi ordenado sacerdote em 1990. É licenciado em Teologia, licenciado e Doutor em História da Igreja. Durante o seu ministério pastoral foi, entre outros, vigário paroquial, mestre, capelão de hospital, ministro provincial, pároco e na atualidade, era guardião do convento Capuchinho em Osijek (Croácia). Sucede ao Bispo Valter Zupan, cuja renúncia ao governo pastoral da Diocese foi aceita por limite de idade. T

Fonte: news.va




terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Encontrado manuscrito inédito sobre a vida de São Francisco de Assis



Texto do século XIII revela novos detalhes sobre a vida do santo pobre, como seu choque ao conhecer os mendigos

[Veja] O medievalista francês Jacques Dalarun, especialista em estudos franciscanos, descobriu biografia inédita de São Francisco de Assis com novos dados sobre a vida do santo pobre. O jornal da Santa Sé, L'Osservatore Romano (abaixo), informou nesta segunda-feira (26) sobre a descoberta, feita em biblioteca particular. Aquilo que parecia ser “um manuscrito insignificante” apresenta detalhes como a passagem que narra uma viagem de Francisco, filho de um rico mercador, a Roma, segundo entrevista com o historiador publicada no periódico. 
Esta versão conta que “Il Poverello” (“O Pobrezinho”, em português), como ficou conhecido, fez a viagem não como peregrino, como se acreditava, mas como um negociante surpreendido com o sofrimento dos mendigos que se amontoavam em sua passagem. “Não tem nada a ver com a versão edulcorada que se divulgou sucessivamente: um Francisco já religioso que sofre com os mendigos. Nesta versão, o contraste é muito mais forte. Não é uma mudança paulatina, mas um verdadeiro choque', explicou Dalarun.
A obra descoberta por Dalarun é datada de 1237 a 1239 e tem 122 páginas cobertas de minúsculos caracteres latinos.“Estava procurando o texto há sete anos. Durante meus estudos, encontrei fragmentos soltos e tudo indicava a existência de algo intermediário de Tomás de Celano, sucessiva à primeira versão e precedente à segunda biografia que conhecemos”, disse o historiador.
Ele afirmou que ainda resta muito por compreender, mas encontrou entre suas páginas elementos de interesse, como um resumo escrito entre 1232 e 1239 da primeira versão. “É um texto amplo: a edição latina conta com 64 partes com algumas folhas de papéis. Muitos comentários acrescentados na primeira versão foram eliminados e há alguns pontos novos”, explicou Dalarun.
Na nova biografia, “ressalta-se muito mais a experiência da pobreza, não em sentido simbólico ou meramente espiritual, mas real”, afirmou. Além disso, o autor aprofunda sobre a questão da fraternidade com a criação, um traço essencial da filosofia franciscana.
Além disso, o livro revela outros detalhes “muito concretos e realistas” sobre, por exemplo, a forma como Francisco remendava sua túnica, usando fibras extraídas das cortiças das árvores.
Biografias não oficiais — Francisco de Assis morreu em 1226, tornou-se santo em 1228 e, no ano de 1260, o Capítulo Geral da Ordem Franciscana encomendou uma biografia oficial para acabar com todas as versões não aprovadas pela congregação. No entanto, com o passar dos séculos, foi possível encontrar obras anteriores que ficaram esquecidas.
Trata-se dos relatos de Tomás de Celano, um dos homens mais próximos a São Francisco, que no ano 1228 recebeu a incumbência do papa Gregório IX (pontífice entre 1227 e 1241) de narrar a vida do santo. Esta primeira biografia foi encontrada no século XVIII, enquanto em 1806 foi descoberta uma posterior, redigida pelo mesmo autor em 1244.
“Estava procurando o texto há sete anos. Durante meus estudos, encontrei fragmentos soltos e tudo indicava a existência de algo intermediário de Tomás de Celano, sucessiva à primeira versão e precedente à segunda biografia que conhecemos”, disse o historiador.
Ele afirmou que ainda resta muito por compreender, mas encontrou entre suas páginas elementos de interesse, como um resumo escrito entre 1232 e 1239 da primeira versão. “É um texto amplo: a edição latina conta com 64 partes com algumas folhas de papéis. Muitos comentários acrescentados na primeira versão foram eliminados e há alguns pontos novos”, explicou Dalarun.
Na nova biografia, “ressalta-se muito mais a experiência da pobreza, não em sentido simbólico ou meramente espiritual, mas real”, afirmou. Além disso, o autor aprofunda sobre a questão da fraternidade com a criação, um traço essencial da filosofia franciscana. 
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[L'Osservatore Romano] Novos aspectos da vida de Francisco reemergem do passado; desta vez não só fragmentos, ou citações indiretas tiradas das obras ancestrais, mas a segunda Vida mais antiga do santo de Assis, até hoje desconhecida, contida num manuscrito aparentemente insignificante e ausente dos catálogos das bibliotecas porque pertencente a uma coleção particular.
Um pequeno código (com o formato 12 por oito centímetros) no centro de uma questão historiográfica vastíssima e complexa, a decorrer, sem solução de continuidade, do terceiro decênio do século XIII até aos nossos dias, cruz e delícia de gerações de estudiosos da Idade Média: a busca de testemunhos biográficos sobre o Pobrezinho de Assis que não coincidem com a vida oficial, a Legenda de São Boaventura, aprovada em 1263. Um livro que passou despercebido por tanto tempo e que chegou íntegro até nós talvez precisamente pela sua pobreza: trata-se de um pequeno código "franciscano em sentido literal, humilde e pobre, sem decorações ou miniaturas" explica-nos de Paris o autor da descoberta, o medievista Jacques Dalarun, ao qual pedimos que nos contasse os pormenores de uma investigação apaixonante e cheia de surpresas como uma detective story paleográfica.
Como encontrou o manuscrito?
Graças a um e-mail de um colega, Sean Field, que ensina na universidade de Vermont e é – aproveito a ocasião para o frisar – felizmente casado: não é um frade franciscano, como vi escrito na imprensa nestes dias! Sean, sabendo que me ocupo desde há muito tempo dos testemunhos biográficos sobre Francisco, indicou-me a iminente venda em leilão de um manuscrito que poderia ser interessante. E também graças ao cuidadoso e inteligente trabalho de Laura Light, a estudiosa que preparou a descrição do manuscrito para a casa de leilões americana que o lançou no comércio, no ano passado. Andava à procura deste texto desde há sete anos: durante os meus estudos tinha encontrado fragmentos e vestígios dispersos e tudo levava a pensar na existência de uma espécie de Legenda intermédia de Tomás de Celano, sucessiva à primeira redacção e anterior em relação à segunda Vida que conhecemos, uma obra composta sob o generalato de frei Elias. Encontrar este texto foi uma confirmação muito preciosa e, obviamente, uma grande alegria. Digamos que esta descoberta choveu num terreno pronto para a receber.
Quando se apercebeu que o texto latino que tinha diante de si no ecrã do seu computador não era apenas uma antologia umbra de finais do século XIII sobre a vida de Francisco, mas uma obra inédita de Tomás de Celano?
Decifrando o prefácio; no site havia também imagens do manuscrito, não de qualidade excelsa mas contudo legíveis, mesmo se com um pouco de dificuldade; Laura Light na sua descrição do código citava os meus estudos mencionando a possibilidade que se pudesse tratar de uma peça importante de um mosaico ainda para completar totalmente. Naquele ponto a minha preocupação foi por que o texto ficasse disponível para os estudiosos; se tivesse sido comprado por um particular isto não estaria automaticamente garantido. Por este motivo dirigi-me directamente à directora do departamento Manuscritos da Biblioteca Nacional da França, que, depois de uma negociação com a casa de leilões, comprou o livro. Entretanto, desde Setembro passado até hoje, pude estudar de modo mais aprofundado o texto e preparar a edição latina e a tradução francesa, dando início também às traduções em italiano e inglês. A notícia foi dada a 16 de Janeiro passado pela imprensa francesa; não era oportuno torná-la pública antes para não interferir com uma negociação comercial que estava a decorrer, e fazia também questão de ter uma ideia clara da colocação cronológica e do conteúdo do manuscrito. T


domingo, 25 de janeiro de 2015

Homilia do 3º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



Convertei-vos e crede no Evangelho!

A mensagem de Jesus, na liturgia desta semana, é muito clara. Depois da prisão de João Batista, Cristo vai para Galileia pregar. "O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!", diz Ele ao povo.

A palavra conversão sugere uma mudança de vida radical. Na fé cristã, há uma dimensão ainda mais profunda: somos chamados a tornarmo-nos outro Cristo. Por isso, é preciso estarmos muito atentos às falsas conversões.

Neste Testemunho de Fé, Padre Paulo Ricardo utiliza o apoio teológico do grande Santo Tomás de Aquino para mostrar-nos o caminho da verdadeira conversão. Trata-se do caminho da graça. T



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Sem Teologia nem Libertação



Leonardo Boff descreve episódios históricos inexistentes e ousa travestir a biografia de São Francisco de Assis.

O estilo é o homem? Sim, e o é para o bem e para o mal. Para o bem, quando a análise revela, por trás das construções sintáticas e figuras de linguagem, a percepção viva de aspectos obscuros e dificilmente dizíveis da experiência humana, que assim emergem da nebulosidade hipnótica onde jaziam e se tornam objetos dóceis da meditação e da ação, transfigurando-se de fatores de escravidão em instrumentos da liberdade. Para o mal, quando nada mais se encontra por baixo da trama verbal senão o intuito perverso de construir uma “segunda realidade” à força de meras palavras, transportando o leitor do mundo real para um teatro de fantoches onde tudo e todos se movem sob as ordens do distinto autor, elevado assim às alturas de um pequeno demiurgo, criador de “outro mundo possível”.

Professor Olavo de Carvalho em parte de sua biblioteca,
exibindo o conteúdo Comunista que já leu.
(Facebook)
Para demonstrá-lo, pedirei ao leitor a caridade de seguir até o fim esta exposição do sr. Leonardo Boff, conselheiro de governantes e, segundo se diz, até de um Papa, bem como, e sobretudo, porta-voz eminente de uma “teologia da libertação” onde não se encontra nenhuma teologia nem muito menos libertação:

“A pobreza não se restringe ao seu aspecto principal e dramático, aquele material, mas se desdobra em pobreza política pela exclusão da participação social, em pobreza cultural pela marginalização dos processos de produção dos bens simbólicos...

“A pauperização gera por sua vez a massificação dos seres humanos. O povo deixa de existir como aquele conjunto articulado de comunidades que elaboram sua consciência, conservam e aprofundam sua identidade, trabalham por um projeto coletivo e passa a ser um conglomerado de indivíduos desgarrados e desenraizados, um exército de mão-de-obra barata e manipulável consoante o projeto da acumulação ilimitada e desumana.

“Essa situação provoca um modelo político altamente autoritário... Somente mediante formas de governo autoritárias e ditatoriais se pode manter um mínimo de coesão e se abafam os gritos ameaçadores que vêm da pobreza.”

O trecho é extraído do livro E a Igreja se Fez Povo (Círculo do Livro, 2011, p. 167). Tudo o que aí se descreve realmente aconteceu. São fatos, e fatos tão bem comprovados historicamente, que não teríamos como recusar ao sr. Boff um definitivo “Amém”, se não nos ocorresse a idéia horrível de perguntar: Aconteceu onde e quando?

O segundo parágrafo fala-nos de algo que aconteceu na Europa nas primeiras décadas do século XIX: massas de camponeses reduzidos à miséria pelo rateio dos seus parcos bens e obrigados a deixar suas terras para vir à cidade compor um “conglomerado de indivíduos desgarrados e desenraizados”, reservatório de mão-de-obra barata para a prosperidade dos novos capitalistas. Karl Marx descreve em páginas que se tornaram clássicas a formação do proletariado urbano com os destroços do antigo campesinato, no começo da Revolução Industrial.

Mas justamente onde isso aconteceu não aconteceu nem pode ter acontecido o que se descreve no parágrafo anterior: a “pobreza política pela exclusão da participação social” e a “pobreza cultural pela marginalização dos processos de produção dos bens simbólicos”. Bem ao contrário, a vinda dos camponeses para as concentrações urbanas coincidiu com o advento das eleições gerais, não apenas convidando mas forçando a participação das massas numa política que lhes era totalmente desconhecida no tempo em que viviam no campo, isoladas dos grandes centros.

E coincidiu também com a criação da instrução escolar obrigatória, que extraía os filhos dos proletários das suas culturas locais provincianas para integrá-los na grande cultura urbana da razão, da ciência e da tecnologia, substancialmente a mesma cultura das classes altas, dos malditos capitalistas. Pode-se lamentar a dissolução das velhas culturas locais, mas ela não aconteceu pela exclusão e sim pela inclusão das massas na vida política e na cultura urbana.

A “exclusão da participação social” e a “marginalização dos processos de produção de bens simbólicos” aconteceram, sim, mas a centenas de milhares de quilômetros dali, em países da África, da Ásia e da América Latina que viriam a ser chamados de “Terceiro Mundo” justamente porque neles não houve Revolução Industrial nenhuma, nem portanto integração das massas, seja na política, seja na cultura urbana.

O sr. Boff cria a unidade fictícia de um espantalho hediondo com recortes de processos históricos heterogêneos e incompatíveis, ocorridos em lugares enormemente distantes uns dos outros. A única realidade substantiva desse monstro de Frankenstein é o ódio que o sr. Boff desejaria instilar contra ele na alma do leitor.

Mas a fisionomia do monstro não estaria completa sem uma terceira peça, que o sr. Boff vai buscar em outro lugar ainda:
“Esta situação, diz ele, provoca um modelo político altamente autoritário... Somente mediante formas de governo autoritárias e ditatoriais se pode manter um mínimo de coesão e se abafam os gritos ameaçadores que vêm da pobreza.”
Descontemos a imprecisão vocabular -- “provocam” em vez de “produzem” – e a sintaxe subginasiana: “esta” em vez de “essa” e “se pode manter um mínimo de coesão e se abafam os gritos” em vez de “se pode produzir um mínimo de coesão e abafar os gritos”. Vamos direto aos ponto essencial: é verdade que para controlar as massas esfomeadas surgiram governos autoritários, mas não na Europa da Revolução Industrial nem nos EUA da mesma época, onde justamente iam triunfando as instituições democráticas junto com o capitalismo nascente, e sim, bem ao contrário, em países subdesenvolvidos (ou empobrecidos pela guerra), que, invejando a prosperidade das nações industrializadas, mas não dispondo de uma classe capitalista pujante e criativa, resolveram industrializar-se às pressas e à força por via burocrática, desde cima, por meio do investimento estatal maciço e da economia planificada. Foi essa a fórmula econômica da Alemanha nazista, da Itália fascista e, obviamente, a de todas as nações socialistas queridinhas do sr. Boff. Foi também, pelas mesmíssimas razões, e embora em menor grau, a da ditadura Vargas e a do governo militar brasileiro.

Leonardo Boff
Em suma, se fosse possível juntar o que há de mau nos países mais distantes, nos tempos mais diversos e nos regimes mais heterogêneos, teríamos aí o monstro ideal contra o qual o sr. Boff deseja voltar a ira da platéia. O sr. Boff aposta na possibilidade de que o leitor não repare na superposição postiça de recortes e, impressionado pela soma de maldades, acredite piamente estar vivendo entre as garras do monstro, tirando daí a conclusão lógica de que deve deixar-se libertar pelo sr. Boff.

Nisso, e em nada mais, consiste a “teologia da libertação”. A técnica da superposição é, a rigor, o único procedimento estilístico e dialético do sr. Boff e o resumo quintessencial do seu, digamos, pensamento. Podemos encontrá-la, praticamente, em cada página da sua autoria, onde em vão procuraremos outra coisa.

Já poucas linhas adiante temos outro exemplo, no trecho em que ele usa a figura de são Francisco de Assis como protótipo do revolucionário que ele mesmo pretende ser. O leitor, paciente e bondoso, por favor, siga mais este paragrafinho:
“Tal atitude [a de S. Francisco ao rejeitar os bens do mundo] corresponde à do revolucionário e não a do reformador e do agente do sistema vigente. O reformador reproduz o sistema, introduzindo apenas correções aos abusos por meio de reformas.... O que [Francisco] faz representa uma crítica radical às forças dominantes do tempo... Não optou simplesmente pelos pobres, mas pelos mais pobres entre os pobres, os leprosos, aos quais chamava carinhosamente ‘meus irmãos em Cristo’.”
Francisco aparece aí, pois, como o revolucionário que em vez de servir ao sistema vigente busca destruí-lo e substituí-lo por algo de totalmente diverso. Nem discuto a inverdade histórica, que é demasiado patente. São Francisco jamais se voltou contra o sistema hierárquico da Igreja, mas, ao contrário, fez da sua ordem mendicante o instrumento mais dócil e eficiente da autoridade papal. Para usar os termos do próprio Boff, corresponde rigorosamente à definição do “reformador” e não à do “revolucionário”.

Mas o ponto não é esse. A coisa mais linda é que, segundo o sr. Boff, quando Francisco se aproxima não somente dos pobres, mas “dos mais pobres entre os pobres”, isto é, dos leprosos, há nisso um claro protesto contra a hierarquia social. Mas desde quando a lepra escolhe suas vítimas por classe social? Não eram leprosos o rei de Jerusalém, Balduíno IV, e o rei da Alemanha, Henrique VII, filho do grande imperador Frederico II e de Constança de Aragão? Francisco recusaria o beijo ao leproso de família rica? Superpondo artificialmente a ideia da deformidade mórbida à da inferioridade econômica, que lhe é totalmente alheia, o sr. Boff faz do menos anti-social dos gestos de caridade cristã um símbolo do ódio revolucionário, e o leitor, estonteado pela imagem composta, nem percebe que foi feito de trouxa mais uma vez, engolindo como pura teologia católica a velha distinção marxista entre reforma e revolução. Desfeito pela análise o jogo de impressões, a “teologia da libertação” do sr. Boff revela-se nada mais que uma técnica de escravização mental.

Sim, o estilo é o homem. Uns escrevem para mostrar, outros para esconder e esconder-se, lançando, desde as sombras, a miragem de uma falsa luz. T


domingo, 18 de janeiro de 2015

Homilia do 2º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



A experiência de Deus

Na narrativa do Evangelho deste domingo, é apresentada a semana inaugural do ministério público de Jesus, que deve culminar nas Bodas de Caná. São João Batista está outra vez com seus discípulos e, vendo Jesus passar, diz: "Eis o Cordeiro de Deus!" O profeta já havia testemunhado sua fé, como conta o evangelista em passagens anteriores. Às suas palavras, os discípulos João e André respondem colocando-se imediatamente no seguimento de Jesus. Eles o interrogam: "Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?" E Ele lhes diz: "Vinde ver."

O evangelista São João descreve o seu primeiro encontro com Jesus, a primeira experiência de Deus. Comentando essa passagem, Santo Tomás de Aquino faz-nos enxergar a importância do testemunho de São João Batista para o encontro de seus dois discípulos com Jesus [1]. Diferentemente dos apóstolos e de Cristo, João Batista não tem sinais e milagres que confirmem sua pregação. O que dá respaldo às suas palavras é tão somente a santidade de vida. Ele arrastava multidões com o exemplo. Por isso, não o vemos nas narrativas evangélicas pregando em outras cidades. Isso seria inoportuno, explica Santo Tomás de Aquino. Por não ter sinais, convinha-lhe um ministério discreto e silencioso. As pessoas é que iam buscá-lo. Aqui, Santo Tomás de Aquino revela-nos o belo contraste entre a evangelização dos padres e a dos leigos. Os sacerdotes, quando pregam, estão acompanhados pelos sinais dos sacramentos. Têm milagres. Os leigos, por sua vez, profetizam com a própria vida, assim como João Batista. É a sua experiência de Deus o milagre para a vida dos outros.

A pregação de João Batista tem ainda uma outra particularidade, se comparada à dos profetas do Antigo Testamento e à dos apóstolos: Ele fala sobre o presente. No Antigo Testamento, os profetas falavam sobre as promessas futuras, ao passo que os apóstolos, na Nova Aliança, falavam sobre o que já havia acontecido. João Batista encontra-se no meio desses dois pólos. Fala agora: "Eis o Cordeiro de Deus!" Apresenta algo admirável, porque se trata de um cordeiro que, morrendo, mata o leão. Como o pai da noiva a conduz ao noivo, João Batista faz as vezes de paraninfo, diz Santo Tomás, levando-nos como Igreja até o esposo Jesus.

Se, seguindo as observações de Santo Tomás, observarmos os vários níveis de interpretação das Sagradas Escrituras, encontraremos toda a riqueza do Evangelho deste domingo. No sentido literal, vemos os discípulos perguntarem a Jesus: "Rabi, onde moras?" Não se trata de uma simples curiosidade. Eles, de fato, queriam estar ao lado de Jesus. O sentido alegórico, além disso, recordá-nos que a casa de Deus é o céu e que, somente através de uma adesão verdadeira aos seus ensinamentos, poderemos encontrá-lo. Os discípulos queriam que Jesus os conduzissem ao céu. E, por último, temos o sentido moral, em que se revela a forma como devemos nos comportar para ganharmos o prêmio divino.

Tudo se resume à experiência de Deus. O homem precisa experimentar o Amor para que possa respondê-Lo. Como isso ocorre? Conforme nos indica Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, experimentamos o amor de Deus, isto é, o Espírito Santo, por meio da ação do Verbo encarnado [2]. Ele é o expirador, por assim dizer. Jesus nos concede um conhecimento com amor, diz Santo Agostinho, quando meditamos seus mistérios e enxergamos tudo o que foi feito pela nossa salvação, desde a manjedoura até a cruz e a ressurreição. Assim o salmista reza: "Em minha meditação, um fogo se acende." (Sl 38, 4) Esse fogo é a verdadeira sabedoria, a sapida scientia — ciência saborosa. Mas para que esse fogo se acenda e as pessoas o procurem, faz-se necessário, como se fez na vida de João e André, o testemunho de um santo. O Evangelho de hoje, portanto, obriga-nos a buscar a santidade, a fim de que os homens creiam e experimentem o amor de Deus. T

Referências:

Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Evangelho de São João, Cap. 1, lição número 15.
Suma Teológica, I, q. 43, a. 5.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A vocação de Frei Bernardo e a nossa vocação


Os Atos do Bem-aventurado Francisco narram que vendo Francisco de Assis no início de sua conversão, Bernardo ficou em dúvidas se aquele pobrezinho tinha realmente algo encantador. Segundo os escritos, certo dia, Bernardo convidou aquela figura diferente para jantar em sua casa e também passar a noite. Francisco aceitou.

Bernardo tinha a intenção de investigar, ver mais de perto como era esse homem. A noite, estando no mesmo quarto, fingiu que estava dormindo. Francisco achando que seu amigo já se entregara ao sono, pois se a rezar. Passou a noite toda dizendo “Meu Deus e meu Tudo”. Bernardo, abrindo os olhos para aquele franzidinho frade, ficou admirado com tamanha devoção.

Alguns pontos parecem ser interessantes neste episódio dos Atos. Primeiro, a sua curiosidade. Chamar para espiar, para ver mais de perto. Nisto já vemos certo encantamento pelo mistério que Francisco apontava. Em Bernardo, existia algo que já o incomodava. Ficou de surdina, atento. E viu o pequeno homem rezando a Deus com todo fervor: “Meu Deus e meu tudo”.

A postura de esvaziamento de Francisco o colocava como que uma transparência diante do mistério. Bernardo foi tocado e logo decidiu seguir as mesmas pegadas do santo.

Diante do mistério, o pobre de Assis era só abertura. Deixava que Deus fosse, por isso, a expressão: “Meu Deus e meu tudo”. Pensar tal postura hoje é desconcertante. Vivemos em um tempo em que se deve cultivar a autoestima a todo preço. Viver bem. E Deus? Esse não pode aniquilar meu ‘euzinho’. Tem, pelo contrário, que fazer tudo o que eu quero, como se a Divindade fosse submissa aos desejos egoístas.

Francisco mostra uma postura totalmente inversa: O centro é Deus. Unicamente Ele. Deus não é um instrumento, um meio para minha realização. Ele realiza-se em mim. Como disse Francisco certa vez: “somo servos inúteis”. Para a mentalidade atual, isso é um escândalo e tais escritos são tidos como ‘arcaicos’, ‘medievais’ (pejorativamente), ‘que, tomado fora do contexto de Francisco, não podem ser entendidos’, pois ‘Francisco era muito duro consigo mesmo e chegou a pedir desculpas para o irmão corpo’, etc e tantas outras argumentações que eliminam a mensagem dos textos.

A busca de realização pessoal (egoísta) hoje é tamanha que, nas diversas releituras desses textos, a fonte é poluída . Diz o que o texto não quer dizer. Transforma o vigor originário dos primeiros frades em ‘açúcar refinado’. O amor forte pelo romantismo, pelo sentimentalismo ou pelo racionalismo.

“Meu Deus e meu Tudo” é a expressão mais profunda de um encontro pessoal com Jesus Cristo. Não se trata de um conceito ou de uma ideologia, mas é uma experiência religiosa, que religa o homem a Deus, ao seu fundamento. Tudo mais é secundário.

A verdadeira autoestima está fincada na consciência clara de que não somos fonte, mas caminhantes que se deparam com A fonte. Ela é nosso sustendo. Podemos dizer de forma radical que ela (fonte =  Deus) ‘somos nós’, pois sem Ele somos nada, não existimos. Nossa construção se ajusta e se equilibra quando descobrimos os fundamentos de nossa existência. O restante são castelos construídos na areia. Só Deus é. Só Ele é “tudo”! T

Por Frei Edson Matias, OFMCap.


domingo, 11 de janeiro de 2015

Homilia da Festa do Batismo do Senhor, por Pe. Paulo Ricardo



Rasgaram-se os céus

Nosso Senhor, sendo Deus, não precisava entrar na fila dos pecadores e ser batizado por São João Batista. Com grande humildade, porém, Ele quis que se cumprisse toda a justiça [1]. A Igreja sempre interpretou esse gesto como uma prefiguração do que Cristo fez na Cruz, tomando sobre Si os nossos pecados. Comenta o Papa Bento XVI:

"O que é verdadeiramente novo é que Jesus queira ser batizado, que entre na multidão triste dos pecadores, que aguardam nas margens do rio Jordão. O batismo implicava uma confissão dos pecados. Na sua essência, era uma confissão dos pecados e a tentativa de se despojar de uma vida falhada e de receber uma nova vida. Podia Jesus fazer isso? Como Ele podia confessar pecados?"
(...)
"Porque se na descida a este batismo estão contidos uma confissão dos pecados e um pedido de perdão para um novo começo, então também está contida neste sim a toda a vontade de Deus num mundo marcado pelo pecado uma expressão da solidariedade com os homens, que se tornaram culpados, mas que se dirigem para a justiça. Somente a partir da cruz e da ressurreição é que todo o sentido deste processo se tornou reconhecível. Ao descerem para a água, os batizandos confessam os seus pecados e procuram ser libertos deste peso que representa terem caído na culpa. O que é que Jesus fez então? S. Lucas, que em todo o seu Evangelho dirige um olhar atento à oração de Jesus, que o representa sempre como orante – em conversa com o Pai –, diz-nos que Jesus recebeu o batismo enquanto orava (3, 21). A partir da cruz e da ressurreição tornou-se claro para a cristandade o que estava acontecendo: Jesus tomou sobre os seus ombros o peso da culpa de toda a humanidade; levou-a pelo Jordão abaixo. Ele inaugura-o com a antecipação da cruz. Ele é, por assim dizer, o verdadeiro Jonas, que disse para os marinheiros: 'Pegai em mim e atirai-me ao mar' (Jn 1, 12). Todo o significado do batismo de Jesus, o seu levar 'toda a justiça', só na cruz é que se revela: o batismo é a aceitação da morte pelos pecados da humanidade, e a voz do batismo – 'Este é o meu filho bem-amado' (Mc 3, 17) – é já um chamado de atenção para a ressurreição. Assim se compreende também como na própria linguagem de Jesus a palavra 'batismo' aparece como designação da sua morte (Mc 10, 38; Lc 12, 50)." [2]
De fato, a eficácia do nosso Batismo depende diretamente de Cristo crucificado, de cujo lado aberto brotaram sangue e água [3]. "O sangue e a água que escorreram do lado traspassado de Jesus crucificado são tipos do Batismo e da Eucaristia, sacramentos da vida nova" [4]. Por meio dos Sacramentos, Cristo perpetua na história a eficácia da Redenção.

Mas, era conveniente que Nosso Senhor fosse batizado? Santo Tomás responde:
"Era conveniente que Cristo fosse batizado (...) porque, como diz Ambrósio: 'O Senhor foi batizado não porque quisesse ser purificado, mas querendo purificar as águas, para que limpas pela carne de Cristo, que não conheceu o pecado, tivessem a força do batismo'. E Crisóstomo acrescenta: 'Para deixá-las santificadas para os que haveriam de ser batizados depois." [5]
Ao invés de Ele ser purificado pelas águas, elas foram santificadas por Ele. Assim como, na Eucaristia, ao invés de o alimento se unir ao nosso corpo, somos nós quem nos unimos ao alimento, que é Cristo, no Seu Batismo, não é Ele quem é purificado, mas as águas que O batizam.

E por que Nosso Senhor foi batizado no rio Jordão? O Aquinate, novamente, responde:
"Foi pelo rio Jordão que os filhos de Israel entraram na terra prometida. Ora, o que tem de especial o batismo de Cristo com relação a todos os outros batismos é que introduz no reino de Deus, simbolizado pela terra prometida. Por isso diz o Evangelho de João: 'Ninguém pode entrar no reino de Deus, a não ser que nasça da água e do Espírito Santo'. É nesse sentido também que Elias dividiu as águas do Jordão, antes de ser arrebatado ao céu numa carruagem de fogo, pois o fogo do Espírito Santo abre a entrada do céu aos que atravessam as águas do batismo. Por isso convinha que Cristo fosse batizado no Jordão." [6]
O Evangelho diz, no versículo 10, que Cristo, "logo, ao sair da água, viu o céu se abrindo, e o Espírito, como pomba, descer sobre ele". No original grego, o verbo utilizado para designar os céus que se abrem é "σχιζομένους", que quer dizer "rasgar". É a mesma palavra usada para se referir ao véu do Templo que se rompe de alto a baixo [7] e às vestes de Cristo, que os Seus carrascos decidiram não rasgar [8]. Perguntando se os céus deviam "rasgar-se" depois do batismo de Cristo, o Doutor Angélico considera três aspectos:
"Como já foi dito, Cristo quis ser batizado para consagrar com seu batismo aquele com o qual nós seríamos batizados. Por isso, no batismo de Cristo devia manifestar-se tudo o que diz respeito à eficácia de nosso batismo. A esse propósito devemos considerar três aspectos. Primeiro, a força principal da qual o batismo recebe sua eficácia, que é a força celeste. Por isso, uma vez batizado Cristo, o céu se abriu para mostrar que, doravante, uma força celeste santificaria o batismo."
"Segundo, para a eficácia do batismo cooperam a fé da Igreja e a fé daquele que é batizado; por isso, os que são batizados fazem a profissão de fé e o batismo é chamado sacramento da fé. Pela fé contemplamos as realidades celestes, que superam os sentidos e a razão humana. Para expressar isso se abriram os céus depois do batismo de Cristo."
"Terceiro, pelo batismo de Cristo especialmente que se abre para nós a entrada no reino dos céus, que tinha sido fechada pelo pecado ao primeiro homem. Por isso, os céus se abriram depois do batismo de Cristo, para mostrar que o caminho do céu está aberto para os batizados." [9]
Santo Tomás ainda tece algumas considerações sobre a importância da oração, a partir da narrativa de São Lucas: "Cristo, batizado, estava em oração, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele" [10]. Ele diz:
"Mas, depois do batismo, o homem precisa da oração constante para entrar no céu; pois, mesmo que os pecados sejam perdoados pelo batismo, permanece a atração ao pecado que nos ataca interiormente, e o mundo e os demônios que nos atacam exteriormente. Por isso, claramente diz o Evangelho de Lucas que 'depois de ter sido batizado Jesus, e enquanto orava, se abriram os céus', porque a oração é necessária aos fiéis depois do batismo. – Ou ainda, para dar a entender que o fato de se abrir o céu aos crentes pelo batismo que se deve à força da oração de Cristo. Por isso, claramente diz o Evangelho de Mateus: 'Abriram-se-lhe os céus', isto é, e a todos por causa dele, como se um imperador dissesse a alguém que pede uma graça para outrem: 'É a ti que faço este favor e não a ele', ou seja, 'a ele, por tua causa', como afirma Crisóstomo." [11]
Quando fomos batizados, os céus se abriram para nós, mas não podemos descuidar da oração, sem a qual estaremos indefesos contra os três inimigos da alma: a carne, o mundo e o diabo. Por isso, ao recebermos este Sacramento, além de professarmos a fé, somos chamados a renunciar a Satanás, às suas obras e seduções.

A oração é necessária porque a graça atual é necessária. Se estamos em estado de graça habitual, todos os dons e virtudes estão em nosso coração, mas, se não rezamos, eles permanecem inoperantes. Neste Domingo, tomemos a firme resolução, o propósito de ter uma vida séria e comprometida de oração. Porque, sem ela, estamos na rampa do inferno, sem proteção contra os inimigos de nossa alma e de nossa salvação e sem as graças necessárias para amar a Deus. T

Referências:

Cf. Mt 3, 15.
Papa Bento XVI. Jesus de Nazaré: primeira parte: do batismo do Jordão à transfiguração. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007. p. 32-34.
Cf. Jo 19, 34.
Catecismo da Igreja Católica, 1225.
Suma Teológica, III, q. 39, a. 1.
Ibidem, III, q. 39, a. 4.
Cf. Mt 27, 51.
Cf. Jo 19, 24.
Suma Teológica, III, q. 39, a. 5.
Lc 3, 21-22.
Suma Teológica, III, q. 39, a. 5.



sábado, 10 de janeiro de 2015

Nota de Falecimento: Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap.


[franciscanos.org.br] Às 23h30 desta sexta-feira, 9 de janeiro, a irmã morte visitou o estudioso e mestre da espiritualidade franciscana e clariana, Frei José Carlos Corrêa Pedroso. Seu corpo está sendo velado na Capela do Seminário São Fidelis no Centro de Espiritualidade de Piracicaba (SP) e o sepultamento será às 17 horas. Frei José Carlos vinha lutando contra um câncer e estava internado desde o último dia 30 de dezembro.

Segundo o Provincial dos Capuchinhos, Frei Carlos Silva, ele lutou até o fim. “Eu o visitei recentemente e ele me disse: ‘ainda estou com esperança'”, contou Frei Carlos. Segundo o Provincial, Frei José Carlos doou sua vida pela espiritualidade franciscana: “Até o último minuto de sua vida, ele se dedicou a esta missão. Ele dormia, comia, respirava a mística franciscana clariana”, disse Frei Carlos.

Para Frei Carlos, o céu ganha com a sua partida, mas nós ficamos com o legado que ele deixou. “Por onde ele passou, deixou essa marca, que é única. Viveu intensamente a vida que abraçou. É um exemplo para nós”, acrescentou Frei Carlos.

Frei José Carlos era frade capuchinho da Província Imaculada Conceição dos Capuchinhos de São Paulo (OFMCap). Licenciado em Letras Clássicas pela Pontifícia Universidade de São Paulo, Frei José Carlos nasceu em São Paulo, no dia 14 de agosto de 1931. Fez a primeira profissão na Ordem Franciscana no dia 8 de janeiro de 1950, há 65 anos. Professou solenemente na Ordem no dia 11 de janeiro de 1953 e foi ordenado presbítero no dia 24 de junho de 1956.

Frei José Carlos era diretor e um dos fundadores do Centro Franciscano de Espiritualidade, em Piracicaba, que foi criado em 1990. Além de grande escritor e palestrante, ele foi Definidor Geral da Ordem Franciscana para América Latina e Grécia por dois sexênios e foi Ministro Provincial também em dois mandatos.

Além da série de livros publicados sobre espiritualidade franciscana, das palestras e aulas que ministrava, Frei José Carlos se dedicava com muita paixão ao Curso Franciscano de Verão, anualmente no mês de janeiro. Ele foi o idealizador do curso em 2008. “É interessante porque sempre sonhei alto, mas neste caso (do curso), a realidade ultrapassou o sonho. Estou feliz com o andamento do curso como nem esperava”, dizia em 2011.

Frei Vitório Mazzuco, que está participando do curso em Águas de São Pedro, escreveu o seguinte texto sobre a morte de seu amigo:
"A Irmã Morte nos visitou para convidar Frei José Carlos Corrêa Pedroso, OFMCap., aos 83 anos, para entrar no Paraíso que ele brilhantemente conquistou! Frei José Carlos fez a sua travessia para a eternidade, às 23h30 da noite do dia 9 de Janeiro, no Hospital dos Plantadores de Cana, de Piracicaba, SP. Este frade de olhar profundo e paternal, sereno, amigo, fraterno e amável, foi sempre uma presença necessária na Família Franciscana e Clariana do Brasil.
Fundou e organizou o Centro de Espiritualidade Franciscana de Piracicaba, hoje uma referência para os que querem conhecer a Espiritualidade, Mística, História e Vida Franciscana e Clariana. Amou profundamente as Fontes Franciscanas e Clarianas. Traduziu, comentou, divulgou. Foi o primeiro a lançar no Brasil as Fontes Clarianas. Dedicou toda sua vida à Espiritualidade Franciscana. Cuidou com carinho todo empenhado e particular, da Formação Contínua dos seus confrades Capuchinhos, das Irmãs Clarissas, das Congregações Femininas e de toda Família Franciscana do Brasil e da América Latina.
Desde 1990 trabalhei e trabalho com ele no Curso de Mística Franciscana, no antigo CEFEPAL, em Petrópolis e no Curso Franciscano de Verão, em Piracicaba e São Pedro (SP), e estive com ele em muitas assessorias, encontros, congressos, jornadas e retiros. Um verdadeiro Mestre. Um apaixonado pela causa franciscana. Foi o primeiro a colocar “on line” a tradução das Fontes Franciscanas. Organizou com carinho a excelente Biblioteca Franciscana do Centro Franciscano de Espiritualidade de Piracicaba.
Foi o maior orientador de Retiros Franciscanos do Brasil. Acompanhava Irmãos e Irmãs que se preparavam para os votos. Fazia acompanhamento personalizado, capaz de orientar retiro para uma, duas, três e 100 pessoas com a mesma vibração. Memorável as Noites Franciscanas que criou em Piracicaba! Dezenas de livros e artigos publicados. Traduções e ensaios, legendou filmes e musicais, tudo para fazer São Francisco e Santa Clara mais conhecidos, mais amados e mais seguidos. Homem de sonhos e projetos. Vigor e ternura, segurança e leveza. Um dos pioneiros na reflexão sobre as relações de gênero, concretizou um natural encontro das potencialidades femininas e masculinas à luz do franciscanismo.
Foi Definidor Geral da Ordem dos Capuchinhos, Provincial, Guardião, Mestre e sempre um expressivo confrade. Fez a sua passagem para a eternidade em pleno Curso Franciscano de Verão, onde me encontro agora e vamos celebrar com os seus Confrades Capuchinhos, Irmãos e Irmãs das três Ordens, das Famílias Regulares, dos Leigos e Simpatizantes do Franciscanismo que a ele devem o acesso fácil e rápido às Fontes Franciscanas e Clarianas, mas sobretudo devem a ele o testemunho transparente de uma vida apaixonada pela causa de Clara e Francisco.
Inteligente, poliglota, grande professor e pregador, nunca deixou de ser humilde e simples. Uma Presença para Sempre! Morreu durante o Curso de Verão que ele criou e incrementou, um dos seus grandes amores! Estamos aqui, emocionados, saudosos, porém não estamos tristes, pois sua vida conquistou a Eternidade no Amor! Vá em paz Frei José Carlos Pedroso! Nós vamos continuar a sua Herança! Paz e Bem!" T

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