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domingo, 17 de agosto de 2014

Homilia da Solenidade da Assunção da Virgem Maria, por Pe. Paulo Ricardo




A realeza de Maria Santíssima

Em 1950, o Papa Pio XII, por meio da constituição apostólica Munificentissimus Deus, definiu “ser dogma divinamente revelado que a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” [1]. Ou seja, Deus, em sua bondade, dispôs que o corpo de Maria, que carregou em seu ventre o próprio Verbo humanado, fosse poupado da corrupção do túmulo. Por mais que se usem argumentos para explicar logicamente esse mistério, a Assunção de Maria é um ato gratuito e livre de amor do Todo-Poderoso, que quis elevar a bem-aventurada Virgem Maria primeiro à glória do Céu.

O argumento mais convincente para a elevação de Nossa Senhora é o da ausência. Não existe nenhum lugar onde se possa dizer que o seu corpo esteja enterrado. Como é possível que os primeiros cristãos, que conservavam os sepulcros dos grandes santos e padres da Igreja primitiva, não tenham guardado o túmulo da mãe de Cristo? De fato, existe um túmulo no Getsêmani, mas ele frequentemente é referido como um “túmulo vazio”, pois os fiéis católicos, desde o começo, creem que Maria está ressuscitada na glória dos céus.

É interessante que, no mosaico da abside da Basílica de Santa Maria em Trastevere, em Roma, Nossa Senhora não só está à direita de Nosso Senhor – como indicam as palavras do salmista: “À vossa direita se encontra a rainha com veste esplendente de ouro de Ofir” [2] –, mas os dois se encontram sentados no mesmo trono. Jesus tem seu braço direito envolvendo Sua mãe e ela, que tem em uma mão um manuscrito do Cântico dos Cânticos, mantém os seus dedos apontados para Jesus – a Rainha que aponta para o Rei. É uma imagem do que acontece nas bodas de Caná, quando ela diz: “Fazei tudo o que ele vos disser” [3], e do que rezamos na Salve Rainha: Et Iesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exsilium ostende. Depois deste desterro, ela realmente nos mostra Jesus.

Essa figura de Jesus e Maria sentados no mesmo trono está profundamente enraizada na teologia bíblica. No livro Queen Mother: A Biblical Theology of Mary’s Queenship [“Rainha Mãe: Uma Teologia Bíblica da Realeza de Maria”][4], Edward Sri explica como, no reino de Judá, o rei sempre reinava juntamente com sua mãe. Assim, por exemplo, Salomão, ao ser entronizado como rei, colocou sua mãe, Betsabéia, à sua direita: “Betsabéia foi até o rei Salomão para falar a respeito de Adonias. O rei levantou-se e veio a seu encontro, prostrou-se diante dela e, depois, sentou-se no trono. Puseram também um trono para a mãe do rei, a qual sentou-se à sua direita” [5]. Essa cerimônia do Antigo Testamento nada mais é que prefiguração do reinado de Cristo e de Sua mãe, Maria Santíssima, para quem também foi colocado um trono no Céu. Apenas São Gabriel Arcanjo diz a Maria que “o Senhor Deus lhe dará [a Jesus] o trono de Davi, seu pai” [6], ela tomou consciência de que seria rainha.

Santo Afonso Maria de Ligório ensina, citando São Pedro Damião, que o mistério da subida de Maria aos céus foi mais solene do que a ascensão de Jesus, “porque só os anjos saíram ao encontro de Jesus Cristo, mas Nossa Senhora foi assunta ao céu na presença do Senhor da glória e de toda a sociedade bem-aventurada dos anjos e dos santos” [7]. A Igreja recorda a realeza de Maria na Liturgia, quando lê a passagem do Apocalipse de São João que fala de “uma Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas (...). E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro” [8].

Quando celebramos o mistério da Assunção, não estamos simplesmente lembrando a elevação de Nossa Senhora, como também o mistério de Sua presença. Em uma introdução à encíclica Redemptoris Mater, de São João Paulo II, o cardeal Joseph Ratzinger, comentando o método usado pelo Papa para escrever esse documento, diz que ele nos apresenta uma “mariologia histórico-dinâmica”. Ou seja, ao invés de seguir a esteira da mariologia do século XIX e início do XX, a encíclica prefere apresentar os mistérios, não como realidades estáticas, mas como um dom que nos alcança:
“Maria não habita apenas no passado ou em altas esferas do céu sob a imediata ação divina; ela permanece presente neste momento histórico real; ela é uma pessoa agindo aqui e agora. Sua vida não é apenas uma realidade que está atrás de nós, ou acima de nós; mas ela vai à nossa frente, como o Papa faz questão de enfatizar” [9].
De fato, fazendo menção do ensinamento do Concílio Vaticano II [10], o Papa recorda que:
“Maria contribui de maneira especial para a união da Igreja peregrina na terra com a realidade escatológica e celeste da comunhão dos santos, tendo já sido ‘elevada ao Céu’. (...) No mistério da Assunção exprime-se a fé da Igreja, segundo a qual Maria está ‘unida por um vínculo estreito e indissolúvel a Cristo’, pois, se já como mãe-virgem estava a Ele unida singularmente na sua primeira vinda, pela sua contínua cooperação com Ele o estará também na expectativa da segunda: ‘Remida dum modo mais sublime, em atenção aos méritos de seu Filho’, ela tem também aquele papel, próprio da Mãe, de medianeira de clemência, na vinda definitiva, quando todos os que são de Cristo forem vivificados e quando ‘o último inimigo a ser destruído será a morte’ (1 Cor 15, 26).” [11]
É como “medianeira de clemência” que os cristãos invocam a Virgem Santíssima na oração da Salve Rainha: depois de manifestar a nossa condição de pecadores e “degredados filhos de Eva” “neste vale de lágrimas”, o texto pede à toda santa Mãe de Deus – eis a única graça que nos importa pedir – que nos mostre Jesus.

Essa bela prece, escrita pelo bem-aventurado Hermano Contractus, monge na abadia de Reichenau, no século XI, foi popularizada quando Pedro, o Venerável, abade de Cluny, ordenou que ela fosse cantada nas festas da Assunção. Rezemo-la com fervor, proclamando a realeza de Maria no Céu e a sua presença como mãe e medianeira em nossas vidas. T

Referências:

Sl 44, 10.
Jo 2, 5.
1 Rs 2, 19. Cf. também, sobre esse assunto, RC 187: Por que nós chamamos a Virgem Maria de Rainha e de Senhora?
Lc 1, 32.
Glórias de Maria, p. II, I, 8, 1.
Ap 12, 1.5.
Joseph Ratzinger, The Sign of the Woman, 21.
Cf. Lumen Gentium, 53.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Tentando criar um clima de entendimento...


No Evangelho de hoje, São Mateus convida os membros da comunidade a viverem em harmonia. Inevitável que, em qualquer grupo de discípulos haja diferenças e desentendimentos causados pela fragilidade, como também, pela fé imatura, não desenvolvida. O discurso de Jesus pede que se busque o entendimento e não se adote a postura da peremptória condenação. Por detrás das linhas hoje proclamadas há um convite à Igreja para que volte ao espírito do Senhor.

José Antonio Pagola fala da necessidade de a Igreja aprender a reunir-se em nome de Jesus.

“Para quem vive na Igreja buscando nela a comunidade de Jesus, a Igreja é quase sempre fonte de alegria e motivo de sofrimento. Por um lado a Igreja é estímulo e alegria; podemos experimentar dentro dela a lembrança de Jesus, escutar sua mensagem, rastrear seu espírito, alimentar nossa fé no Deus vivo. Por outro lado, a Igreja faz sofrer, porque observamos nela incoerências e rotina; com frequência é grande demais a distância entre o que prega e o que se vive; falta vitalidade evangélica; em muitas coisas foi-se perdendo o exemplo de Jesus. Esta é a maior tragédia da Igreja. Jesus não é amado nem venerado como nas primeiras comunidades. Não se conhece nem se compreende a sua originalidade. Muitos não chegarão sequer a suspeitar a experiência salvadora que viveram os que por primeiro se encontraram com ele. Fizemos uma Igreja onde não poucos cristãos imaginam que, pelo fato de aceitar algumas doutrinas e de cumprir algumas práticas religiosas, estão seguindo a Cristo como os primeiros discípulos. E, não obstante, é nisto que consiste o núcleo essencial da Igreja: em viver a adesão a Cristo em comunidade, reatualizando a experiência daqueles que encontraram nele a proximidade, o amor e o perdão de Deus. Por isso, talvez o texto eclesiológico mais fundamental são essas palavras de Jesus que lemos no Evangelho: “Onde dois ou três estiverem reunidos eu estarei no meio deles”. A primeira tarefa da Igreja é aprender a “reunir-se em nome de Jesus”. Alimentar sua lembrança, viver de sua presença, reatualizar sua fé em Deus, abrir novos caminhos a seu Espírito. Quando falta isto, tudo corre o risco de ficar desvirtuado por nossa mediocridade” (José A. Pagola, O caminho aberto por Jesus, Mateus, Vozes, p. 226-227). T



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Santa Clara de Assis: Mestra da união esponsal


O crescimento espiritual de uma pessoa depende, em boa parte, de um adensamento de seus relacionamentos com o Senhor e do cultivo de um amor ao próximo. Os que são responsáveis por orientar outros no caminho da vida interior sabem perfeitamente que precisam conhecer experimentalmente a Deus e, ao mesmo tempo, ter tino e tato de perscrutar, com o auxílio do Espírito, o coração dos que lhes foram confiados. Deverá ter clareza a respeito dos princípios teológicos do crescimento na vida espiritual. Para acompanhar os outros a crescerem será conveniente fazer o levantamento de suas potencialidades e possibilidades. E, em resumo, abrir os caminhos para que o Espírito possa agir.

Uma das dificuldades que experimenta uma pessoa que está à frente de outras na tarefa formativa é a da aquisição de uma habilidade teológica e psicológica para que possa ser feita uma leitura autêntica dos dinâmicos relacionamentos entre Deus e o homem. O Senhor já está em ação nas pessoas. Clara é verdadeira guia espiritual para a vida franciscana. Seus escritos revelam uma compreensão profunda da espiritualidade franciscana, dos grandes tema da espiritualidade monástica, assim como revelam uma aguçada compreensão da condição humana.

Clara não é uma substituta de Francisco que foi para ela pai e guia espiritual. Ela mesma faz questão de se autodefinir como plantinha do seráfico Pai. Clara tem títulos que a fazem mestra de espiritualidade franciscana. Em razão de seu relacionamento todo particular com São Francisco e da qualidade de seu conhecimento a respeito do “mistério” do Poverello e de sua visão mística da realidade humana e do mundo espiritual, fruto de muitos anos de vida contemplativa e de orientadora das irmãs pobres de São Damião e pelo fato de ser mulher, Clara, mais do que qualquer outra pessoa, é o complemento mais significativo e mais essencial de São Francisco e, desta forma, uma autêntica guia espiritual para vida franciscana. Na teia rica da espiritualidade seráfica, Clara nos leva à contemplação e nos convida a que a entremos no âmbito do relacionamento conjugal com Cristo.

Nos seus escritos transparece o tema do desejo de união com o Cristo esposo. A doutrina espiritual de Clara brota de sua experiência mística, experiência cristocêntrica e mariana. Mais do que teológico-conceitual seu cristocentrismo é, antes de tudo, afetivo e experiencial. Insiste na necessidade Absoluta de se procurar a comunhão de vida com o Cristo esposo, pobre e humilde, caminho para união com o Pai. Corolário deste tema basilar é o desejo do céu (união plena com Deus) para além dos atrativos deste mundo.

O tema do desejo da união com Cristo é dos mais importantes e singulares em Clara. A essência da vida para as irmãs pobres de São Damião é antes de tudo amar uma pessoa, Jesus Cristo, e assim responder ao seu amor. Trata-se de dar-se a Cristo. Nada querer que não seja Cristo Jesus (Legenda 13). Sua espiritualidade é ele: o Filho de Deus que por nós se fez caminho (Testamento 5). A pedra angular de todo o edifício religioso, de toda a vida espiritual de Clara e de suas irmãs, consiste em estarem ligadas por um afeto pessoal a Cristo Jesus com amor ardoroso e apaixonado. Por causa de Cristo, em vista de Cristo, perto de Cristo se realizam todas as suas experiências e se constrói o edifício da vida espiritual das irmãs.

Suas cartas a Inês de Praga estão repletas de expressões que, a princípio, poderiam ser simples observações de afetividade feminina. Em parte, assim, podem ser interpretadas. Elas são também ser um sinal da natureza afetiva da espiritualidade franciscana. Trata-se da linguagem do amor intenso e do desejo de união com o esposo divino que havia se apossado tanto do coração de Clara como do de Inês. O mesmo já havia acontecido com Francisco: “Quem seria capaz de narrar a caridade fervorosa que ardia em Francisco, o amigo do esposo? Parecia, de fato, todo absorto, como um carvão ardente, na chama do amor divino. Ao ouvir falar do amor do Senhor, subitamente se excitava, se comovia, se inflamava, como se com a palheta da voz exterior se tocassem as cordas mais íntimas do coração” (Legenda Maior IX, 1-2).

Servindo-se da imagem esponsal Clara define implicitamente a vida franciscana como caminho permanente de busca do Senhor, a única coisa necessária (2ª. Carta a Inês, 1), o tesouro incomparável (3ª. Carta), ligando-se a ele e a ele se unindo em contemplativo abraço para experimentar misticamente sua presença, para segui-lo e imitá-lo e conformar a vida e o pensamento a ele que a nós se entregou totalmente (2ª.Carta, 15).

Com as mesmas palavras usadas por Francisco na Regra, Clara sublinha a prioridade absoluta que deve ser dada ao desejo de união com Cristo, união que se realiza na alma pelo Espírito Santo: “lembrem-se, que acima de tudo devem desejar ter o Espírito do Senhor e sua santa operação (Regra de Clara X,9).

Assim, a linguagem do desejo ardente da união com Cristo aparece, antes de tudo e primordialmente nas Cartas a Inês: “…ficai firme no santo serviço do Pobre crucificado, ao qual vos dedicaste com amor ardente (1ª. Carta 13). Mais claramente ainda: “Achei bom suplicar a vossa excelência e santidade, na medida do possível, com humildes preces, nas entranhas de Cristo, que vos deixeis fortalecer em seu santo serviço, crescendo de bem para melhor, de virtude em virtude, para que aquele que servis com todo o desejo do coração se digne dar-vos os desejados prêmios (1ª Carta 31-32).

Quando se reflete sobre o amor esponsal de Clara pelo Cristo necessário ter em mente os dizeres da 4ª. Carta onde Clara mostra ter familiaridade com o Cântico dos Cânticos: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor de teus bálsamos (Ct 1,3), ó esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega (Ct 2,4), até que a tua esquerda esteja sobre a minha cabeça, sua direita me abrace (Ct 2,6) toda feliz e me dês o beijo mais feliz de tua boca (Ct 1,1)” ( 4ª. carta 27-32) T



domingo, 10 de agosto de 2014

Homilia do 19º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo




A provação da nossa fé

Narra o Evangelho deste Domingo que, “depois da multiplicação dos pães, Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar”. É o próprio Jesus quem manda os Seus discípulos para uma situação de perigo. Embora essa ordem nos possa deixar perplexos, São João Crisóstomo a explica: “Ele permite que eles passem toda a noite em perigo para, desta maneira, excitar o temor no coração dos discípulos e suscitar neles um desejo grandíssimo de Si e a Sua memória ininterrupta. Por isso não os ajudou imediatamente, mas, à quarta vigília da noite, veio até os discípulos, andando sobre o mar” [1].

Enquanto os discípulos permaneciam no mar agitado, escreve o evangelista que “Jesus subiu ao monte, para orar a sós”. Situação análoga enfrenta hoje a barca da Igreja: enquanto ela é confrontada pelo vento impetuoso e pelas ondas fortes, Jesus permanece no “monte”, intercedendo por ela. Comenta Santo Agostinho que:
“Em sentido místico, toda montanha designa altura. E, neste mundo, que há de mais alto que o céu? A fé conhece quem é Aquele que verdadeiramente sobe ao céu. Mas por que ascende sozinho? Porque ‘ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu’ (Jo 3, 13). Ainda quando vir no final dos tempos, para nos levar ao Céu, Ele subirá sozinho, porque a cabeça com o corpo formará um só Cristo. Agora, no entanto, sobe apenas a cabeça. Sobe para orar porque sobe ao Pai para interceder por nós” [2].

Por ora, então, a Igreja é provada, assim como foi provado São Pedro. Ao ver o Senhor andando sobre as águas, o discípulo, tomado de coragem, “lhe disse: ‘Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água’. E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’”

O Apóstolo Pedro só começa a afundar por causa de sua pouca fé, como o Evangelho conta: “Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: ‘Homem fraco na fé, por que duvidaste?’” A palavra grega usada por São Mateus é “Ὀλιγόπιστε”, que significa, literalmente, “pouca fé”. Se ele tinha “pouca fé”, isso significa que a fé pode crescer.

Santo Tomás de Aquino explica que:
“A magnitude de um hábito se pode considerar sob dois aspectos: o objeto e a sua participação no sujeito. Também se pode considerar o objeto sob dois aspectos: ou segundo a razão formal ou atendendo materialmente às coisas propostas para crer. O objeto formal da fé é único e simples, isto é, a Verdade primeira, como já expusemos. Desde esse ponto de vista, a fé não se diversifica nos crentes, mas é especificamente uma em todos, como dizemos. Mas as verdades materialmente propostas para crer são muitas e podem ser acolhidas mais ou menos explicitamente. Sob esse aspecto se pode crer explicitamente mais coisas que outro, como também pode ser maior a fé no sentido de um maior desenvolvimento de seu objeto. Considerando a fé segundo a participação no sujeito, oferece-se a desigualdade de duas maneiras, enquanto, como já exposto, o ato de fé procede da inteligência e da vontade. Pode-se, portanto, dizer que a fé é maior em um que em outro, ou por parte da inteligência, por causa de sua maior certeza e firmeza, ou por parte da vontade, por causa de sua maior prontidão, entrega e confiança.” [3]
“O ato da fé – explica, noutra parte – é ato da inteligência determinado ao assentimento do objeto pelo império da vontade. O ato, pois, de fé está em relação tanto com o objeto da vontade – o bem e o fim – como com o objeto da inteligência, que é a verdade” [4]. Hoje em dia, muitas pessoas tendem a ver a fé como um sentimento. Mas, o Aquinate lembra que se trata de um ato da vontade: ela ordena a inteligência que, por sua vez, crê.

Para que cresçamos na fé, precisamos entrar na amizade com Deus, pois é o amor o que dá forma a todas as virtudes. Ao cometer um pecado mortal, embora restem as virtudes da fé e da esperança na alma – a menos que se tratem de faltas diretas contra a fé e a esperança –, extingue-se imediatamente a caridade. Urge recuperá-la, por meio da reconciliação, para praticar verdadeiros atos de amor a Nosso Senhor. Nesse processo, são importantes as provações que Jesus permite que soframos – assim como o mar agitado e o vento forte foram importantes para São Pedro –, porque a fé, uma vez provada, faz aumentar o nosso amor. Diante das dificuldades, lancemo-nos com destemor à vontade de Deus, confiando na palavra do Apóstolo: “Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” [5], e repetindo, com o pai do menino epilético do Evangelho: Senhor, “eu creio, mas ajuda-me na minha falta de fé” [6].

Também é importante destacar que, em nossa luta espiritual pela fé, a ação demoníaca para nos perder é viva e atuante. Não é raro que aconteça de o demônio suscitar em nós alguma dúvida, a qual se deve repelir com firmeza e prontidão. Essa dúvida não se confunde com um questionamento intelectual, que, ao invés de pôr em questão a autoridade de Deus, nos ajuda a estar “sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que a pedir” [7]. Como ensina o Bem-aventurado John Henry Newman, “dez mil dificuldades não geram a dúvida”.

Para que percamos a fé, Satanás também se utiliza das más leituras e de nossa própria soberba intelectual – o mais perigoso obstáculo que podemos enfrentar, pois que fecha o nosso coração à misericórdia divina. Como preleciona São Pedro, “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” [8]. Aproximemo-nos, pois, confiantemente de Deus, peçamos-Lhe que aumente a nossa fé, humilhemo-nos diante de Sua presença e, principalmente, busquemos amá-Lo, pois o “o amor é o vínculo da perfeição” [9]. T

Referências:

Homiliae in Matthaeum, 50, 1. Apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 5
Sermo 75, 2-3. Apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 5.
Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 4.
Suma Teológica, II-II, q. 4, a. 1.
Rm 8, 28.
Mc 9, 24.
1 Pd 3, 15.
1 Pd 5, 5.
Cl 3, 14.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

08 de Agosto: Dia de São Domingos de Gusmão


Sacerdote fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). (1170-1221). Canonizado por Gregório IX no dia 3 de julho de 1234.

Domingos (ou Dominique) nasceu no ano de 1170, em Caleruega, pequena localidade na Velha Castelha. O pai, Félix de Gusmão, pertencia a uma família de alta linhagem na Espanha; a mãe era Joana de Aza. Antes de Domingos nascer, sua mãe, em sonho misterioso, viu um cão que trazia na boca uma tocha acesa, de que irradiava luz sobre o mundo inteiro. Efetivamente, São Domingos veio a ser uma luz extraordinária de caridade e de zelo apostólico, que dissipou grande parte das trevas das heresias e restabeleceu a verdade em milhares de corações vacilantes. Domingos, foi o nome dado à criança, devido à uma devoção que a mãe do santo tinha com São Domingos de Silos, do qual um dia teve uma aparição, comunicando-lhe os planos divinos em referência ao recém-nascido. A esse aviso extraordinário, os pais corresponderam com esmerada atenção na educação do filho. Domingos, pequeno ainda, deu provas de inclinação declaradíssima às coisas de Deus.

Seis anos contava o menino quando os pais o confiaram à direção de um tio, reitor de uma igreja em Gumyel. Sete anos passou Domingos na escola daquele sacerdote, aprendendo, além das primeiras letras, como sejam, acolitar, enfeitar os altares e cantar no coro. Terminado este curso prático, transferiu-se para Valência, cidade episcopal no reino de Leon, onde existia uma universidade que mais tarde, em 1217, passou para Salamanca.

Durante o tempo dos estudos em Valência, isto é, durante seis anos, dedicou-se à arte retórica, além da filosofia e teologia. Acompanharam-lhe os trabalhos científicos às práticas da piedade, inclusive, severas penitências. Retraído por completo do mundo, visitava somente os pobres e doentes, protegia as viúvas e órfãos. Por ocasião de uma grande fome, vendeu os livros para poder socorrer os necessitados. Certa vez, ofereceu sua própria pessoa para resgatar um jovem que caíra nas mãos dos mouros.

A caridade de Domingos, não satisfeita com as obras corporais de misericórdia, estendia-se principalmente às necessidades espirituais do próximo. Para este fim, desenvolveu um zelo extraordinário, como pregador. O primeiro fruto deste labor apostólico, foi a conversão do amigo e companheiro dos estudos, Conrado, que mais tarde entrou para a ordem de Cister, elevado posteriormente à dignidade de Cardeal da Santa Igreja.

Domingos contava apenas vinte e quatro anos e era considerado um dos mais competentes mestres da vida interior. Dom Diego de Asebes, bispo de Osma, conhecendo os brilhantes dotes de Domingos, convidou-o a incorporar-se ao cabido da diocese, esperando desta aquisição uma reforma salutar do clero. O prelado não se viu iludido nas suas previsões. Domingos, em pouco tempo, foi objeto da admiração de todos, como modelo exemplaríssimo em todas as virtudes cristãs.

Como cônego de Osma, Domingos percorreu diversas províncias da Espanha, pregando por toda a parte a palavra de Deus, pela conversão dos pecadores, cristãos e maometanos. Uma das conversões mais sensacionais que Deus operou por intermédio de Domingos foi a de Reiniers, célebre heresiarca, que mais tarde tomou o hábito dos frades dominicanos.

Domingos não era ainda sacerdote. Do bispo de Osma recebeu a unção sacerdotal, continuando depois a missão apostólica de pregador. Quando, em 1224, por ordem do rei Afonso de Castelha, o bispo de Osma foi à França na qualidade de embaixador real, a fim de tratar dos negócios matrimoniais do príncipe herdeiro Fernando com a princesa de Lussignan, Domingos acompanhou-o. Na província de Languedoc, puderam de perto observar as horríveis devastações feitas pelos albingenses. Numa segunda viagem que empreenderam, cujo fim era buscar a princesa e entregá-la ao esposo, tiveram o grande desgosto de não a encontrar entre os vivos. Chegaram ainda a tempo de assistir-lhe ao enterro.

Preferiram, então, ficar na França, para dedicar-se à campanha contra os hereges. O bispo Diego, com o consentimento do Papa, ficou três anos na província de Languedoc. Passado este tempo, voltou à diocese.

São Domingos, que foi nomeado superior da Missão, associaram-se doze abades cistercienses. Pouco tempo, porém, durou o trabalho coletivo. Dom Diego voltou à Espanha, os cistercienses retiraram-se para os seus claustros e o próprio Legado pontifício abandonou o solo francês.

Domingos não desanimou, apesar da missão se tornar dificílima e perigosa. Com mais oito companheiros que lhe foram mandados, continuou os trabalhos apostólicos. A inconstância, porém, que encontrou nos coadjutores, fez nele amadurecer a ideia de fundar uma nova Ordem, cujos membros, por um voto, se dedicassem à obra da pregação. Os primeiros que se lhe associaram foram Guilherme de Clairel e Domingos, o Espanhol. Em 1215, a nova comunidade contava já dezesseis religiosos, com seis espanhóis, oito franceses, um inglês e um português.

Para assegurar-se da aprovação pontifícia, Domingos em companhia do bispo de Toulouse foi à Roma e apresentou-se ao Papa Inocêncio III. Coincidiu de ele chegar à capital da Cristandade na abertura do Concílio de Latrão. Opinaram os padres que em vez de aprovar as regras de novas ordens, devia o Concílio dirigir a atenção para as Ordens já existentes e aperfeiçoar-lhes as constituições. Inocêncio III, baseando-se nestas decisões, negou-se, por diversas vezes, em dar aprovação à regra da Ordem fundada por Domingos. Aconteceu, porém, que o Papa teve uma visão, quase idêntica à que lhe fez aprovar a Ordem de São Francisco de Assis, em 1209. Não querendo contrariar a obra do santo homem, deu consentimento à fundação da Ordem, prometendo a Domingos expedir a bula, logo que este tivesse adotado uma regra de ordem já aprovada pela Igreja. Domingos decidiu-se em favor da regra de Santo Agostinho, à qual acrescentou mais algumas constituições, como por exemplo, o silêncio, o jejum e a pobreza.

Quando Domingos, pela segunda vez chegou a Roma, já não encontrou o Papa Inocêncio III, mas o sucessor deste, Honório III. Contrariamente ao que receava, obteve a aprovação da Ordem, que veio a ser chamada Ordem dos Pregadores. Nomeado o primeiro superior, fez a profissão nas mãos do Papa.

Graças à generosidade do bispo de Toulouse e do conde Simão de Montfort, Domingos pode construir o primeiro convento em Toulouse. O número dos religiosos crescera consideravelmente, de modo que Domingos pode introduzir em a novel comunidade e regra recém-aprovada.

Pouco tempo depois, Domingos voltou à Roma e fundou diversos conventos na Itália. Em Roma, conheceu São Francisco de Assis, a quem se tornou um grande amigo. Em 1218 foi a Bolonha fundar um convento, perto da Igreja de Nossa Senhora de Mascarella. Um ano depois, teve Domingos a satisfação de fundar outro na mesma cidade, sendo que este, tempos depois, veio a ser um dos mais importantes da Ordem na Itália.

O exemplo de São Francisco de Assis e o admirável desenvolvimento da Ordem por ele fundada, influiu grandemente no espírito de são Domingos. Como o Patriarca de Assis, introduziu S. Domingos na sua ordem o voto de pobreza em todo o rigor.

São Domingos convocou três capítulos gerais e teve o prazer de ver a Ordem se estabelecer na Espanha, em Toulouse, na Provença e na França toda. Conventos surgiram na Itália, Alemanha e Inglaterra. O próprio fundador mandou emissários à Irlanda, Noruega, Ásia e Palestina.

São Domingos morreu no dia 06 de agosto de 1221, na idade de 51 anos. Numerosos milagres por seu intermédio Deus se dignou de fazer. O Papa Gregório IX inseriu-lhe o nome no catálogo dos Santo, em 23 de julho de 1234. Muito concorreu para o culto de São Domingos na Igreja Católica, a devoção do Santíssimo Rosário, de quem era grande Apóstolo.

A Ordem dos pregadores deu à Igreja, muitos Santos, entre estes o grande São Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, Santa Catarina de Siena, São Vicente Ferrer, o Papa Pio V. T

Referências bibliográficas:
1. Na luz Perpétua, 5ª. ed., Pe. João Batista Lehmann, Editora Lar Católico – Juiz de Fora – Minas Gerais, 1959. 2. 
Oração das Horas – Editora Vozes, Paulinas, Paulus e Ave-Maria, 1996. 



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Série: "Miséria e Graça na VRC": Por que "Miséria"?


A ideia de tratar sobre a Vida Religiosa e Consagrada surgiu da vivência que tenho dessa forma de vida e dos estudos que realizei em Psicologia, Teologia e Ciências da Religião. E não há dúvidas que a reflexão e auto-reflexão é um dos carros chefes da vida em comunidade e religiosa. Sem isso seria impossível, no meu entender, um caminhar consciente.

Por outro lado, em tempos de superficialidades das relações, da época da indiferença, começar a questionar e olhar para dentro de nossa própria casa não é fácil. Tanto a nível pessoal como comunitário. O comodismo que a VRC chegou é espantoso. Estamos por demais atolados em nós mesmos. Como se girássemos em volta do nosso próprio umbigo. Cutucar a ferida é necessário e honestidade é um dos primeiros passos para nossa conversão.

O Papa Francisco tem chamando a VRC a dar sua resposta, como também tantos superiores de Congregações. Não é indiferente que teremos um ano dedicado a esta forma de vida. Antes, as profecias vinham da base. Religiosos e religiosas imersos na realidade das comunidades, famílias, igrejas pequenas, se tornavam sal e luz. Não que isso não aconteça mais, porém, se esfriou bastante o profetismo. Agora a chamada de atenção é feita de cima, das autoridades eclesiásticas e temos dificuldades de colocar em prática aquilo que já devia estar sendo feito nos pilares.

Dou um exemplo claro de tal situação. Em minha Ordem, o governo geral convocou um grupo de trabalho, que desembocará no Conselho Plenário da Ordem, para tratar do trabalho. Tendo como temática "A graça de trabalhar". Esse conselho se reunirá para elaborar um documento maior. Interessante notar que a escolha do tema já fala da realidade existente dentro de nossa família religiosa: a falta de uma compreensão e prática do serviço. Ou seja, estamos por demais acomodados às estruturas e, por vezes, distanciados de nosso carisma próprio.

Somos convidados, a partir de nossa realidade concreta, a descobrirmos novas saídas. Uma crise se estalou na VRC consagrada. Porém, isso não quer dizer que as coisas estão gravíssimas, mas, ao menos graves. É necessário perceber nossas sombras e trabalhá-las.

Assim, o tema “Miséria e Graça na VRC” quer fazer alguns apontamentos e propor reflexões que nos auxiliem no entendimento da realidade. De início, precisamos entender que por ‘miséria’ não queremos falar de algo totalmente ruim, mas daquela realidade que faz parte de nós: nosso egoísmo e atitudes anti-evangélicas. Fechar os olhos para isso é como criar ‘castelo de cristal’ ou ‘casas na areia’.

Por muito tempo a VRC frisou muito a penitência, a mortificação corporal, a negação do corpo e os desejos. Como num pêndulo se foi para o outro lado rapidamente: passou-se a buscar a realização pessoal, o bem estar comunitário e fraterno. Muita coisa boa obtemos nessa virada, porém, talvez, caímos no exagero. Hoje quase não se trabalha na formação inicial dos novos religiosos os pecados capitais, por exemplo. Em muitos casos são ignorados, pois, por ‘pecado’ se entende um conceito do passado, algo retrógrado, antiquado. E hoje é preciso se aceitar como se é. O exagero dessa visão acaba por cultivar o egoísmo e assim o individualismo. Aquilo que era para ser o processo de individuação do sujeito acabou em muitas situações em individualização fechada no próprio ego.

É fácil perceber tal atitude na VRC. Basta olhar os frutos, os comportamentos visíveis do religioso ou da religiosa. A busca pessoal de realização fica acima das relações comunitárias. E pode chegar a tal ponto que nós interpretamos ‘as boas relações comunitárias’ como aquelas que possam sempre nos servir. Ou seja, a comunidade está voltada para mim e não eu para a fraternidade. O indivíduo passa a ser o centro da relação e não mais o fraterno. Este no caso aqui é na realidade fratricídio de si próprio e do outro. Relações de dependência e co-dependências são rapidamente estaladas nesse ambiente e o modelo acaba por se propagar nas novas gerações.

Lembremos da situação do evangelho quando a mãe de Jesus e seus irmãos chegam e mandam chama-Lo. Um dos seguidores do Mestre diz: “Sua mãe e seus irmãos estão aí fora”. Jesus reponde: “Quem são minha mãe e meus irmãos?” Logo ouvimos o desfecho: “Todos aqueles que ouvem e colocam em prática a vontade de Deus”. Nas relações neuróticas, o trecho evangélico não é posto em prática. Opta-se pelo medo e pela insegurança. Criam-se comunidades infantilizadas e pessoas mimadas que depois estarão repedindo o comportamento na liderança de comunidades e instituições.

Tal realidade é um exemplo daquilo que queremos tratar no conjunto dessas reflexões sobre VRC. São nossas misérias, nossa tendência ao mal que carregamos e que precisam ser trabalhadas desde o processo inicial de formação. Reconhecê-las é passo fundamental para ter um religioso (a) mais equilibrado e humano. 

De certa maneira, carregaremos essas tentações até findar nossa caminhada nessa terra. Contudo, isso não quer dizer que caiamos em um negativismo sobre nós mesmos e a realidade humana como um todo. Precisamos ser realistas sobre nossa condição. Somos limitados e é justamente a partir desta constatação que poderemos ser pessoas melhores. A humildade, por exemplo, somente vem com esse reconhecimento. Por nós mesmos nada podemos fazer. É Deus quem opera com Sua Graça.

Porém, a ideia de auto realização, auto autoestima que adentrou, via um psicologismo infantilizador, na VRC, tem extrema dificuldade de aceitar e trabalhar tal realidade. Reconhecer nossa condição de pecadores não quer dizer humilhação ou uma espécie de masoquismo ou autopiedade. É necessário descobrir a verdadeira autoestima. Ela vem a partir do olhar de Deus para nós! Jamais seremos o que somos destinados a ser, vivendo como escravos de bajulações e em busca de elogios. Somos criados para o louvor e glória de Deus. Somente a Ele devemos reverenciar. Todos os dons que existem em nós são graças d'Ele.

A ‘miséria’ aqui é entendida como um ‘adubo’ para a humildade. Como uma horta necessita de ‘humus’ para que as hortaliças cresçam sadias, por mais contraditório que isso possa parecer, precisamos descobrir e integrar as nossas misérias. Precisamos para isso, sair do ‘melindre’, do ‘psicologismo’, da falta de reflexão de nossas escolhas e moções. O caminho é árduo, mas não impossível. Oração, parada, diálogo, autocrítica é fundamental. Como dizia Santa Teresa de Ávila, “é uma lástima não conhecer a nós mesmos”. E tal conhecimento não vem de um psicologismo, ou de terapias egóicas alternativas, mas vem do encontro amoroso com o próprio Deus de Jesus Cristo.

Assim, por ‘miséria’ não entendamos algo terrível, negativo, mas simplesmente reconhecimento do barro que somos feitos, pois negar o homem como ele é, é também negar a salvação feita por Jesus Cristo que dignou assumir nossa humanidade. T

Por Frei Edson Matias, OFMCap.



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O mais Belo dos filhos dos homens ~ A Transfiguração do Senhor


Uma das experiências humanas mais desagradáveis é a da feiura. Há muitas e muitas manifestações da dimensão do feio. Há essas pessoas descuidadas, sujas, maltrapilhas, seres humanos que, aparentemente, não respiram dignidade. Pensamos na pessoa completamente embriagada, no drogado que sonolentamente não diz coisa com coisa, nesses rostos tensos de homens com uma arma na mão matando em série. Tudo isso é feiura. Essa feiura pode ter sua origem num coração que foi tomando distância da Luz, da beleza, de Deus.

Pensemos agora em Jesus. Ele, sendo de condição divina, veio ter conosco. Sorriu-nos no semblante do Menino das Palhas, acompanhou histórias e vidas. Um brilho especial esteve em seu rosto quando contemplava aos lírios dos campos e os pássaros dos céus, a viúva que dava tudo o que tinha ou quando dirigia chispas de sua beleza para o jovem que tinha vontade de entrar no universo da vida eterna.

Ao mesmo tempo vemo-Lo com semblante sério diante dos fariseus intransigentemente legalistas, semblante triste diante de Jerusalém que não se convertia, semblante de piedade diante da multidão que parecia a ovelhas sem pastor.

Rosto humano, rosto belo. Aos poucos seu rosto ficou como que crispado. Havia rugas de apreensão, sombras de receio. E as coisas foram se deteriorando sempre mais a tal ponto que se seu rosto se desfigurou. Chicotadas no corpo, coroa de espinhos, solidão no coração, zombarias, caminhada, poeira foram tornando maculado o rosto desse Jesus.

Ora, antes que isso acontecesse Jesus levado os seus íntimos mais íntimos a uma montanha, fato que comemoramos na festa de hoje. Lá ele se coloca em oração, em prece tão íntima que tintas da eternidade iluminam-lhe o semblante. O homem da luz, aquele que vem da luz, aquele que é luz dos homens destila luz. Os apóstolos ficam admirados em viver esse momento da transfiguração. Querem, então, eternizá-lo fazendo tendas para Jesus e os profetas. Uma nuvem luminosa os cobriu. Entram no universo de Deus, experimentam a divindade bem perto. Percebem um som que vem do meio da nuvem: “Esse que está aí é meu Filho, nele coloquei todas as minhas complacências. Será preciso ouvi-Lo. Ele é o mais belo dos filhos dos homens. Os que olharem para ele com disposições humildes e sedentos de plenitude receberão raios de sua beleza”. O evangelista assinala: “Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes: Não conteis a ninguém esta visão até o que Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos”.

Pelo olhar da fé vivemos na presença do Ressuscitado. Não vemos seu semblante humano transfigurado mas sabemos que ele reúne em si a toda a beleza. Ele, aquele que vem da luz, ilumina e quer se luz do mundo. Ele é o mais belos dos filhos dos homens. T



segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Série: "Miséria e Graça na VRC": O processo de Estetização na Vida Religiosa e Consagrada


A Vida Religiosa e Consagrada (VRC), desde sua origem, tem por característica marcante o profetismo. A forma de vida que vários grupos optaram acabou se tornando uma luz no meio da sociedade. Porém, parece que tal brilho tem se ofuscado nos últimos tempos. Não que tenha acabado, todavia, não tem como negar que o vigor tem diminuído e muitas Congregações têm sofrido com poucas vocações. Regiões, províncias se juntam para somar forças.

No panorama geral observamos que a VRC deixa de ser profética para se ajeitar de forma mais cômoda na sociedade atual. O que está levando a isso? O que tem movido a crise? São pontos que tentaremos discutir neste artigo a partir da ideia de ‘Estetização’.

É necessário reconhecer nossas sombras. Um dos pontos iniciais é que temos dificuldade de perceber nossas falhas. É difícil ver nossas próprias costas. Em outras palavras, por mais que nossas vivências neguem totalmente os discursos, temos enorme dificuldade de enxergar nossas limitações. Sejam pessoais ou comunitárias. E em se tratando de VRC hoje, temos pontos cegos por demais.

O que entendemos por ‘estetização’ da VRC? Primeiramente, vamos ao processo de Estetização. Perguntamos: como está o mundo hoje, a sociedade? Vemos que o importante hoje é o bem estar. E este, entendido como algo que provoca em nós os variados sentimentos. Precisamos sempre nos sentir bem, fugir dos sofrimentos, buscar o que é agradável. Ou seja, também na Vida Religiosa tem se buscado aquilo que é agradável. Tudo deve ter cobertura de açúcar. Gostoso, agradável, ‘curtição’ – em linguagem de Facebook. Temas como penitência, dedicação, disciplina, esforço, trabalho repetitivo, etc. deve ser extirpado.

E a Cruz? Essa já não tem muita aceitação. ‘É melhor o ressuscitado’. O Jesus que não deixa o pobre sofrer, o libertador, o transformador, etc. A linguagem pode até ser diferente das correntes neopentecostais da atualidade, porém, traz em seu fundo o mesmo processo de estetização que toda a sociedade sofre. Logo, não é só uma dificuldade da VRC, mas uma questão da sociedade atual.

O processo de estetização se refere a essa busca de prazer constante. Aqui não podemos enganar pelo discurso. Basta olhar a realidade cotidiana. O enredamento que a VRC adentrou na posse do poder, na busca de visualização, nas novas correntes psicologistas de formação, do sempre agradável e doce, do obscurecimento do sentido da Cruz, etc.

Um dos exemplos que podemos citar é a busca de realização pessoal na VRC, o famoso “preciso me realizar” ou o “essa oração tem que me fazer sentir bem”, etc.. É só olharmos a busca de novidades trazendo terapias alternativas para dentro da formação. Inovações nas orações comunitárias, sempre tentando produzir algo agradável. Se não for assim, não valeu, não vale. Nada de esforço, nada de tédio pode ser aceito. Em tudo isso o EGO passa a ser o centro. 

Hoje é bem comum a valorização da psicologia acima da espiritualidade em diversos processos formativos de comunidades religiosas. Caso um formando (a), religioso (a) apresente situações de conflito os responsáveis encaminham para a terapia numa espécie de terceirização formativa. 

No processo de Estetização está no centro o individualismo. As comunidades ou ‘fraternidades’ vivem como grupos de pessoas que não se relacionam. Moram juntas, porém, cada qual com seus interesses. A fraternidade vive bem se cada um faz o que quer. Importante e fraterno nesse caso é não interferir na vida particular do outro. Deixar cada um encontrar o melhor para si: se realize. Tal situação pode ser encontrada por detrás de palavras como: auto-responsabilização, protagonismo, responsabilização pessoal, etc.

Parece uma loucura? Sim. postura antievangélica e constatamos tal ‘modelo’ espalhado em Congregações femininas e masculinas: A fraternidade de indivíduos solitários que, na busca de realização pessoal, somente alcançam a solidão e o distanciamento de seus carismas: Drama de nossa atualidade. “Capítulos provinciais precisam ter muito mais coragem para colocar o dedo na chaga e enfrentar nossa vivência de valores antievangélicos, para que possamos ser verdadeiros profetas e profetisas do reino” (KEARNS, 1999, p. 31).

No ramo masculino e clerical parece que isso ainda é mais forte. A busca pelo agradável e cômodo é uma luta constante. Melhor igreja, melhor pastoral, melhor cidade, etc. E em nível pessoal: carro, dinheiro, pessoas interessantes, aplausos, ‘amigos’, etc. Não precisamos ir longe. Basta ir a uma casa de formação é constataremos isso bem rápido: o desejo do belo, das coisas boas e satisfatórias.

Certa vez fui a uma ordenação sacerdotal. Vi um jovem todo empolgado ajudando nos preparativos e próximo aos frades. Disparei a pergunta: “Vai ser frade da Congregação?” Ele me respondeu sem hesitar: “Tá doido, frei? Ser franciscano e fazer voto de pobreza? Não!”. Em seguida, eu disse a ele que na congregação que pretendia entrar também se fazia voto de pobreza. Para meu espanto respondeu: “Fazem, mas não vivem”. Talvez outro jovem que conhecesse os franciscanos hoje poderia dizer a mesma coisa. Contei a história somente para ilustrar a situação.

O modelo desse jovem acima, como muitos de nossas fileiras, é o belo, do religioso estetizado: Boas comidas, boas casas, bons carros, aplausos, bajulações, boas roupas (principalmente expressa na nova onda religiosa tradicionalista).

Precisamos entender o processo de estetização mais a fundo. Até mesmo as novas comunidades religiosas que demostram um forte rigor, muito se tem da imagem, do parecer ser, do belo aos olhos, etc. Mesmo a mais dura penitência vem carregada de estética: ser visto.

Para alguns que já fizeram anos de caminhada, também a busca de gozo e prazer não é diferente, porém, traz uma forma mais mascarada, pois quem está no leme pode dizer que sabe onde está indo por teimosia ou petrificação.

Falamos muito em conflitos de gerações. Nesse ponto, podemos nos deparar com a insistência da geração mais velha em guiar os rumos de uma comunidade, impossibilitando ou, na maioria das vezes inconscientemente, negando o acesso aos mais jovens. Muitas irmãs e irmãos sofrem por tais situações congregacionais. Toda crítica acentuada sobre os mais jovens deve ser refletida. 

No mundo atual, as mudanças são muito rápidas e cada novo jovem que entra tem vivências bem distintas daqueles que iniciaram a caminhada na década de 60, 70, 80, 90... Muitos ainda resistem por achar que o melhor modelo foi o da sua época, agravando mais ainda o individualismo interno.

A VRC está em uma profunda crise, como nossa sociedade está. E o que é mais agravante é que a maioria não sabe ou não quer ser curada da doença. Tratar desses temas em comunidade, necessitando de uma mudança pessoal é muito doloroso e em um mundo estetizante, ninguém quer fazer isso.

O que fazer?

Necessitamos de profetas com urgência e isso somente ocorrerá via vivência e não via discurso, pois esse, como um violão desafinado, não mexe com o coração. Ou seja, não é uma nova onda tradicionalista ou libertadora que nos tirará do lodo do individualismo, mas o próprio aprofundamento de cada carisma. Volta às fontes: O Evangelho.

Temos muito que caminhar e sabemos que diante de uma crise surgem novas portas, pois o Espírito sopra onde quer, fecundando o deserto e renovando a VRC. O que temos por certo é saber que a mudança começa a nível pessoal e depois comunitário.

O ponto de partida não está nas limitações dos outros da comunidade, mas em minhas próprias. Falta, às vezes, a honestidade de encarar, acolher e assumir nossa limitação pessoal para podermos viver em paz com as limitações dos outros. Sem essa atitude de abertura, a realização histórica do processo de salvação não pode acontecer. Sem honestidade e humildade vamos bloquear a graça de Deus na comunidade (KEARNS, 1999, p. 35).

Precisamos fazer esse processo. Retormar nossa vocação primeira. Resgatar o que nos cativou para a vivência evangélica, assumindo-a com vigor e coragem. A partir daí, as transformações começarão a ocorrer abrindo novos horizontes. A honestidade pessoal é indispensável nesse caminho.

Por isso, o caminho da libertação é um confronto pacífico, honesto, com nossas motivações mais profundas em todas as ramificações de nossa vida consagrada. Se tentarmos dirigir tudo para Deus, em culto e adoração, há paz no coração. Se tudo for dirigido para nossa própria auto-glória, há somente frustração e, mais cedo ou mais tarde, uma crise de identidade. Confronto honesto com nossas motivações é o caminho de conversão e libertação (KEARNS, 1999, p. 23).

Não há dúvidas que a honestidade consigo mesmo hoje, desde a formação inicial dos novos religiosos, deve ser um dos pontos fundamentais da caminhada. O mundo do individualismo nos atrai bastante e ter coragem de assumir essas tendências em si próprio é um dos primeiros passos de mudança.

Olhando para o processo de estetização que sofrem as práticas religiosas vemos que o ‘centramento’ no ‘ego’ (egoísmo) é sua característica principal. Como isso se manifesta? Na falta de diálogo, na não aceitação dos embates, na fuga das relações fraternas, na busca de subterfúgios, nas relações superficiais.

Antes de terminar gostaria de apontar mais um tópico do processo de estetização expresso no ativismo: Não podemos contrapor ‘ativismo’ e ‘não fazer nada’. Na realidade, o ativismo já é o ‘não fazer nada’. Na medida em que o ativismo serve como meio para se estar visível aos outros, como estética, acaba por contaminar a atividade pastoral e missionária. O que está em pauta não é o Evangelho, mas a pessoa que a faz.

Para entendermos melhor, imaginemos um religioso que trabalhe em uma comunidade; Levanta cedo, corre de um lado para o outro. Mil e uma coisas para fazer. Não tem tempo de meditar, estudar ou rezar. É preciso fazer. Na medida em que passa muito tempo nesta situação, acaba por se esvaziar. Se torna um dirigente de uma instituição, mas o espírito já se foi. Nesse caso, não se ‘faz nada’, pois sua vida se resumiu em atividades superficiais. Talvez até mesmo organizacionais, porém, sem vida.

Contudo, existe aquele (a) religioso (a) que reconhece que tem muita coisa para fazer. Porém, não perde sua busca pessoal. Não se exime da convivência fraterna de sua Congregação. Sabe conciliar uma coisa e outra. Na realidade, as duas coisas são partes de sua vida e não vê como oposição, mas como características próprias da VRC. 

O ativismo é uma doença fundada no individualismo, bem presente no processo de estetização da VRC. Quando o (a) religioso (a) não faz algo, sente-se inútil, tendo como característica dessa inutilidade arranhões em sua autoimagem. Pensa que será mal ‘visto’ pelos co-irmãos ou pelo povo. Está bastante preocupado com o que os outros irão achar dele (a). A busca de reconhecimento, elogios é bastante acentuada no processo de estetização. É como uma fome. Podendo valer tudo na busca dessa satisfação, até mesmo ser aquilo que não se é, passando a ser aquilo que os outros querem.

O que é preciso fazer?

O religioso para ser fiel à sua vocação e à sua profecia no mundo e na Igreja, precisa de momentos fortes de contemplação em sua vida. Precisa “ir à montanha”, em busca de Deus, na intimidade. Precisa ser contemplativo no meio do barulho do mundo. Precisa ter momentos fortes de “reserva” com Deus. Momentos fortes de encontro entre os dois “amantes”, Deus e seu consagrado. Somente essa dinâmica dará sentido para toda a sua saída para o horizontal. (KEARNS, 1999, p. 56)

Como dissemos acima, é necessário muita honestidade consigo mesmo como também de reflexões comunitárias para amenizar os efeitos de uma sociedade doente dentro das relações na VRC. O ‘Espírito’ do mundo está dentro de nossas comunidades e dentro de nós. A oração pessoal, a direção espiritual e a participação nos sacramentos podem ajudar a combater essa doença de difícil diagnóstico. O prognóstico pode ser favorável se iniciar rapidamente o tratamento, caso contrário, ainda teremos que sofrer várias consequências, até mesmo o findar de um modelo para o início de outro, pois o Espírito sopra onde quer. T

Por Frei Edson Matias, OFMCap.


domingo, 3 de agosto de 2014

Homilia do 18º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



Milagre, não partilha

Narra o Evangelho que Jesus, após receber a notícia da morte de São João Batista, se retira “para um lugar deserto e afastado”. São Jerônimo, investigando o porquê dessa atitude de Nosso Senhor, ensina:
“Não se retirou a um lugar deserto por temor de que lhe tirassem a vida, como julgam alguns, mas: ou para poupar os seus inimigos, a fim de que não acrescentassem homicídio sobre homicídio; ou para adiar a sua morte até o dia da Páscoa, no qual o cordeiro era imolado como figura e as portas dos fiéis eram aspergidas com sangue; ou para dar o exemplo de que não nos devemos expor temerariamente à perseguição, porque nem todos os que se oferecem a ela perseveram com a mesma constância. Por isso Ele diz, em outra parte: “Quando vos perseguirem numa cidade, fugi para outra” (Mt 10, 23). De onde o evangelista, com propriedade, não diz que Ele fugiu a um lugar deserto, senão que se retirou, mais por evitar que por temer os perseguidores. Também se pode ter retirado, depois de saber da morte de João, a fim de pôr em prova a fé dos fiéis.” [1]
De acordo com São Jerônimo, Jesus teria se retirado também para que o povo pudesse demonstrar o seu amor a Ele. O Papa Bento XVI, ao comparar o episódio da multiplicação dos pães com a primeira tentação de Jesus no deserto, em que Ele se nega a transformar as pedras em pão [2], se pergunta: “Mas por que agora é feito o que antes tinha sido repelido como tentação? Os homens tinham vindo para escutar a palavra de Deus e tinham por isso abandonado todo o resto. E assim, como homens que tinham aberto o seu coração para Deus e para os outros, aqueles podem receber o pão como merecimento” [3]. A multidão viu os pães serem multiplicados porque foram propter Iesum et non propter esum.

Repete-se, com este milagre, a grande lição de Cristo no Sermão da Montanha: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” [4]. Grandes eram a fé e o amor daquele povo, mas também notável era o desapego dos Apóstolos que, sendo doze, tinham consigo apenas “cinco pães e dois peixes”. “Vemos por estas palavras – comenta São João Crisóstomo – a filosofia dos Apóstolos, que os faz desprezar a comida, porque, sendo eles doze, tinham cinco pães e dois peixes. Olhavam efetivamente com desprezo para as coisas materiais e estavam possuídos pelas espirituais” [5].

Também é notável que o povo tenha esperado por Nosso Senhor até o entardecer. Nessa mesma hora, Ele, reunido com os Seus discípulos, instituiu a Santíssima Eucaristia. No Evangelho deste Domingo, de fato, é seguido o mesmo caminho feito na Liturgia: primeiro, as multidões saem de suas cidades para escutar a Palavra e só depois são alimentadas com o pão eucarístico. A vida do cristão também deve ser assim: antes de comungar, é preciso ir ao deserto e converter-se. Assim como não existe multiplicação dos pães sem a acolhida da Palavra, não há comunhão sem verdadeira conformação à vontade de Deus.

Agora, um comentário à ideia segundo a qual “a multiplicação dos pães não foi um milagre, mas apenas um gesto de partilha”.

Em primeiro lugar, é muita falta de fé pensar que Jesus não seria capaz de fazer alguns pães para alimentar uma multidão. Quem nega isso provavelmente tem dificuldades para crer na divindade de Cristo.

Em segundo lugar, muitas pessoas interpretam o ensinamento da Igreja justamente sob uma perspectiva de “partilha”, adotando o método Paulo Freire para as coisas da fé: ao invés de aprender de Nosso Senhor a verdade, as pessoas ouvem o Evangelho para partilhar entre si o que pensam. Ora, quando compartilhamos a nossa miséria, o resultado final é tão somente uma miséria partilhada, “cegos guiando cegos” [6].

Com esse milagre, Jesus quer deixar bem claro que não podemos prover alimentação a nós mesmos. Para que a nossa miséria – vista na escassez dos “cinco pães e dois peixes” – possa alimentar as pessoas, é preciso que passe para as mãos de Jesus. Por isso, precisamos, antes de qualquer coisa, estar com Nosso Senhor, ouvir a Sua Palavra, meditá-la e transformar o nosso coração. Só então podemos ensinar. A evangelização não é uma partilha, mas um ensinamento. Trata-se de transmitir uma mensagem que não nos pertence. Um padre que diz, por exemplo, que Cristo não fez milagre algum, está desrespeitando a mensagem do Evangelho, pois se preocupa mais em transmitir as suas ideias céticas e empiristas a anunciar a boa nova de Jesus.

A Palavra de Deus não é para ser partilhada, como se fosse objeto de “livre exame”; ela foi feita pela Igreja e para a Igreja e é “com o mesmo espírito com que foi escrita” [7] que deve ser interpretada. Sem o espírito católico de que estavam imbuídos os autores sagrados, não pode haver leitura correta das Escrituras. T

Referências:

Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 3.
Cf. Mt 4, 3.
Jesus de Nazaré: primeira parte: do batismo no Jordão à transfiguração. São Paulo, Planeta, 2007. p. 44.
Mt 6, 33.
Homiliae in Matthaeum, 49, 1. Apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 4.
Mt 15, 14.


terça-feira, 29 de julho de 2014

18º Canta Jardim



O Jardim da Imaculada convida e acolhe todos os peregrinos no ano de 2014 para a 18ª edição Canta Jardim. Será um dia de adoração, pregações, orações, confissões e muito louvor. Um verdadeiro encontro com Cristo pelas mãos da Virgem Santíssima.

O Canta Jardim acontecerá no dia 03 de agosto de 2014 e terá início às 5h da manhã com a celebração da Santa Missa e será encerrado também com a celebração da Santa Missa às 16h.


Contará com a Participação de:

· Frei Josué e Comunidade Mel de Deus
· Frei Paulo Maria

Diversos Shows

E mais...
· Adoração ao Santíssimo Sacramento
· Confissões
· Milícia da Imaculada (frei Paulo Maria)
· Cantinho da Criança
· Tenda Pró- Vocação

Conheça o Santuário Jardim da Imaculada

Nascido há 36 anos pelas mãos de frades franciscanos conventuais, o Jardim da Imaculada é a concretização do sonho de São Maximiliano Kolbe, santo que sacrificou a própria vida para salvar um pai de família nos campos de concentração de Auschwitz.

O ideal de São Maximiliano, definido pelo Papa João Paulo II como o santo dos nossos difíceis tempos, era fundar uma cidade da Imaculada em cada canto do mundo. T



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