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Recesso

Caros leitores, o Reflexões Franciscanas entra em recesso por algumas semanas. Como de costume, algumas publicações foram programadas e notícias urgentes podem ser postadas a qualquer momento. As Homilias aos Domingos e o Santoral diário, bem como os "Ditos do Papa Francisco" continuarão sendo atualizados diariamente.
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domingo, 23 de novembro de 2014

Homilia do 34º Domingo do Tempo Comum ~ Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo ~ por Pe. Paulo Ricardo



Jesus Cristo, Rei das nações

Em 1925, com a Encíclica Quas Primas, o Papa Pio XI instituía a Festa de Cristo, Rei do Universo. O que o Santo Padre queria com este gesto? Em que sentido se diz que Jesus é "Rei"? Neste Testemunho de Fé, Padre Paulo Ricardo explica em que consiste o reinado social de Nosso Senhor e como isto interfere diretamente nas realidades políticas e temporais de nossa época. T





domingo, 16 de novembro de 2014

Homilia do 33º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



Servo mau e preguiçoso!

O patrão da parábola dos talentos repreende seu último empregado, que “escondeu o seu talento no chão”, como “mau e preguiçoso”. Mas, qual é a maldade desse servo? Por que é tratado com tanta severidade por seu senhor? Neste Testemunho de Fé, descubra o pecado por trás da letargia espiritual: a soberba de Lúcifer. T






segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Eleito o novo Ministro Geral da OFS


Tibor Kauser (Hungria, 55 anos), é o novo Ministro Geral da OFS, após o Capítulo Eletivo realizado no último dia 6 de Novembro, em Assis (Itália), juntamente com toda a Presidência do Conselho Internacional da OFS para os próximos seis anos, também foi escolhido (2014-2020).

Tibor, eleito no primeiro escrutínio, foi um membro da presidência anterior, que serviu para os últimos seis anos, o cargo de conselheiro para língua Inglesa. Tornou-se o quarto Ministro Geral da OFS após a venezuelana Manuela Mattioli, a italiana Emanuela De Nunzio e a espanhola Encarnita Del Pozo.

Junto com Tibor, foi eleita como Vice-Ministra Geral, Chelito Nunez (Venezuela); Chelito também fazia parte da presidência anterior, mas sua experiência completa 12 anos como Conselheira da Língua Espanhola.

Em relação aos outros conselheiros, cabe destacar que apenas um deles repete desde a presidência anterior, representando uma grande renovação no Conselho Internacional da OFS. A repetição é Ana Fruk, o ex-conselheira da JUFRA, a mudança de área e vem para representar a Europa-1 Inglês / área alemã.

Attilio Galimberti (Área Europa-2 Inglês / Italiano), Ana Maria Raffo (espanhol Latina Área América), Silvia Diana (Área Português / Espanhol Latino Americano do Sul), Jenny Harrington (Área Inglês North America / África), Agostinho Young (Inglês Ásia Área / Oceania) e Michel Janian (área de Francês) completam os Conselheiros da Presidência e da área.

Finalmente, Andrea Odak (Bósnia e Herzegovina), será a conselheira da Presidência para Juventude Franciscana, que também faz Coordenadora da Juventude Franciscana Internacional.


O novo Conselho da Presidência tomou posse de seu novo serviço em uma missa de ação de graças celebrada na Basílica Superior de São Francisco, presidida pelo Ministro Geral da TOR Frei Nicholas Polichnowski, que também presidiu o Capítulo Eletivo da Fraternidade Internacional. T

Fonte: ciofs.org



domingo, 9 de novembro de 2014

Homilia da Festa da Dedicação da Basílica do Latrão, por Pe. Paulo Ricardo



Serão as paredes que fazem os cristãos?

Neste Domingo, o calendário litúrgico propõe à Igreja universal a festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão. A igreja – que é a catedral da diocese de Roma e, portanto, sede do trono pontifício – é considerada “omnium urbis et orbis ecclesiarum mater et caput – mãe e cabeça de todas as igrejas de Roma e do mundo”.

Em 313, o imperador Constantino, além de publicar o Édito de Milão, pelo qual concedia liberdade de culto à religião cristã, introduziu uma série de mudanças nas leis romanas, tais como a proibição da morte por crucifixão, a proteção aos órfãos e às viúvas, o fim das punições aos celibatários e dos espetáculos com derramamento de sangue. Além desse enorme bem prestado à Igreja, Constantino mandou erigir uma construção para os fiéis católicos prestarem culto a Deus: a Basílica de Latrão, que foi dedicada, a 9 de novembro de 324, pelo Papa São Silvestre.

Mas, o que significa celebrar uma igreja, se Deus, como pregou o Apóstolo, “não habita em templos feitos por mão humana” [1]? A partir de Cristo, de fato, o grande templo de Deus não são mais as paredes, senão o próprio Jesus. No Evangelho deste Domingo, Nosso Senhor, em um ato de zelo pelo que Ele chama “casa de meu Pai”, expulsa os vendilhões do templo, espalha as moedas e derruba as mesas dos cambistas. Embora amasse realmente o Templo de Jerusalém e o considerasse como lugar da morada de Deus, Cristo, com este ato, realmente rompe com o Velho Testamento: lembra que os templos da Antiga Lei são apenas prefigurações. Agora, com Ele, “a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” [2]. Deus armou a Sua tenda entre os homens, no Seu Filho; Ele é o templo da Nova Aliança, como Suas próprias palavras confirmam: “‘Destruí este Templo, e em três dias o levantarei’. (...) Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo”.

Ora, se é Cristo o templo da Nova Aliança, por que celebrar a dedicação de uma igreja em Roma? Porque as igrejas cristãs não pretendem reproduzir o Templo de Jerusalém, dos judeus, mas a “nova Jerusalém”, descrita no Apocalipse de São João [3]. Diferentemente dos templos judaicos, em que os únicos a entrarem na construção eram os sacerdotes e o resto do povo deveria ficar do lado de fora, as basílicas cristãs pretendiam ser uma réplica da cidade de Deus, um lugar para os cristãos se reunirem, tratarem de negócios e resolverem problemas jurídicos, como em uma praça pública. O templo passava a ser morada de Deus porque aí habitava o Seu povo, que, por sua vez, são membros do Corpo Místico de Cristo.

A presença divina nos templos cristãos também é notável nos sacrários, onde se encontra Nosso Senhor, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. No Santíssimo Sacramento, com efeito, está a presença de Cristo por excelência.

Quanto à Basílica de Latrão, há uma história muito bela, ocorrida dentro de suas paredes, que mostra a sua importância para a Igreja, de modo especial nos primeiros séculos da fé cristã. Trata-se da conversão de Vitorino, narrada por Santo Agostinho, em suas Confissões:
“Esse erudito ancião, profundo conhecedor de todas as ciências liberais, leitor e crítico de tantos livros de filosofia, fora mestres de muitos nobres senadores. O prestígio de seu magistério lhe valera uma estátua no foro romano, que ele aceitara (coisa que os cidadãos desse mundo têm em grande conta). Até aquela idade avançada, havia adorado os ídolos, participando de cultos sacrílegos, de que participava quase toda a nobreza romana da época que inspirava ao povo sua devoção por Osíris, por ‘toda sorte de monstros divinizados, pelo labrador Anúbis’, monstros que outrora ‘pegaram em armas contra Netuno, Vênus e Minerva’, e a quem, vencidos, a própria Roma dirigia súplicas, esse velho Vitorino, que durante tantos anos havia defendido esses deuses com sua terrível eloquência, não se envergonhou de se tornar servo de teu Cristo e criança de tuas águas, dobrando o pescoço ao jugo da humildade, e dobrando sua fronte ante o opróbrio da cruz.”
“Senhor, Senhor, que inclinaste os céus e o desceste, que tocaste os montes e estes fumegaram, de que modo te insinuaste naquele coração?”
“Segundo contou-me Simpliciano, Vitorino lia as Escrituras e investigava e esquadrinhava com grande curiosidade toda a literatura cristã, e confiava a Simpliciano, não em público, mas muito em segredo e familiarmente: ‘Sabes que já sou cristão?’ Ao que respondia aquele: ‘Não hei de acreditar, nem te contarei entre os cristãos enquanto não te vir na Igreja de Cristo’. Mas ele ria e dizia: ‘Serão pois as paredes que fazem os cristãos?’ E isto, de que já era cristão, o dizia muitas vezes, contestando-lhe Simpliciano outras tantas vezes com a mesma resposta, opondo-lhe sempre Vitorino o gracejo das paredes.”
“Vitorino receava desgostar a seus amigos, os soberbos adoradores dos demônios, julgando que estes, de alto de sua babilônica dignidade, como cedros do Líbano, ainda não abatidos pelo Senhor, fariam cair sobre ele suas pesadas inimizades.”
“Mas depois que hauriu forças nas leituras e orações, temeu ser renegado por Cristo diante de seus anjos, se tivesse medo de o confessar diante dos homens. Sentiu-se réu de um grande crime por se envergonhar dos mistérios de humildade de teu Verbo, não se envergonhando do culto sacrílego de demônios soberbos, que ele próprio aceitara como soberbo imitador; envergonhou-se da vaidade, e enrubesceu diante da verdade. De repente, disse a Simpliciano, segundo este mesmo contava: ‘Vamos à Igreja; quero me tornar cristão’. Simpliciano, não cabendo em si de alegria, foi com ele. Recebidos os primeiros sacramentos da religião, não muito depois, deu seu nome para receber o batismo que renegara, causando admiração em Roma e alegria na Igreja. Viram-no os soberbos, e se iraram; rangiam os dentes e se consumiam de raiva. Mas teu servo havia posto no Senhor Deus sua esperança, e não tinha mais olhos para as vaidades e as enganosas loucuras.”
“Enfim, chegou a hora da profissão de fé. Em Roma, os que se preparam para receber tua graça, pronunciam de um lugar elevado, diante dos fiéis, fórmulas consagradas aprendidas de cor. Os presbíteros, dizia-me Simpliciano, propuseram a Vitorino que recitasse a profissão de fé em segredo, como era costume fazer com os que poderiam se perturbar pela timidez. Mas ele preferiu confessar sua salvação na presença da plebe santa, uma vez que nenhuma salvação havia na retórica que ensinara publicamente. Quanto menos, pois, devia temer diante de tua mansa grei pronunciar tua palavra, ele que não havia temido as turbas insanas em seus discursos!”
“Assim, logo que subiu à tribuna para dar testemunho da sua fé, em uníssono, conforme o iam conhecendo, todos repetiram seu nome como num aplauso – e quem ali não o conhecia? – e um grito reprimido, saiu da boca de todos os que se alegravam: ‘Vitorino! Vitorino!’ Ao verem-no, se puseram a gritar de júbilo, mas logo emudeceram pelo desejo de ouvi-lo. Vitorino pronunciou sua profissão de verdadeira fé com grande firmeza, e todos queriam raptá-lo para dentro de seus corações. E realmente o fizeram: seu amor e alegria eram as mãos que o arrebatavam.” [4]
Enfim, não são as paredes de uma basílica que fazem a Igreja, mas a profissão de fé no Cristo, profissão de Vitorino e profissão de centenas de Papas ao longo dos séculos. É esse o testemunho que edifica a Igreja, desde São Pedro [5] até hoje. T

Referências:

At 17, 24.
Jo 1, 14.
Cf. Ap 21; 22, 1-5.
Confissões, VIII, 2.
Cf. Mt 16, 17-18.



sábado, 8 de novembro de 2014

08 de Novembro: Bem-aventurado João Duns Scotus


Uma antiga inscrição sobre seu túmulo resume as coordenadas geográficas da sua biografia: “A Inglaterra o acolheu; a França o educou; Colônia, na Alemanha, conserva seus restos; na Escócia ele nasceu”. Não podemos descuidar estas informações, também porque temos poucas notícias sobre a vida de Duns Scotus. Ele nasceu provavelmente em 1266, em um povoado que se chamava precisamente Duns, nas proximidades de Edimburgo. Atraído pelo carisma de São Francisco de Assis, entrou na família dos Frades Menores e, em 1291, foi ordenado sacerdote. Dotado de uma inteligência brilhante e levada à especulação – essa inteligência pela qual mereceu da tradição o título de Doctor subtilis, “Doutor sutil” -, Duns Scotus foi dirigido aos estudos de filosofia e de teologia nas célebres universidades de Oxford e de Paris. Concluída com êxito sua formação, dedicou-se ao ensino da teologia nas universidades de Oxford e de Cambridge, e depois de Paris, começando a comentar, como todos os Mestres do seu tempo, as Sentenças de Pedro Lombardo. As principais obras de Duns Scotus representam precisamente o fruto maduro dessas lições, e tomam seu título dos lugares nos quais lecionou: Opus Oxoniense (Oxford), Reportatio Cambrigensis (Cambridge), Reportata Parisiensia (Paris). De Paris ele se afastou quando, após o começo de um grave conflito entre o rei Felipe IV o Belo e o Papa Bonifácio VIII, Duns Scotus preferiu o exílio voluntário, ao invés de assinar um documento hostil ao Sumo Pontífice, como o rei havia imposto a todos os religiosos. Assim, por amor à Sé de Pedro, junto aos frades franciscanos, abandonou o país.

Queridos irmãos e irmãs: este fato nos convida a recordar quantas vezes, na história da Igreja, os crentes encontraram hostilidade e sofreram inclusive perseguições por causa de sua fidelidade e de sua devoção a Cristo, à Igreja e ao Papa. Nós todos contemplamos com admiração esses cristãos, que nos ensinam a proteger como um bem precioso a fé em Cristo e a comunhão com o Sucessor de Pedro e, assim, com a Igreja universal.

No entanto, as relações entre o rei da França e o sucessor de Bonifácio VIII logo voltaram a ser amistosas e, em 1305, Duns Scotus pôde voltar a Paris para lecionar teologia com o título de Magister regens, que hoje seria o de professor efetivo. Sucessivamente, os superiores o enviaram a Colônia como professor do Studium teológico franciscano, mas ele morreu no dia 8 de novembro de 1308, com apenas 43 anos de idade, deixando, contudo, um número relevante de obras.

Por ocasião da fama de santidade de que gozava, seu culto se difundiu em pouco tempo na ordem franciscana e o venerável Papa João Paulo II quis confirmá-lo solenemente beato no dia 20 de março de 1993, definindo-o como “cantor do Verbo encarnado e defensor da Imaculada Conceição”. Nesta expressão está sintetizada a grande contribuição que Duns Scotus ofereceu à história da teologia.

Antes de tudo, meditou sobre o mistério da Encarnação e, ao contrário de muitos pensadores cristãos da época, sustentou que o Filho de Deus teria se feito homem ainda que a humanidade não tivesse pecado. Ele afirma, na Reportata Parisiensa: “Pensar que Deus teria renunciado a esta obra se Adão não tivesse pecado seria totalmente irracional. Digo, portanto, que a queda não foi a causa da predestinação de Cristo, e que, ainda que ninguém tivesse caído, nem o anjo, nem o homem, nesta hipótese Cristo teria estado ainda predestinado da mesma forma” (in III Sent., d. 7, 4). Este pensamento, talvez um pouco surpreendente, nasce porque, para Duns Scotus, a Encarnação do Filho de Deus, projetada desde a eternidade por parte de Deus Pai em seu plano de amor, é cumprimento da criação e torna possível a toda criatura, em Cristo e por meio d’Ele, ser cumulada de graça e dar louvor e glória a Deus na eternidade. Duns Scotus, ainda consciente de que, na realidade, por causa do pecado original, Cristo nos redimiu com sua Paixão, Morte e Ressurreição, reafirma que a Encarnação é a maior e mais bela obra de toda a história da salvação e que esta não está condicionada por nenhum fato contingente, mas é a ideia original de Deus de unir finalmente todo o criado consigo mesmo na pessoa e na carne do Filho.

Fiel discípulo de São Francisco, Duns Scotus amava contemplar e pregar o mistério da Paixão salvífica de Cristo, expressão do amor imenso de Deus, que comunica com grandíssima generosidade fora de si os raios da sua bondade e do seu amor (cf. Tractatus de primo principio, c. 4). E este amor não se revela somente no calvário, mas também na Santíssima Eucaristia, da qual Duns Scotus era devotíssimo e que via como o sacramento da presença real de Jesus e como o sacramento da unidade e da comunhão que nos induz a amar-nos uns aos outros e a amar a Deus como o Sumo Bem comum (cf. Reportata Parisiensia, in IV Sent., d. 8, q. 1, n. 3).

Queridos irmãos e irmãs: esta visão teológica, fortemente “cristocêntrica”, abre-nos à contemplação, ao estupor e à gratidão: Cristo é o centro da história e do cosmos, é Aquele que dá sentido, dignidade e valor à nossa vida. Como o Papa Paulo VI em Manila, também eu, hoje, quero gritar ao mundo: “[Cristo] é o revelador do Deus invisível, é o primogênito de toda criatura, é o fundamento de tudo; é o Mestre da humanidade, é o Redentor; nasceu, morreu e ressuscitou por nós; Ele é o centro da história e do mundo; é Aquele que nos conhece e que nos ama; é o companheiro e o amigo da nossa vida… Eu nunca terminaria de falar d’Ele” (Homilia, 29 de novembro de 1970).

Não somente o papel de Cristo na história da salvação, mas também o de Maria é objeto da reflexão do Doctor subtilis. Na época de Duns Scotus, a maior parte dos teólogos opunha uma objeção, que parecia insuperável, à doutrina segundo a qual Maria Santíssima esteve isenta do pecado original desde o primeiro instante da sua concepção: de fato, a universalidade da Redenção levada a cabo por Cristo, à primeira vista, poderia parecer comprometida por uma afirmação semelhante, como se Maria não tivesse tido necessidade de Cristo e da sua redenção. Por isso, os teólogos se opunham a esta tese. Duns Scotus, então, para fazer compreender esta preservação do pecado original, desenvolveu um argumento que foi depois adotado também pelo Papa Pio IX em 1854, quando definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição de Maria. E este argumento é o da “redenção preventiva”, segundo a qual a Imaculada Conceição representa a obra de arte da Redenção realizada em Cristo, porque precisamente o poder do seu amor e da sua mediação obteve que a Mãe fosse preservada do pecado original. Portanto, Maria está totalmente redimida por Cristo, mas já antes da sua concepção. Os franciscanos, seus irmãos, acolheram e difundiram com entusiasmo esta doutrina, e os demais teólogos – frequentemente com juramento solene – se comprometeram a defendê-la e aperfeiçoá-la.

A este respeito, eu gostaria de evidenciar um dado que me parece importante. Teólogos de valor, como Duns Scotus sobre a doutrina da Imaculada Conceição, enriqueceram com sua contribuição específica de pensamento o que o Povo de Deus já acreditava espontaneamente sobre a Beatíssima Virgem, e manifestava nos atos de piedade, nas expressões da arte e, em geral, na vida cristã. Assim, a fé, tanto na Imaculada Conceição como na Assunção corporal de Nossa Senhora já estava presente no Povo de Deus, enquanto a teologia não havia encontrado ainda a chave para interpretá-la na totalidade da doutrina da fé. Portanto, o Povo de Deus precede os teólogos e tudo isso graças a esse sensus fidei sobrenatural, isto é, essa capacidade infundida pelo Espírito Santo, que capacita para abraçar a realidade da fé, com a humildade do coração e da mente. Neste sentido, o Povo de Deus é “magistério que precede” e que deve ser depois aprofundado e acolhido intelectualmente pela teologia. Que os teólogos possam sempre colocar-se à escuta dessa fonte da fé e conservar a humildade e a simplicidade dos pequenos! Recordei isso há alguns meses, dizendo: “Existem grandes doutos, grandes especialistas, grandes teólogos, mestres da fé, que nos ensinaram muitas coisas. Penetraram nos pormenores da Sagrada Escritura (…), mas não puderam ver o próprio mistério, o verdadeiro núcleo (…). O essencial permaneceu escondido! (…) Pensemos em Santa Bernadete Soubirous; em Santa Teresa de Lisieux, com a sua nova leitura da Bíblia ‘não científica’, mas que entra no coração da Sagrada Escritura” (Homilia. Missa com os Membros da Comissão Teológica Internacional, 1º de dezembro de 2009).

Finalmente, Duns Scotus desenvolveu um ponto no qual a modernidade é muito sensível. Trata-se do tema da liberdade e da sua relação com a vontade e com o intelecto. Nosso autor sublinha a liberdade como qualidade fundamental da vontade, iniciando uma postura de tendência voluntarista, que se desenvolveu em contraposição com o chamado intelectualismo agostiniano e tomista. Para São Tomás de Aquino, que segue Santo Agostinho, a liberdade não pode ser considerada uma qualidade inata da vontade, mas o fruto da colaboração da vontade com o intelecto. Uma ideia da liberdade inata e absoluta colocada na vontade que precede o intelecto, tanto em Deus como no homem, corre o risco, de fato, de levar à ideia de um Deus que não estaria ligado tampouco à verdade nem ao bem. O desejo de salvar a absoluta transcendência e diversidade de Deus com uma afirmação tão radical e impenetrável da sua vontade não leva em consideração que o Deus que se revelou em Cristo é o Deus “logos”, que agiu e age repleto de amor a nós. Certamente, como afirma Duns Scotus na linha da teologia franciscana, o amor supera o conhecimento e é capaz de perceber cada vez mais o pensamento, mas é sempre o amor de Deus “logos” (cf. Bento XVI, Discurso em Ratisbona, “Enseñanzas de Benedicto” XVI, II [2006], p. 261). Também no homem a ideia de liberdade absoluta, colocada na vontade, esquecendo o nexo com a verdade, ignora que a própria liberdade deve ser libertada dos limites que lhe foram postos pelo pecado.

Falando aos seminaristas de Roma, no ano passado, eu recordava que “a liberdade, em todas as épocas, foi o grande sonho da humanidade, desde o início, mas particularmente na época moderna (Discurso ao Pontifício Seminário Maior Romano, 20 de fevereiro de 2009). Mas precisamente a história moderna, além da nossa experiência cotidiana, ensina-nos que a liberdade é autêntica e ajuda na construção de uma civilização verdadeiramente humana somente quando está reconciliada com a verdade. Quando se separa da verdade, a liberdade se converte tragicamente em princípio de destruição da harmonia interior da pessoa humana, fonte de prevaricação dos mais fortes e dos mais violentos e causa de sofrimentos e de lutos. A liberdade, como todas as faculdades de que o homem está dotado, cresce e se aperfeiçoa, afirma Duns Scotus, quando o homem se abre a Deus, valorizando essa disposição à escuta da sua voz, que ele chama de potentia oboedientialis: quando nos colocamos à escuta da Revelação divina, da Palavra de Deus, para acolhê-la, então somos alcançados por uma mensagem que enche de luz e de esperança nossa vida e somos verdadeiramente livres. T



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Nomeação de Bispo Franciscano: Arcebispo de Dodoma (Tanzânia)


O Santo Padre o Papa Francisco nomeou hoje, 06 de Novembro de 2014, a Dom Frei Beatus Kinyaiya, OFMCap., até o momento Bispo de Mbulu, como primeiro Arcebispo metropolitano de Dodoma, na Tanzânia.

O novo Arcebispo de Dodoma, Dom Frei Beatus Kinyaiya, nasceu em 9 de  Maio de 1957 na Diocese de Moshi. Professou os votos perpétuos na Ordem  Capuchinha em 1988 e foi ordenado presbítero em 25 de Junho de 1989. De 1999 a 2005 exerceu os encargos de Ministro Provincial na Tanzânia e Presidente da Conferência dos Superiores Maiores Capuchinhos na Tanzânia. T

Fonte: news.va.





quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Entrevista com Frei Alberto Beckhäuser e Frei Almir R. Guimarães, OFM


Do dia 27 a 30 de Outubro passado, realizou-se no Instituto São Boaventura (ISB) - Faculdade de Filosofia e Teologia dos Franciscanos Conventuais em Brasília - o Seminário da Família Franciscana do Brasil (FFB), sobre "Os 50 anos do Concílio Vaticano II, na perspectiva franciscana". 

Entre os temas abordados por diversos palestrantes e com uma expressiva participação da OFS, falou-se da Eclesiologia (Lumen gentium), da Missionariedade (Gaudium et spes / Ad gentes), do Laicato (Apostolicam actuositatem), da Palavra de Deus (Dei verbum) e da Liturgia (Sacrossanctum concilium), notoriamente relacionados com as Constituições e Decretos Conciliares, na óptica franciscana.

Os palestrantes e condutores de momentos específicos, foram: Dom Frei Leonardo Ulrich Steiner, OFM, Frei Wilson Dallagnol, OFMCap., Pe. Stefano Raschieetti, CCM, Cláudio Fonteles, OFS, Frei Moacir Casagrande, OFMCap. e Frei Alberto Beckhäuser, OFM.

O Reflexões Franciscanas (RF) esteve presente em alguns momentos e fez duas pequenas entrevistas exclusivas: uma com o Frei Alberto Beckhäuser, OFM e outra com o Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM, que contribui textualmente com este sítio.

Frei Alberto Beckhäuser.

RF: Qual a relação que há entre a experiência orante de São Francisco de Assis com a proposta do Concílio Vaticano II para os nossos dias?

Frei Alberto Beckhäuser: "Faz 50 anos que me dedico à Sagrada Liturgia; Estive na Aula Conciliar, como estudante de Liturgia em Roma, quando foi promulgada a Constituição Sacrossanctum concilium. Sou brasileiro, do sul de Santa Catarina, mas de origem alemã, daí, este meu sobrenome um  pouco diferente.
O Concílio Vaticano II veio iluminar a todas as expressões da vida cristã e o franciscanismo é uma destas expressões de vida cristã. É vida na Igreja e em comunhão com a Igreja, como São Francisco sempre quis viver, restaurando a Igreja 'de dentro para fora' e não 'de fora para dentro', na crítica; Mas, procurando viver segundo o Santo Evangelho na Igreja, em comunhão com 'o Senhor Papa'."

RF: Como o senhor enxerga hoje a relação do atual Papa com a vida franciscana? Ele, que teve São Francisco de Assis como inspiração para o seu nome de pontificado, como o senhor vê os Franciscanos e sua atuação no mundo atual, à luz do Concílio Vaticano II?

Frei Alberto Beckhäuser, OFM
Frei Alberto Beckhäuser: "Realmente, é algo extraordinário. A questão parte de São Francisco: ele veio como um profeta especial para renovar a Igreja, para reconstruir a Igreja de Cristo; Mas como? Através da vida segundo o Evangelho, uma vida de penitência, começando a reformar a si mesmo e não logo querer reformar os outros. E, por isso, São Francisco veio dar um testemunho de como se pode realmente renovar e restaurar a Igreja, porque "Ecclesia semper reformanda est!" (A Igreja sempre deve ser reformada", Ela nunca está pronta e sempre se introduzem questões e problemas que devem ser superados, justamente através desta vida de humildade, de pobreza, de simplicidade.
Então, a contemporaneidade, com todos os novos valores e desvalores há a necessidade dessa presença evangélica e, com isso, quando o novo Papa toma o nome de Francisco, por um lado, é um grande privilégio, uma grande alegria para nós, franciscanos e, por outro lado, há um grande compromisso, porque ele quer justamente renovar a Igreja, através de uma vida a exemplo de São Francisco de Assis, de simplicidade, de humildade, de pobreza, como diz ele, 'uma Igreja pobre em favor e para os pobres'."

RF: Como o senhor tem visto a proposta franciscana no mundo atual?

Frei Alberto Beckhäuser: "A Ordem Franciscana se distingue na história, por uma renovação, isto é, sempre por um 'retornar às origens'. Daí, entram em discussão as grandes Instituições, Fórmulas... Por exemplo, todas as grandes tensões na Ordem I Franciscana se dá a partir da questão dos bens, da pobreza; Disto houve as separações. Mas hoje se procura colaborar mutuamente, entre os Menores, Conventuais e Capuchinhos, sendo que todos têm, no fundo, o interesse de viver a autenticidade do Carisma e da Espiritualidade Franciscana mas, que deve ser, sempre de novo, renovada. E hoje estamos, novamente, em um processo de renovação, a pedido do Concílio Vaticano II, dos Papas e, particularmente, do Papa Francisco."

RF: Após a eleição do Papa Francisco houve um novo soerguimento de vocações, sobretudo no Brasil, sinal de que a Ordem Franciscana é, de fato, um dom, um presente para a Igreja. Com todos os trabalhos que o Papa Francisco tem feito pelo mundo, qual o maior exemplo que ele pode dar para a Família Franciscana do Brasil?

Frei Alberto Beckhäuser: "A intuição dele. Romper estruturas. Não por palavras, mas com ações, com o exemplo. Os gestos dele são de quem rompe certas estruturas de poder, de status, de importância. Ele quer nos dizer que temos que ser realmente servidores do Evangelho, da Igreja e sermos 'discípulos e missionários', a exemplo de Cristo, de Francisco de Assis, como o Papa Francisco tem nos dado estes exemplos muito concretos, através de gestos, muito à semelhança de São Francisco de Assis."

RF: Qual a mensagem que o senhor pode deixar para tantos jovens que querem iniciar uma vida de seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, à luz do Concílio Vaticano II, conforme os passos de São Francisco de Assis?

Frei Alberto Beckhäuser: "A Igreja, hoje, está passando por uma série de crises de Fé, de valores. Com a Pós-Modernidade não há mais valores. Os únicos valores são o consumismo, a posse, o gozo, tudo aquilo que satisfaz as pessoas no momento. É preciso um choque de Evangelho em nosso tempo! E, para isso, o Papa pode contar com todos os membros e expressões franciscanos, porque, no fundo, tudo soma e se torna uma riqueza do Carisma franciscano, tanto da Ordem Primeira, quanto das Clarissas, da OFS, da TOR, de tantos religiosos e religiosas. Penso que devemos ser uma 'tropa de elite, de choque', mas não de frente, como os Jesuítas - o Papa é Jesuíta - mas, como uma 'elite de retaguarda', como quem guarda o oculto, o silencioso, como quem parte para a ação concreta de vida, segundo o Evangelho, na simplicidade, pobreza e fraternidade, com todos os valores evangélicos que São Francisco traz para o nosso tempo, para toda a Igreja mas, particularmente, para nós, franciscanos, a convite do Papa Francisco.

Que o Senhor abençoe a todos vocês, os guarde, conserve em Seu Amor, na alegria e na Sua paz!" Amém!

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Frei Almir Ribeiro Guimarães.

RF: Como andam seus trabalhos em relação às Fontes Clarianas?

Frei Almir Ribeiro Guimarães: "Tenho a alegria de estar junto à Família Franciscana e, dentro dela, existe o CONEF (coordenação de publicações); As Fontes Francisclarianas foram publicadas pela FFB e pela Vozes, há pouco tempo, em um grande volume e que é um dos livros que sempre tem boa saída de vendas.

No que se refere especificamente às Fontes Clarianas, eu colaborei com a difusão da espiritualidade de Santa Clara. Tive a alegria de encontrar um livro em italiano, de uma de uma grande Clarissa, Irmã Maria Cremaschi, do qual pude fazer muitos resumos, muitas apresentações da figura de Santa Clara. Eu me lembro que no meu tempo de jovem estudante sabia pouca coisa a respeito de Santa Clara e ultimamente, temos sabido muito.
Sobre as minhas atividades, já estou encerrando o meu tempo no Conselho Nacional da OFS, representando a OFM. Após 10 anos, posso dizer que foi uma experiência muito interessante, porque tivemos encontros em praticamente todas as regiões do país. Ficou claro também que, em muitas regiões, a OFS é marcada por um devocionalismo muito forte. Em outros lugares, surgem novas Fraternidades da OFS, como no Brasil Central, que pegaram o espírito da Regra de 1978, do Bem-aventurado Papa Paulo VI. É uma verdadeira batalha, porque todos esses nossos grupos estão muito envelhecidos; Por isso, há um esforço muito grande de renovação."

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
RF: Então, qual seria a proposta para renovar a OFS? Até porque, a JUFRA não é tão expressiva na grande maioria do país... Qual a proposta da Primeira Ordem para a OFS?


Frei Almir Ribeiro Guimarães: "Trata-se de uma questão dos frades, dos Menores, Conventuais, Capuchinhos e TOR, passarem, com a sua maneira de viver, com a sua organização da paróquia, um entusiasmo muito grande pela figura de Francisco de Assis. Mas um Francisco que os ajude a viver os valores evangélicos e franciscanos no mundo. Por exemplo, um casal que tem uma saudade de Deus e que queira viver de Deus não consumisticamente, não de uma forma boba. Então, um caminho de renovação, seria atingir o mais profundamente, o coração dos frades para que, na catequese, nos grupos de jovens passassem esse convite de fazer a vida cristã à maneira de Francisco. Creio também que existe um agrupamento, que se chama 'Oficinas de Oração', do Frei Ignácio Larrañaga [OFMCap.]; Tenho muita confiança no trabalho dessa gente, que buscam pessoas de boa vontade, que estão querendo ser de Deus, ali, a figura de Francisco de Assis aparece. Esses grupos são um canteiro de onde podem brotar novas vocações."

RF: Qual o legado que o Papa Francisco deixa para a vida franciscana no Brasil, sobretudo depois da Jornada Mundial da Juventude?

Frei Almir Ribeiro Guimarães: "O fato do Cardeal Bergoglio ter escolhido o nome de 'Francisco' foi muito emblemático, sintomático de um homem que quer uma Igreja mais simples. Acredito que a maneira com que ele subia no avião com aquela maleta preta, parece que ele até faz a própria comida, tudo isso é uma pregação da simplicidade. O fato de aludir muitas vezes a São Francisco de Assis, faz com que não fiquemos preocupados em 'engrossar as fileiras da Ordem', mas em insuflar esse espírito de São Francisco no meio do mundo e creio que ele está conseguindo isso. Se, por tabela, aumentarmos a OFS, ótimo; Mas, se o Papa conseguir, com esse jeito simples, divulgar a maneira de São Francisco, já estará de bom tamanho."

[Uma mensagem final que quero deixar:] "Estamos por todos os cantos, ouvindo falar de 'renovação', que é preciso 'renovar'... 'Renovar ou morrer!' A renovação das paróquias, das instituições, da política, tudo está envelhecido, as coisas estão com uma marca de caducidade... Então, me parece que a principal providência que precisamos tomar é uma renovação de cada pessoa. Não é possível mudar a Ordem se os elementos dela estão medíocres. É preciso ter uma renovação interior, um entusiasmo, para que as pessoas possam olhar e dizer: vale a pena! Os frades mais jovens precisam transpirar uma alegria muito grande de serem franciscanos, assim como a Ordem. Penso que a mudança começa no coração de cada um. É uma decisão pessoal.

Que todos tenham as bênçãos do Céu!" T


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Nomeações de Franciscanos: Consultores da Congregação para as Causas dos Santos


No último dia 31 de Outubro, o Santo Padre o Papa Francisco, nomeou como Consultores da Congregação para as Causas dos Santos, os Freis: Tomislav Mrkonjić, escritor do arquivo secreto Vaticano e Raffaele Di Muro, Professor da Pontifícia Faculdade Teológica São Boaventura, em Roma. Ambos os Freis, da OFMConv. T

Fonte: news.va

Frei Tomislav Mrkonjić
Frei Raffaele Di Muro




segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Todos os Santos e Finados - A Igreja, comunhão e mediação dos santos



Neste fim de semana, a Igreja celebrou duas festas litúrgicas, intimamente ligadas ao mistério da comunhão dos santos: são a Solenidade de Todos os Santos, no dia 1º de novembro, e a Comemoração dos Fiéis Defuntos, no dia 2. São festas que nos recordam que “todos os que somos filhos de Deus (...) constituímos uma única família em Cristo” [1], na qual nos amamos e nos auxiliamos mutuamente.

O Catecismo da Igreja Católica, citando a constituição Lumen Gentium, ensina que, atualmente, a Igreja existe em “três estados”: “Até que o Senhor venha em sua majestade e, com ele, todos os anjos e, tendo sido destruída a morte, todas as coisas lhe forem sujeitas, alguns dentre os seus discípulos peregrinam na terra” – trata-se de nós, Igreja militante; “outros, terminada esta vida, são purificados” – são as almas do purgatório, Igreja padecente; “enquanto outros são glorificados, vendo ‘claramente o próprio Deus trino e uno, assim como é’” – são todos os santos e santas de Deus, que já estão no Céu, Igreja triunfante [2]. Assim como a alma está para o corpo, o Espírito Santo está para a Igreja, Corpo Místico de Cristo, unindo os fiéis do Céu e da Terra e santificando-os com os mesmos tesouros espirituais.

No dia primeiro, festeja-se a Solenidade de Todos os Santos. Infelizmente, as pessoas têm perdido a noção do que seja um “santo”, porque não sabem diferenciar entre uma pessoa santa e uma pessoa salva. Quem está no purgatório, por exemplo, está salvo, mas ainda não está totalmente santificado, no sentido pleno da palavra. Os santos canonizados – principalmente “os de moradas superiores”, para fazer uma referência a Santa Teresa de Jesus –, ao contrário, como já completaram toda a sua purificação nesta vida, com certeza foram diretamente para o Céu.

Este é o grande abismo que separa católicos e protestantes. Os primeiros creem que a santidade é possível nesta terra e acreditam firmemente que, por auxílio da graça – mas também por mérito próprio –, uma pessoa pode chegar a dizer com São Paulo: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim” [3]. Os santos, na Igreja Católica, são pessoas que alcançaram tal grau de perfeição e se configuraram de tal modo a Cristo que Ele mesmo se faz presença viva neles. Como ensina Santo Irineu de Lion, padre da Igreja, “gloria Dei vivens homo – a glória de Deus é o homem vivo” [4], isto é, o homem que vive em Cristo. Por isso, depois que morrem, os santos, vendo Deus face a face, podem interceder por nós junto a Ele.

Mas, para os protestantes, Deus operaria as coisas “diretamente”, sem precisar de ninguém. Sem dúvida – e os católicos também reconhecem isto –, Deus não precisa de Suas criaturas, mas toda a história da salvação testemunha que, mesmo não precisando, Ele quer precisar delas. Deus não precisava, por exemplo, servir-se de um homem e de uma mulher para gerar novas vidas no mundo. Num estalar de dedos, os seres humanos podiam simplesmente brotar da grama, como os cogumelos. Todavia, Ele quis depender da ação de um pai e de uma mãe para tanto. A beleza da fé católica está justamente na ação de Deus que ama as Suas criaturas, mas por meio dessas mesmas criaturas, fazendo-as participar de Sua bondade e de Seu amor: é o caso dos santos no Céu e dos anjos da guarda, por exemplo.

No entanto – pode objetar algum protestante –, está escrito: “Há um só mediador entre Deus e a humanidade: o homem Cristo Jesus” [5].– Sim, é verdade. Mas, nos Atos dos Apóstolos, é narrado o episódio de São Pedro que, estando no cárcere, foi libertado pela ação de um anjo de Deus e da Igreja – que “orava continuamente a Deus por ele” [6]. Isso mostra como a mediação de Cristo diz respeito à mediação de Seu Corpo todo, seja nos anjos, que estão no Céu, seja nos fiéis militantes, que estão na terra. Se se admite a intercessão dos anjos e dos vivos, por que não se admite a dos que estão mortos em Cristo, já que nada pode nos separar do amor de Cristo, nem mesmo a morte [7]? Quer dizer que os membros do Corpo Místico de Cristo, uma vez mortos, estão “excomungados”? É claro que não. A comunhão na Igreja é muito mais forte do que a morte. Portanto, os santos, que já estão com o Senhor, rezam por nós.

Além disso, é muito agradável a Deus a intercessão de Seus amigos. É claro que Martinho Lutero e seus seguidores não aceitam que alguém mereça, por seu amor a Deus, ser atendido por Ele. É assim porque o protestantismo nega a doutrina do mérito. Para eles, “tudo é graça”. Os católicos reconhecem que, realmente, tudo – inclusive o mérito – é graça. Os santos receberam muitíssimas graças de Deus, entre as quais está a própria graça de merecer. Por isso, eles, porque amaram muito ao Senhor, merecem ter as suas preces ouvidas por Ele.

Mas, não existem apenas os fiéis que estão no Céu. A Comemoração dos Fiéis Defuntos recorda que nem todos os que se salvam vão diretamente para a vida eterna. Infelizmente, nos últimos tempos, por influência protestante, muitos teólogos têm negado a existência do purgatório, alegando que ele foi uma “invenção medieval” e que, com vistas a um malfadado ecumenismo, a Igreja deveria parar de pregar sobre isso.

A verdade é que o purgatório faz parte do “depósito de fé” e do ensinamento da Igreja de dois mil anos. Os primeiros cristãos, nas catacumbas, por exemplo, já rezavam pelos mortos. Ora, sabendo que depois da morte não existe uma “segunda chance” de salvar-se, essa prática só pode indicar a existência de uma purificação, após a morte, para aqueles que já se salvaram, mas, em vida, não amaram a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento [8]. Infelizmente, esse é o estado em que se encontram muitos de nós, por conta de nossos pecados e de nossa falta de generosidade com Deus. Se não nos purificarmos nesta vida, seremos purificados na futura. Para os protestantes, no entanto, a fé seria uma espécie de “véu”, que encobriria o fato de que o homem é ontologicamente pecador, perverso e desordenado. Os salvos, portanto, entrariam no Céu como que “disfarçados”.

Os católicos, ao invés, creem que só se entra no Céu totalmente santo. Por isso, é importante que, em um ato de caridade, sufraguemos as almas dos fiéis defuntos, a fim de que se purifiquem logo e entrem na posse eterna de Deus. T

Referências:

Catecismo da Igreja Católica, 959.
Ibidem, 954.
Gl 2, 20.
Adversus haereses, IV, 20, 7.
1 Tm 2, 5.
At 12, 5.
Cf. Rm 8, 35-39.
Cf. Dt 6, 5; Mt 22, 37.



domingo, 2 de novembro de 2014

O dia dos Finados


A liturgia do dia dos Finados poderia ser chamada também a liturgia da esperança. Pois, como "o último inimigo é a morte" (1 Cor 15,26), a vitória sobre a morte é o critério da esperança do cristão. A morte é considerada, espontaneamente, como um ponto final: "tudo acabou". A resposta cristã é: "A vida não é tirada, mas transformada" (prefácio). Esta resposta baseia-se na fé na Ressurreição de Jesus Cristo.


Se ele ressuscitou, também para nós a morte não é o ponto final. Somos unidos com ele na vida e na morte (Jo 11,25-26; evangelho). Ele é a Ressurreição e a Vida: unir-se a ele significa não morrer, não parar de existir diante de Deus, embora o corpo morra e se decomponha.

Trata-se de uma fé, de uma maneira de traduzir o Mistério de Deus e da totalidade da existência. Já no AT, o autor de Sb observa que as aparências enganam: a justiça dos justos não é um absurdo diante da morte ("ele não aproveitou nada da vida!") . Pelo contrário, é o começo do "estar na mão de Deus", que não tem fim (1ª leitura). Assim também descreve Paulo a existência cristã como estar já unido com Cristo na Ressurreição, o que é simbolizado pelo batismo (2ª leitura).

O texto de Paulo introduz, porém, um importante complemento na ideia de que a existência do fiel e justo já é o início da vida eterna: Paulo não gosta nada do espiritualismo exaltado de pessoas que se consideram "nova criação" sem morte existencial da vida antiga. No primeiro cristianismo havia uma tendência para um conceito "barato" da vida eterna, um pouco ao modo dos gnósticos, que achavam que bastava participar de algum "mistério" esotérico para ter a imortalidade. Paulo insiste muito na realidade tanto da morte quanto da ressurreição do Cristo (cf. 1Cor 15,12-19). E para participar destas é preciso também crucificar o velho homem com Cristo.

Portanto, a certeza de estarmos nas mãos de Deus - pela fé em Cristo que nos torna verdadeiramente "justos"- não tira nada do caráter crítico da morte corporal: ela fica um véu, atrás do qual nosso olhar não penetra. Inclusive, para o cristão, ele é mais "séria" do que para quem vive sem se preocupar de nada, porque ela significa desde já a morte do homem "natural". Não podemos viver com a perspectiva de sermos assumidos pelo Espírito de Deus, para ressuscitar com um "corpo não carnal, mas espiritual" (1Cor 15,44ss), se não nos acostumarmos ao Espírito desde já. O corpo espiritual de que Paulo fala é a presença "ao modo de Deus". Este é o nosso destino. Mas, se não nos tornarmos aptos para este modo agora, como seremos aptos para sempre?

Assim, a morte, para o cristão, é a pedra de toque de sua vida. Dá seriedade à sua vida. Valoriza, na vida, o que ultrapassa os limites da matéria, que é "só para esta vida" (1Cor 15,19). Abre-nos para o que é realmente criativo e supera o dado natural da gente. Um antegosto daquilo que é "vida pneumática", a gente o tem quando se supera a si mesmo, p.ex., negando seus próprios interesses em prol do outro. O verdadeiro amor implica, necessariamente, o morrer a si mesmo. Superação do homem confinado na perspectiva material, tal é a realidade espiritual que encontrará confirmação definitiva e inabalável na morte. Na morte, o que é verdadeiro e definitivo em nosso existir supera a precariedade da existência. A morte é nossa confirmação na mão de Deus: Ressurreição.

Para tal existência, morta para o homem velho, é que o batismo, configuração com Cristo, nos encaminha. Portanto, vivemos já a vida da ressurreição, num certo sentido. Quem diz isto em termos expressos é João (evangelho). A Marta, que representa o conceito veterotestamentário da vida eterna - a ressurreição depois da morte, no fim dos tempos - Jesus responde que, quem crê nele, já durante sua vida tem a vida eterna (11, 25-26; cf. 5,24). O fundamento de afirmação não convencional assim é que Jesus mesmo é o dom escatológico por excelência. Quem vê Jesus, vê Deus (Jo 14,9). Quem aceita Jesus na fé, não precisa esperar a vida do além para ver Deus (na linguagem do A.T., "ver Deus" era a grande esperança).

Com isso, estamos longe dos temas tradicionais referentes aos finados. De fato, a celebração dos féis falecidos é a celebração de nossa esperança e da comunidade dos santos, da "comunhão dos santos", tanto quanto a festa do 1o de novembro. A liturgia nada diz das penas do purgatório e coisas semelhantes, que tradicionalmente estão no centro da atenção neste dia. Ao deixarmo-nos ensinar pela nova liturgia, deslocaremos o acento desta comemoração. Vamos assmilar a espiritualidade desta liturgia, para ter uma visão mais cristã da morte, o passo definitivo que conduz à vida verdadeira. T


Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes


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