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domingo, 10 de abril de 2016

Homilia do 3º Domingo da Páscoa, por Pe. Paulo Ricardo



Jesus nos espera do outro lado

Santo Tomás de Aquino, comentando essa terceira aparição de Cristo Ressuscitado aos Apóstolos, contrapõe-na àquela aparição em que acontece a primeira pesca milagrosa (cf. Lc 5, 1-11). Antes, Ele estava no barco para, agora, aparecer de manhã e na margem. Que sentido místico trazem consigo essas diferenças?
"Mane autem iam facto, diz o Evangelho. 'Já ia a amanhecer'. Misticamente, pela manhã se entende a glória da ressurreição: 'De tarde sobrevêm o pranto e, de manhã, a alegria' (Sl 29, 6), e também o estado da vida eterna: 'Pela manhã vos invoco e espero' (Sl 5, 5).
Todavia, quando realizou antes da paixão o mesmo milagre, Ele não ficou no litoral, mas dentro do barco. Por que depois da paixão Ele fica de pé na margem? A razão disso é que o mar significa a agitação do século presente, enquanto o litoral é o término do mar: 'Está posta a areia como término do mar, preceito sempiterno, que ele não ultrapassará' (Jr 5, 22). Assim, antes da paixão, Cristo ficou no mar, porque possuía um corpo mortal, mas, depois da ressurreição, já tinha vencido a corrupção da carne, pelo que ficou na margem." [1]
Essa leitura mística é importante para dar à nossa fé um impulso de esperança: Cristo está na barca de nossa vida em meio aos ventos e tempestades deste mundo e, ao mesmo tempo, Ele nos aguarda no litoral e tem preparado para nós um banquete, assim como preparou um para os Seus discípulos.

Antes disso, porém, Jesus pergunta aos discípulos se eles têm algo para comer. O significado místico desse gesto é indicado novamente por Santo Tomás: o Senhor pede de comer porque quer ser consolado por Seus discípulos [2] — consolação que acontece de fato por meio da nossa obediência aos mandamentos de Deus, que é justamente o motor dessa segunda pesca milagrosa. Depois de uma noite inteira lançando por sua própria iniciativa as redes, os discípulos só têm sucesso quando, assistidos pelo Senhor, lançam as redes impulsionados por Sua palavra.

Já em terra firme, o Evangelho diz que Jesus prepara três coisas para os Apóstolos: "Logo que pisaram a terra, viram brasas acesas, com peixe em cima, e pão" (v. 9). É o Doutor Angélico, novamente, quem nos dá o significado dessas realidades:
"Por isso nos é dado a entender, de certo modo, o que é preparado por Cristo para o banquete espiritual. E se tomamos alegoricamente esse banquete como aquele da Igreja, Cristo também prepara estas três coisas.
Primeiro, as brasas acesas da caridade: 'Agindo deste modo, brasas de fogo amontoarás sobre a sua cabeça' (Pr 25, 21); 'Enche a mão com brasas de fogo' (Ez10, 2). Tais brasas Cristo trouxe do Céu à terra, como Ele mesmo diz: 'Dou-vos um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros' (Jo 13, 34), e ainda: 'Fogo vim trazer à terra' (Lc 12, 49).
Segundo, prepara sobre as brasas um peixe, que é Ele mesmo: porque o peixe assado é Cristo padecente (piscis assus Christus passus), que é posto sobre a brasa quando, em um incêndio de caridade, por nós é imolado na cruz, como diz S. Paulo: 'Sede imitadores de Deus como filhos caríssimos, e andai no amor, assim como Cristo nos amou e se entregou por nós a Deus como oblação e hóstia em odor de suavidade' (Ef 5, 1-2).
Prepara, por fim, os pães que nos refazem, pães que são Ele próprio. De fato, enquanto está escondido por Sua divindade, é chamado de peixe, cuja propriedade é esconder-se sob as águas: 'És verdadeiramente um Deus escondido' (Is 45, 15), mas, enquanto nos refaz por Sua doutrina e também nos dá o Seu corpo como alimento, Ele é verdadeiro pão: 'Eu sou o pão da vida descido do céu' (Jo 6, 51); 'O pão dos frutos da tua terra será farto e abundante' (Is 30, 23)." [3]
Este é, pois, como que o quadro geral deste Evangelho: depois de uma noite trabalhando sem pescar nada, imagem do cansaço da labuta desta vida, Jesus espera-nos do outro lado, na margem, pronto para dar-nos a Si mesmo em alimento: o peixe, representando a Sua divindade, e o pão, a Sua humanidade — o Cristo todo, em suma.

Lancemos um olhar, agora, às diferentes reações dos Apóstolos, ainda sob a direção do Aquinate:
"João, perspicaz em conhecer, de imediato reconhece o Cristo e diz a Pedro, que ele amava mais do que os outros e que também era o primeiro entre todos: 'É o Senhor'. Fê-lo movido pela pesca milagrosa, pois está escrito: 'Tu dominas os mares com poder' (Sl 88, 10), e ainda: 'O Senhor faz tudo aquilo que quer, no céu e na terra, no mar e em todos os abismos' (Sl 134, 6). Disse ainda, 'É o Senhor', porque com esse nome estavam acostumados a chamá-Lo, como atesta o próprio Jesus: 'Vós me chamais mestre e senhor' (Jo 13, 13).
Pedro, porém, é retratado fervoroso no agir, fervor que aparece,
(1.º) em sua prontidão: 'Simão Pedro, ouvindo dizer que era o Senhor, vestiu sua roupa, pois estava nu, e atirou-se ao mar. Os outros discípulos vieram com a barca'. Tão logo ouve, Simão Pedro não hesita e corre de imediato em direção ao Senhor: 'Não demores nem adies dia após dia em converter-te ao Senhor' (Eclo 5, 8).
(2.º) em sua reverência em relação a Cristo: por pudor ele vestiu a sua túnica, porque estava nu, tanto por causa do calor daquele lugar, quanto para facilitar o seu ofício. Isso dá a entender que aqueles que se aproximam de Cristo devem despir-se do homem velho e vestir-se com o novo, que é criado segundo Deus na fé: 'O vencedor será revestido com as vestes da salvação, e não apagarei o seu nome do livro da vida' (Ap 3, 5).
(3.º) em sua segurança: porque, cheio de amor e não querendo seguir com o barco, que demorava, lançou-se ao mar, a fim de alcançar prontamente o Cristo.
Em um sentido místico, o mar indica a tribulação do tempo presente. De onde aqueles que desejam alcançar o Cristo deverem lançar-se ao mar, sem se refugiarem das tribulações deste mundo, como está escrito: 'Por muitas tribulações entraremos no reino de Deus' (At 14, 21), e ainda: 'Filho, se queres entrar para o serviço do Senhor, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação' (Eclo 2, 1). Pedro, porém, se lançou ao mar e saiu ileso ao encontro de Cristo, mostrando que os servos de Cristo saem ilesos e seguros do meio das tribulações: 'Abriste no mar uma via e um caminho firmíssimo entre as ondas' (Sb14, 3).
Aqui é posta, como diz São João Crisóstomo, a ótima condição de João e Pedro: aquele superior quanto ao intelecto, e este mais fervoroso quanto ao afeto." [4]
As reações dos discípulos também podem ser medidas pela régua das três virtudes teologais, na ordem mesma em que são apresentadas por São Paulo (cf. 1 Cor 13, 13): primeiro, manifesta-se a fé de São João, que reconhece o Senhor a partir de Seu poder; segundo, manifesta-se a esperança de São Pedro, que se lança devotamente ao mar para chegar depressa à Sua presença; por fim, resplandece a caridade dos discípulos, que levam a Cristo os peixes que apanharam, imagem das almas que a Sua Igreja deve apresentar-lhe no fim dos tempos.

Essa mesma virtude da caridade fica patente na profissão de São Pedro, que reitera três vezes amar o Senhor — virtude que o próprio príncipe dos Apóstolos procura inculcar em seus irmãos presbíteros (também de três modos!), quando escreve a sua Primeira Carta canônica:
"Aos anciãos entre vós, exorto eu, ancião como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, participante da glória que está para se revelar: sede pastores do rebanho de Deus, confiado a vós; cuidai dele, (i) não por coação, mas de coração generoso; (ii) não por torpe ganância, mas livremente; (iii) não como dominadores daqueles que vos foram confiados, mas antes, como modelos do rebanho. Assim, quando aparecer o pastor supremo, recebereis a coroa imperecível da glória." (1 Pd 5, 1-4)
A meta final da Igreja é encontrar o Cristo na margem do além, na glória do Céu. Ainda estamos na barca da Igreja, mas, quando nos pomos a escutar com fé a Palavra de Deus e a colocamos em prática, já entramos em contato com o Senhor Ressuscitado que nos espera. Lancemo-nos com devoção ao mar conturbado deste mundo, certos de que "os servos de Cristo saem ilesos e seguros do meio das tribulações". T

Subsídio: Suma Teológica, II-II, q. 82, sobre a virtude da devoção.
Referências:
Ibid., n. 2588.
Id., 2, n. 2599.
Id., 2, n. 2593-2594.




domingo, 27 de março de 2016

Homilia da Páscoa da Ressurreição do Senhor, por Pe. Paulo Ricardo



Vencendo a morte pela fé

Não é possível compreender o que é a salvação que celebramos na Páscoa, sem antes entendermos a perdição em que entrou o homem pelo pecado. Não se pode entender a dinâmica da vida sem entender o que significa a morte.

Em sua dimensão física, como se sabe, a morte veio ao mundo como castigo. Ela não estava prevista no plano original do Criador, mas entrou na vida do homem por uma realidade muito mais trágica: o pecado, que tem como consequência terrível e irremediável a morte eterna. De fato, muito pior que a alma separar-se do corpo pela morte é que ela se separe de Deus eternamente. Por isso, São Roberto Belarmino chama o inferno de "morte imortal":
"Ó vida mortífera! Ó morte imortal! Se és vida, como matas? Se és morte, como duras? Assim, pois, nem de morte nem de vida podes ser chamada, porque ambos esses momentos algum bem possuem: a vida tem a quietude e a morte tem fim. Tu, porém, nem a quietude nem o fim possuis." [1]
Só quem se dá conta da gravidade que tem essa segunda morte é capaz de compreender o verdadeiro sentido da morte física: Deus a permite — bem como as doenças, misérias e sofrimentos deste mundo — para que o homem se humilhe, tome consciência de sua condição e se volte para o Pai. Não se trata de um castigo de condenação, mas de uma pedagogia de salvação.

O Verbo encarnado venceu ambas as mortes do homem: a física, unindo o Seu corpo e a Sua alma, na Ressurreição; e a espiritual, unindo de modo inquebrantável a Sua divindade à Sua humanidade, através do mistério da união hipostática. Participar definitivamente dessa vitória da Ressurreição só nos será possível no fim dos tempos, quando acontecer a ressurreição da carne, a qual confessamos na oração do Credo. Neste exato momento, porém, já podemos participar da vitória de Cristo sobre a morte, unindo a nossa alma com Deus através da fé.

Para tanto é preciso, em primeiro lugar, estar em estado de graça. Quem ainda não foi batizado, receba o Batismo; quem já é católico mas caiu na desgraça do pecado mortal, reconcilie-se com Deus pelo sacramento da Confissão. Antes de qualquer coisa, portanto, volte o filho pródigo para a casa de seu pai.

Depois, é preciso exercitar a virtude da fé. O Evangelho deste domingo diz que São João, apenas entrando no sepulcro vazio, "viu e acreditou" (v. 8). Mesmo não tendo ainda compreendido as Escrituras, eles tiveram fé. Mesmo não tendo ainda visto o Cristo Ressuscitado, eles creram. Trata-se, na verdade, de uma constante de todo o tempo da Páscoa, que Jesus Se disfarce diante de Seus discípulos: na ausência do túmulo, no aspecto do jardineiro, no caminho de Emaús, na beira do lago operando mais uma pesca milagrosa etc. Age assim o Senhor porque quer dos homens a fé, e esta — preleciona São Gregório Magno — "é sem mérito quando a razão humana e a experiência lhe servem de provas" [2].

Também hoje o Cristo Ressuscitado espera de nós a fé. A festa da Páscoa não é só a passagem de Cristo da morte à ressurreição, mas a Sua visita em nossa casa, o suave toque de Sua graça em nossa vida, mormente através do sacramento da Eucaristia. Timeo Deum transeuntem et non redeuntem: Santo Agostinho dizia temer o Deus que passa e não volta mais. Não permitamos que esta Páscoa seja como outra qualquer. Ao comungarmos neste domingo do corpo e sangue do Senhor, façamos um fervoroso ato de fé na presença de Cristo na Eucaristia e nos unamos Àquele que venceu a morte para nos dar a vida imortal. Amém. T

Recomendações:

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, II-II, q. 1-16;
São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo. In: Obras de São João da Cruz (trad. das Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro), vol. I. Petrópolis: Vozes, 1960.

Referências:

De arte bene moriendi, II, 3.
Citado por Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 55, a. 5.


sábado, 26 de março de 2016

Sábado Santo


Jesus ainda permanece no sepulcro, por isso, é dia de profundo silêncio e descanso. Segundo uma antiquíssima tradição, esta é a noite de vigília em honra do SenhorÉ a mãe de toda as vigílias. A Vigília Pascal é o cume do ano litúrgico. Sua celebração se realiza de noite; mas de maneira a não começar antes do início da noite e a terminar antes da aurora do Domingo. É a Vigília Solene, cuja ação forma uma unidade iniciando com a Celebração da Luz, Liturgia da Palavra, Liturgia Batismal e terminando com Liturgia Eucarística.

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O que a Igreja nos transmitiu até a atualidade é que o Sábado após a morte de Jesus é o dia do grande silêncio e é esta a atitude mais coerente para com ele.

Imaginemos que, pelo que nos ensina a Santa Igreja, falando na oração do "Creio" que Jesus "desceu à mansão dos mortos", que ele desceu ao inferno!

Aqui é interessante citar um trecho de uma antiga homilia no grande Sábado Santo, feita no século IV e lida até hoje neste dia, durante o
Ofício das Leituras, na Liturgia das Horas: "Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos".


A grande mensagem deste dia, mesmo que sem falar num sentido histórico, vemos que aqui a história da salvação se faz plena: o Filho de Deus, figura do Bom Pastor, resgata por sua morte, a liberdade e a condição de adoção filial perdida no Paraíso, e o faz a começar dos primeiros pais. Por mais que estes sejam figuras mitológicas, para os seguidores de Jesus, são arquétipos de uma verdadeira guinada existencial para Deus!


A reflexão teológica deste dia é tão profunda que até São Marcos optou por calar-se. Aqui, a homilia citada acima, na íntegra, de um autor desconhecido:

De uma antiga Homilia no
Grande Sábado Santo
(PG43,439.451.462-463) (Séc.IV)
A descida do Senhor à mansão dos mortos

Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos. O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa.

                       

Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’ Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa. Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado. Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida. Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti. Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus. Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”. T


sexta-feira, 25 de março de 2016

Sexta-feira da Paixão do Senhor


A tarde da Sexta-feira Santa apresenta o drama imenso da morte de Cristo no Calvário. A cruz erguida sobre o mundo segue de pé, como sinal de salvação e de esperança.

A Igreja concede uma Indulgência plenária aos que hoje participam piedosamente da veneração da Santa Cruz e beijam devotamente o Santo Lenho (cf.: Enchiridion Indulgentiarum, nº 17).

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Chegamos a um dos cernes desta semana em que, para muitos, este dia é considerado o principal; não ao nosso olhar, mas tendo em vista que ele abre para o dia seguinte a leitura do homem per-feito, isto é, um homem feito e experimentado pelo sofrimento e isso não de maneira divina somente mas, sobretudo, de modo humano bem concreto.


Este dia, segundo São Marcos, é o dia da redenção e remissão. Mesmo sabendo que o grande causador da morte de Jesus foi ele próprio, não obstante, poderia ter se esquivado de tudo o que via e ouvia de errado em seu povo; mas o interessante é que a morte de Jesus não foi de substituição. Desta compreensão deve nascer a noção de sacrifício, isto é, todo o feitio de Jesus foi um "sagrado ofício" em louvor do Pai, pela salvação de muitos, mas não de todos - para isso é que veio ao mundo (cf.: Jo 1,8).


Importante aqui é ler estas duas palavras: "Muitos" e "Todos". A morte de Jesus, mas não do Cristo foi um benefício de muitos. Isto é bem claro, desde o seu nascimento - em que habitou num meio de uma etnia bem específica, concreta e, esta raça tendo a primazia sobre os outros povos, o cunho político fica claro. A libertação tão esperada foi primeiramente para o povo de Israel que, desde o Antigo Testamento, se preparava para este momento. Porém, a compreensão de libertação estava entendida no aspecto de escravatura para com um senhorio.


O que Jesus traz é o entendimento que a salvação vem de Deus e que passa pela humanidade e que é feita com o tempo. Por isso São Paulo afirma que Jesus é o homem perfeito, no qual se revela Deus e que é Senhor para a glória de Deus Pai (cf.: Fl 2,6-11). Descobrir isso deve ser a busca de todo aquele que se faz seguidor dos seus passos, carregando também a sua cruz.


Assim, a Sexta-feira Santa traz consigo um convite à reflexão, onde cada indivíduo repensa sobre seus atos, confrontando com os ensinamentos e com a vida de Jesus. Por isso, a Igreja recomenda fazer jejum e abstinência de carne: para lembrarmos que dependemos de Deus!

Cristo celebrou a Páscoa e instituiu a Eucaristia; nós cristãos de todo o mundo devemos co-memorar a sua Morte e a sua Ressurreição, pois "o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (cf.: Jo 1,29) deu a sua vida por amor a nós!

Para nós, reviver essa parte do Evangelho é voltar o pensamento para refletir sobre o amor de Deus pela humanidade. Uma vez que a Paixão de Cristo remete à prova maior do amor do Pai, que entregou seu Filho amado pela salvação dos homens.Toda atenção e detalhamento que Marcos faz em sua narração, demonstra a tamanha preocupação com cada instante final de Jesus (cf.: Mc 15,17-47), que se torna um convite para os adeptos do Cristo, fazendo retomar o alerta da terça-feira: "Vigiai!" (cf.: Mc 13,37). T


quinta-feira, 24 de março de 2016

Quinta-feira da Semana Santa


Neste dia, fazemos recordação da instituição do único e eterno sacerdócio e sacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo e do Santíssimo Sacramento do Altar, e o mandamento do amor fraterno: "Lavai os pés uns dos outros" (cf.: Jo 13,14).

O Tríduo Pascal não é preparação do Domingo da Ressurreição, mas é, segundo as palavras de Santo Agostinho, "o sacratíssimo Tríduo do Crucificado, Sepultado e Ressuscitado". O Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor começa com a Missa vespertina da Ceia do Senhor, possui o seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as Vésperas do Domingo da Ressurreição. É o ápice do ano litúrgico porque celebra a Morte e a Ressurreição do Senhor, "quando Cristo realizou a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus pelo seu mistério pascal, quando morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando, renovou a vida".


Progressivamente a narrativa de Marcos vai levando o leitor a um cume, que ainda não chegou, mas que já se aproxima. O início deste dia se dá com os preparativos para a ceia pascal, sobretudo a escolha do lugar (cf.: Mc 14,12-16). Jesus havia pensado nisso e combinado com algum amigo seu, antes mesmo de os discípulos se preocuparem com isso - o que não é mencionado por nenhum dos quatro evangelistas.

Percebemos que é um dia dramático, onde todas as traições e sinais de infidelidade possíveis se realizam. Sobretudo, à noite. Jesus já sabia o que lhe aconteceria e isso não devido ao conhecimento "sobrenatural", mas porque ele mesmo percebia que a cruz se aproximava e, consequentemente, sua morte, pois as tonalidades de voz com que as autoridades agiam para com ele eram determinantes para definir isso.

Marcos inicia a narrativa e o comentário ao que define-se como a "última ceia" que Jesus teve com os seus. No final da tarde ao reunir os doze, Jesus introduz a refeição com um grande anúncio para todos: o de que um deles haveria de traí-lo (cf.: Mc 14,18b). Para a tradição cristã católica aqui se tem o cume da Missa, onde o próprio Cristo se oferece como um sacrifício, "revelando-se ao mesmo tempo, sacerdote, altar e cordeiro" (cf.: Prefácio da Páscoa V), em expiação dos pecados do mundo. Por assim dizer, é o último sacrifício cruento e uma vez por todas. Ele retoma a tradição dos sacrifícios do Antigo Testamento e dá um novo mandamento: "amai-vos uns aos outros" (cf.: Jo 13,34), da mesma forma com que ele os amou. Temos aqui as palavras da instituição da Eucaristia, da plena e perpétua memória comum-união com o Senhor. É interessante de se notar que Jesus fala o que é o que estão comendo e bebendo, isto é, o seu corpo e sangue, somente depois que eles tomam de ambos (cf.: Mc 14,22-24). Isso significa que esta união do seu corpo e sangue com eles é o sinal do grande amor, que mesmo contando de antemão com a infidelidade deles, ainda assim os ama sem condicionamentos.


Talvez, pelo fato de cearem bem, com pães, vinho, etc, os discípulos não terem dado tanta atenção a isso; talvez porque já estavam acostumados com tantos pães multiplicados, tantos peixes e outros sinais de comida feitos anteriormente, que estes dois não tenham sido tão importantes para eles, mas tão somente uma refeição especial sim, pelo fato de ser uma ceia pascal, pois era já "o primeiro dia dos ázimos" (cf.: Mc 14,12). O que para Jesus era a "última ceia", seria a "primeira missa", isto é, a primeira re-cordação do seu sacrifício, onde todos tomariam do mesmo cálice e do mesmo pão, de maneira a formarem uma nova e eterna aliança (cf.: Mc 14,24-25) com Jesus e seu Reino.


Outro fato é Jesus manifestar sua morte, falando de "corpo e sangue", isto é, para significar o modo violento com que morreria. Dado que, normalmente se fala se corpo e alma (morte 'natural'), ao passo que Jesus revela corpo e sangue. Talvez seja uma primeira alusão ao martírio em favor de uma causa; no caso de Jesus, o Reino de Deus e sua Justiça, sempre em contraponto ao mundo imperial-dominador de então. Quer dizer, sua fala e sua morte, não são em vão e suas palavras não são ditas à toa, mas todas têm conotação forte de desejo de libertação do povo, para que vivam em plenitude, em abundância. Por isso, para dar o exemplo, Jesus se fez servo e disse a que veio: "como servo" (cf.: Lc 22,27b). Talvez esta tenha sido a maior frustração dos discípulos para com o seu mestre: um rei pobre que, no fundo, é a essência de Deus: "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus" (cf.: Mt 5,3).


Seguindo todos os costumes judeus, Jesus e os doze ao findarem a ceia, cantam um hino, como que agradecendo pelo alimento ou mesmo pela páscoa iminente (cf.: Mc 14,26). Ao saírem para o Getsêmani, Jesus já se encontrava agitado ou mesmo perturbado com toda a situação já passada e com a que viria. Por isso, precisava se preparar. Mesmo levando consigo os três discípulos, as traições se iniciavam... (cf.: Mc 14,32-33). Um saiu para entregá-lo às autoridades (cf.: Jo 18,2), outros dormiram (cf.: Mc 14,37a) e outros fugiram (cf.: Mc 14,50). A atitude que o mestre toma diante disso tudo é a que se passou para a tradição cristã, de em todos os momentos, sobretudo os de dificuldade, rezar ao Pai. Neste caso, Jesus mostra uma tão grande intimidade com o Pai que o chama carinhosamente de "Abbà", isto é, "Papaizinho" (cf.: Mc 14,36a), tal como uma criancinha. Porém, o que mais impressiona é a capacidade enorme de entrega à mercê do Pai (cf.: Mc 14,36b).


Em glosa à resposta de Jesus aos soldados que chegam para prendê-lo, enfatizamos como importante: a fala de Jesus é referência à denominação de Deus na Bíblia judaica - "Eu Sou" (cf.: Ex 3,14); e esta resposta demonstra claramente a todos os presentes na cena que ele e o Pai eram um (cf.: Jo 10,30).

Por fim, ainda nesta mesma noite, Pedro nega Jesus por três vezes, como ele havia predito (cf.: Mc 14,66-72). O que importa aqui são as atitudes posteriores à negação: covardia, medo, desesperança. Porém, a lembrança das palavras de Jesus são mais fortes; por isso, Pedro se arrepende, chora e pede perdão. Uma atitude gerou a outra e todas elas são exemplos de possibilidades de cada um dos seguidores de Jesus.

                                     
Ele é entregue e julgado pelas autoridades judias.  Por mais que estas não representassem o povo, tinham o poder de deter o que quisessem, a fim de agradar ao Império Romano, ao qual eram submissos. E tendo sido, finalmente Jesus condenado, foi ainda levado na madrugada até o governador Pôncio Pilatos (cf.: Jo 18,13-28). Todo o julgamento ocorreu durante a escuridão da noite, para simbolizar tamanhas trevas que pairavam sobre o seu destino final, já se aproximando a hora derradeira. T



quarta-feira, 23 de março de 2016

Quarta-feira da Semana Santa


Uma boa percepção é ver que a multidão sempre no final das parábolas está do lado de Jesus. Neste dia, começamos a perceber um fato realmente novo: a multidão continua a seu favor, não obstante, ela é incitada a traí-lo. Porém, um dos seus o faz de maneira já anunciada. A pergunta que podemos levantar é: qual a necessidade de um traidor? A resposta é de fundamental valor para compreendermos melhor os dias que virão. Antes disso, procuremos compreender melhor o que vem a ser marcante num discípulo.


Entendamos que a característica principal de um discípulo é a positividade da fé, isto é, ter a capacidade de ler a vida como um filho de Deus, fazendo leitura de cada situação da vida, sabendo que a sensibilidade própria é conhecer (do francês Conaître, tem grande força significativa e quer expressar co-nascer, nascer com; leva a um co-nhe-cer: isto é, em sendo, se mostra tal como se é em sua raiz mais íntima). Conhecer é compreender o mistério da vida em seu fim último: a Santíssima Trindade. Uma vez que Deus ama em nós o que Ele é: pura bondade.

Esta fala nos remonta à cena da criação, em que "Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e viu que era bom" (cf.: Gn 1,27.31). Porém, como dizia um grande filósofo, Jean-Jacques Rousseau, "O homem é inocente por natureza. Não é bom nem mau. Quem assim o torna, por influências compactuadas com o tempo, é a sociedade". Isto para indicar que Judas Iscariotes não era ou tinha o gênero ruim. Ele fazia parte de uma facção de indivíduos revolucionários que esperavam também a vinda do Messias, porém, como um guerrilheiro que viria mudar todo o rumo da vida dos judeus, só que por meio da espada.

Atentemos para a pessoa de Judas Iscariotes: aqui se nos apresenta uma realidade de possibilidade para cada um de nós cristãos: de sermos também traidores. É por isso que ele tem papel importante até os dias de hoje. Se a Igreja transmitiu ao longo dos séculos pela Tradição a sua figura, é porque viu nele a imagem de cada ser humano - finito, limitado, com ânsia de poder, de guerra e, sobretudo o poder da traição pelo gosto de fazer a própria vontade. Não se trata aqui de se fazer uma leitura espiritual da sua pessoa, mas tão somente colocar em relevo o seu papel de traidor, como sendo uma possibilidade de cada pessoa humana e cristã.

Judas representa aquele discípulo que, mesmo estando junto ao mestre é cego e surdo aos seus ensinamentos e parece que estes nunca lhe agradam. Daí, ser revoltoso. Psicologicamente falando, ele não se dispõe ou tem a capacidade de se arrepender e pedir perdão. É a figura oposta a Pedro, que apesar de também cometer o maior crime num relacionamento de amor - a traição - se arrepende, pede perdão e volta. Estas duas figuras são tipos ( = representa ou remonta à figura de Cristo) para nós, de possibilidades no seguimento de Jesus Cristo.



De fato, seguir Jesus significa aceitar a cruz, caminhar com Ele contra a violência imperial e a colaboração religiosa passa pela morte até a ressurreição. É esta atitude que Jesus recomenda àqueles que o querem seguir, uma vez que a essência do que é religioso (aquele que está em união com o divino) é o vencer-se a si mesmo. Se assim formos observar, o pecado cometido por Judas é o pecado atual, que podemos explicitar, conceituando-o: o pecado é questão de falta de encontro de fé, de um amor apaixonado pelo Senhor!

Assim sendo, de todas as coisas, nós humanos predicamos, pegando e dando o modo de viver essas coisas e seu modo próprio, desenvolvendo as possibilidades intrínsecas a elas, com todas as condições favoráveis, para que naturalmente, as coisas se desenvolvam. Diferentemente do homem, que é impossível enumerar as condições e possibilidades dele. Ora, o homem tem que estar na vida, procurando dar sentido, reorganizando o sentido dado à vida, relendo Deus, Ele mesmo e a realidade de uma forma nova: isto é experiência. É o que faltou em Judas, para chegar a um verdadeiro encontro com Jesus, diferentemente de Pedro, que ao negar Jesus pela terceira vez, lembrou-se das palavras de Jesus "e começou a chorar" (cf.: Mc 14,72b).



Aqui percebemos a importância do choro como encontro. Em toda a vida dos santos, o choro só vem a partir de um encontro pessoal de uma grande busca pelo amor do Senhor. É o que aconteceu com Pedro, São Francisco de Assis e tantos outros. Ser Judas e ser Pedro, repetimos, é uma possibilidade que o Senhor nos dá, sempre questionando quanto à nossa liberdade de filhos de Deus.

Portanto, a necessidade de um traidor é para se perceber que, em tudo, o Senhor oferece a mesma coisa que ofereceu no Paraíso: a liberdade de escolha (cf.: Gn 2,17). Diversamente daquela mulher que perfumou o corpo de Jesus (cf.: Mc 14, 3-8), Judas escolheu a "pior parte". E assim, Judas colaborando com o domínio imperial, findou-se a quarta-feira, estando tudo combinado para a prisão de Jesus. T


terça-feira, 22 de março de 2016

Terça-feira da Semana Santa


No que assim podemos chamar de "o dia mais demorado" dos fins da sua vida terrena, afirmamos que Jesus, apesar de ter sido criado como um carpinteiro, por profissão, não se apegou a isso e estudou muito bem para saber o suficiente sobre as Leis do seu povo. Devido a esta preparação, ele tinha, de fato, autoridade para falar, isto é, não pelo fato de pertencer a uma classe social baixa, que não detinha conhecimentos suficientes para poder exercer sua autoridade.


Num jogo de rebates e questionamentos, Jesus põe em prática a esperteza de um bom judeu. O que ele faz é assumir as iniciativas de enfrentamento com as autoridades de então. Para tanto, se utiliza de parábolas, como lhe era já costume (cf.: Mc 11, 27-33; 12). Ele sabia conduzir bem as respostas às perguntas acerca de si e das Leis. E isso, sem tirar um "i" da própria Lei, mas procurando sempre dar-lhe pleno cumprimento.


Jesus não é alguém que "diz palavras ao léu", mas tudo o que diz e faz, como anteriormente afirmado, tem uma conotação político-social. Percebe-se que todo o seu ensinamento - novamente no Templo - gira em função de chegar ao ponto crucial da sua pregação: "O maior mandamento" - amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como igual amor de si (cf.: Mc 12,28-34). É interessante que Jesus se utiliza da "maiêutica socrática", isto é, faz com que a sua fala não seja necessariamente sua, antes, procura ensinar e mostrar que os seus irmãos judeus podem extrair de dentro de si mesmos as respostas aos próprios questionamentos. Mas, no fundo, todos ao lhe questionar já sabiam as respostas, porém, queriam ouvir o que ele falaria para assim, pegá-lo em alguma falha e poderem condená-lo.

Isto revela que Jesus tinha, de fato, conhecimento necessário para ser chamado de "Mestre", como o era. É também interessante percebermos que ele consegue fazer com que um dos escribas faça a conclusão da sua fala a respeito do grande mandamento (cf.: Mc 12,32-33). Mas, ao mesmo tempo, novamente afirma o modo errado que eles (escribas) têm de praticar a Lei do amor a Deus e ao próximo. O exemplo clássico para ilustrar este acontecimento é o óbolo da viúva, que ofereceu ao Senhor não o que lhe excedia, mas o que tinha dela mesma (cf.: Mc 12,41-44).  Em algumas traduções da Bíblia, diz-se que ela ofereceu não dinheiro, mas a própria vida. Isso para significar como deveria ser um judeu autêntico: oferecer ao Senhor a vida e não os sacrifícios, ou mesmo anunciar em praça pública, como os escribas, os bens que faziam, tão somente para aparecerem. Por isso, o alerta de Jesus é claro: cuidado!


Um outro fato interessante de se notar é o de Jesus se chamar "Filho de Davi" e dizer que todos também o eram. Essa fala escandaliza as autoridades judias (cf.: Mc 12,35-37). E novamente traz outros conflitos, incomodando àqueles que detinham o poder de manipulação do povo.

Sob um enfoque estreitamente político, podemos dizer que nestes dias finais do ministério de Jesus, o Cristo, é que ele manifesta, de uma maneira mais clara, aquilo que todo o povo esperava dele, como sendo o Messias. Nestes tipos de conflitos em que Jesus choca-se frontalmente com as autoridades de então, é que ele expõe a que veio e foi enviado pelo Pai: para dar testemunho d'Ele e do seu Reino. Por isso, suas profecias têm grande força. Mas os estultos não entendem e o tem como um louco. Talvez este fato faça sentido quando São Paulo afirma que "Deus escolheu os que são fracos e sem valia pelo povo, para que confundam os que são grandes e tidos como sábios aos seus olhos" (cf.: 1Cor 1,27).

O final do terceiro dia desfecha-se com um alerta: "Vigiai!" (cf.: Mc 13,37), significando de maneira escatológica, a preparação devida para a volta do Filho do Homem e também para que ninguém seja pegue de surpresa. É uma fala invitatória a fazer memória constante do alerta (cf.: Mc 13,23.33). T


segunda-feira, 21 de março de 2016

Segunda-feira da Semana Santa


Para uma meditação da "Semana Maior" o
Reflexões Franciscanas
traz uma série de especiais
para cada dia desta "Semana Santa"

Apresentação

Estas não são "palavras oficiais do Magistério da Igreja"; como a proposta diz, são Reflexões Teológicas, feitas a partir do estudo metodológico histórico-crítico do Evangelho de São Marcos, nos capítulos referentes a esta "última semana" de Jesus de Nazaré

Portanto, não devem ser motivo de "escândalo", mas é bom que elas agucem a busca pelo conhecimento da pessoa humana e divina de Jesus Cristo.

Daí deixarmos, nesta semana, os comentários sem moderações. Optamos também por não nos referirmos a alguns símbolos que aparecem nas cenas. Mas deixamo-los para um outro enfoque, o litúrgico, contemplado no site "Salvem a Liturgia!".

A linguagem aqui utilizada em certos momentos, pode parecer um tanto quanto "rebuscada", mas pretende tão somente ser fiel ao que deve ser entendido mesmo! Isto é, quer ser uma "legenda", como propõe a palavra e o sentido original latino.

Introdução

Todo o cenário dos relatos histórico-factuais dos últimos dias de Jesus, o Cristo, é impregnado de uma busca de contra-afirmações anti-imperialistas, epocalmente explicáveis, sob o enfoque histórico, geográfico, político e também religioso. Aquilo que, aparentemente não apresenta ser claro, com uma exegese crítica e uma hermenêutica aguçada e bem fundamentada, pode passar a fazer compreendida com um novo jeito de se buscar a divindade, outrora perdida no Paraíso (cf.: Gn 3,23) e agora recuperada com o Cristo, Filho de Deus, novo Adão (cf.: 1Cor 15,45b) e Salvador da humanidade.

Nesta semana visaremos, com estas reflexões, saber o que significou esta última semana na vida de Jesus e, na medida emque esta história é considerada reveladora, o que ela significa para nós hoje.

No Evangelho de São Marcos - o primeiro a ser escrito - percebemos que o evangelista narra detalhadamente cada dia, às vezes, até com horas; levando a dar cabo à "grande notícia", que foi a morte de Jesus, isto é, explicando, contra o pano de fundo da colaboração dos sacerdotes judeus para com o controle imperial romano, "a última semana" da vida de Jesus na Terra.

Segunda-feira Santa

No dia seguinte, pelo caminho, como andara todo o dia anterior, teve fome. Avistou uma figueira e foi ver se tinha algum fruto; como não tinha, amaldiçoou-a. Talvez isso demonstre, numa interpretação psicológica, uma "projeção" que Jesus faz de toda a sua "insatisfação" com o povo e condena a figueira, além de perceber-se certo cansaço ou mesmo uma frustração de Jesus, como que tudo o estava fazendo ou o que já havia feito, tinha sido em vão.


Sabe-se que os judeus estavam dispostos a morrer pela integridade de seu Templo. Era claro que os judeus e outros peregrinos do mundo mediterrâneo iam ao Templo e lá pagavam tributos e promessas. Estes impostos sustentavam-no, além da própria peregrinação. São bem conhecidas as passagens em que o próprio Jesus frequentava o Templo e isso, até mesmo desde recém nascido (cf.: Lc 2,22-24;41-46;9,51-53;13,34-35). Ao que parece, desde quando Jesus foi crescendo com aquele ambiente, lhe era estranho vê-lo como uma casa de comércio, onde se faziam todos os tipos de negócios. Não é de se estranhar ver alguém que amasse tanto um lugar e que não quisesse zelar por ele. Jesus não faz nada mais que cumprir o que deveria ser claro para todo judeu: cuidar da Casa do Senhor, pois lá era a Casa dos irmãos, o ponto que unia a todos e onde todos se encontravam.


Toda essa atitude dele vinha impregnada de uma cultura educativa, onde, mesmo por meio de atos grotescos, buscava ensinar aos seus irmãos, firmando sua fala nas de dois dos Profetas: Isaías e Jeremias. Jesus dá atenção a estas falas, para que todos se lembrem de como deve ser este lugar: de oração e não somente para aqueles que lá estavam ou que se achegavam a ele, mas o era para todos os povos

Ele dá o exemplo de como devem fazer na Casa de oração e mostra como estão errando: fazendo dela um "covil de ladrões" (cf.: Jr 7,11). Neste sentido, Jesus é duro nas palavras, mas não as dirige, necessariamente, direto a ninguém. Alguns dos ouvintes é que a tomam para si - são os chefes dos sacerdotes e os escribas e, dentre estes, ainda assim, somente alguns. No fundo, sabiam que o que ele falava tinha autoridade e firmeza, daí, o temerem; mas como sua fala era básica e especialmente política, queriam matá-lo. Seu único obstáculo era a multidão, que estava "maravilhada com o seu ensinamento" (cf.: Mc 11,18b).

Outro ponto é o porquê de Jesus ser tido como "Mestre" ou mesmo "Rabi", muitas vezes assim chamado. Falando deste aspecto, podemos compreender melhor com que "autoridade" Jesus falava, ensinava e não em qualquer lugar, mas no Templo e nas Sinagogas, não vindo a ser impedido anteriormente de fazê-lo.


Existiam duas escolas no tempo de Jesus, a de Shamaim e a de Hillel. A primeira era a dos saduceus e essênios; era uma escola conservadora. A segunda era a dos fariseus e escribas, uma escola aberta à interpretação e era a da qual Jesus veio. Portanto, havia um problema sério entre as duas - daí, se gerarem conflitos entre ambas e até mesmo dizemos 'rivalidades' entre as mesmas. O problema de Jesus com as autoridades do seu tempo é estreitamente político, muito mais do que religioso. Uma vez que  Ele revelava um novo modo de compreender Deus, colocando em cheque todo o sistema político judeu. Por isso, "procuravam como o matariam. [E,] ao entardecer, ele se dirigiu para fora da cidade" (cf.: Mc 11,18a.19). T


sábado, 19 de março de 2016

São José: Patrono da Igreja Universal e Custódio da Ordem Seráfica


Na Ordem Franciscana floresceu, em um modo especialíssimo a devoção ao Senhor Jesus Cristo nos mistérios do Natal, da Paixão e da Eucaristia. De igual modo floresceu a devoção à Imaculada Virgem e a São José.


De fato, São José entra na Liturgia Franciscana já no Natal de 1223, na primeira representação do presépio, em Greccio, pelo próprio São Francisco de Assis.

O culto a ele pois, estabelecido já na Igreja Grega, foi coletado pelos franciscanos no seu convento da Terra Santa, especialmente no Santuário da Anunciação, em Nazaré, onde foi a primeira casa da Santíssima Virgem e de São José, e no Santuário onde havia a pobrezinha oficina de São José; donde o culto se espalhou para toda a Ordem.

A festa do Santo Patriarca, muito tempo antes que fosse estendida a toda a Igreja, foi criada e estabelecida na Ordem, juntamente com a festa de São Joaquim, já no Capítulo Geral, realizado em Assis, em 1399. E foi um filho de São Francisco, o Papa Sisto IV (+1484), que introduziu no Missal Romano a festa de São José. Foi um Terciário (OFS) Franciscano, o Papa Pio IX que declarou São José Patrono da Igreja Universal; um outro Terciário Franciscano, o Papa Bento XV que, em 9 de abril de 1919, introduziu no Missal um prefácio especial em honra do Esposo Virgem da Imaculada.

À Ordem Franciscana se deve também a festa do Esposalício da Virgem e de São José, festa esta concedida à Ordem pelo Papa Paulo III, em 1537.

Entre os Santos Franciscanos, quem com mair zelo propagou a devoção a São José, foi São Bernardino de Sena (+1444), que foi o panegirista do Esposo da Virgem. Entre outras coisas, diz que podemos acreditar piamente que São José foi assunto em corpo e alma ao céu, como a Virgem Maria: "Se o Divino Salvador, para satisfazer a sua piedade filial, querendo glorificar a Virgem Santíssima com a assunção de corpo e alma ao céu, pode-se acreditar piamente que não fez menos com São José".


"Sancte Joseph, ora pro nobis!"


quinta-feira, 10 de março de 2016

Velório e Santa Missa de Exéquias do Frei Antônio Moser, OFM


O velório será realizado na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Petrópolis (rua Montecasseros, 95, Centro). A Missa de Exéquias será celebrada às 15 horas desta quinta-feira (10/03/2016), na Catedral de São Pedro de Alcântara, em Petrópolis. O sepultamento acontecerá no Mausoléu dos frades junto ao Convento do Sagrado Coração de Jesus.

Encontro com o Papa Francisco, por ocasião do Sínodo das Famílias

Dados pessoais, formação e atividades:

Nascimento: 29.081939 (76 anos de idade), em Gaspar – SC;
Admissão ao Noviciado: 19.12.1959, em Rodeio, SC;
Primeira Profissão: 20.12.1960 (55 anos de Vida Franciscana);
Profissão Solene: 01.02.1964;
Ordenação Presbiteral: 15.12.1965 (50 anos de Sacerdócio);
1961-1962 – Curitiba – Estudos de Filosofia;
1963-1966 – Petrópolis – Estudos de Teologia;
02.02.1967 – Luzerna – professor do seminário;
28.01.1968 – Petrópolis;
Agosto 1968 – Lyon, França – mestrado em Teologia;
Setembro 1969 – Roma – doutorou-se em Teologia Moral em dezembro de 1972;
02.12.1972 – volta ao Brasil;
29.11.1972 – Petrópolis – professor de Teologia Moral;
Novembro 1991 – eleito Definidor Provincial;
30.08.1996 – coord. da Fraternidade São Vicente, professor, diretor do IDE, e redator da revista SEDOC.
01.12.1997 – Petrópolis – São Francisco – guardião (no capítulo provincial de 1997 foi mudada a denominação de São Vicente para São Francisco de Assis); nomeado membro do Conselho de Assessoria ao Definitório e às Entidades do Departamento de Educação e Comunicação.
23.12.1998 – diretor presidente da Editora Vozes;
22.11.2000 – coordenador da comissão executiva do novo ITF;
07.11.2003 – deixa de ser guardião;
17.12.2009 – diretor do Centro Educacional Terra Santa;
25.02.2016 – membro do conselho administrativo da Província

O frade menor 

Frei Antônio foi professor no Convento do Sagrado por 20 anos, e, por mais 20, no Instituto Teológico Franciscano, junto à Fraternidade São Francisco, de Petrópolis. Tinha muitos talentos. Segundo alguns confrades e outras pessoas conhecidas, Frei Antônio “tocava inúmeros instrumentos”, em diversificadas áreas. Escreveu muitos artigos e 27 livros. Era conferencista, assessor em Teologia Moral, falava em programas de TV, era construtor e administrador.

Na sua ficha autobiográfica lê-se: “Apesar de parecer apressado, na realidade me considero eficiente, incapaz de enrolações. Não gosto de conversa mole. Tenho grande facilidade de escrever, de articular o pensamento, mesmo quando falo livremente ou tenho que escrever um artigo em pouco tempo. Tenho o pensamento aberto às novas ideias, sem contudo perder o fio da meada em relação ao que é doutrinário. No mais, o que não sinto é preguiça… estou sempre em atividade… Sei me impor quando quero, mas, por outro lado não me sinto orgulhoso, pois conheço minhas limitações e atribuo os meus talentos à bondade de Deus”.

Interessante é ouvir o que Frei Antônio fala de sua vida espiritual: “Acho que minha espiritualidade é algo que nem todo mundo percebe. Acho até que a maioria dos meus confrades não percebe que tenho uma espiritualidade intensa, embora seja oculta como um tesouro. Não tenho nada de pietismo. Pareço frio. Não é verdade. Desde adolescente sempre tive e continuo tendo Deus presente em minha vida… em todos os momentos. À vezes, brigo com ele, como Jacó ou como São Paulo…”.

Rezemos em fraternidade por Frei Antônio, pela sua acolhida pelo Senhor, agradecidos por todo o bem que ele fez como frade de sua Província e pela sua grande contribuição à Igreja do Brasil. T

R.I.P. X


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