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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Laicato maduro e significativo para novos tempos (2)

Por Frei Almir R. Guimarães, OFM

Traços humanos de maturidade

>> O homem é mais do que sua aparência. Uma pessoa adulta ou em processo de maturação não julga pelo exterior. Sabe que os verdadeiros valores pessoais e dos outros estão no interior.

>> É sobretudo um ser de relações. Será maduro quando souber viver serenamente os relacionamentos entre as pessoas.

>> Maduro é aquele que vai organizando um projeto de vida, tendo um buquê de convicções, não se deixando atropelar por emoções e pelos caprichos dos acontecimentos.

>> Maduro é aquele que consegue desenvolver boa parte das dimensões de seu ser: inteligência, vontade, afetividade, profissão, arte da convivência. Adulta é a pessoa que sabe realizar projetos com outros.

>> O adulto não é marcado pela agressividade e susceptibilidade. Possui serenidade e segurança interiores.

>> A pessoa em processo de maturação não se considera o centro do mundo e das atenções e vai aprendendo a fazer o êxodo de si e ser solidária.

>> Dizemos que o adulto é pessoa em processo de maturação e, persistente, sem ser teimosa.

>> É criativo: não se contenta a repetição do que foi visto e vivido.

>> Sabe recolher as lições do passado e adivinha os passos a serem dados amanhã.

>> É capaz de buscar o silêncio, a reflexão. Viaja ao fundo do coração.

>> Não é ingênuo, mas tem senso crítico e sabe discernir.

>> Tem senso de responsabilidade e aprendeu a assumir compromissos.

>> Tem senso de humor: é capaz de rir de si mesmo. Sabe conjugar alegria e seriedade.

>> Madura é a pessoa que não é doentiamente dependente, mas autônoma. Sabe respeitar as pessoas. Não tem desejo de posse.

>> Tem flexibilidade de julgamento, guardando distância entre a dureza ou a teimosia e o deixar que as coisas corram por correr.

>> Maduro é aquele que tem critérios e não se deixa influenciar por modismos ou fanatismos que passam.

>> Maduro é aquele que tem capacidade de escutar, de dialogar, saber esclarecer-se pela fala do outro, dar sua colaboração para que situações sejam revertidas.

Traços do leigo cristão em processo de maturação

>> É fundamental que fique bem claro: clérigo é clérigo, religioso é religioso e leigo é leigo. Cada um destes tem sua especificidade e, consequentemente, terão expressões diferentes no mundo e na Igreja.

>> Pessoa cristãmente madura é aquela que se deixa guiar pelo Espírito e não pela carne, pelo desejo de aparecer e de atribuir a si o que é dom de Deus. O cristão é formado pela ação do Espírito em sua vida e na comunidade cristã que frequenta.

>> Trata-se de uma pessoa que vai dando uma resposta pessoal e comunitária ao Evangelho e suas exigências ao longo de sua vida, percorrendo um caminho constante de busca do Senhor. Esse caminho podemos chamar de “conversão”.

>> Pessoa que tem senso de comunidade. Não vive uma religião privada e particular. Sabe que o Ressuscitado se manifesta no coração da comunidade cristã.

>> O cristão em processo de maturação leva uma vida de oração sólida. Tem aguçada preocupação com seu crescimento na intimidade com o Senhor. Vive alegria particular em rezar com os irmãos. Valoriza, de modo especial, a Eucaristia. Participa o mais que pode da missa.

>> Cristão leigo maduro é aquele que não se atém a aspectos menos centrais do cristianismo: procissões, devoções, apego exagerado aos santos. Maduro é o cristão que vive intensamente em sua vida pessoal o mistério da Páscoa: morte e ressurreição com Jesus. A espiritualidade das espiritualidades é a do mistério pascal.

>> Pessoa cuja fé é centrada, efetivamente, na pessoa de Cristo que busca com ardor e constância. Frequenta o evangelho e tenta se revestir do espirito evangélico.

>> Está em processo de amadurecimento aquele que busca a unidade, na diversidade.

>> É capaz de se re-situar na vida. Enxerga os desafios e tem confiança de que poderá superá-los.Pensamos aqui no caso de alguém que perde um ente querido, que é tocado por uma grave enfermidade em casa. Tem compreensão da dimensão luminosa do sofrimento e da cruz.

>> Mostra sintomas de amadurecimento o cristão que sabe colocar-se à disposição do Senhor em diferentes circunstâncias.

>> Na medida em que vai fazendo sua caminhada humana e cristã tenta poder dizer com Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.

>> Não se deixa levar pelos carismas exteriores e vistosos. Prefere ocupar um lugar discreto.

>> É perseverante em seus propósitos. Seu sim e sim e seu não é não.

>> Tem um aguçado senso de Igreja, sobretudo do profundo mistério da Igreja que é criatura de Deus, esposa de Cristo, Corpo Místico de Cristo.

>> Vive a dinâmica do ver-julgar-agir. “A missão do leigo na sociedade apresenta-se hoje à consciência cristã como uma forma de evangelização, em que aspectos diversos podem ser acentuados, conforme o apelo das circunstâncias e a vocação pessoal de cada um: quer na transformação das realidades terrestres, pela ação social e política, quer no anúncio da mensagem evangélica pela palavra, pelo testemunho de vida e pelo diálogo, sempre em atitude de serviço inspirada pelo Cristo que veio para servir” (Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas, Doc. CNBB 62, p. 103). T

Continua...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Os melhores encontros entre duas pessoas são os de amor!" ~ A oração como diálogo em São Francisco

Por Frei Hipólito Martendal, OFM

Já ouvi muitas vezes falar em Oração como Encontro. Anselm Grün tem um livro como este título nas Vozes que recomendo sempre. Mas receber de nossa Ministra Regional da Ordem Franciscana Secular um pedido para escrever sobre Oração como Diálogo me encantou.

Realmente, qualquer oração razoável deveria ser fruto de um autêntico encontro entre o orante e Deus. Acontece que encontro para ser algo decente precisa ser livre e conscientemente desejado pelas duas partes. Melhor é quando foi previamente combinado pelos dois. Oração com hora marcada pode ser preparada: procure local apropriado; interrompa toda atividade; elimine tudo que puder interromper ou distrair (sem telefones, tevê, som, jornais, revistas); ponha-se em clima de oração, invoque o Divino Espírito.

Pessoas falam e são ouvidas no encontro. O modelo mais simples e feliz da Oração como Encontro é assim descrito. Depois dos preâmbulos acima enumerados, como Deus é a outra Pessoa infinitamente mais importante, preciso dispor-me a ouvi-lo. Por isso leio, ou ouço a palavra Divina. A seguir medito sobre ela. Só depois rezo. De preferência faço orações espontâneas que texto e meditação me inspiram. É, claro que em muitas meditações minha realidade pessoal, aspectos de minha vida, vivências, sentimentos, afetos, emoções positivas ou negativas afloram à consciência. Coloque tudo diante de Deus. Ele é seu confidente único, incomparável. Tudo é natural para sua oração. Até nossos pecados são ótimos motivos de oração.

É oração-diálogo? Ou seria diálogo-oração? Em primeiro lugar preciso dizer que Diálogo tem tudo a ver com encontro de qualidade. Os melhores encontros entre duas pessoas são os de amor. E duas pessoas não conseguem amar-se de verdade sem dialogar. Por quê?

Vamos ver quais são as coisas mais imprescindíveis para quem deseja o dialogar. Em primeiro lugar é necessário saber que o Diálogo tem um único objetivo fundamental: compreender a outra e por ela ser compreendido. Sem compreender, o amor não se aprofunda e não se fortalece. A compreensão é o oxigênio do amor.

Em segundo lugar o Diálogo depende da capacidade de cada um saber fazer silêncio no seu interior e ouvir com atenção total o outro. Este silêncio interior é facilitado pelo desapego, desapego também de si próprio, de suas coisas, cortadas e desejos pessoais. Isso faz parte da pobreza e do ser menor de São Francisco.

Francisco é mestre completo na oração-diálogo. Como ninguém ele sabia procurar e ouvir a voz de Deus. Em alguns de seus escritos as citações e referências a textos da Bíblia são tão abundantes que chegam a ocupar metade do espaço. Acreditava de toda a alma que Deus falava diretamente com ele através de sonhos-visões, leituras e explicações do Evangelho. Foi assim que durante o tempo de sua conversão, tendo na missa ouvido a narração dos discípulos enviados a pregar, Francisco procurou depois o padre e quis saber mais. Diante do exemplo da total pobreza e precariedade dos enviados exclamou extasiado: "É isso que eu quero, é isso que procuro, é isso que eu desejo de todo o coração". Este pode ser considerado o momento do nascimento da Ordem de São Francisco.

Suas orações são o fruto imediato de longas meditações, contemplações arrebatadoras e êxtases. Esquecido de si, Francisco estava totalmente encantado e arrebatado pelo Deus-Paixão. "Grande e magnífico Deus, meu Senhor Jesus Cristo..." T

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A vocação dos Frades "Leigos" ou "Irmãos Religiosos"

Por Frei Edson Matias, OFMCap.

Em nossas reflexões sempre é bom ter em mente nosso processo histórico. Francisco de Assis, quando movido por inspiração divina, começou a receber irmãos, não quis estabelecer diferenciações, considerando uns maiores outros menores em sua fraternidade. Os diversos ministérios que os frades exerciam eram colocados em função da fraternidade. Assim, tanto fazia se era leigo ou sacerdote, todos os frades deviam viver em comum-unidade.

Os frades leigos ou sacerdotes viviam em uma comunidade onde as relações injustas daquela época (feudos, comunas) não poderia ser o modelo. Francisco de Assis, como os diversos irmãos da primeira geração, viveram a não diferenciação. Logo, optaram pelas relações de iguais. Havia frades leigos e frades sacerdotes que exerciam os diversos trabalhos dentro da Ordem (guardiões, provinciais, etc). O que eles buscavam era a autêntica vivência do Evangelho e era isso que importava. Os demais trabalhos e funções – como o ministério ordenado e os demais ministérios – vinham depois. Assim, para nós franciscanos a nossa primeira vocação é para a vida consagrada, a vida em Cristo e todos, nessa fraternidade intuída por Francisco, podem realizar todas as funções de organização e de cuidado dessa família.

Com a morte de Francisco de Assis e a entrada de diversos irmãos ordenados e novas ordenações, as diferenças acabaram sendo reeditadas por alguns grupos. Assim, a ordem franciscana passou por um processo de clericalização. Ou seja, somente os frades ordenados (freis padres) podiam assumir os cargos (guardião, formador, provincial, geral, etc.). Lembremos que Francisco de Assis e Frei Elias, os primeiros ‘Ministros’ da Ordem, não eram freis sacerdotes. Somente depois do processo de clericalização que se passou a fazer distinções a partir dos ministérios. Algo que não foi intuído na vida dos nossos primeiros irmãos.

Sabemos que sendo frei leigo ou frei sacerdote todos estamos em uma Ordem de irmãos e nela não pode haver distinções por causa dos ministérios. Lógico, que os frades sacerdotes irão realizar aquilo que é especifico de seu ministério (e dizemos ‘ministério’ e não ‘vocação’): missas, confissões. Mas isso não nos torna melhores ou piores. Simplesmente são ministérios necessários a toda a Igreja e à Ordem. E a mesma forma que o frade leigo, sendo simples ou doutor, isso não o torna melhor ou pior, o que todos precisam fazer é adentrar na Vida Evangélica e jamais confundir vida ministerial com maturidade humano-espiritual, pois isso seria orgulho.

Tal descompasso histórico cometido na Ordem Franciscana também é conversado em certos encontros de Irmãos religiosos. A proposta que sempre estamos fazendo à Santa Sé é que nos considere uma Ordem de Irmãos, onde, frades leigos e frades sacerdotes, possam viver aquela Inspiração que tocou Francisco de Assis. Os encontros de frades leigos é um momento de aprofundar nosso carisma de religiosos, de frades, de uma fraternidade reconciliada que possa ser fermento no mundo, tendo este ou aquele ministério, pois é a fraternidade e não os trabalhos pastorais em si mesmos que é nossa marca registrada. Devemos estar no mundo e no meio do povo, mas nunca sem aquela inspiração primeira que trazemos no coração.

Os nossos vocacionados de hoje devem ter essa consciência quando começam o processo de conhecimento de nossa Ordem. Não somos uma Ordem de padres, somos de irmãos! Mas é preciso entendermos algo: Mesmo que toda Ordem chegasse a ser constituída somente por frades leigos ou frades sacerdotes, nossa vocação permaneceria a mesma: Vida Consagrada em uma Ordem de irmãos. Os ministérios serão bem desenvolvidos se nós nos dedicarmos àquilo que um dia nos enamoramos e cativarmos a cada dia. Caso contrário, serão apenas trabalhos vazios e sem inspiração. Nosso chamado primeiro é ao Reino e antes de ser trabalhadores do Reino do Senhor devemos viver a mensagem. (Cf. V CPO 41[1]).

Nosso perfil de irmãos é o reflexo de nossa mística. Fundados no Evangelho refletiremos o rosto: a luz de Cristo Jesus. Pois Nele “Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gl 3,28). E para aprofundar cada vez mais nosso modo de ser (necessário hoje cultivar o ser antes do fazer) a oração-reflexão é essencial. Sem oração/meditação/contemplação ficaremos vivendo a superficialidade das diferenciações dos ministérios. Nossa mística nasce da ação do Espírito. E Nele, para Ele e com Ele que nos relacionamos para reler todas as nossas atividades. Nosso perfil resplandecerá quando estiver fundado no Evangelho.

Qualquer discriminação devido aos ministérios dentro de nossas fraternidades é fruto de nosso egoísmo. Normalmente as pessoas nas comunidades que trabalhamos são mais clericais, tendem sempre a considerar o frei sacerdote como mais importante – pois ele tem uma função social e normalmente de liderança na administração dos sacramentos – mas isso jamais pode deixar qualquer frade viciado nessa visão. Qualquer frade que caia em tais ilusões não compreendeu a dinâmica da Vida Consagrada.  As funções sociais, ministeriais que um frade desempenha, seja ele leigo ou sacerdote, não pode obscurecer aquilo que é mais importante: a vivência do Reino. Ou seja, nosso perfil está bem quando assentado no Reino e não nas aparências. E pela vida no Espírito que vamos amadurecer e não nos cargos ou ministérios por nós desenvolvidos.

Um frade sacerdote que não busca se aprofundar na vivência do Reino ou um frade leigo que, ocupado com mil e uma atividades e não medita, vivem fora do projeto de Jesus. Podem obter sucesso com as pessoas e muitos elogios colhidos, mas tem que ser bem sincero consigo mesmo para se perguntar se vive em função daquela Inspiração Primeira (o Reino) ou pelos louros das atividades desenvolvidas. Nesses casos, tanto os frades sacerdotes e leigos correm risco.


Perfil é o modo que desenvolveremos a intuição. Entretanto, jamais o perfil pode fixar e, como petrificado, não buscar mais na mensagem Evangélica o norte e viver dos ministérios. Ou seja, deixar de servir o Senhor para servir o servo. Logo, se queremos que nosso rosto transfigure a “Imagem e Semelhança” (Gn 1,26) deixemos nos sustentar por Aquele que nos chamou por primeiro. Para isso, precisaremos nos aprofundar em nossos Votos Evangélicos. Ser obediente Àquele que nos fala, ser pobre para que Ele seja e eu diminua e Casto, para que Ele fale através de mim em vez de eu falar em Seu lugar.

Os desafios são grandes, mas continuando essa nossa caminhada, e já percorremos um caminho significativo, amadureceremos para o Reino. Que Deus nos ajude! T

[1] V CPO. Nossa Presença profética no mundo hoje. Vida e atividade apostólica. Garibald. 1986.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Vida interior: Adentrar-se no próprio mistério


Por Frei Almir R. Guimarães, OFM

Uma lei fundamental precede e ilumina toda outra lei, civil, moral ou religiosa. Assim ela se enuncia:
Artigo único: É preciso viver.
Não há artigo segundo.
Necessário viver. Com avidez. Com intensidade. Só é verdadeiro o que se vive.
Se a fé em Deus e em Jesus ressuscitado fosse um entrave à vida, eu recusaria a fé.
O que é maravilhoso na fé é que ela não cessa de aumentar a exigência, o combate, o fervor de viver, de viver até a embriaguez: e a paixão de ser homem, a paixão de ser mulher, a celebração do casal, e todos os esplendores da carne e do sangue, e todas as luzes, o rir e o soluçar.
Viver. Abraçar. Mesmo a infelicidade.
Viver: ter os braços dirigidos aos músicos e como maestro decidir o momento em que a vida vai dançar, cantar, gritar, chorar talvez. Mas viver.
Escrevo estas linhas com o coração impregnado do evangelho, do evangelho do Gólgota e o evangelho da Ressurreição.
Necessário viver.
Todas as promessas de Jesus no evangelho são promessas de vida.
Necessário ousar viver.
Para saber viver é preciso ousar viver.


Jacques Leclerc
Debout sur le soleil
Seuil, Paris, 1980, p. 13-14

Vida, viver, vida espiritual, vida interior. Há esse deitar, levantar, correr, comprar, vender, chorar, esperar, temer, alegrar-se. Há a vida desse casal aparentemente tão ajustado, respirando harmonia. Há essa religiosa de roupas simples, olhar sereno, já quase envelhecida de tudo, mostrando, para além das rugas do rosto, viço e vigor. Há esse senhor que vem da roça comprar mantimentos na cidade e volta pensando sempre na vida dos seus. Há esse mendigo, deitado sob a marquise, com um naco de pão na mão e ajeitando seu cobertor para dormir. Vida. O que conta é viver. Nada além de viver. Mas será preciso viver em profundidade. Não basta apenas dormir, levantar, comer, correr, sofrer. É preciso dar um sentido à vida.

A expressão “vida espiritual” é ampla e pode ser ambígua. Refere-se a todos os homens e a cada homem, seja ele crente ou não, cristão ou adepto de outras trilhas religiosas, seja ele leigo casado ou religioso consagrado. Trata-se de uma dimensão da experiência humana. Todo homem vive espiritualmente. Podemos dizer que vida espiritual aparece quando surge pergunta pelo sentido, quando homem instigado pelo conhecimento de si mesmo, começa a explorar aquilo que lhe é interior, a observar o mundo, a escutar, a pensar, a meditar, a escolher, a decidir, a assumir sentimentos e comportamentos. Nesse momento começa nele a vida espiritual.

“O fundamento da vida espiritual é a exigência de sentido que habita o homem. Para encontrar esse sentido será necessário buscar, fazer experiências em profundidade. Por isso, a vida espiritual também pode ser designada de vida interior. Quando pensamos na vida espiritual de uma pessoa, procuramos detectar aquilo de mais profundo que existe nela, suas últimas motivações, seu fundamento vital, seus ideais” (Enzo Bianchi, La vie spirituelle chrétienne, in Vie consacrée, 2000, n.1, p. 36).

“A vida espiritual não é um patamar de superestruturas inúteis a serem acrescentadas à nossa vida, à nossa idade adulta. A vida espiritual abrange a totalidade da vida, mesmo em seus pormenores cotidianos. Vida essa que se acha como que trabalhada por um convite para buscar sua qualidade, sua profundidade e sua realização. Quem foi desperto para a vida espiritual e pressentiu esse apelo não pode, sem mais nem menos, libertar-se dele. Se vier a rejeitá-lo estará perdendo uma oportunidade única de viver. Acolher esse convite é uma decisão pessoal. Mas ainda não é tudo. Será preciso perseverança, palmilhar com coragem tal caminho, colocar decididamente nele os pés. Em outras palavras, trata-se de encontrar uma sabedoria” (Fêtes et Saisons, n. 258, p. 5).

Viver espiritualmente é viver simplesmente a vida de todos os dias. Deus aparece no tecido do cotidiano. “Viver humanamente é uma aventura: difícil, arriscada, dolorosa, alegre. Entre o nascimento e a morte, quantos acontecimentos, quanto amor, quantos medos, quantas feridas, quantas curas, quantos fracassos e ressurreições, conflitos, reconciliações, dúvidas e iluminações. Quanto trabalho para viver, quanta luta, quanta busca pela verdade, quanta tentação de morrer. Mas também quanta coragem. A coragem de viver não seria a coisa mais difundida no mundo? Ora, é precisamente nesse borbulhar humano que Deus resolve vir ao nosso encontro para acompanhar e transfigurar a aventura de nossa vida. O próprio Espírito dá testemunho a nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8,16)” (Régine du Charlat, Qu’est-ce qui fonde la vie spirituelle? , in Croire Aujourd’hui, n. 140, p.23).

Num gênero literário de carta a um amigo, Enzo Bianchi, líder da Comunidade de Bose na Itália, já citado anteriormente, assim descreve a vida interior: “Você decidiu me escrever, porque anda se questionando, nos últimos tempos, a respeito do sentido da sua vida e escrevendo que gostaria de ter mais tempo para si mesmo, para pensar naquilo que é essencial na vida e que merece ser vivido. Suas interrogações exprimem essa exigência profunda de nosso espírito, ou seja, a da vida interior. Cedo ou tarde, essa questão se torna muito viva dentro de cada um porque não vivemos apenas do exterior, projetando-nos fora de nós mesmos, numa contínua “fuga” em que a intensidade das emoções toma o lugar da plenitude de vida. O homem é um “fora”, mas é também um “dentro”. A Bíblia fala de coração. Nós falamos de consciência, de foro íntimo. Não sou totalmente claro, nem evidente para mim mesmo. Sou um mistério. Conheço-me apenas parcialmente. Para viver plenamente precisamos levar em consideração nosso interior”. (Qu’est-ce que la vie intérieure?)

Há uma pergunta que precisamos responder com toda coragem, mesmo com dificuldade; Quem sou eu? Será precisamente ela que vai abrir o caminho para a vida interior. Precisamos levar a sério nossa unicidade de corpo e espírito, de exterior e de interior, de apetites do corpo e de desejos pungentes e poderosos da alma. Ao longo do tempo da vida, frequentando nosso interior, vamos descobrindo ou construindo nossa identidade. Cada um é chamado a ser ele mesmo e não copiar outros. Necessário será escutar os abismos interiores e poder realizar suas solicitações. Assim, se pode dizer que levar uma vida interior é caminhar na direção de um sentido, caminhar na direção de um tornarmo-nos nós mesmos, de não vivemos por viver.

Trata-se de sair da superfície e da epiderme e tentar refletir, atinar com o sentido das coisas de todos os dias, dos movimentos de nosso coração, das questões que vamos colocando nas diferentes estações de nossa vida. Trata-se de um trabalho de levar a sério a própria unicidade. Voltamos a Enzo em sua carta: “A vida interior exige coragem. É como o começo de uma viagem, não tanto exterior, mas em profundidade, não fora de você, mas em seu interior. E se a perturbação que você experimenta no começo, diante de uma paisagem interior desconhecida, causa receio você vai tomar consciência de que se trata da viagem mais longa e mais penosa, mesmo sem percorrer um quilômetro que seja. Coragem não somente para interrogar-se, mas também para deixar interrogar-se, acolher os acontecimentos da vida como questões que são dirigidas a você: a doença que altera completamente a vida de uma pessoa amada, a morte repentina de um amigo, o casamento de um conhecido, um nascimento que trouxe alegria a um casal conhecido, como também os acontecimentos cotidianos, menos visíveis e menos chocantes que constituem a trama de nosso dia a dia… Trata-se de vida ou morte, de alegria ou de sofrimento”. A vida interior nos leva a pensar em tudo isso e a projetar Deus em tudo. Falamos, então, de viver à luz da fé.

Não podem ter acesso a essa dimensão de interioridade os que vivem na superfície das coisas e na busca desenfreada de toda sorte de satisfações. Uma Carta Pastoral de bispos da Espanha fala da falta de interioridade: “A fé se debilita por falta de interioridade. Cada vez há menos espaço para o espírito em nossa vida diária. Muitos consideram a “vida interior” como algo perfeitamente inútil e supérfluo. As vidas são organizadas somente a partir do exterior. Quase tudo o que as pessoas fazem tem como objetivo alimentar a personalidade externa e superficial. Por outra parte, a vida do espírito aparece tão desprestigiada que facilmente é classificada de evasão qualquer empenho de cultivar o mundo interior. Privada de interioridade, a fé se extingue. Enchemo-nos de projetos, ocupações e expectativas, mas o “homem interior” se debilita. Para que a fé seja fonte de luz e de vida, o ser humano necessita penetrar em seu próprio mistério e chegar ao coração de sua vida lá onde é totalmente ele diante de Deus. Quando a pessoa perde o contato com o “nível transcendente” de seu ser, a experiência religiosa se apaga, mesmo continuando a praticar uma “religião externa”. São muitos os cristãos que desconhecem o desejo do Absoluto, não vivem a experiência de uma comunicação pessoal com ele. Vivem buscando segurança religiosa em crenças e práticas a seu alcance, sem penetrar num relacionamento vivo com a realidade misteriosa de Deus”.

Somos convidados a fazer um viagem ao nosso interior e tentar escutar o famoso “Conhece-te a ti mesmo!” Esse empenho pede interiorização, uma vida interior, uma integração de experiências e acontecimentos que nos permita chegar a interpretar quem somos nós. As perguntas aí estão: Quem somos nós? Para onde vamos? Que fogo é esse que arde em nosso coração? Quem são os outros para nós? Na medida em que vamos tentando responder a essas e outras questões. Os que visitam seu interior têm melhores condições de compreender o que vem a ser uma vida espiritual cristã. T

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O jardim de cada um...


Por Suziley, em "A arte das letras".

Cada um tem seu próprio jardim...Os jardins são "mundos" feitos de sonhos, feitos de luz. Eles revelam as almas de quem os cultiva. Plantas, flores, bosques. Jardins de malva, de aromas. Jardins são assim...Campos de lavanda, coroas crepitantes de abelhas sem fim!! Jasmim!!

T

sábado, 21 de janeiro de 2012

A Imaculada Conceição e os Franciscanos nos séculos XIV-XIX


É um longo período de batalhas doutrinais que se travaram no campo teológico e no campo da piedade e devoção espiritual desde a morte de Escoto, até o dia 8 de dezembro de 1854, ano em que o papa Pio IX definiu, com a bula Ineffabilis Deus, o dogma de fé da Imaculada Conceição. 

Foi Duns Escoto quem livrou do obstáculo mais forte a tese favorável da Imaculada Conceição, a saber, aquele de sua inconciliabilidade com a redenção operada por Cristo; evidenciando, pelo contrário, a atuação suma e perfeitíssima da mediação de Cristo redentor, na realização da concepção imaculada de Maria Santíssima. 

Cristo é perfeitíssimo redentor precisamente ao preservar a sua Mãe de toda mancha de pecado original. Maria é a obra de arte da Encarnação redentiva, no sentido mais alto do termo. Esta tese, sob a bandeira de Escoto, foi defendida e propagada por todos os franciscanos, tanto no campo teológico, como no campo devocional. Dessa forma, a devoção a Maria teve um grandissíssimo incremento entre os fiéis, fato que ocorre até os dias hodiernos. T

Continua...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Congresso sobre Santa Clara de Assis


Para mais informações, clique AQUI.

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Como podemos ser "libertos das influências malignas"

Por Frei Josué Pereira, OFMConv.


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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O caminho da interioridade

Por Frei Almir R. Guimarães, OFM


O caminho para a interioridade hoje se dá num tempo de mudanças, tempo rico de muitos sinais de redescoberta da interioridade e do silêncio. A sociedade secularizada vem focada vem focada sobre o indivíduo, fragmentado, com uma identidade fluida. Temos diante de nós uma mudança radical da visão do homem, determinada sobretudo pela tecnologia. São imensos os recursos da inteligência humana, descobertos hoje, que podem ajudar o homem a criar um mundo melhor. É importante que o homem permaneça sujeito desse desenvolvimento, sobretudo a partir da verdade profunda de si mesmo. Confrontamo-nos também com o medo de entrar em nós mesmos, com a pobreza de sentimentos, de afetos, de capacidade de amar e deixar-se amar. 

No espaço da interioridade, o silêncio pede a escuta de nós mesmos, dos outros e da realidade. Os meios de informação podem iludir-nos, ao dar-nos a sensação de evitar-nos esse trabalho. Na verdade, tornam-nos estranhos a nós mesmos. O percurso para dentro de nossa interioridade não é só terapêutico para a nossa cultura do barulho, mas também ver a ser um caminho voltado para o acolhimento, para uma nova civilização do amor. O caminho para dentro de nossa interioridade e para o silêncio torna-se, então, testemunho de uma opção de vida alternativa. T

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