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sábado, 29 de agosto de 2015

A Saudação "Paz e Bem" é um estilo de vida!



Francisco de Assis não transformou a saudação "Paz e Bem" num simples cumprimento religioso, mas sim num programa de vida. Desejar a paz e o bem a tudo e a todos é ter as melhores palavras e a melhor presença, é bem-dizer, é desejar o melhor; não é só dizer, mas fazer o bem, levar a saúde da alma, do corpo e das relações. Ter nos lábios o que pulsa no coração. É o contrário do mal-dizer, da negatividade, de falar apenas o mal. Reprova nos irmãos o maldizer. Ser um irmão e irmã é ser portadores de paz, do amor e do bem. No lugar da maldição colocar a bênção. 


Francisco de Assis, diz na Regra Não-Bulada, Capítulo XII: “Portanto, acautelemo-nos, irmãos todos, de toda soberba e vanglória, e guardemo-nos da sabedoria deste mundo e da prudência da carne, pois o espírito da carne quer e se esforça muito por ter as palavras, mas pouco por fazer as obras, e procura não a religião e a santidade interior do espírito, mas quer e deseja ter a religião e santidade que aparecem exteriormente aos homens. E estes são aqueles de quem diz o Senhor: “Em verdade vos digo, já recebera a sua recompensa”. O Espírito do Senhor, porém, quer que a carne seja mortificada e desprezada, vil e abjeta. E procura a humildade, a paciência e a pura e simples e verdadeira paz de espírito. E deseja sempre e, acima de tudo, o divino temor, a divina sabedoria e o divino amor do Pai e do Filho e do Espírito Santo. E restituamos todos os bens ao Senhor Deus Altíssimo e Sumo Bem, e reconheçamos que todos os bens são Dele e por tudo demos graças a Ele, de quem procedem todos os bens. E o mesmo Altíssimo e Sumo Bem, único Deus verdadeiro, os tenha, e lhe sejam restituídos; e Ele receba todas as honras e reverências, todos os louvores e bênçãos, todas as graças e glórias, Ele, de quem é todo bem, o único que é bom. E quando nós virmos ou ouvirmos dizer ou fazer mal ou blasfemar contra Deus, nós bendigamos, façamos o bem e louvemos a Deus, que é bendito pelos séculos”. T

(continua...)


domingo, 23 de agosto de 2015

Homilia do 21º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



Palavras de vida eterna

"Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele" (Jo 6, 56), diz Nosso Senhor. Às Suas palavras, são muitos os que reagem negativamente e – narra o Evangelho deste Domingo –, "a partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele" (v. 66). São Pedro, ao contrário, pretendendo falar em nome dos Doze, faz uma belíssima profissão de fé, dizendo: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus" (v. 68-69).

No término deste capítulo, porém, Cristo tem uma observação importante: "Não vos escolhi a vós, os Doze? – pergunta – Contudo, um de vós é um diabo!" E o Evangelista explica: "Ele falava de Judas, filho de Simão Iscariotes, pois este, um dos Doze, iria entregá-lo" (Jo 6, 70-71). Não foram, pois, apenas os Seus discípulos que se afastaram de Cristo; a infidelidade estava para ser deflagrada dentro do próprio colégio apostólico. Ora, "Jesus sabia, desde o início, quem eram os que não tinham fé e quem havia de entregá-lo" (v. 64). Que, mesmo sabendo disso, Nosso Senhor tenha eleito Judas Iscariotes, São João Crisóstomo explica: "Aqui, os gentios acusam nesciamente o Cristo, pois a escolha dele não força (vim infert) as coisas que dizem respeito ao futuro; ao contrário, está na vontade o ser salvo e o perecer." [1]

Essa sentença de Crisóstomo deixa entrever a "psicologia da fé". Deus auxilia, mas não força ninguém a crer: embora Cristo tivesse integrado Judas ao grupo dos Apóstolos, cabia à sua livre vontade confirmar ou negar a sua eleição; embora Ele tivesse pregado as verdades da fé também ao traidor, cabia a ele a decisão de seguir ou trair o que havia escutado. Na explicação didática do Doutor Angélico,
"Quanto ao assentimento do homem às verdades de fé, pode-se considerar uma dupla causa: uma que, de fora, induz a crer, como a visão de um milagre ou a persuasão por um homem que exorte à fé. Nenhuma dessas duas causas é suficiente, porque entre os que veem um e mesmo milagre e entre os ouvintes da mesma pregação, alguns creem e outros não. Portanto, é preciso admitir outra causa interior, que mova o homem, de dentro, a assentir às verdades da fé. (...) Como o homem, aderindo às verdades da fé, eleva-se acima de sua natureza, é preciso que isso venha a ele por um princípio sobrenatural que o mova interiormente, e esse princípio é Deus. Portanto, a fé quanto ao assentimento, que é o principal ato da fé, vem de Deus, que nos move interiormente pela graça." [2]
O que vem de fora, portanto, age induzindo o homem a crer (exterius inducens). Dentro do homem, porém, antes mesmo que ele se impressione com um milagre ou seja convencido por um pregador, existe uma voz suave, como um sussurro, que o move interiormente a acreditar. O Espírito Santo ilumina, pois, não só aquele que anuncia a Palavra, como também aquele que a escuta. Só quando a pregação que se ouve e o verbo interior entram em harmonia, tem-se, enfim, a virtude da fé.

Para entender de que se trata o objeto da fé e, então, crescer ex fide in fidem (Rm 1, 17), é preciso sondar a natureza das verdades que são apresentadas por Cristo aos homens.

Diante do escândalo que o Seu discurso provoca nos ouvintes, Ele pergunta: "Isto vos escandaliza? E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes?" (v. 61-62). Com isso, Nosso Senhor quer deixar bem clara a Sua identidade divina: não é um simples ser humano quem diz ser o pão da vida – o que seria uma pretensão tremendamente absurda –, mas o próprio Deus.

"O Espírito é que dá vida (τὸ πνεῦμά ἐστιν τὸ ζωοποιοῦν) – Ele continua –, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida" (v. 63). A pregação de Cristo se refere a realidades eminentemente espirituais, porque Ele revela o que está na intimidade da própria vida trinitária. Por isso, não se pode compreender a atitude de certos exegetas contemporâneos, que reduzem os Evangelhos a um relato humano vulgar e os rebaixam ao nível de um mero manuscrito antigo, como se Jesus fosse um homem qualquer e a Bíblia, um simples palimpsesto. A Igreja nunca leu as Escrituras deste modo; ao contrário, sempre deu primazia ao seu sentido espiritual, pois é principalmente para induzir os corações à fé que elas foram escritas. Quando Nosso Senhor prenuncia, por exemplo, que Ele próprio se vai oferecer a nós como alimento, a nossa alma sedenta reconhece essa verdade. Quando Ele diz: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós" (Jo 6, 53), nosso coração se sobressalta e reconhece que, longe d'Ele, éramos como cadáveres e, agora, pelo santíssimo sacramento da Eucaristia, Ele realmente nos dá nova vida – e vida divina. Por isso, podemos repetir com São Pedro: "A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna" (v. 68).

Para que essa vida da graça seja operante em nós, todavia, precisamos corresponder ao chamado e ao amor de Deus. Caso contrário, agiremos como aquela pobre habitante da favela que, recebendo um pedido de casamento do mais nobre príncipe da região, rejeita o seu amor e prefere continuar em seu casebre, com sua vida comum e miserável. Enquanto não disser "sim" e amar de volta o seu pretendente, a dita moça jamais terá a oportunidade de adentrar o palácio do príncipe e gozar dos favores reais.

Diante de um convite de tamanha magnitude, os seus pais presumidamente dirão: "Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto: Esquecei vosso povo e a casa paterna! Que o Rei se encante com vossa beleza!" (Sl 44, 11-12). Palavras parecidas são as que Deus dirige a nós, quando desce dos céus, do alto do Seu esplendor, ansioso por desposar a nossa alma indigente e pecadora. Expressão semelhante é usada convenientemente na Santa Missa, quando o sacerdote, elevando a Hóstia, diz: "Beati qui ad cenam Agni vocati sunt – Felizes os convidados para o banquete nupcial do Cordeiro". São verdadeiramente felizes, imensamente felizes, aqueles que, atendendo ao apelo divino, "ingressam no palácio real" (Sl 44, 16)!

Estejamos com o coração permanentemente pronto para o encontro com o Divino Esposo de nossas almas. Um dia, não mais sob o véu do sacramento, mas, face a face, contemplá-Lo-emos no Céu, pelos séculos dos séculos. Amém.

Referências:

São João Crisóstomo apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea in Ioannem, VI, 10.
Suma Teológica, II, II, q. 6, a. 1.


domingo, 16 de agosto de 2015

Homilia da Solenidade da Virgem Maria, por Pe. Paulo Ricardo



Augusta Rainha dos céus

No dia 13 de Janeiro de 1864, o Bem-aventurado Padre Luís-Eduardo Cestac foi subitamente atingido por um raio da luz divina. Ele viu demônios espalhados por toda a terra, causando uma imensa confusão. Ao mesmo tempo, ele teve uma visão da Virgem Maria. Nossa Senhora lhe revelou que realmente o poder dos demônios fora desencadeado em todo o mundo e que então, mais do que nunca, era necessário rezar à Rainha dos Anjos e pedir a ela que enviasse as legiões dos santos anjos para combater e derrotar os poderes do inferno.

“Minha Mãe", disse o padre, “vós sois tão bondosa, por que então não enviais por vós mesma estes anjos, sem que ninguém vos peça?"

“Não", respondeu a Santíssima Virgem, “a oração é uma condição estabelecida pelo próprio Deus para a obter esta graça."

“Então, Mãe santíssima – disse o sacerdote – ensinai-me como quereis que se vos peça!"

Foi então que o Bem-aventurado Luís-Eduardo Cestac recebeu a oração “Augusta Rainha dos céus". “Meu primeiro dever – disse ele – era apresentar esta oração a Monsenhor La Croix, bispo de Bayonne, que se dignou a aprová-la. Cumprido este dever, fiz imprimir 500.000 cópias, e providenciei que fossem distribuídas em todos os lugares. (...) Não devemos esquecer que, da primeira vez que as imprimimos, a máquina impressora chegou a quebrar duas vezes".

Esta oração foi indulgenciada pelo Papa São Pio X no dia 8 de julho de 1908. Recomenda-se que seja aprendida de cor: 

Oração revelada
ao Bem-aventurado Padre Louis-Edouard Cestac 
(13 de janeiro de 1864) 

Auguste Reine des cieux, souveraine maîtresse des Anges, 
Vous qui, dès le commencement, avez reçu de Dieu 
le pouvoir et la mission d'écraser la tête de Satan, 
Nous vous le demandons humblement, 
Envoyez vos légions célestes pour que, 
sous vos ordres, et par votre puissance, 
Elles poursuivent les démons, les combattent partout, 
Répriment leur audace, et les refoulent dans l'abîme. 
Qui est comme Dieu? 
O bonne et tendre mère, 
Vous serez toujours notre Amour et notre espérance. 
O Divine Mère, 
Envoyez les Saints Anges pour nous défendre, 
Et repoussez loin de nous le cruel ennemi. 
Saints Anges et Archanges, 
Défendez nous, gardez nous. 

Augusta Rainha dos céus, soberana mestra dos Anjos, 
Vós que, desde o princípio, recebestes de Deus 
o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, 
Nós vo-lo pedimos humildemente, 
Enviai vossas legiões celestes para que, 
sob vossas ordens, e por vosso poder, 
Elas persigam os demônios, combatendo-os por toda a parte, 
Reprimindo-lhes a insolência, e lançando-os no abismo. 
Quem é como Deus? 
Ó Mãe de bondade e ternura, 
Vós sereis sempre o nosso Amor e a nossa esperança. 
Ó Mãe Divina, 
Enviai os Santos Anjos para nos defenderem, 
E repeli para longe de nós o cruel inimigo. 
Santos Anjos e Arcanjos, 
Defendei-nos e guardai-nos. Amém.

T



terça-feira, 11 de agosto de 2015

Eleita a nova diretoria da Família Franciscana do Brasil (FFB)


O frade capuchinho Frei Éderson Queiroz foi reeleito para a presidência da Família Franciscana do Brasil durante a Assembleia Ordinária no Centro de Formação da Sagrada Família, em São Paulo, de 6 a 9 de agosto. O encontro, que reuniu religiosos de todo o país, teve como lema: “Olhar com gratidão para o passado, viver com paixão o presente e abraçar com esperança o futuro”, em referência ao atual Ano da Vida Consagrada. 

A nova diretoria ficou assim composta: presidente – Frei Éderson Queiroz; vice-presidente – Ir. Cleusa Aparecida Neves; conselheiros – Nivaldo Moreira (OFS), Frei Gilson Nunes (OFMConv) e Mayara Ingrid Souza (Jufra); suplentes – Ir. Ivone Rupolo e Frei José Francisco de C. dos Santos (OFM). Para o Conselho Fiscal foram eleitos: Ir. Luzia Pereira, Ir. Tânia Bulhões e Frei Vitório Mazzuco (OFM), ficando como suplentes: Ir. Sueli Sandra e Ir. Rosalia Sehnem.


Mineiro de Patrocínio (MG), além de ser Ministro Provincial no período de 2005 a 2010, Frei Éderson foi Definidor Provincial da Província Mineira dos Capuchinhos nos triênios (de 1992 a 1995 e de 1995-1998) e foi eleito Vigário Provincial e 1º Definidor Provincial no período de 1999-2000. Na formação e estudos da Província Mineira, trabalhou como Mestre de Noviços de 1997 a 1998 e foi membro do Conselho de Formação de 1997-1998. Foi eleito para a presidência da FFB em 2012. A Assembleia começou no dia 6 de agosto, quando Dom Frei Cláudio Hummes, OFM, presidiu a Santa Missa. Na sexta-feira, 7 de agosto, o Ministro Provincial dos Franciscanos Conventuais, Frei Gilson Miguel Nunes, presidiu a celebração e, no sábado (8), o Ministro Provincial da Província Franciscana da Imaculada Conceição, Frei Fidêncio Vanboemmel, celebrou a Eucaristia em memória da Virgem Maria, quando se homenageou Ir. Odete Aparecida dos Anjos, 65 anos, assassinada recentemente na Fazenda da Esperança em Guaratinguetá, interior de São Paulo. Ela trabalhava no serviço de recuperação de dependentes químicos na Fazenda Esperança e acabou morta durante um assalto. Já o Ministro Provincial dos Franciscanos Capuchinhos, Frei Carlos Silva, presidiu a Santa Missa em Ação de Graças no último dia da assembleia, que se encerrou depois do almoço.

A renovação do estatuto da FFB foi um dos pontos discutidos durante a Assembleia, que aprovou a mudança do nome da entidade para Conferência da Família Franciscana do Brasil – CFFB, visando uma adequação das entidades religiosas às novas exigências legais.

Segundo Frei Fidêncio Vanboemmel, entre as proposições deste encontro, a FFB se comprometeu a trabalhar para reanimar o sentido de pertença da família franciscana, bem a questão da formação e da comunhão. “Teremos dois grandes eventos em 2016. Para o Jubileu de 50 anos de fundação da CFFB, propõem-se encontros nas bases e nos regionais, lembrando o Ano da Misericórdia os 700 anos do Perdão de Assis. Em 2017, pensa-se em fazer um grande evento celebrativo em nível nacional”, adiantou o Ministro Provincial da Imaculada Conceição.

“Foi um encontro foi muito positivo e, o mais importante, serviu para revigorar e unir a família franciscana em torno dos anseios do Papa Francisco, que constantemente tem colocado a mística franciscana no centro da reflexão da Igreja, seja com a Encíclica Laudato si’, seja com o Ano da Vida Religiosa e a proclamação do Ano da Misericórdia”, destacou Frei Fidêncio, ressaltando a importância de os franciscanos assumirem esse protagonismo na Igreja. T

Fonte: franciscanos.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O Ritual Fúnebre dos Habsburgos


A Cripta Imperial de Viena ou Cripta dos Capuchinhos (em alemão: Kaisergruft ou Kapuzinergruft) foi, a partir de 1633, o principal local de enterro dos Habsburgo austríacos, soberanos hereditários do Sacro Império Romano-Germânico e seus descendentes. Localizada nas proximidades do magnífico Palácio Imperial de Hofburg, em Viena, sob a Igreja de Nossa Senhora dos Anjos (Kirche zur Heiligen Maria von den Engeln) ou Igreja dos Capuchinhos (Kapuzinerkirche), como é mais conhecida, a cripta tornou-se um dos principais pontos turísticos da capital austríaca.

O complexo abriga 142 corpos de membros da realeza e da aristocracia, além de quatro urnas contendo as cinzas de príncipes submetidos à cremação e outras urnas contendo os corações dos corpos submetidos ao embalsamamento. Ao todo, foram sepultados na cripta 12 imperadores e 18 imperatrizes. A sepultura mais recente data de 12 de janeiro de 2008.

A primeira Imperatriz do Brasil, Dona Leopoldina, se acaso viesse falecer em Viena possivelmente teria direito a esse ritual. 

Esse ritual quase que milenar, revela bem o diálogo entre o Grão-Marechal da Corte Imperial e Real com os Freis Capuchinhos da "Kapuzinerkirche, Cripta Imperial de Viena"



- Bate-se na porta 3 vezes.

"Quem é?" - Pergunta o Capuchinho.

"É Sua Majestade Imperial e Real, Otto, pela Graça de Deus, Imperador da Áustria, Bohemia, Dalmácia, Croácia, Eslovênia, Galitzia, Lodomeria e Iliria, Rei de Jerusalém. Arqueduque da Áustria, Grão Duque de Toscana e de Cracóvia. Duque de Lorena, Bar, Salzburgo, Estiria, Carintia, Carniola, Krajina e Bukovina, Grão Príncipe de Transilvânia, Príncipe Soberano de Siebenbürgen, Margrave de Moravia, Duque da Alta e Baixa Silésia, Módena, Plasencia, Guastalla, Auschwitz, Zator, Teschen, Friul, Ragusa e Zara, Conde de Habsburgo, Tirol, Kyburg, Goritzia e Gradisca, Príncipe de Trento e Brixen, Margrave da Alta e Baixa Lusacia e de Istria, Conde de Hohenems, Feldkirch, Bregenz e Sonnenberg, Senhor de Trieste e Cattaro, Grão Voivoda de Serbia."

Responde do Capuchinho: "Não o conheço!"

- Bate-se na porta a 2ª vez - "Quem é?" - Pergunta o Capuchinho.

"Otto, Imperador e Rei".

Responde do Capuchinho: "Não o conheço!"

- Bate-se na porta a 3ª vez - "Quem é?" - Pergunta o Capuchinho.

"Trazemos nosso irmão em Cristo, Otto, pobre e mortal pecador!"

Enfim o Capuchinho responde: "Pois então, que entre."

É uma das cerimônias mais belas e tocantes na Monarquia, pois ela também é didática, pois relembra que o Monarca também é um mero "pobre e mortal pecador".

Com esta cerimônia fúnebre morre também este ritual que muitos consideram o símbolo perfeito da tensão implícita nos funerais católicos, entre a cerimônia e o respeito devidos ao corpo, e o reconhecimento do estado humilde e pecaminoso de cada homem.

É o "pulchrum" (belo) da Monarquia. T


Fonte: Causa Imperial, com adaptações.


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Cuidado! É frágil, mas não é intocável


Por Frei Cristiano Freitas, OFMConv.

Tenho quase nove anos de sacerdócio e antes mesmo de me tornar padre eu já ajudava muitos corações frágeis a se restabelecerem, a voltarem a amar, a confiarem na vida, e principalmente, confiarem em Deus. Poderia contar diversos casos e também ouvir tantos outros que não chegaram ao meu conhecimento. 

Corações dilacerados não são fáceis de cuidar, porque são feridas abertas que demoram a cicatrizar. Lembranças, traumas e tudo o que machuca nos deixam muito vulneráveis. É justamente nesses momentos que costumamos tomar as decisões mais erradas. Também são nessas horas que o sentimento de desistência e de incapacidade vem à tona. Se não tivermos um apoio, mãos, palavras e ouvidos que nos ajudem, somos capazes de perder todo o sentido existencial. 

Foram nesses momentos de fragilidade que inúmeras vezes "entrei" na vida de tantos irmãos e irmãs. Em muitos casos fiquei, e em outros passei. Mas acredito que o mais importante é que, com a graça de Deus, pude ajudar a alguns a superarem essa vulnerabilidade existencial. É um DOM do Senhor. Gosto e faço com prazer! Não porque sei tudo ou sou plenamente resolvido, mas porque tenho minhas próprias fraquezas e é convivendo com elas que as supero, no esforço de cada dia. 

O que me inspirou a redigir este texto foi perceber, mais uma vez, e agora de forma muito mais concreta que embora eu tenha habilidade em lidar com as emoções, eu não sei cuidar das fragilidades do corpo! Nem das minhas, tampouco das dos outros. Não é um desabafo com peso de culpabilidade da minha parte. É um reconhecimento e louvor, por aqueles que têm o DOM de cuidar dos irmãos mais necessitados, com muita sutileza e disponibilidade. 

Nesses dias, tenho visto minha mãe muito fraca por conta da enfermidade que resolveu habitar - e espero que seja por pouco tempo - a nossa casa. Dona Zeza tem tido dificuldade de fazer as atividades mais básicas sozinha e, por isso, precisa de mãos suaves e dispostas a ajudá-la. Com a graça de Deus, mãos e disposição é o que não têm faltado nesse momento difícil. Tenho visto quanta sutileza, amor, zelo e, insisto, suavidade nesse cuidado com minha mãe. Cada gesto e cada esforço vêm carregados de um enorme desejo de aliviar as dores de um corpo que já não traz as marcas da vitalidade. Gestos esses que não sou capaz de realizá-los com facilidade...

Isso me faz refletir como é incrível podermos tratar de assuntos tão complexos e não sermos capazes de estender uma mão a um irmão fragilizado em seu corpo. Não é somente questão de dualidade ou de antagonismo, isto é, que um é melhor ou pior de lidar do que o outro. É questão de saber receber e valorizar os dons que o Senhor nos deu. Valorizar significa partilhar com os mais necessitados aquilo que nos foi dado como presente. É colocar-se à disposição daqueles que já não sabem como andar sozinhos. Nosso Senhor Jesus Cristo nos alerta sobre esse detalhe do auxílio, quando diz no Evangelho de São Mateus, capítulo 25, versículos 31-46, que "todas as vezes que fizestes isso a um dos pequeninos foi a mim que fizestes", e também quando nos fala que quem deixou de fazer isso, foi a Ele que deixou de fazer. 

Essa minha deficiência de não saber lidar com a fragilidade física do irmão, se manifesta muito claramente no cuidado com as crianças recém-nascidas. Tenho um receio muito grande de carregá-las em meus braços, pela vulnerabilidade com a qual vem ao mundo. Por ter muita admiração e amor eu prefiro não correr o risco de machucá-las de alguma forma. Com os adultos enfermos tenho a mesma sensação... 

Qual é então o objetivo dessa partilha? É para ajudar-nos a entender que devemos fazer aquilo que sabemos, sem receios. Estamos aqui para completar o outro. Ao nosso redor existem muitos irmãos com os corações frágeis, precisando de um SOPRO DE VIDA para continuarem a viver e não apenas sobreviver. Porém, também ao nosso redor estão muitos irmãos com os seus corpos frágeis, necessitando de um SOPRO DE VIDA para também continuarem vivendo. Que sejamos nós, de mãos unidas, a sustentar os que estão perecendo pelo caminho. 

Saber que sempre podemos, de uma forma ou de outra, ajudar aos mais necessitados é a certeza de que em nós habita a graça de Deus, que nunca nos nega sua mão poderosa nos momentos de aflição e seu consolo nos momentos de angústia. Que sempre possamos permitir ao nosso lado a permanência de mãos que nos carreguem, quando nosso corpo já não aguenta a dinâmica acelerada da vida, não por mero interesse, mas por escolhas de um Deus que é providente e amoroso. Que possamos permitir também a permanência de mãos que sustentem nosso coração, quando o mesmo, cansado das feridas, já não encontra sentido para bater. 

Assim Senhor, eu quero ter um coração igual ao Teu. Tu que dizias: "Vinde a mim vós que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei..." (Mt 11,28-29). Que os anseios e as deficiências que ainda existem em mim se transformem em mãos estendidas a todos. E que as virtudes que me destes Senhor, sejam semeadas por onde eu for.

Diante de toda essa reflexão, não poderia encerrar sem manifestar meus sinceros agradecimentos às diversas mãos que neste momento ajudam o corpo debilitado de minha mãe. A começar pelas minhas irmãs Luciana e Catiane, e minha sobrinha Cibelly. Essas três têm se desdobrado nesse cuidado, dom que apreenderam dela, nossa mãe. E agradecer a tantos amigos, e principalmente as amigas de nossa família, que a cada dia tem dedicado seu tempo em cuidar de Dona Zeza. Nunca tive dúvidas, porém, a cada dia tenho ainda mais a certeza de que "quem descobriu um amigo encontrou um grande tesouro" (Eclesiástico 6, 14). T


domingo, 2 de agosto de 2015

Homilia do 18º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo


Preparação para a Comunhão


O diálogo entre Nosso Senhor e o povo, no Evangelho deste Domingo, parece-se muito com aquele travado por Cristo com Satanás, no deserto. De fato, assim como o tentador provoca Jesus, dizendo: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães" (Mt 4, 3), ou ainda, "joga-te daqui abaixo!" (Mt 4, 6), a multidão põe à prova o Divino Mestre: "Que sinal realizas – eles perguntam –, para que possamos ver e crer em ti? Que obra fazes?" (v. 30).

A isso o Senhor responde desmascarando as suas reais intenções: "Em verdade, em verdade, eu vos digo: estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos" (v. 26). Ou seja, a turba que seguia o Senhor não estava propriamente atrás d'Ele, mas do que Ele poderia oferecer a ela. Isso indica como as pessoas podem, em seu egoísmo, procurar Jesus de forma errada, preterindo "o Reino de Deus e a sua justiça" (Mt 6, 33) e se servindo da religião para cuidar de si e dos próprios negócios. Na expressão de Santo Agostinho, "os bons usam do mundo para gozarem de Deus; os maus, ao contrário, querem usar de Deus para gozarem do mundo" [3]. Pode ser que, de fato, muitas pessoas vão à igreja, rezem e comunguem, mas façam todas essas coisas pelos motivos errados, não procurando Jesus para servi-Lo, mas para se servirem d'Ele.

Como mudar essa disposição interior e preparar-se adequadamente para ir ao encontro do Senhor no Santíssimo Sacramento da Eucaristia?

Cabe considerar, antes de qualquer coisa, que quem Se oferece a todos os fiéis na mesa eucarística é o mesmo Jesus, em toda a Sua plenitude. Se algumas pessoas aproveitam mais a Comunhão que outras, a razão disso não deve ser procurada em Deus, senão na diferente disposição interior com que as pessoas O recebem. Na analogia do Doctor Mysticus:
"Se o raio de sol vier refletir-se sobre um vidro manchado ou embaciado, não poderá fazê-lo brilhar, nem o transformará em sua luz de modo total, como faria se o vidro estivesse limpo e isento de qualquer mancha; este só resplandecerá na proporção de sua pureza e limpidez. O defeito não é do raio, mas do vidro; porque, se o vidro estivesse perfeitamente límpido e puro, seria de tal modo iluminado e transformado pelo raio que pareceria o mesmo raio, e daria a mesma luz." [4]
Ao limpar os vidros de nossas almas, a primeira coisa a ser feita é livrar-se das faltas mortais, as quais impedem a própria Comunhão sacramental (cf. 1 Cor 11, 27-29). Para atingir a perfeição, contudo, isso não é o suficiente. É compreensível que uma pessoa no início de sua caminhada eclesial se preocupe em combater os males maiores, não dando tanta atenção às pequenas coisas, mas de quem já está há mais tempo perto do Senhor é esperado um maior cuidado, por exemplo, em (i) evitar e desapegar-se dos pecados veniais – como a maledicência, o uso de palavras sujas e maliciosas, as pequenas vaidades e sensualidades etc. Quem não tiver esse cuidado – diz São João da Cruz – "inutilmente pretenderá chegar à perfeita união com Deus" [5].

Nesse processo de purificação, também é importante (ii) lutar contra as próprias imperfeições. Quem quer ser santo não se deve limitar a fazer o obrigatório, oferecendo ao Senhor apenas o seu "salário mínimo". Para progredir na caridade, é preciso ir além, cumprindo as funções do próprio estado de vida com esmero e perfeição. Uma pessoa que assiste à Missa dominical inteira, por exemplo, está "em dia" com os mandamentos de Deus e da Igreja; se, além disso, ela se preocupa em chegar algum tempo antes à igreja, fazer oração e meditar com ardor e devoção o mistério que vai receber, a sua Comunhão certamente será diferente e produzirá mais frutos.

Mas, por que é necessária a meditação? Porque, como escreve Santo Tomás de Aquino, comentando a afirmação de Cristo: "Eu sou o pão da vida" (v. 35), "a palavra da sabedoria é o alimento especial da mente, pois esta é por ela sustentada" [6]. A devoção nada mais é que uma determinação da vontade de amar a servir a Deus. Ora, para que a vontade se determine, é preciso que a auxilie a inteligência – cujo objeto próprio é a verdade divina. Alimentado pela Palavra, então, o entendimento age sobre a vontade, que se propõe à caridade.

Um bom guia de meditação para receber a Sagrada Eucaristia é o opúsculo Mensis Eucharisticus("Mês Eucarístico"), o qual propõe três etapas para uma oração frutuosa, i.e., considerar:

Quis venit? (Quem vem?)
Ad quem venit? (A quem vem?)
Ad quid venit? (Para quê vem?)

Primeiro, é preciso meditar a respeito de Quem está na Santíssima Eucaristia. A cada dia, o livreto de meditação propõe um aspecto da pessoa de Jesus: um dia, a Sua realeza; em outro, o Seu magistério; noutro, a Sua amizade etc., pois é só considerando a grandeza e a majestade d'Aquele que vem que se pode comungar com fruto. Como canta o Doutor Angélico em seu Adoro te devote, "in cruce latébat sola Déitas, / at hic latet simul et humánitas – na Cruz estava oculta só a divindade, / mas aqui se esconde também a humanidade". Por isso, esse Divino Sacramento exige a virtude da fé.

Segundo, importa que quem vai comungar considere a si mesmo e a sua miséria, pondo em práticaa virtude da humildade, como Maria Santíssima, que, diante de Deus, não se reconhecia senão como escrava: "Ecce ancilla Domini, fiat mihi secundum verbum tuum – Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38).

Terceiro, vale meditar a obra de justificação que Deus quer realizar em quem O recebe, exercitandoa virtude da confiança. Deus vem aos homens para perdoar as suas dívidas, curar a sua cegueira e surdez, firmar uma relação de amizade com eles etc.

Em resumo, para comungar bem, é preciso ter fome e sede do Santíssimo Sacramento, pois, como conclui o Evangelho, "quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede" (v. 35). O jejum eucarístico pedido pela Igreja para comungar procura despertar nas pessoas justamente essa fome física, a qual, por sua vez, aponta para a sede espiritual que todos devem ter para receber com ardor a Santa Comunhão. T

Recomendações:


Referências:

Enchiridion Indulgentiarum (trad. Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 3. ed., 1986, p. 31.
Ibid., p. 9.
Sobre a Cidade de Deus, XV, 7 (PL 41, 444).
São João da Cruz, Subida do Monte Carmelo, II, 5, 6.
Ibid., I, 11, 2.


terça-feira, 28 de julho de 2015

São Francisco e a Amizade



Francisco de Assis, amigo de Clara de Assis, amigo de Ângelo, de Rufino, de Leão, seu amigo pessoal, confidente, confessor e "secretário". Francisco amigo de todos da Fraternidade, Francisco amigo e Irmão de todos os seres da natureza. Uma amizade de presença, carinho, reconhecimento, retribuição, elogios, uma amizade realmente fraterna. Ao seu redor todos se sentem amados.

No caminho de Francisco, a amizade é uma seta indicativa de lugar relacional, porque traz a raiz sólida de uma força de convivência. Todo o bom relacionamento tem interferência na vida e na prática. Como atuar no comum sem a força de um amor fraterno pessoal? Olhemos para Francisco como ele se aproximava de tudo e de todos: como amigo e irmão, com amor cálido, cordial e intimidade fraterna. Temos que aprender com ele!

"Francisco e seus companheiros", de Piero Casentini
Nossas aproximações, às vezes, são de interesse, de afirmar nosso lado de saber, ter e poder. Isto atinge nossa formação, nossa eclesialidade e vivência comum. Nem sempre foi priorizado o âmbito do coração, do sentimento, da afetividade e da emotividade. Muitas vezes, quando temos aproximações marcantes com alguém, somos rotulados de carentes, além de aparecerem expressões de inveja, ciúme, repressões, tensões e rupturas.

Há amigos, se é que assim podemos chamá-los, que se aproximam enquanto levam vantagem. Depois entram num ostracismo sem tamanho quando você deixou de ser útil para eles. Porém, há aqueles que despojadamente são fiéis escudeiros de uma vida. T

domingo, 26 de julho de 2015

Homilia do 17º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



O toque da humanidade de Cristo na Comunhão

O milagre da multiplicação dos pães fez uma grande impressão nos primeiros cristãos porque está nos quatro Evangelhos, e o Evangelho de São Mateus e São Marcos chegam a falar duas vezes desse episódio.

Por que essa impressão? Não tanto pelo milagre em si mesmo, mas pela mensagem eucarística por trás desse portento. Assim como fez na noite da Última Ceia, Jesus, antes de multiplicar os pães, "tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados" (v. 11).

O Evangelho começa dizendo que "Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia" (v. 1). Os Santos Padres veem nessa passagem – evidenciada pela informação de que "estava próxima a Páscoa" (v. 3), que quer dizer "passagem" (cf. Ex 12, 11) – um sinal do desapego do mundo que todo cristão deve fazer [1]. Antigamente, os pregadores cristãos deixavam bem clara a maldade da mentalidade mundana e a necessidade de converter-se, de não se conformar com as coisas deste século (cf. Rm12, 2). Infelizmente, hoje em dia, alguns charlatães, dentro da própria Igreja, têm flertado com o mundo, chegando a dizer que seria a Igreja quem precisaria aprender com a modernidade: aceitando, por exemplo, a Comunhão para recasados, os "casais" homossexuais, a masturbação, a pornografia etc. Ora, não é estranho que justamente essa geração – que não crê mais no amor, que está visivelmente apegada ao dinheiro (seja por parte dos capitalistas, seja por parte dos socialistas), que mata os próprios filhos no ventre de suas mães – queira julgar os santos do passado? Não é muita inconveniência e arrogância dos homens de nosso século, que queiram medir os santos com sua régua torta e viciada?

Estando já na montanha – prossegue o Evangelista –, Jesus age "levantando os olhos e vendo que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro" (v. 5). Santo Tomás de Aquino, ao comentar este trecho, faz notar a circunspecção de Nosso Senhor, que não desviava o Seu olhar para um lugar ou outro, mas permanecia atento aos Seus discípulos, a quem ensinava [2].

Jesus pergunta, então, a Filipe: "Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?" (v. 5). O Evangelista deixa claro que Nosso Senhor questiona o Seu discípulo "para pô-lo à prova (πειράζων)" (v. 6). A palavra grega em questão pode ser traduzida tanto como "tentação" quanto como "provação". Como, porém, "Deus não pode ser tentado pelo mal e tampouco tenta a alguém" (Tg 1, 13), o que Cristo faz aqui é pôr à prova a fé dos Seus discípulos, a fim de aumentar-lhes o amor.

À pergunta de Cristo, responde rudemente Filipe: "Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um" (v. 7). As suas palavras estão baseadas em um raciocínio puramente humano, pois ele não vê outra saída para a situação senão com a compra de mais pães.

André, por outro lado, demonstra ter uma fé mais madura, como faz notar o Doutor Angélico:
"André parece ter diante de si o milagre que está prestes a ser realizado. Talvez ele tivesse na memória o sinal que Eliseu havia feito com os pães de cevada, quando saciou cem homens com vinte pães (cf. 2 Rs 4, 42ss), e por isso disse: 'Está aqui um menino com cinco pães de cevada'. Ainda assim, porém, ele não podia supor que Cristo fizesse um milagre maior que o de Eliseu. Na verdade, ele estimava que menos pães seriam milagrosamente produzidos de menos, e mais de um número maior. Por isso, acrescentou: 'Mas o que é isto para tanta gente?', como se dissesse: ainda que esses pães fossem multiplicados como Eliseu multiplicou, não seria o suficiente. No entanto, Ele, a quem não é necessária nenhuma matéria prima, podia saciar facilmente as multidões seja com muitos seja com poucos pães." [3]
Diz, em seguida, Nosso Senhor: "Fazei sentar as pessoas (discumbere)" (v. 10). Na verdade, à época de Cristo, as pessoas comiam estando deitadas. "Os antigos tomavam suas refeições deitados em leitos, de onde se difundiu o costume de usar a palavra discumbere a quem se sentava para comer. Misticamente, isso significa aquela quietude necessária à perfeição da sabedoria, como diz o Autor Sagrado: 'Quem diminui suas correrias, esse é que se encherá de Sabedoria' (Eclo 38, 25)" [4]. O próprio São João Evangelista ficou lembrado como aquele que reclinou a cabeça sobre o peito de Jesus (cf. Jo 13, 25), indicando a atitude com que todo cristão deve proceder na ação de graças depois da Eucaristia.

Aqui, cabe um exame de consciência sobre a forma como nos temos aproximado da Sagrada Comunhão. Se é verdade que por meio desse divino sacramento, Nosso Senhor nos toca com a Sua humanidade, a sua recepção só terá fruto se O recebermos com fé e com as devidas disposições interiores. Caso contrário, seremos como aquela multidão curiosa e distraída que acotovelava Jesus no caminho da casa de Jairo, sem todavia receber a Sua graça (cf. Mc 5, 21-24). De fato, de todas as pessoas que tocaram no Divino Mestre, somente a hemorroíssa foi beneficiada desse contato, porque foi a única pessoa que se aproximou d'Ele com fé (cf. Jo 5, 25-34). Do mesmo modo, quem se senta na relva (v. 10), nos "prados e campinas verdejantes" (Sl 22, 2), e reclina a cabeça no peito de Nosso Senhor depois da Comunhão, vai notar o toque suave e sutil da graça divina em toda a sua vida.

São João prossegue dizendo que o próprio "Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados" (v. 11), diferentemente dos Evangelhos sinóticos, nos quais são os Apóstolos quem distribuem os pães à multidão (cf., Mt 14, 19; Mc 6, 41; Lc 9, 16). Comentando essa discordância entre os evangelistas, Santo Tomás escreve que "aqui é dito que Ele distribuiu, porque se considera que é Ele mesmo quem realiza aquilo que faz por meio de outros. Mas, no sentido místico, ambas as frases são verdadeiras: porque só Ele refaz desde dentro, enquanto os outros o fazem desde fora e como ministros" [5]. Portanto, é o próprio Cristo quem distribui a Comunhão pelas mãos de Seus sacerdotes.

Por fim, depois de todos satisfeitos, os discípulos "recolheram os pedaços e encheram doze cestos (cophinos) com as sobras dos cinco pães" (v. 13). O Aquinate faz notar que o cesto em questão, chamado cophinus, "é um vaso rústico feito para o ofício dos camponeses", e conclui: "Assim, os doze cestos significam os doze Apóstolos e os seus imitadores, que, ainda que sejam desprezados nesta vida, são todavia repletos interiormente das riquezas dos sacramentos espirituais. Dizem-se que são doze porque foram enviados para pregar a fé da Santíssima Trindade às quatro partes do mundo" [6].

O Evangelista conclui narrando que, "quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte" (v. 15). De fato, as pessoas ainda não tinham entendido que o Seu reino não é deste mundo (cf. Jo 18, 36: "Regnum meum non est de mundo hoc"). Cabe fazer, ao fim desta reflexão, um último exame de consciência, pois, talvez, muitos de nós ainda não tenhamos entendido quem seja verdadeiramente Jesus Cristo. Infelizmente, muitos continuamos na mesma miséria dos homens do tempo de Cristo, querendo que Ele resolva os nossos problemas terrenos e imanentes e esquecendo-nos do maior dom que Ele nos veio trazer: o Reino dos céus. Lá, um dia, Ele vai alimentar-nos para sempre com o pão definitivo da visão beatífica. Essa é a nossa esperança. T

Referências:

1. Cf. Santo Tomás de Aquino, Comentário ao Evangelho de São João, VI, 1, 846: "Quisquis pane divini verbi et corpore et sanguine domini desiderat refici, debet transire de vitiis ad virtutes – Quem quer que deseje refazer-se com o pão do Verbo divino e o corpo e sangue do Senhor, deve passar dos vícios às virtudes."
2. Cf. Ibid., 848.
3. Ibid., 853.
4. Ibid., 856.
5. Ibid., 861.
6. Ibid., 865.


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