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quinta-feira, 28 de maio de 2015

Papa aos capitulares OFM: Minoridade e Fraternidade


Mais de 200 frades menores estiveram na manhã desta terça-feira (26/05) no Vaticano, onde foram recebidos pelo Pontífice. Membros da Ordem de todo o mundo estão reunidos no Capítulo Geral, que acaba de reeleger o norte-americano Frei Michael Perry como Ministro geral.

Recebendo o grupo, Francisco fez um discurso em que abordou os dois elementos essenciais da identidade franciscana: a minoridade e a fraternidade.

Minoridade nos aproxima da salvação

A minoridade chama a ser e sentir-se pequenos diante de Deus, entregando-se totalmente à sua infinita misericórdia. “Quem não se reconhece como ‘menor’, como pecador, não compreende a misericórdia. Quanto mais cientes somos de ser pecadores, mais estaremos próximos da salvação”, disse o Papa.

“Minoridade significa também sair de nós mesmos, de nossos esquemas e visões pessoais; significa ir além das estruturas, dos hábitos e de nossas seguranças e testemunha a proximidade concreta aos pobres, carentes e marginalizados, em atitude de compartilha e serviço”, lembrou.


A importância do testemunho da fraternidade

Prosseguindo, o Papa considerou a dimensão da fraternidade, frisando que ela também pertence ao testemunho evangélico. “A Família franciscana é chamada a expressar esta fraternidade concreta, recuperando a confiança recíproca nos relacionamentos interpessoais, para que o mundo veja e creia”, apontou ainda.

“Nesta perspectiva”, indicou o Papa ao grupo, “é importante resgatar a consciência de que são portadores de misericórdia, reconciliação e paz. Se realizarem esta vocação – que corresponde ao seu carisma – serão uma congregação ‘em saída’”.

As origens da Ordem

Para frisar o conceito, o Papa leu o Capítulo III da Regra Bulada de São Francisco: “Aconselho, admoesto e exorto meus frades no Senhor Jesus Cristo que, quando vão pelo mundo, não litiguem nem contendam com palavras, nem julguem os outros; mas sejam amáveis, pacíficos e modestos, mansos e humildes, falando a todos honestamente… E em qualquer casa em que entrem, digam primeiro: Paz a esta casa”.

Para Francisco, estas exortações são muito atuais; são profecia de fraternidade e minoridade: “Como é importante viver uma existência cristã e religiosa sem se perder em disputas e fuxicos, cultivando um diálogo sereno com todos em mansidão e humildade, anunciando a paz e vivendo sobriamente, contentes do que nos é oferecido!”.

O risco do apego aos bens

Completando, o Papa alertou: “Se, ao contrário, se apegarem aos bens e riquezas do mundo, depositando nelas a sua segurança, será o próprio Senhor a desnudá-los”.

Para terminar, Francisco lembrou que o Espírito Santo é o animador de nossas relações e de nossa missão na Igreja e no mundo. Quando os consagrados se deixam iluminar e guiar pelo Espírito, é mais fácil enfrentar desafios como o envelhecimento e a escassez de vocações. Ao se despedir, o Papa encorajou os frades e confiou toda a Ordem à materna proteção da Virgem Maria. T

Fonte: news.va








domingo, 17 de maio de 2015

Homilia da Solenidade da Ascensão do Senhor, por Pe. Paulo Ricardo



Convinha que Cristo partisse aos céus?

Antes de fazer uma aplicação espiritual do mistério da Ascensão do Senhor, é preciso entender o que crê a Igreja, quando confessa, no Credo, que Cristo "subiu aos céus" e "está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso".

Importa dizer, em primeiro lugar, que a Ascensão de Cristo é um artigo de fé católica, vinculante para todos os fiéis. Trata-se de algo que realmente aconteceu. Não é, pois, uma mera "construção literária" de São Lucas, como dizem alguns exegetas contemporâneos, observando que este foi o único autor a narrar a subida de Jesus aos céus (cf. Lc 24, 50-53; At 1, 9-11). Na verdade, são inúmeras as referências à Ascensão em outros livros das Escrituras (cf. Mc 16, 19; Jo 20, 17; Ef 4, 8-10; Hb 7, 26; 8, 1s; 10, 12), passagens que deixam clara a historicidade desse fato. O próprio Catecismo da Igreja Católica sublinha o caráter ao mesmo "histórico e transcendente" da Ascensão, não deixando dúvidas sobre a sua veracidade [1].

É claro que, por ser um evento absolutamente fora da ordem natural das coisas, a Ascensão provoca perplexidade entre os teólogos e cientistas modernos. Inflados por um preconceito racionalista, eles não aceitam que Deus possa se manifestar de modo sobrenatural na história. No fundo, o seu problema não é com a Ascensão, mas com toda a história da salvação, com os seus milagres e relatos extraordinários. Todos os santos, por exemplo, tiveram verdadeiras experiências místicas com Deus. Essas experiências, embora sejam narradas por meio de figuras e símbolos, realmente aconteceram, são históricas; mas são, sobretudo, realidades transcendentes, já que seu significado está para além desse mundo físico.

A morte de Cristo na Cruz é um outro exemplo. Historicamente, Ele "padeceu sob Pôncio Pilatos" e "foi crucificado, morto e sepultado". O sentido dessa morte, porém, é muito maior que aquilo que podem ver os olhos da carne: na Cruz, de fato, acontece o sacrifício de amor que redime toda a humanidade. Isso, contudo, só o pode enxergar o olhar da fé.

Por isso, em segundo lugar, é preciso considerar o significado espiritual da Ascensão do Senhor. Para tanto, guiará esta meditação o gênio de Santo Tomás de Aquino [2].

Respondendo se convinha que Cristo partisse aos céus e deixasse os homens na terra, ele, primeiro, esclarece que:
"Embora os fiéis, pela ascensão, tenham sido privados da presença corporal de Cristo, sua presença divina é constante entre os fiéis, conforme ele mesmo diz: 'Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos tempos' (Mt 28, 20). E como diz o Papa Leão, 'aquele que subiu aos céus não abandona os que adotou'."
Essa "presença divina", "constante entre os fiéis", se dá, sobretudo, em Sua presença substancial no sacramento da Eucaristia, em todos os sacrários da terra. Nas espécies do pão e do vinho, de fato, estão verdadeiramente o corpo, sangue, alma e divindade de Nosso Senhor – sem os Seus acidentes, porém, que só se acham no Céu.

Depois, o Aquinate relaciona o mistério que hoje celebramos ao crescimento nas três virtudes teologais. Ele diz que "a ascensão de Cristo ao céu, que nos tirou sua presença corporal, foi de maior utilidade para nós do que teria sido a presença corporal". E explica o porquê:
Primeiro, para aumento da fé, que é sobre o que não se vê. Por isso, o próprio Senhor diz que o Espírito Santo, ao vir, 'arguirá o mundo a respeito da justiça' (Jo 16, 8), ou seja, da justiça 'dos que creem', como diz Agostinho: 'A própria comparação dos fiéis com os infiéis é uma censura'. Por isso, acrescenta: 'Porque eu vou para o Pai e não me vereis mais (Jo 16, 10), pois são bem-aventurados os que não veem e creem. Será nossa a justiça, de que o mundo será arguido, porque credes em mim, a quem não vedes'.
Segundo, para reerguer a esperança. Por isso, ele próprio diz: 'Quando tiver ido, prepararei um lugar para vós, voltarei e vos tomarei comigo, de tal sorte que lá onde eu estiver também vós estejais' (Jo 14, 3). Na verdade, pelo fato de Cristo ter elevado ao céu sua natureza humana assumida, deu-nos a esperança de lá chegarmos, pois 'onde quer que esteja o corpo, ali se reunirão as águias' (Mt 24, 28). Por isso, diz também Mq 2, 13: 'Já subiu, diante deles, aquele que abre o caminho'.
Subindo aos céus, diz o autor da Carta aos Hebreus, "Cristo não entrou num santuário feito por mão humana (...), mas no próprio céu, a fim de comparecer, agora, na presença de Deus, em nosso favor" (Hb 9, 24). De fato, comenta o Catecismo, "no céu, Cristo exerce em caráter permanente seu sacerdócio" [3]. Isso é fonte de grande esperança para a humanidade, que confia que Jesus lhe enviará todas as graças necessárias para a sua salvação eterna.
Terceiro, para elevar às coisas celestes o afeto do amor. Por isso, diz o Apóstolo: 'Procurai o que está no alto, lá onde se encontra Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas de cima, não às da terra' (Cl 3, 1-2), pois, como foi dito, 'onde estiver o teu tesouro, ali também estará o teu coração' (Mt 6, 21). E porque o Espírito Santo é o Amor que nos arrebata para as coisas do céu, diz o Senhor aos discípulos: 'É de vosso interesse que eu parta; com efeito, se eu não partir, o Paráclito não virá a vós; se, pelo contrário, eu partir, eu vo-lo enviarei' (Jo 16, 7). Comentando essa passagem, diz Agostinho: 'Não podeis receber o Espírito enquanto persistirdes em conhecer o Cristo segundo a carne. Pois quando Cristo se afastou corporalmente, não somente o Espírito Santo, mas o Pai e o Filho estavam espiritualmente em presença deles."
Foi preciso, pois, que Cristo partisse, para que os homens entrassem em maior comunhão com a Santíssima Trindade. Na Ascensão, o mistério da Encarnação completa o seu ciclo, por assim dizer: o Deus que desceu para assumir a natureza humana, agora a eleva aos céus, a fim de que também a Igreja eleve o seu coração ao alto – como se responde em toda liturgia eucarística – e, um dia, entre na plena posse de seu Esposo, no Céu. T

Referências:

Catecismo da Igreja Católica, n. 660.
Todas as citações do Aquinate foram tiradas da Suma Teológica, III, q. 57, a. 1, ad 3.
Catecismo da Igreja Católica, n. 662.


domingo, 10 de maio de 2015

Homilia do 6º Domingo da Páscoa, por Pe. Paulo Ricardo



Eu vos chamo amigos

No Evangelho deste Domingo, Nosso Senhor deixa aos Seus discípulos o mandamento do amor: "Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei." E como amou Cristo os Seus apóstolos? Dando por eles a Sua própria vida, como diz no versículo seguinte: "Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos."

Santo Tomás de Aquino, comentando este trecho das Escrituras, esclarece que a caridade é uma amizade e trata de diferenciá-la do amor de concupiscência:
"Segundo Aristóteles, não é qualquer amor que realiza a noção de amizade, mas somente o amor de benevolência, pelo qual queremos bem a quem amamos. Se, porém, não queremos o bem daquilo que amamos e, antes, queremos para nós o bem que há neles, quando, por exemplo, dizemos amar o vinho, ou o cavalo etc., não há amor de amizade, mas um amor de concupiscência." [1]
A primeira característica do amor de amizade é, portanto, a benevolência (do latim bene volere, "querer bem"). Quando pede aos discípulos que permaneçam no Seu amor, Nosso Senhor se explica: "Eu vos disse isso, para que minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena". O grande bem que Deus quer para o ser humano é que ele participe da Sua alegria, no Céu. Deus mesmo não ganha absolutamente nada com essa amizade, mas, justamente porque quer o bem dos homens, manifesta-se como "um Deus ciumento" (Ex 20, 5), pedindo que eles O amem sobre todas as coisas e não tenham outros deuses diante d'Ele. O bem de que aqui se trata pode muito bem ser grafado em maiúsculas, já que, dos muitos bens que se pode desejar a uma pessoa, o maior de todos, o Bem por excelência, é a sua salvação eterna.

Quando Cristo diz, portanto: "Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei", é em vistas à salvação da alma do próximo que se deve amá-lo. O verdadeiro bem é o Céu. O verdadeiro mal é o inferno. Diante da possibilidade de nunca contemplar a face de Deus no Céu, qualquer mal desta Terra é uma trivialidade. Diante do horror que é perder a Deus eternamente, a maior tragédia deste mundo é um nada. Assim, querer o bem das pessoas é querer que elas se salvem. Se alguém deseja aprender a amar o outro, deve começar rezando pela sua salvação eterna.

A segunda característica da amizade é a beneficência (do latim bene facere, "fazer o bem"). Não basta querer bem o outro; é preciso que isso se torne algo efetivo. Como o modelo supremo é Cristo, é preciso fazer o bem como Ele fez: "Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida pelos amigos". Nosso Senhor não ficou somente em afetos e desejos, mas operou o bem, veio do Céu como filantropo (em grego, φιλάνθρωπος), como verdadeiro amigo dos homens, entregando a Sua própria carne e derramando o Seu próprio sangue por eles.

Na Santa Missa, este único sacrifício de Cristo é celebrado nos altares do mundo inteiro, operando eficazmente pela salvação da humanidade. Quando os comunistas tomaram o poder na Rússia e a Igreja Ortodoxa foi violentamente perseguida, os agentes soviéticos também levaram consigo o Patriarca de Moscou. Perguntando se tinha algum último desejo antes de ser preso, o religioso respondeu: "Deixem-me celebrar pela última vez a divina Liturgia, com a certeza de que, por este santo sacrifício, o mundo será salvo".

Esta é a fé da Igreja: que a celebração dos Sacramentos são os sinais eficazes da graça de Deus na vida dos homens. Por isso, quando as pessoas se aproximam regularmente da Confissão e da mesa da Eucaristia, estão de fato fazendo o bem.

Mas, o começo da beneficência está na pregação da Palavra. "Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade" (1 Tm 2, 4). O primeiro modo de fazer o bem às pessoas é dar a elas a fé, de preferência mostrando-lhes a vida dos santos, "caminho seguro para efetuar uma hermenêutica viva e eficaz da Palavra de Deus" [2].

Assim, colocando em primeiro lugar a fé e os Sacramentos, tendo em vista a salvação das almas, todos os outros bens que se desejam aos homens serão devidamente ordenados. Saúde física, longa vida, prosperidade, tranquilidade: nada, absolutamente nada, deve ser anteposto a Cristo. T

Referências:

Suma Teológica, II-II, q. 23, a. 1; cf. também Comentário ao Evangelho de São João, 15, 4.


domingo, 3 de maio de 2015

Homilia do 5º Domingo da Páscoa, por Pe. Paulo Ricardo



Eu sou a videira e vós sois os ramos

No Evangelho deste Domingo, Jesus se compara à "videira verdadeira", da qual nós somos os ramos: "Aquele que permanece em mim, e eu nele, esse produz muito fruto". Neste Testemunho de Fé, Padre Paulo Ricardo indica o que fazer para permanecermos unidos a Cristo. Afinal, o que a parábola da videira tem a ver com a Igreja e com os Sacramentos? Como fortalecer nossa adesão a Cristo, por meio da fé, da esperança e da caridade? T



domingo, 26 de abril de 2015

Homilia do 4º Domingo da Páscoa (Domingo do "Bom Pastor"), por Pe. Paulo Ricardo



O êxodo, experiência fundamental da vocação

Em sua mensagem para o 52º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, celebrado neste Domingo do Bom Pastor, o Papa Francisco fala do êxodo como experiência fundamental da vocação cristã. De fato, a própria palavra "apóstolo" (do grego: ἀπόστολος) carrega este significado: saindo da própria comodidade e de seus projetos pessoais, o discípulo de Cristo é enviado para longe, ao encontro da missão designada por Deus.

Mas o que este tema tem a ver com a liturgia deste Domingo? Ora, o "bom pastor" de que fala o Evangelho é também o pastor retratado pelo Evangelho de São Lucas (15, 1-7), que, perdendo uma de suas ovelhas, "deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu, até encontrá-la". A chave de leitura desta passagem é o próprio Jesus, que sai do Céu para resgatar as Suas ovelhas do vale da sombra da morte (cf. Sl 22, 4). Ao contrário do mercenário, que, vendo o lobo chegar, "abandona as ovelhas e foge", e o lobo, então, "as ataca e dispersa", o bom pastor permanece com suas ovelhas e se expõe, ele mesmo, aos ataques do lobo, disposto que está a entregar a própria vida.

Antes, porém, de dar a sua vida, o bom pastor precisa sair de sua comodidade. O Papa Francisco cita, em sua mensagem, um trecho da encíclica Deus Caritas Est, do Papa Bento XVI, dizendo que a vocação cristã provoca um "êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus" [1].

Êxodo permanente do eu fechado em si mesmo. Na época de Cristo, era uma característica básica dos pastores que eles fossem nômades itinerantes, à procura de pastagens para o seu rebanho. Se ficasse parado em um só lugar, suas ovelhas morreriam de fome. Ele estava, pois, em "êxodo permanente". No caso das vocações, é preciso que elas realizem essa saída "do eu fechado em si mesmo". Neste dia especial de oração, é preciso pedir a Deus jovens que se inquietem consigo mesmos, que não fiquem ensimesmados em suas vaidades, mas queiram viver o sacerdócio em santidade, como viveram os grandes sacerdotes da história da Igreja. Jovens que saiam de seus planos egoístas de autorrealização e estejam dispostos a fazer a vontade do Outro, que é Deus. Que descubram, assim como o teólogo Hans Urs von Balthasar descobriu, que eles não têm nada para escolher; antes, eles já foram escolhidos [2].

Para a sua libertação no dom de si. Se o povo de Israel saiu do Egito para a Terra Prometida, o coração do vocacionado é chamado a sair "do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si". Essas são as duas terras, no meio das quais há um deserto, uma peregrinação necessária. Sem ela, não é possível ser feliz, já que a felicidade consiste justamente em que a pessoa cumpra em sua vida a vontade de Deus a seu respeito. Só assim se dá, nas palavras de Bento XVI, o reencontro de si mesmo. Paradoxalmente, é justamente quando o homem sai à procura de Deus que ele se encontra consigo próprio, enquanto o pecado, fechando o ser humano em seu egoísmo, leva-o para bem longe de si.

Em última instância, o êxodo da vocação é feito para a descoberta de Deus, para que se entre em comunhão com Ele. Volta-se, então, à ideia do Evangelho deste Domingo. "Eu sou o bom pastor", diz Jesus. "Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem. (...) Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor". No redil de Cristo, há um só Pastor, que é Ele mesmo. No fundo, todos os outros pastores são ovelhas, que também precisam ouvir a voz do Pastor para, assim, se tornarem imagens d'Ele.

Em sua analogia, Nosso Senhor também dá a conhecer um novo conceito de sacerdócio. O pastor que "dá a vida por suas ovelhas" é, ao mesmo tempo, sacerdote e vítima: não é simplesmente o sujeito que recebe o poder apostólico, mas também aquele que se entrega. Por isso, é triste que muitos padres e seminaristas queiram inventar um novo modelo de sacerdócio, adaptando-se a uma vida cômoda, querendo estar sempre "na moda" e reduzindo o seu serviço a uma rotina empresarial. Um clérigo assim pode até ser sucessor dos Apóstolos; sua vida, porém, não reflete o "êxodo permanente" que eles viveram, deixando tudo – suas redes, famílias e projetos – para ir aonde não queriam ir (cf. Jo 21, 18) e dar a vida pelo rebanho do Senhor.

"Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; essa é a ordem que recebi de meu Pai", diz o Senhor. Sejamos também nós capazes de dar a vida, de sair espontânea, livre e amorosamente ao encontro do Pai, dispostos a ser pisados como o trigo que cai na terra e dá muito fruto (cf. Jo 12, 24-26). T

Referências:

2. Cf. Hans Urs von Balthasar, Porquoi je me suis fait prêtre. Témoignages recueillis par Jorge et Ramón Sans Vila (Tournai, 1961), 21: "Mesmo agora, trinta anos depois, ainda poderia ir àquele via longínqua na Floresta Negra, não muito longe da Basileia, e encontrar novamente a árvore debaixo da qual fui atingido como que por um raio... E, então, não era nem a teologia nem o sacerdócio o que vinha, em um flash, à minha mente. Era simplesmente isto: você não tem nada a escolher, você foi chamado. Você não vai servir, você vai ser levado ao serviço. Você não tem planos a fazer, você é apenas uma pedrinha em um mosaico que já está pronto há muito tempo. Tudo o que eu precisava fazer era 'deixar tudo e segui-Lo', sem fazer planos, sem desejos ou insights. Tudo o que eu precisava era permanecer ali, esperar e ver para o que eu seria precisado."



domingo, 19 de abril de 2015

Homilia do 3º Domingo da Páscoa, por Pe. Paulo Ricardo



O segredo para ler as Escrituras

No caminho de Emaús, "Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras". Também hoje, só com o auxílio divino é possível interpretar corretamente as Escrituras. Qual é, afinal, a chave de leitura dos Textos Sagrados? Como entender as histórias dos patriarcas, as predições dos profetas e as súplicas dos Salmos, cheias de passagens difíceis e enigmáticas? Neste Testemunho de Fé, entre na estrada de Emaús e aprenda com Nosso Senhor a ler as Sagradas Escrituras.



domingo, 12 de abril de 2015

Homilia do Domingo da Misericórdia, por Pe. Paulo Ricardo



Nem toda misericórdia é virtuosa

Às portas do Ano Santo da Misericórdia, convocado pelo Papa Francisco, nada mais oportuno que considerar em que consiste, realmente, esta expressão. Misericórdia: em que sentido o mundo e a Igreja usam essa palavra? Toda dor pela miséria alheia pode ser considerada virtuosa? Neste Testemunho de Fé, Padre Paulo Ricardo indica, a partir das lições do Doutor Angélico, qual a medida da verdadeira misericórdia e como colocar em prática esta importante virtude.


sábado, 4 de abril de 2015

"Ecce homo!"


Texto completo da pregação do Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap., Basílica de São Pedro, Sexta-feira da Paixão do Senhor (2015).

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Acabamos de ouvir o relato do julgamento de Jesus perante Pilatos. Há nele um momento que nos pede uma atenção especial.

“Pilatos mandou então flagelar Jesus. Os soldados teceram de espinhos uma coroa, puseram-na sobre a sua cabeça e o cobriram com um manto de púrpura. Aproximavam-se dele e diziam: Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas. Pilatos saiu outra vez e disse-lhes: Eis que vo-lo trago fora, para que saibais que não acho nele nenhum motivo de acusação. Apareceu então Jesus, trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Pilatos disse: Ecce homo! Eis o homem!” (Jo 19,1-5).

Entre as muitas pinturas que retratam o Ecce Homo, há uma que sempre me impressionou. É de Jan Mostaert, pintor flamengo do século XVI, e está na National Gallery de Londres. Tentarei descrevê-la. Ela nos ajudará a imprimir melhor na mente o episódio, já que o pintor transcreve fielmente, em cores, os dados do relato evangélico, especialmente do relato de Marcos (Mc 15,16-20).

Jesus tem na cabeça uma coroa de espinhos. Um feixe de arbustos espinhosos que estava no pátio, talvez para fazer fogo, deu aos soldados a ideia dessa cruel zombaria da sua realeza. Da cabeça de Jesus descem gotas de sangue. Sua boca está semiaberta, como que lutando para respirar. Sobre os ombros, sulcados pelos golpes recentes da flagelação, um manto pesado e desgastado, mais próximo da lata que da estopa. Ele tem os pulsos amarrados por uma corda grosseira; em uma das mãos, eles colocaram um pedaço de pau a fazer as vezes de cetro e, na outra, um feixe de varetas, símbolos que ridicularizavam a sua majestade. Jesus não pode mover sequer um dedo; é o homem reduzido à total impotência, o protótipo de todos os algemados da história.

Ecce Homo, de  Jan Mostaert
Meditando sobre a Paixão, o filósofo Blaise Pascal escreveu certa vez estas palavras: "Cristo está em agonia até o fim do mundo: não podemos dormir durante este tempo"[1]. Há um sentido em que estas palavras se aplicam à pessoa de Jesus mesmo, ou seja, à cabeça do corpo místico e não apenas aos membros. Não apesar de Ele ter ressuscitado e estar vivo, mas justamente porque Ele ressuscitou e está vivo. Deixemos de lado, no entanto, este significado misterioso demais para nós e falemos do sentido mais claro daquelas palavras. Jesus está em agonia até o fim do mundo em cada homem ou mulher submetidos aos mesmos tormentos. "Vós o fizestes a mim" (Mt 25, 40): Ele não disse esta frase apenas sobre quem acredita nele; ele a disse sobre cada homem e cada mulher famintos, nus, maltratados, presos.

Ao menos por uma vez, não pensemos nos males sociais, coletivos: a fome, a pobreza, a injustiça, a exploração dos fracos. Desses males já se fala muitas vezes, embora nunca o suficiente, e há o risco de se tornarem abstrações. Categorias, não pessoas. Pensemos agora no sofrimento dos indivíduos, das pessoas com nome e identidade concreta; nas torturas decididas a sangue frio e infligidas voluntariamente, neste exato momento, por seres humanos contra outros seres humanos, inclusive crianças.

Quantos "Ecce homo" no mundo! Meu Deus, quantos "Ecce homo"! Quantos prisioneiros na mesma condição de Jesus no pretório de Pilatos: sozinhos, algemados, torturados, à mercê de soldados ásperos e cheios de ódio, que se entregam a todo tipo de crueldade física e psicológica, divertindo-se em ver sofrer. "Não podemos dormir, não podemos deixá-los sós!".

A exclamação "Ecce homo!" não se aplica somente às vítimas, mas também aos carnífices. Ela quer dizer: eis aqui do que o homem é capaz! Com temor e tremor, digamos ainda: eis do que somos capazes nós, homens! Muito distante da marcha inexorável do Homo sapiens sapiens, o homem que, segundo alguns, nasceria da morte de Deus e tomaria o seu lugar[2].

Os cristãos não são, certamente, as únicas vítimas da violência homicida que há no mundo, mas não se pode ignorar que, em muitos países, eles são as vítimas marcadas e mais frequentes. Jesus disse um dia aos seus discípulos: "Chegará uma hora em que aqueles que vos matarem julgarão estar honrando a Deus" (Jo 16, 2). Talvez estas palavras nunca tenham achado na história um cumprimento tão pontual quanto hoje.

Um bispo do século III, Dionísio de Alexandria, nos deixou o testemunho de uma Páscoa celebrada pelos cristãos durante a feroz perseguição do imperador romano Décio: "Eles nos exilaram e, sozinhos entre todos, fomos perseguidos e lançados à morte. Mas, ainda assim, celebramos a Páscoa. Todo lugar em que se sofria tornou-se para nós um lugar de celebração da festa: fosse um acampamento, um deserto, um navio, uma pousada, uma prisão. Os mártires perfeitos celebraram a mais esplêndida das festas pascais ao ser admitidos no banquete celeste"[3]. Será assim para muitos cristãos também na Páscoa deste ano, 2015 depois de Cristo.

Houve alguém que teve a coragem de denunciar, como leigo, a indiferença perturbadora das instituições mundiais e da opinião pública em face de tudo isto, lembrando a quais consequências essa indiferença já levou no passado[4]. Corremos todos o risco, tanto instituições quanto pessoas do mundo ocidental, de ser Pilatos que lavam as mãos.

A nós, no entanto, não é permitido fazer qualquer denúncia neste dia. Trairíamos o mistério que estamos celebrando. Jesus morreu gritando: "Pai, perdoa-os, porque não sabem o que fazem" (Lc 23, 34). Esta oração não é simplesmente murmurada; é gritada para ser bem ouvida. Na verdade, não é sequer uma oração, mas uma exigência imperativa, feita com a autoridade de quem é Filho: "Pai, perdoa-os!". E como Ele mesmo disse que o Pai escuta todas as suas orações (Jo 11,42), devemos acreditar que Ele ouviu também esta última feita na cruz, e que, portanto, aqueles que crucificaram o Cristo foram perdoados por Deus (é claro que não sem antes se arrependerem de alguma forma) e estão com Ele no paraíso, testemunhando para toda a eternidade o ponto até o qual pode chegar o amor de Deus.

Essa ignorância, como tal, estava só nos soldados. Mas a oração de Jesus não se limita a eles. A grandeza divina do seu perdão consiste no fato de que o perdão também é oferecido aos seus inimigos mais ferozes. É para eles que Jesus alega a desculpa da ignorância. Mesmo que eles tenham agido com astúcia e malícia, eles realmente não sabiam o que faziam, não pensavam que estavam crucificando um homem que era de fato o Messias e Filho de Deus! Em vez de acusar os seus adversários, ou de os perdoar confiando ao Pai Celestial o cuidado de vingá-lo, Ele os defende.

Seu exemplo sugere aos discípulos uma generosidade infinita. Perdoar com a sua mesma grandeza de alma não pode envolver simplesmente uma atitude negativa, de renunciar a querer o mal para quem faz o mal; deve traduzir-se, em vez disso, em uma vontade positiva de lhes fazer o bem, mesmo que apenas com uma oração dirigida a Deus em seu favor. "Orai por aqueles que vos perseguem" (Mt 5, 44). Esse perdão não deve procurar compensação nem sequer na esperança de um castigo divino. Deve ser inspirado por uma caridade que desculpa o próximo, mesmo sem fechar os olhos para a verdade, e que tenta parar os maus para que eles não façam mais mal aos outros nem a si mesmos.

Quereríamos dizer: "Senhor, o que nos pedes é impossível!", mas Ele nos responderia: "Eu sei. E morri para vos dar o que vos peço. Não vos dei apenas o mandado de perdoar, nem apenas um exemplo heroico de perdão; com a minha morte, eu vos dei a graça que vos torna capazes de perdoar. Eu não deixei ao mundo apenas um ensinamento sobre a misericórdia, como tantos outros também deixaram. Eu sou Deus e, para vós, fiz brotarem da minha morte rios de misericórdia. Deles podeis beber a mãos cheias no Ano Jubilar da Misericórdia que tendes pela frente".

Então, indagará alguém, seguir a Cristo é sempre um resignar-se passivamente à derrota e à morte? Pelo contrário! "Tende coragem", disse Ele aos apóstolos antes da Paixão: "Eu venci o mundo" (Jo 16, 33). Cristo venceu o mundo vencendo o mal do mundo. A vitória definitiva do bem sobre o mal, que se manifestará no fim dos tempos, já aconteceu, de fato e de direito, na cruz de Cristo. "Esta é hora do juízo deste mundo" (Jo 12, 31). Desde aquele dia, o mal é o perdedor: tanto mais perdedor quanto mais parece triunfar. O mundo já foi julgado e condenado em última instância, com sentença inapelável.

Jesus derrotou a violência sem opor a ela uma violência maior ainda, e sim sofrendo-a e revelando toda a sua injustiça e inutilidade. Ele inaugurou um novo tipo de vitória, que Santo Agostinho resumiu em três palavras: “Victor quia victima” – “vencedor porque vítima” [5]. Foi ao "vê-lo morrer assim" que o centurião romano exclamou: "Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!" (Mc 15, 39). Os outros se perguntavam o que significava o alto brado que Jesus tinha dado ao morrer (Mc 15, 37). O centurião, que era experiente em lutas e lutadores, reconheceu de imediato que aquele era um grito de vitória[6].

O problema da violência nos persegue, nos choca, inventando formas novas e espantosas de crueldade e de barbárie. Nós, cristãos, reagimos horrorizados à ideia de que se possa matar em nome de Deus. Alguém poderia objetar: mas a Bíblia também não está cheia de histórias de violência? Deus mesmo não é chamado de "Senhor dos Exércitos"? Não é atribuída a Ele a ordem de exterminar cidades inteiras? Não é Ele quem decreta, na Lei mosaica, numerosos casos de pena de morte?

Se tivessem dirigido a Jesus, durante a sua vida, esta mesma objeção, Ele certamente teria respondido o que respondeu sobre o divórcio: "Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim" (Mt 19,8). Também sobre a violência, "no princípio não foi assim". O primeiro capítulo do Gênesis mostra um mundo onde a violência não é sequer pensável, nem dos seres humanos entre si, nem entre homens e animais. Nem sequer para vingar a morte de Abel, e assim punir um assassino, é lícito matar (cf. Gn 4, 15).

O genuíno pensamento de Deus é expresso pelo mandamento "Não matarás", e não pelas exceções abertas na Lei, que são concessões à "dureza do coração" e dos costumes dos homens. A violência, depois do pecado, infelizmente faz parte da vida; e o Antigo Testamento, que reflete a vida e deve servir à vida, procura pelo menos, com a sua legislação e com a própria pena de morte, canalizar e conter a violência para que ela não se degenere em arbítrio pessoal[7].

Paulo fala de uma época caracterizada pela "tolerância" de Deus (Rm 3, 25). Deus tolera a violência como tolera a poligamia, o divórcio e outras coisas, mas educa o povo para um tempo em que o seu plano original possa ser "recapitulado", como para uma nova criação. Esse tempo chega com Jesus, que, na montanha, proclama: "Ouvistes o que foi dito: olho por olho, dente por dente; mas eu vos digo: não resistais aos malvados; se alguém vos bater na face direita, oferecei também a outra... Ouvistes o que foi dito: amai o vosso próximo e odiai o vosso inimigo; eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (Mt 5,38-39; 43-44).

O verdadeiro "sermão da montanha" que mudou o mundo, no entanto, não é aquele que Jesus fez um dia sobre uma colina da Galileia, mas aquele que Ele proclama agora, silenciosamente, na cruz. No Calvário, Ele pronuncia um definitivo "não!" à violência, opondo a ela não apenas a não-violência, mas o perdão, a bondade e o amor. Se ainda houver violência, ela já não poderá, sequer remotamente, remontar a Deus e revestir-se da sua autoridade. Fazer isto significa retroceder na ideia de Deus a estágios primitivos e grosseiros, superados pela consciência religiosa e civil da humanidade.

Os verdadeiros mártires de Cristo não morrem com os punhos cerrados, mas com as mãos juntas. Tivemos tantos exemplos recentes! Foi Ele que, aos 21 cristãos coptas mortos pelo Estado Islâmico na Líbia em 22 de fevereiro, deu a força para morrerem murmurando o Seu nome. Rezemos nós também:

"Senhor Jesus Cristo, oramos pelos nossos irmãos de fé que são perseguidos e por todos os Ecce homo que estão, neste momento, sobre a face da terra, cristãos e não cristãos. Maria, tu, ao pé da cruz, te uniste ao Filho e murmuraste com Ele: "Pai, perdoa-os". Ajuda-nos a vencer o mal com o bem, não só no grande palco do mundo, mas também na vida cotidiana, dentro da nossa casa. Tu, que, "ao sofrer com teu Filho que morria na cruz, colaboraste de modo tão especial para a obra do Salvador com a obediência, a fé, a esperança e a caridade ardente"[8], inspira nos homens e mulheres da nossa época pensamentos de paz, de misericórdia e de perdão. Que assim seja". T

[1] Blaise Pascal, “O mistério de Jesus” (Pensamentos, nº 553).
[2] F. Nietzsche, A gaia ciência,III, 125.
[3] Dionísio de Alexandria, in Eusébio, História ecl., VII, 22, 4.
[4] Ernesto Galli della Loggia, “L’indifferenza che uccide”, in “Corriere della sera” 28 de julho de 2014, pág. 1.
[5] S.Agostinho, Confissões, X, 43.
[6] Cf. F. Topping “An impossible God”.
[7] Cf R. Girard, Delle cose nascoste sin dalla fondazione del mondo, Adelphi, Milão 19963.
[8] Lumen gentium, nº 61.

Fonte: Zenit.


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