Manchetes

Para escrever seus Comentários, clique no título da Postagem. Paz e Bem!

domingo, 1 de março de 2015

Homilia do 2º Domingo da Quaresma



Por que Deus prova a nossa fé?

Na liturgia deste Domingo, Deus põe Abraão à prova e pede ao patriarca o sacrifício de seu próprio filho. O que significa essa passagem tão conhecida das Escrituras? O que Deus queria, afinal, com o sacrifício de Isaac? Neste Testemunho de Fé, Padre Paulo Ricardo explica porquê o Senhor quer testar a nossa fé e indica qual atitude espiritual tomar diante das provações desta vida. 

******

Em Italiano, por Frei Luis Felipe, OFMConv.




T



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Nomeação de Bispo Franciscano: Bispo Auxiliar de Campo Grande (MS)


O pároco polonês da Paróquia “Nossa Senhora de Fátima” de Juruá, na Prelazia de Tefé (AM), Frei Janusz Danecki, OFMConv., como novo Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Campo Grande (MS). O Papa Francisco fez a nomeação, que foi publicada nesta quarta-feira, 25. 

O novo Bispo

Dom Frei Janusz Danecki nasceu em Sochaczew, Diocese de Lowicz (Polônia), em 8 de setembro de 1951. Entrou na Ordem Franciscana dos Frades Menores Conventuais em 1965, indo estudar inicialmente no Seminário Menor Franciscano de Niepokalanów (1965-1970). Depois do Noviciado, estudou Filosofia e Teologia no Seminário Maior Franciscano de Cracóvia (1971-1977). Foi ordenado sacerdote em 19 de junho de 1977. 

Antes de partir como missionário ao Brasil, aos 34 anos, foi pároco em Niepokalanów e Lodz, no difícil período da hegemonia comunista.

Ao chegar ao Brasil, foi Formador dos postulantes e Superior da Comunidade “Jardim da Imaculada”, na Diocese de Luziânia, Goiás, (1985-1995); Diretor Nacional da Milícia da Imaculada e pároco da Paróquia “Santo Antônio” (1992-1995); Reitor do Seminário Franciscano em Brasília, Guardião do Convento e Secretário da Custódia (1996-1999); Guardião do Convento “Jardim da Imaculada” em Luziânia (2000-2003); Vigário Provincial e Formador em Brasília (2004-2007); reitor do Santuário  “Jardim da Imaculada” em Luziânia (2008-2009). Em 2008, seguiu para a Missão Franciscana na Amazônia, onde estava como paróco, na Prelazia de Tefé (AM). T

Fontes: news.va e CNBB.


domingo, 22 de fevereiro de 2015

Homilia do 1º Domingo da Quaresma, por Pe. Paulo Ricardo



Contrariar-se por amor ao Outro

No Evangelho deste Domingo, assim como em todo 1º Domingo da Quaresma, Nosso Senhor vai para o deserto. À imitação de Cristo – e do povo de Israel, que, para entrar na Terra Prometida, permaneceu quarenta anos no deserto –, também nós precisamos passar por esta realidade, a fim de entrarmos no Amor.

A grande passagem de Cristo, porém, mais que o deserto, foram a Sua morte e ressurreição, que constituem o cume de Seu grande amor por nós. Na verdade, todo amor comporta uma certa morte. Diferentemente dos animais que, não tendo liberdade e agindo por mero instinto, são incapazes de se contrariar – e, por conseguinte, não podem amar –, o ser humano, mesmo com fome e tendo diante de si uma comida saborosa, é capaz de renunciar a isso por amor a alguém. As mães mesmo fazem atos desse tipo o tempo todo, por causa de seus filhos. O amor, pois, consiste justamente nisto: em contrariar-se, dizer "não" às próprias vontades, caprichos e veleidades, por causa do outro.

Infelizmente, esta realidade humana do amor foi degradada com a queda de nossos primeiros pais. A partir do pecado original, o ser humano foi colocado de cabeça para baixo. Deixando que os seus instintos animais o governassem e procurando a felicidade nos endereços errados, ele foi, de alguma forma, degradando a sua capacidade de amar.

Nesta Quaresma, o Senhor – que, por meio de Seu Filho, não só restaurou a humanidade, mas deu-lhe poder viver a caridade sobrenatural, isto é, o amor em Deus, por causa d'Ele – refaz a nós o convite do amor. É este, pois, o sentido dos jejuns, penitências e orações tão pedidos pela Igreja neste tempo. Não adianta simplesmente jejuar, se a isso não estiver unida a virtude da caridade. Passar fome, por si só, não santifica ninguém. Se assim fosse, a África seria o continente mais santo do mundo. O que santifica o homem é o amor, é o contrariar sábia e prudentemente os próprios instintos por causa de um Outro, que é Deus.

No mundo animal, distinguem-se dois instintos (ou apetites): o primeiro é a concupiscência (ou apetite concupiscível), pela qual as criaturas buscam o prazer e a gratificação; e o segundo, a ira (ou apetite irascível), pela qual elas reagem quando são contrariadas. O homem, sendo um animal, também possui esses apetites; sendo, porém, racional, e contando com a graça divina, é chamado a governar os seus instintos e conduzi-los a Deus – assim como um cavaleiro precisa domar um cavalo chucro para levá-lo aonde quer. Para tanto, a alma, explica Santo Tomás de Aquino, deve agir "politicamente" [1]: não deve castrar as energias do corpo, mas dominá-las aos poucos, de forma sábia e com cuidado. Afinal, não somos anjos. Se Deus nos criou com um corpo, este pode – e deve – ser-nos útil.

De forma bem prática, é importante lutar contra duas tentações básicas, mormente as contra a castidade e as contra a paciência, já que estão diretamente ligadas aos apetites concupiscível e irascível. Primeiro, viver a castidade, lutando contra o sexo desordenado e dando a vida pelos outros, seja no matrimônio, seja no celibato; segundo, exercitar a paciência, suportando as contrariedades do dia a dia e também contrariando a nós mesmos, voluntariamente, por amor de Deus. De fato, dentro de nós existe como que um "pequeno deus", que diz: Seja feita a minha vontade. Quando as coisas não acontecem do jeito que queremos, somos tentados a ficar emburrados e com raiva, como crianças mal educadas. A nossa atitude, porém, deve ser madura e virtuosa: quando surgem as contrariedades, que bela oportunidade temos de amar a Deus!

Quanto às penitências específicas a escolher, não há uma medida única para todas as pessoas. Cada pessoa deve discernir – talvez junto com o seu diretor espiritual – a prática adequada para si. O que importa é que todas as coisas sejam feitas com generosidade. Diz Nosso Senhor que "o Reino dos Céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam" [2]. O Reino dos Céus é das pessoas que tomam a vida espiritual de assalto e se decidem seriamente a amar, com determinação.

Nesta Quaresma, dirijamo-nos com Jesus ao deserto e, na prática do jejum, da oração e da esmola, cresçamos cada vez mais na caridade. T

Referências:

Cf. Summa Theologiae, I, q. 81, a. 3, ad 2.
Mt 11, 12.




domingo, 15 de fevereiro de 2015

Homilia do 6º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



A penitência por amor a Deus

O Evangelho deste Domingo conclui o primeiro capítulo da narrativa de São Marcos. Depois deexpulsar um demônio e curar a sogra de São Pedro, Nosso Senhor cura um homem de lepra.

São Beda, o Venerável, comentando essa sequência apresentada pelo Evangelista, escreve que,
"Depois de calada a língua da serpente dos demônios e curada a mulher, que foi seduzida primeiro, em terceiro lugar, foi curado da lepra de seu erro o homem, que escutou os maus conselhos da mulher, a fim de que a ordem de restauração no Senhor fosse como a ordem da queda em nossos primeiros pais" [1].
Este comentário de Beda – alegórico, mas de importante valor espiritual – indica o que Cristo veio fazer em relação a nós, e que Zacarias canta no Benedictus: "salvar-nos do poder dos inimigos" [2]. E, assim como a sogra de Pedro, depois de ser curada, começou a servir ao Senhor e aos Apóstolos, Cristo nos liberta para que "a ele nós sirvamos sem temor em santidade e em justiça diante dele, enquanto perdurarem nossos dias" [3].

É verdade que o leproso do Evangelho tinha muitas razões para não aproximar-se do Senhor. Diante da primeira leitura deste Domingo, tirada do livro do Levítico, segundo a qual "se o homem estiver leproso é impuro" e, "sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento", a sua atitude de chegar perto de Jesus chega a ser escandalosa. Mas, quando ele diz a Cristo: "Se queres, tens o poder de curar-me (em grego, καθαρίσαι, que significa, literalmente, purificar)", e Nosso Senhor realmente o livra de sua lepra, acontece uma maravilha: ao invés de Ele ser contaminado pela impureza do leproso, é o leproso quem é purificado por Sua santidade.

Por isso, a narrativa deste Domingo incita-nos à confiança em Deus. Nós também, com nossas misérias e pecados, talvez tenhamos milhares de razões para não nos aproximarmos de Cristo; para dizermos, com São Pedro: "Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!" [4]. A cura do leproso, todavia, mostra que em Cristo há um poder e uma graça capazes de libertar-nos de nossa sujeira. Também na Última Ceia, quando Se reclina para limpar os pés de Seus discípulos, Nosso Senhor já indica o que vai fazer na Cruz: lavar o que temos de mais sujo, que é a nossa alma.

Às portas da Quaresma, tempo propício para a penitência, importa refletir com que espírito os fiéis devem escolher as mortificações que farão neste período. Muitas pessoas acham que as penitências quaresmais são uma coisa mágica, como se bastasse fazer alguns atos de jejum e outros de abstinência para viver uma boa Quaresma. Mas, não adianta simplesmente fazer jejum. Se fome fosse sinal de santidade, a África seria o continente mais santo do mundo. Não é o simples passar fome o que nos purifica, mas o amor. E é isto o que está por trás da virtude da penitência.

Quem olha para o mundo animal nota que os animais podem ser contrariados – quando sua fome, sua sede ou seus instintos não podem ser satisfeitos. Eles não podem, porém, contrariar-se. Só o ser humano é capaz de fazê-lo e é por isso que ele pode amar. O amor é a capacidade de contrariar as próprias vontades e caprichos para amar o outro – no caso, Deus. Nesta Quaresma, urge que façamos penitência com espírito de compunção, isto é, tomando consciência da tremenda ingratidão a Deus que está em todo pecado. A Deus, que tanto nos amou, até a morte de Cruz.

A penitência, pois, está relacionada ao amor. Não se trata de um complexo de culpa. Este nasce do orgulho. A pessoa começa a se perguntar: Nossa, como "eu", o maravilhoso "eu", foi capaz de fazer isso? Ela está mais preocupada com a sua imagem, que foi ferida, que com o coração de Deus, ferido pela sua ingratidão. A verdadeira penitência, ao contrário, é aquela que nasce do arrependimento. No Missal Romano, existe uma oração – antigamente chamada pro petitione lacrymarum – que pede a Deus a compunção do coração (compuntionem cordis): "Omnipotens et mitíssime Deus, qui sitienti pópulo fontem viventis aquæ de petra produxísti: educ de cordis nostri durítia lácrimas compunctiónis; ut peccata nostra plángere valeámus, remissionémque eorum, te miseránte, mereámur accípere." [5]

Nesta bela súplica, a pedra do deserto, da qual Deus tirou uma fonte de água viva para o povo de Israel, é comparada à dureza do nosso coração, da qual devem sair, agora, lágrimas de compunção. Estas, então, alcançam de Deus a remissão dos nossos pecados.

É claro que Jesus perdoa os nossos pecados gratuitamente. Mesmo assim, existe uma ligação entre os nossos atos de contrição e o perdão do Senhor. Quando, por exemplo, aquela mulher pecadora lava os pés de Cristo com suas lágrimas, Ele diz: "Os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados, pois ela mostrou muito amor" [6]. Na verdade, para esta mulher, Jesus não era um desconhecido. Ela certamente já havia entrado em contato com Ele, já tinha recebido o Seu perdão. Quem sabe não foi ela a mesma mulher pêga em adultério, a qual os escribas e fariseus queriam apedrejar [7]? Quando percebe, então, o grande amor de Jesus para consigo, ela corresponde com amor.

Eis, pois, o espírito da Quaresma. Em gratidão a Deus, respondamos com amor ao grande amor com que fomos amados. T

Referências:

Cf. Sanctus Thomas Aquinas, Catena Aurea in Marcum, 1, 13.
Lc 1, 71.
Lc 1, 74-75.
Lc 5, 8.
Missale Romanum, Missae et orationes pro variis necessitatibus vel ad diversa, 38, Pro remissione peccatorum, B, Aliae orationes, Collecta. "Deus todo-poderoso e misericordiosíssimo, que ao povo sequioso fizestes surgir da pedra uma fonte de água viva, tirai da dureza de nossos corações lágrimas de compunção, para que possamos chorar os nossos pecados e mereçamos receber, suplicantes, a sua remissão." (tradução nossa).
Lc 7, 47.
Cf. Jo 8, 1-11.



domingo, 8 de fevereiro de 2015

Homilia do 5º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



O maior milagre de Cristo

No Evangelho deste Domingo, Nosso Senhor vai à casa de Simão e André, cura a sogra de São Pedro de uma febre e, à tarde, depois do pôr do sol, cura muitas pessoas de diversas doenças e expulsa muitos demônios. Tratam-se de alguns dos inúmeros milagres operados por Jesus.

Todos esses fatos relatados nos Evangelhos realmente aconteceram. Hoje, infeliz e desgraçadamente, certas teologias racionalistas tendem a reputar os milagres de Cristo como "mitos". O protestante Rudolf Bultmann, por exemplo, falava da "demitologização" do Evangelho: a modernidade, tão acostumada a avanços científicos e tecnológicos, não poderia aceitar a linguagem e o conceito de mundo expressos nas Escrituras. Seria, pois, necessário filtrá-las, para que se adaptassem ao homem contemporâneo.

O fato, porém, é que a incredulidade em relação aos milagres sempre foi uma constante na história da humanidade. O ser humano – algumas gerações mais, outras menos – sempre teve dureza de coração e dificuldade para crer nestas coisas.

Para que, então, Jesus realizava milagres? Santo Tomás de Aquino, em sua Summa contra Gentiles, ensina o seguinte:
"Costuma-se chamar de milagres [miracula] as coisas que às vezes acontecem fora da ordem constante da natureza, pois ficamos admirados de um fato quando, vendo um efeito, desconhecemos a causa, e porque uma mesma causa é às vezes conhecida por uns e desconhecida por outros, acontece que, ao verem o mesmo efeito, uns ficam admirados e outros, não. Por exemplo: o astrônomo não se admira quando vê o eclipse do sol, porque conhece a sua causa, mas quem desconhece astronomia fica admirado, porque desconhece a causa. Assim, o eclipse é para este algo admirável, mas não o é para aquele. Por isso, é admirável aquilo que tem a sua causa simplesmente oculta."
"E é isto que justamente quer dizer o termo milagre: o que por si mesmo é capaz de causar admiração a todos. Ora, a causa simplesmente oculta para todos os homens é Deus, pois, como acima foi provado, nenhum homem, no estado da vida presente, pode aprendê-lo pelo intelecto. Por isso devem ser ditos propriamente milagres os fatos acontecidos fora da ordem comum que se vê nas coisas [quae divinitus fiunt praeter ordinem communiter observatum in rebus]."
"Há diversos graus e ordens nestes milagres. Com efeito, no supremo grau dos milagres estão aqueles nos quais algo é feito por Deus e que a natureza jamais pode fazer, como por exemplo, estarem dois corpos ocupando o mesmo lugar; o sol retroceder ou parar; o mar dividir-se para possibilitar a passagem dos transeuntes. Nestes milagres, há ainda a se considerar uma ordem. Com efeito, quanto maiores são as coisas operadas por Deus e quanto mais remotas as capacidades da natureza, tanto maior é o milagre, como maior é o milagre de o sol retroceder do que o de dividirem-se as águas. No segundo grau dos milagres estão aqueles nos quais Deus faz algo que a natureza pode fazer, mas não por aquele modo. Assim, é obra natural que um animal viva, veja e ande; mas que, após a morte, viva; após a cegueira, veja, e após o coxear, ande – isto a natureza não pode fazer. Deus, porém, às vezes o faz milagrosamente. Deve-se ainda considerar que há nestes milagres uma graduação na medida em que o que é feito distancia-se da capacidade da natureza. O terceiro grau dos milagres consiste em Deus fazer o que é comumente feito por obra da natureza, sem, no entanto, os princípios da natureza atuarem, como, por exemplo, quando a virtude divina cura alguém de uma febre naturalmente curável, ou quando chove sem interferência das causas naturais da chuva." [1]
Os milagres narrados no Evangelho deste Domingo podem ser identificados, então, de acordo com as observações de Santo Tomás, como de segundo e terceiro graus. De todos os prodígios realizados por Cristo, porém, o maior de todos é fazer que o ser humano – cheio de egoísmo, misérias e pecados – ame com amor sobrenatural. Este é um milagre de "supremo grau" – muito maior que ressuscitar um morto ou curar um paralítico –, pois dá ao homem a vida divina, fazendo-o chegar a uma caridade perfeita, pela qual ele ama mais a Deus que a si mesmo.

Foi o que experimentaram os mártires, quando preferiram entregar a sua vida a perder a graça divina. Se é natural que o ser humano ame a Deus com suas forças naturais – encontrando "as perfeições invisíveis de Deus (...) através de suas obras" [2] –, não é natural, porém, que ele ame ao Senhor acima de si próprio e de todas as coisas, como fizeram, por exemplo, o japonês São Paulo Miki e seus outros 25 companheiros mártires – cuja memória se celebrou no último dia 6 de fevereiro. O relato de seus martírios conta que uma criança, vendo-os serem crucificados e decapitados, se enchia de uma alegria sobrenatural e cantava de alegria por saber que, morrendo, eles podiam ver Jesus.

Então, é admirável que o cego de nascença seja curado em Siloé, mas muito mais admirável é que nós, cegos e incapazes de ver a verdade de Deus, enxerguemos; é admirável que Lázaro seja ressuscitado, depois de quatro dias morto, mas muito maior é que nós, em nosso egoísmo e pecado, sejamos elevados à vida divina; é maravilhoso alimentar com cinco pães uma multidão de cinco mil homens, porém mais maravilhoso ainda é que sejamos alimentados pelo próprio Deus na Eucaristia. Recorrendo ao Evangelho deste Domingo, também é admirável que Nosso Senhor cure os enfermos e expulse os demônios; muito maior, porém – e tão extraordinário quanto "o sol retroceder ou parar" ou "o mar dividir-se para possibilitar a passagem dos transeuntes" –, é que o homem seja elevado acima de sua própria natureza e ame a Deus divinamente.

Cristo opera todos os milagres narrados no Evangelho a fim de despertar o homem para o sobrenatural. Assim, quando multiplica os pães, Ele aponta para a Eucaristia; e, quando ressuscita Lázaro, aponta para a ressurreição espiritual que acontece em todo sacramento do Batismo e da Confissão. Sem negar a existência e a historicidade dos milagres de Nosso Senhor, é possível olhar os seus prodígios e portentos com os olhos dos santos: muito maior que a multiplicação dos pães e que a ressurreição de Lázaro é o milagre extraordinário da vida de Deus no coração do homem.

Por isso, neste Domingo, não percamos de vista a razão pela qual Jesus operava milagres. Ele o fazia não só para tornar credível a Sua pregação, mas também para levar os homens ao amor. De nada adiantam bens e saúde neste mundo, se estivermos mortos espiritualmente, sem poder amar e viver a vida divina. T

Referências:

Rm 1, 20.


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Homilia do 4º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



Pode haver verdadeira fé sem caridade?

Estamos ainda no início da narrativa de São Marcos, nos primeiros passos do ministério público de Nosso Senhor. Enquanto prega em Cafarnaum, "um homem possuído por um espírito mau" o interpela: "Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus". Cristo, porém, rejeita a confissão do demônio, intimando-o a calar-se (a palavra grega usada é "Φιμώθητι", a mesma para se referir a uma mordaça). Mas, por que Ele faz isso? Por que não aceita a profissão do diabo?

Porque, explica Santo Agostinho, nos demônios existe a ciência, mas sem a caridade [1]. E, no dizer do Apóstolo, "a ciência infla, mas a caridade edifica" [2]. De fato, Deus não quer de Suas criaturas uma mera profissão de conhecimento. Não basta conhecê-Lo, se não houver caridade; não basta dizer que se crê n'Ele, se não há amor. Os demônios sabiam quem era Jesus, mas não O amavam. A sua ciência era orgulhosa, assim como a de muitos homens desta "era científica": pensando conhecer as coisas, confundem-se em sua soberba e, sem amor, perdem a essência da Verdade.

Cristo também não quer para Si uma simples e superficial admiração, como a narrada pelo Evangelista: "todos ficaram muito espantados"; e "a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte". Ele quer verdadeiro compromisso por parte das pessoas. Uma coisa é admirar-se, outra é crer e evangelizar; uma coisa é ser "discípulo missionário", como pediu o Documento de Aparecida, outra é ser apenas um curioso fofoqueiro.

No que diz respeito à ciência destas coisas sobrenaturais, Santo Agostinho comenta que a situação dos homens é ainda pior que a dos demônios, os quais pelo menos alguma ciência têm acerca de Cristo. O que eles, por causa de sua soberba, não conseguem enxergar, bem como os seres humanos, é "Dei humilitas, quae in Christo apparuit, quantam virtutem habeat – quanto poder existe na humildade de Deus, que apareceu em Cristo" [3].

Na Primeira Leitura deste Domingo, tirada do livro do Deuteronômio, Deus revela a Moisés que suscitará para ele, do meio dele, dentre os seus irmãos, um profeta como ele. Ora, uma das características mais importantes deste patriarca era que ele se comunicava com Deus "face a face". Neste sentido, a promessa divina encontra seu pleno cumprimento em Nosso Senhor. Comenta o Papa Bento XVI, em seu livro "Jesus de Nazaré":
"Neste contexto devemos ler a conclusão do prólogo de S. João: 'Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito que repousa no seio do Pai é que no-lo deu a conhecer' (Jo 1, 18). Em Jesus cumpriu-se a promessa do novo Moisés. N'Ele se realiza agora plenamente o que em Moisés se encontrava apenas de um modo fraturado: Ele vive diante do rosto de Deus, não apenas como amigo, mas como Filho; Ele vive na mais íntima unidade com o Pai.
A partir deste ponto podemos então compreender realmente a figura de Jesus, tal como a encontramos no Novo Testamento, tudo o que nos é contado em palavras, ações, sofrimentos, na glória; tudo isto está ancorado aqui. Se omitirmos este autêntico centro, passamos ao lado da figura autêntica de Jesus; então ela se torna contraditória e, em última análise, incompreensível. A questão que cada leitor do Novo Testamento deve levantar - aonde é que Jesus foi buscar a sua doutrina, onde é que se pode esclarecer a sua aparição -, esta questão só a partir daqui é que pode ser realmente respondida. A reação dos seus ouvintes era clara: esta doutrina não tem a sua origem em nenhuma escola. Ela é totalmente diferente do que se pode aprender nas escolas. Ela não é uma explicação à maneira da interpretação tal como é dada nas escolas. Ela é diferente; é explicação 'com autoridade' (...).
A doutrina de Jesus não vem da aprendizagem humana, seja ela de que espécie for. Ela vem do contato imediato com o Pai, do diálogo 'face a face', da visão daquele que repousa no seio do Pai." [4]
O espanto das pessoas com a "autoridade" ("ἐξουσίαν", em grego) de Nosso Senhor nasce de Sua humildade e de Seu rebaixamento, atingindo o seu cume no Calvário, quando o centurião vê Jesus expirar e exclama: "Na verdade, este homem era Filho de Deus!" [5]. Não importa tanto, pois, entusiasmar-se com os sinais e prodígios operados por Cristo, mas enxergar o poder que tem "humilitas Dei – a humildade de Deus".

Percebendo esta realidade, então, estamos prontos para fazer um ato de fé verdadeiramente amoroso – já que não se pode conhecer autenticamente uma pessoa sem amá-la – e nos tornarmos discípulos de Cristo. Afinal, é para isto que o Evangelho, o Magistério da Igreja e a Tradição dos Santos existem: para nos levar à fé católica, íntegra e reta, sem mutilações.

Uma vez com esta fé, é importante fazê-la crescer. Não há melhor instrumento para isso do que a oração. Que, neste ano, tomemos o propósito de ser generosos com Deus e, à semelhança de Maria, irmã de Marta, nos coloquemos aos pés de Cristo, em adoração e escuta silenciosa. A soberba procura engrandecer o homem pelas vias erradas. Na verdade, nunca o ser humano é tão grande como quando se põe de joelhos diante de Deus. T

Referências:

De Civitate Dei, IX, 20: "Daemones enim dicuntur (quoniam vocabulum Graecum est) ab scientia nominati. Apostolus autem Spiritu Sancto locutus ait: Scientia inflat, caritas vero aedificat; quod recte aliter non intellegitur, nisi scientiam tunc prodesse, cum caritas inest; sine hac autem inflare, id est in superbiam inanissimae quasi ventositatis extollere."
1 Cor 8, 1.
De Civitate Dei, IX, 20: "Contra superbiam porro daemonum, qua pro meritis possidebatur genus humanum, Dei humilitas, quae in Christo apparuit, quantam virtutem habeat, animae hominum nesciunt immunditia elationis inflatae, daemonibus similes superbia, non scientia."
Papa Bento XVI, Jesus de Nazaré: primeira parte: do batismo no Jordão à transfiguração, São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 25.
Mc 15, 39.



sábado, 31 de janeiro de 2015

Nomeação de Bispo Franciscano: Bispo de Lolo (República Democrática do Congo)


O Santo Padre o Papa Francisco, nomeou o reverendíssimo Frei Jean-Bertin Nadonye Ndongo, OFMCap. como Bispo da Diocese de Lolo, na República Democrática do Congo

O Bispo eleito nasceu em 1965 em Botuzu (República Democrática do Congo), pronunciou os votos perpétuos em 1992 e foi ordenado sacerdote em 1993. É licenciado em Teologia. Durante o seu ministério pastoral foi, entre outros, vigário paroquial, Mestre de noviços, pároco, reitor da "Casa de Estudos", em Kinshasa, ministro provincial de sua Ordem e presidente da Conferência dos Capuchinhos da África Central e Ocidental, presidente da ASUMA (Assembleia dos Superiores Maiores). Atualmente era Definidor General dos Frades Menores Capuchinhos em Roma. Sucede ao Bispo Ferdinand Maemba Liwonke, cuja renúncia ao governo pastoral da Diocese foi aceita por limite de idade. T

Fonte: news.va


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Nomeação de Bispo Franciscano: Bispo de Krk (Croácia)


O Santo Padre Francisco, nomeou no último sábado (24/01), o reverendo Frei Ivica Petanjak, OFMCap., como Bispo de Krk, na Croácia


O Bispo eleito nasceu em 1963 em Drenje (Croácia) e foi ordenado sacerdote em 1990. É licenciado em Teologia, licenciado e Doutor em História da Igreja. Durante o seu ministério pastoral foi, entre outros, vigário paroquial, mestre, capelão de hospital, ministro provincial, pároco e na atualidade, era guardião do convento Capuchinho em Osijek (Croácia). Sucede ao Bispo Valter Zupan, cuja renúncia ao governo pastoral da Diocese foi aceita por limite de idade. T

Fonte: news.va




terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Encontrado manuscrito inédito sobre a vida de São Francisco de Assis



Texto do século XIII revela novos detalhes sobre a vida do santo pobre, como seu choque ao conhecer os mendigos

[Veja] O medievalista francês Jacques Dalarun, especialista em estudos franciscanos, descobriu biografia inédita de São Francisco de Assis com novos dados sobre a vida do santo pobre. O jornal da Santa Sé, L'Osservatore Romano (abaixo), informou nesta segunda-feira (26) sobre a descoberta, feita em biblioteca particular. Aquilo que parecia ser “um manuscrito insignificante” apresenta detalhes como a passagem que narra uma viagem de Francisco, filho de um rico mercador, a Roma, segundo entrevista com o historiador publicada no periódico. 
Esta versão conta que “Il Poverello” (“O Pobrezinho”, em português), como ficou conhecido, fez a viagem não como peregrino, como se acreditava, mas como um negociante surpreendido com o sofrimento dos mendigos que se amontoavam em sua passagem. “Não tem nada a ver com a versão edulcorada que se divulgou sucessivamente: um Francisco já religioso que sofre com os mendigos. Nesta versão, o contraste é muito mais forte. Não é uma mudança paulatina, mas um verdadeiro choque', explicou Dalarun.
A obra descoberta por Dalarun é datada de 1237 a 1239 e tem 122 páginas cobertas de minúsculos caracteres latinos.“Estava procurando o texto há sete anos. Durante meus estudos, encontrei fragmentos soltos e tudo indicava a existência de algo intermediário de Tomás de Celano, sucessiva à primeira versão e precedente à segunda biografia que conhecemos”, disse o historiador.
Ele afirmou que ainda resta muito por compreender, mas encontrou entre suas páginas elementos de interesse, como um resumo escrito entre 1232 e 1239 da primeira versão. “É um texto amplo: a edição latina conta com 64 partes com algumas folhas de papéis. Muitos comentários acrescentados na primeira versão foram eliminados e há alguns pontos novos”, explicou Dalarun.
Na nova biografia, “ressalta-se muito mais a experiência da pobreza, não em sentido simbólico ou meramente espiritual, mas real”, afirmou. Além disso, o autor aprofunda sobre a questão da fraternidade com a criação, um traço essencial da filosofia franciscana.
Além disso, o livro revela outros detalhes “muito concretos e realistas” sobre, por exemplo, a forma como Francisco remendava sua túnica, usando fibras extraídas das cortiças das árvores.
Biografias não oficiais — Francisco de Assis morreu em 1226, tornou-se santo em 1228 e, no ano de 1260, o Capítulo Geral da Ordem Franciscana encomendou uma biografia oficial para acabar com todas as versões não aprovadas pela congregação. No entanto, com o passar dos séculos, foi possível encontrar obras anteriores que ficaram esquecidas.
Trata-se dos relatos de Tomás de Celano, um dos homens mais próximos a São Francisco, que no ano 1228 recebeu a incumbência do papa Gregório IX (pontífice entre 1227 e 1241) de narrar a vida do santo. Esta primeira biografia foi encontrada no século XVIII, enquanto em 1806 foi descoberta uma posterior, redigida pelo mesmo autor em 1244.
“Estava procurando o texto há sete anos. Durante meus estudos, encontrei fragmentos soltos e tudo indicava a existência de algo intermediário de Tomás de Celano, sucessiva à primeira versão e precedente à segunda biografia que conhecemos”, disse o historiador.
Ele afirmou que ainda resta muito por compreender, mas encontrou entre suas páginas elementos de interesse, como um resumo escrito entre 1232 e 1239 da primeira versão. “É um texto amplo: a edição latina conta com 64 partes com algumas folhas de papéis. Muitos comentários acrescentados na primeira versão foram eliminados e há alguns pontos novos”, explicou Dalarun.
Na nova biografia, “ressalta-se muito mais a experiência da pobreza, não em sentido simbólico ou meramente espiritual, mas real”, afirmou. Além disso, o autor aprofunda sobre a questão da fraternidade com a criação, um traço essencial da filosofia franciscana. 
******* 
[L'Osservatore Romano] Novos aspectos da vida de Francisco reemergem do passado; desta vez não só fragmentos, ou citações indiretas tiradas das obras ancestrais, mas a segunda Vida mais antiga do santo de Assis, até hoje desconhecida, contida num manuscrito aparentemente insignificante e ausente dos catálogos das bibliotecas porque pertencente a uma coleção particular.
Um pequeno código (com o formato 12 por oito centímetros) no centro de uma questão historiográfica vastíssima e complexa, a decorrer, sem solução de continuidade, do terceiro decênio do século XIII até aos nossos dias, cruz e delícia de gerações de estudiosos da Idade Média: a busca de testemunhos biográficos sobre o Pobrezinho de Assis que não coincidem com a vida oficial, a Legenda de São Boaventura, aprovada em 1263. Um livro que passou despercebido por tanto tempo e que chegou íntegro até nós talvez precisamente pela sua pobreza: trata-se de um pequeno código "franciscano em sentido literal, humilde e pobre, sem decorações ou miniaturas" explica-nos de Paris o autor da descoberta, o medievista Jacques Dalarun, ao qual pedimos que nos contasse os pormenores de uma investigação apaixonante e cheia de surpresas como uma detective story paleográfica.
Como encontrou o manuscrito?
Graças a um e-mail de um colega, Sean Field, que ensina na universidade de Vermont e é – aproveito a ocasião para o frisar – felizmente casado: não é um frade franciscano, como vi escrito na imprensa nestes dias! Sean, sabendo que me ocupo desde há muito tempo dos testemunhos biográficos sobre Francisco, indicou-me a iminente venda em leilão de um manuscrito que poderia ser interessante. E também graças ao cuidadoso e inteligente trabalho de Laura Light, a estudiosa que preparou a descrição do manuscrito para a casa de leilões americana que o lançou no comércio, no ano passado. Andava à procura deste texto desde há sete anos: durante os meus estudos tinha encontrado fragmentos e vestígios dispersos e tudo levava a pensar na existência de uma espécie de Legenda intermédia de Tomás de Celano, sucessiva à primeira redacção e anterior em relação à segunda Vida que conhecemos, uma obra composta sob o generalato de frei Elias. Encontrar este texto foi uma confirmação muito preciosa e, obviamente, uma grande alegria. Digamos que esta descoberta choveu num terreno pronto para a receber.
Quando se apercebeu que o texto latino que tinha diante de si no ecrã do seu computador não era apenas uma antologia umbra de finais do século XIII sobre a vida de Francisco, mas uma obra inédita de Tomás de Celano?
Decifrando o prefácio; no site havia também imagens do manuscrito, não de qualidade excelsa mas contudo legíveis, mesmo se com um pouco de dificuldade; Laura Light na sua descrição do código citava os meus estudos mencionando a possibilidade que se pudesse tratar de uma peça importante de um mosaico ainda para completar totalmente. Naquele ponto a minha preocupação foi por que o texto ficasse disponível para os estudiosos; se tivesse sido comprado por um particular isto não estaria automaticamente garantido. Por este motivo dirigi-me directamente à directora do departamento Manuscritos da Biblioteca Nacional da França, que, depois de uma negociação com a casa de leilões, comprou o livro. Entretanto, desde Setembro passado até hoje, pude estudar de modo mais aprofundado o texto e preparar a edição latina e a tradução francesa, dando início também às traduções em italiano e inglês. A notícia foi dada a 16 de Janeiro passado pela imprensa francesa; não era oportuno torná-la pública antes para não interferir com uma negociação comercial que estava a decorrer, e fazia também questão de ter uma ideia clara da colocação cronológica e do conteúdo do manuscrito. T


domingo, 25 de janeiro de 2015

Homilia do 3º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



Convertei-vos e crede no Evangelho!

A mensagem de Jesus, na liturgia desta semana, é muito clara. Depois da prisão de João Batista, Cristo vai para Galileia pregar. "O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!", diz Ele ao povo.

A palavra conversão sugere uma mudança de vida radical. Na fé cristã, há uma dimensão ainda mais profunda: somos chamados a tornarmo-nos outro Cristo. Por isso, é preciso estarmos muito atentos às falsas conversões.

Neste Testemunho de Fé, Padre Paulo Ricardo utiliza o apoio teológico do grande Santo Tomás de Aquino para mostrar-nos o caminho da verdadeira conversão. Trata-se do caminho da graça. T



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...