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segunda-feira, 28 de julho de 2014

A Gratuidade e a Sabedoria


O que pedir a Deus? Nós sabemos pedir corretamente? Não há como negar que a religiosidade hoje está por demais influenciada por nossa sociedade de consumo. Assim, as relações econômicas, a linguagem que usamos no dia a dia acaba por adentrar no campo religioso. Vemos claramente tal situação nas novas igrejas evangélicas influenciada principalmente pela "Teologia da Prosperidade". A ideia de fazer algo a Deus e receber uma "bênção" de volta. E normalmente a "bênção" é em forma de bens materiais e/ou dinheiro.

Na nossa prática de católicos, também podemos correr o risco de tentar fazermos "trocas" com Deus: Querer que Ele nos dê alguma coisa, como forma de compensação de um esforço nosso. Neste caso,  não existe relação gratuita, mas um comércio. Acabamos por sermos negociadores com o Divino.

O que pedir? Na leitura do Evangelho de ontem, 17º Domingo do Tempo Comum, ouvimos o modo como Salomão agradou a Deus. Ele podia ter pedido outras coisas, mas pediu sabedoria. Quem dera se assim também pudéssemos proceder. 

Pedir o que é mais importante e não bens materiais ou outras situações que têm como centro a nós mesmos e não o Reino de Deus. A Religião não deve prestar para nossos propósitos egoístas, mas sim, para o crescimento maduro de toda a humanidade.

Para encontramos a verdadeira sabedoria é necessário buscar uma maior intimidade com Deus. Por meio da oração pessoal, comunitária e participação nos sacramentos. Quando fazemos isso, aos poucos, vai nascendo em nós um gosto pelas coisas de Deus. Uma alegria em servi-Lo. Encontraremos nosso tesouro e ‘venderemos’ tudo que temos. Ou seja, deixaremos tudo que atrapalha o nosso seguimento a Cristo Jesus. E perceber isso é uma bela descoberta, é uma verdadeira ação de Deus em nós! T

Por Frei Edson Matias, OFMCap.



domingo, 27 de julho de 2014

Homilia do 17º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo




O tesouro escondido no campo
Diz Nosso Senhor, no Evangelho deste Domingo, que “o Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo”. Como interpretação para esse versículo, serve-nos de guia Santa Teresinha do Menino Jesus, que, em uma carta para sua irmã Celina, indica o “tesouro escondido no campo” como o próprio Jesus:

Minha Querida Celinazinha,
A tua carta encheu-me de consolação, o caminho que segues é um caminho real, não um caminho trilhado, mas é um atalho que foi traçado pelo próprio Jesus. A esposa dos Cânticos (cf. Ct 3, 1-4) diz que, não tendo encontrado o seu Bem-amado no seu leito, levantou-se para procurá-lo na cidade, mas foi em vão; depois de ter saído da cidade, achou Aquele que sua alma amava!... Jesus não quer que encontremos no repouso a sua adorável presença, esconde-se, envolve-se em trevas (cf. Sl 17, 12); não era deste modo que ele procedia com a multidão dos judeus, pois vemos nos evangelhos “que o povo ficava arrebatado quando Ele falava” (Lc 19, 48). Jesus encantava as almas fracas com suas divinas palavras, procurava torná-las fortes para o dia da provação... Mas como foi reduzido o número dos amigos de Nosso Senhor quando Ele se calava diante dos juízes!... (cf. Lc 23, 9) Oh! que melodia para o meu coração este silêncio de Jesus... Faz-se pobre a fim de que possamos fazer-lhe caridade, estende-nos a mão como mendigo (cf. Mt 25, 31), a fim de que, no dia radioso do juízo, quando aparecerá na sua glória, possa fazer-nos ouvir estas doces palavras: “Vinde, benditos do meu Pai, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me hospedastes; andava nu e me vestistes, estava doente e me visitastes, estava no cárcere e foste ver-me” (Mt 25, 34-36). Foi o próprio Jesus que pronunciou estas palavras, é Ele que quer o nosso amor, que o mendiga... Põe-se, por assim dizer, à nossa mercê, Ele não quer senão aquilo que lhe damos e a mais pequena coisa é preciosa aos seus divinos olhos...
[v] Minha querida Celina, regozijemo-nos pela nossa parte, é tão bonita, demos, demos a Jesus, sejamos avaras para os outros, mas pródigas para com Ele...
Jesus é um tesouro oculto (cf. Mt 13, 44), um bem inestimável que poucas almas sabem encontrar, pois ele está escondido e o mundo gosta do que brilha. Ah! se Jesus tivesse desejado mostrar-se a todas as almas com seus dons inefáveis, sem dúvida, nem uma só o teria rejeitado, mas não quer que o amemos pelos seus dons (cf. Gn 15, 1), é Ele mesmo que deve ser a nossa recompensa. Para encontrar uma coisa escondida é preciso a gente também esconder-se (cf. João da Cruz, CB, 1, 9); portanto, nossa vida deve ser um mistério, é necessário parecer-nos com Jesus, cujo rosto estava oculto... (cf. Is 53, 3) “Quereis aprender alguma coisa que vos sirva”, diz a Imitação: “Querei ser ignorados e tidos por nada” (I, 2, 3)... e em outra passagem: “Depois de ter deixado tudo, é preciso cada um se deixar a si mesmo” (II, 11, 4), embora alguém se vangloria de alguma coisa, um outro de outra coisa, ponde a vossa alegria apenas no desprezo de vós mesmos” (III, 49, 7). Como estas palavras dão paz à alma, minha Celina, tu as conheces, mas não sabes tudo aquilo que eu quereria dizer?... Jesus te ama com um amor tão grande que, se tu visses, ficarias num arrebatamento de felicidade que te faria morrer, mas não o vês e sofres...
Em breve Jesus “levantar-se-á para salvar todos os mansos e os humildes da terra”!... (cf. Sl 75, 10). [1]
“Jesus é um tesouro oculto”. Mas, se Ele está oculto, onde procurá-Lo? De acordo com São João da Cruz, Ele se esconde dentro da própria alma:
Ó alma, formosíssima entre todas as criaturas, que tanto deseja saber onde está o teu Amado para te encontrares e te unires a Ele, já te foi dito que tu mesma és o aposento onde ele mora, o refúgio e o esconderijo onde Ele se oculta.
[...] Mas também perguntas: “Então, se Aquele que a minha alma ama está em mim, porque é que não O encontro nem O sinto?” A razão disso é que Ele está escondido, e tu não te escondes para O encontrar e sentir. Quem quiser encontrar uma coisa escondida, há de penetrar escondido no lugar onde ela está escondida: ao encontrá-la, fica tão escondido como ela. Portanto, uma vez que o teu Amado é o tesouro escondido no campo de tua alma, pelo qual o sábio comerciante entregou tudo (Mt 13, 44), convirá que tu, para O encontrar, esquecidas todas as tuas coisas e alheando-te de todas as criaturas, te escondas no teu refúgio interior do espírito e, fechando atrás de ti a porta, isto é, a tua vontade a todas as coisas, ores a teu Pai em segredo (Mt 6, 6). E ficando assim escondida com Ele, senti-lo-ás no escondido, amá-lo-ás e possui-lo-ás no escondido, e escondidamente te deleitarás com Ele, mais do que aquilo que a língua e os sentidos podem alcançar. [2]
Para que nos encontremos com Jesus, é preciso que nos recolhamos interiormente. A parábola diz que o homem “vende todos os seus bens” por causa do que encontrou. Isso significa, sobretudo, renunciarmos a nós mesmos, aos nossos gostos, caprichos e vontades. Afinal, tendo descoberto esse amor que nos redimiu e salvou, não nos pertencemos mais. Se quisermos, pois, encontrar Jesus, precisamos dar tudo e dar-nos a nós mesmos, como diz Santa Teresinha: “Aimer c’est tout donner et se donner soi-même. – Amar é tudo dar; depois, dar-se a si mesmo” [3].

Como fazer isso na prática? É preciso que nos unamos a Jesus escondido, escondendo-nos junto com Ele. Santa Teresinha toma a decisão vocacional de ocultar-se no Carmelo, mas, mesmo que não sejamos chamados para a vida de clausura, é necessário que tenhamos um “quarto interior”, uma “cela” onde nos possamos esconder. Escreve Teresinha, em outra poesia:
“Vivre d’Amour, c’est vivre de ta vie, / Roi glorieux, délice des élus. / Tu vis pour moi, caché dans une hostie / Je veux pour toi me cacher,ô Jésus ! / A des amants, il faut la solitude / Un cœur à cœur qui dure nuit et jour / Ton seul regard fait ma béatitude / Je vis d’Amour !… - Viver de Amor é viver da Tua vida, / Delícia dos eleitos e glorioso Rei; / Vives por mim numa hóstia escondido, / Escondida também por Ti eu viverei! / Os amantes procuram sempre a solidão: / Coração, noite e dia, em outro coração; / Somente Teu olhar me dá felicidade: / Vivo de Amor!” [4]
Pode parecer estranho que Nosso Senhor, ao mesmo tempo em que se faz carne e habita no meio dos homens, se oculte. No entanto, Ele quer que seja assim para que O busquemos não tanto pelo desejo de recompensas, como por Ele mesmo; mais que nos amar, Ele deseja receber o nosso amor. Deus se rebaixa, torna-se de alguma forma dependente das migalhas de nosso amor, pois sabe que só assim nos tornaremos semelhantes a Ele e participaremos de Sua divindade.

Para tanto, precisamos nos convencer da necessidade da oração. Não é possível sermos cristãos sem rezar e cultivar a vida interior, sob o risco de transformarmos a religião em um farisaísmo. O que nos torna seguidores de Cristo não é um conjunto de normas ou um código de práticas exteriores, mas uma atitude interna de amor a Nosso Senhor. T

Referências:

Santa Teresa do Menino Jesus, Carta,145, para Celina, 02/08/1893.
São João da Cruz, Cântico Espiritual B 1, 7. 9.
Poesias, 54 (Porque eu Te amo, Maria – Maio de 1897), estrofe 22.
Santa Teresa do Menino Jesus, Poesias, 17 (Viver de Amor, estrofe 3).


sábado, 26 de julho de 2014

Nomeação de Bispo Franciscano: Bispo de Copiapó (Chile)


O Santo Padre o Papa Francisco nomeou ontem (25 de Junho), o Frei Celestino Aós Braco, OFMCap., como Bispo de Copiapó, no Chile.

Até a nomeação, era Vigário paroquial de São Francisco de Assis em Los Ángeles (Chile). Nasceu em 1945, em Artaiz, (Pamplona, Espanha) e foi ordenado sacerdote em 1968. É licenciado em Psicologia, pela Universidade de Barcelona (Espanha). Durante o seu ministério pastoral foi, entre outras coisas, professor universitário, Vigário paroquial de diversas paróquias, Vigário episcopal, Pároco de várias paróquias, Ecônomo provincial dos Capuchinhos no Chile, Promotor de justiça do Tribunal Eclesiástico de Valparaiso (Chile), Juiz do Tribunal da Arquidiocese de Concepción e Tesoureiro da Associação chilena de Direito Canônico. Sucede o Bispo Francisco Quintana Jorquera, C.M.F., cuja renúncia ao governo pastoral da Diocese foi aceita por limite de idade. T

Fonte: news.va

sexta-feira, 25 de julho de 2014

A senhora Zebedeu


A cena descrita no evangelho da festa São Tiago é cheia de vivacidade. A mãe de Tiago e João aproxima-se de Jesus. Ele tem um pedido a fazer. O evangelista diz que ela ajoelhou-se:


- Tenho muito orgulho em ver que meus filhos resolveram ser teus discípulos. São jovens. Têm o amanhã diante dos olhos e poderão te acompanhar pelas estradas. Espero que faças deles, dos meus filhos, pessoas importantes, capazes de inventar o novo, pessoas de êxito. Gostaria que eles se assentassem um à tua direita e outro à esquerda. Isso que peço de joelhos diante de ti.

- Tu me vens com esta solicitação num momento extremamente delicado de minha vida e de minha caminhada. As circunstâncias estão indicando que deverei ser levado ao fundo do poço. Estou para beber um cálice amargo e agora a senhora me vem com esse pedido de honrarias e de prestígios para seus filhos quando o horizonte de minha vida me mostra nuvens escuras. Será que eles serão capazes de beber esse cálice que eu beberei?

- Sim, estou convencida disto.

- Tudo bem… Eles beberão o cálice, mas o sentar-se à minha direita e à minha esquerda não depende de mim mas do Pai e para aqueles que ele reservou

A mãe dos filhos de Zebedeu queria honrarias para seus filhos…Mas ela e os filhos precisariam aprender a lição do serviço. Jesus aproveitou esse momento de espirito mundano para advertir seus apóstolos e a nós:

- Os chefes das nações, os grandes, exercem domínio sobre os seus comandados e súditos. Nesse mundo novo que venho criar com vocês grandes são aqueles que servem, que lavam os pés dos outros, que carregam os fardos pesados dos mais necessitados, que buscam os perdidos, que fazem o bem sem esperar retribuição. Quem quiser ser o maior seja o servo de todos.

Vivemos, nesse século XXI, nova fase da Igreja. Precisamos ser mais do que nunca a Igreja de homens e mulheres que andam com uma toalha e uma bacia na mão. T



terça-feira, 22 de julho de 2014

1º Congresso Nacional de Católicos Online - CONACAT


Fique por dentro de todos os detalhes do maior congresso católico online do Brasil: o CONACAT!

O CONACAT começa em 11 de agosto, é 100% pela internet e vai contribuir com a Casa de Amparo Frei Galvão (RJ) e com a Associação Guadalupe (SP), iniciativas que cuidam de mulheres grávidas em situação de risco social.

Saiba de onde surgiu a ideia de fazer um congresso católico online, saiba como tudo vai funcionar, conheça todos os palestrantes e descubra, em primeira mão, todos os temas que serão abordados neste que é o maior congresso católico online do Brasil! 

Acesse AQUI e faça já a sua inscrição!
Curta a página no Facebook e fique ligado em todas as novidades a respeito!



T

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Que nossas sementes sejam boas!


Os que planejam e fazem o mal, colhem o mal. Esta é uma lei comum para todos nós. Por vezes queremos colher bons frutos onde não semeamos. Algumas pessoas se perguntam: “por que estou passando por isso?” ou “por que tem que ser assim?”

Algumas situações, enquanto caminhamos nessa vida, são frutos de nossa limitação humana: física, psicológica, etc. Como, por exemplo, o processo de envelhecimento, o aparecimento de doenças próprias da idade, algumas ansiedades, contrariedades, etc. Tudo isso faz parte de nossa vida enquanto se desenvolve a caminho da realização plena: a ressurreição.

Por outro lado, devemos reconhecer que, por vezes, semeamos sementes que não dão frutos bons. Somos, em parte, responsáveis pelo que plantamos. Caso semeou amargura, rancor, tristeza, desesperança, os frutos serão filhos dessa semente.

Os grandes mestres da espiritualidade cristã deixam claro o cuidado que devemos ter com nosso coração – ‘terra’ onde cairão as sementes. Somos tentados em vários momentos porém, não podemos deixar que tais ‘tentações’ finquem raízes em nosso coração. 

Precisamos aprender a discernir os ‘espíritos’. Por exemplo, maus pensamentos. Todos nós os temos, porém, fica a cargo de nossa decisão, auxiliados pela força do Espírito Santo, não deixar que eles rondem nossa mente até plantar suas sementes em nosso coração.

Examinemo-nos, meus irmãos, para não deixar que a desesperança amargure nosso íntimo. Nossa interioridade deve estar aberta para que se manifeste a graça de Deus.

Lancemos semente boa em solo bom e colheremos 30, 60 por 1. Amém. T

Por Frei Edson Matias, OFMCap.


domingo, 20 de julho de 2014

Homilia do 16º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo





A paciência de Deus

O Evangelho escrito por São Mateus é dividido em cinco grandes sermões: o primeiro é o “sermão da montanha” (5-7); o segundo, o chamado “sermão da missão” (10), é o em que Ele envia os apóstolos para evangelizar; o terceiro é o “sermão das parábolas” (13); o quarto, o “sermão eclesiástico” (18); e o quinto, o “sermão escatológico”, é o em que ele fala das últimas realidades. Com esses discursos, Jesus é apresentado como o “novo Moisés”, ou melhor, como realização daquilo de que Moisés era somente a promessa. É sabido que “o Senhor falava com Moisés face a face, como alguém que fala com seu amigo” [1]. Isso, no entanto, era uma pequena amostra do que seria, na plenitude dos tempos, a encarnação do Verbo. De fato, “ninguém jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer” [2].

Ao falar em parábolas, como faz no capítulo 13 de São Mateus, Nosso Senhor lança mão de um recurso pedagógico que, ao mesmo tempo em que revela, deixa algo escondido. É um pouco do que experimentamos quando nos apresentamos diante de Deus: ao mesmo tempo em que Ele é extremamente simples, é-nos profundamente misterioso.

A parábola com que Jesus encerra o Evangelho deste Domingo é a famosa passagem do joio e do trigo. Interessa-nos, sobretudo, a sua explicação:
“Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifeiros são os anjos. Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: o Filho do Homem enviará seus anjos, e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí haverá choro e ranger de dentes. Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.”
Ao dizer que se deve deixar crescerem juntos o joio e o trigo, até a colheita, Jesus aponta para a onisciência divina, que já sabe quem se vai salvar e quem será condenado. Se, no entanto, isso é claro aos olhos de Deus, permanece uma incógnita para nós: assim como o joio e o trigo são plantinhas pequenas e muito semelhantes, neste mundo, é tarefa árdua distinguir os bons dos maus, sendo necessário, para isso, esperar o “tempo da colheita”, que “é o fim dos tempos”.

Por isso, a grande protagonista dessa parábola é a paciência de Deus. Em Sua misericórdia, o Senhor contraria a pressa dos homens – como a dos filhos de Zebedeu, que perguntaram a Jesus se não queria que mandassem “fogo do céu” para destruir os ímpios [3] – e deixa que o joio e o trigo cresçam juntos. Como diz São Paulo, “Ele quer que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” [4].

Também São Pedro recorda que a paciência divina é, para todos nós, fonte de salvação: “O Senhor não tarda a cumprir sua promessa, como alguns interpretam a demora. É que ele está usando de paciência para convosco, pois não deseja que ninguém se perca. Ao contrário, quer que todos venham a converter-se” [5]. As demoras de Deus são sinais da Sua benevolência, da grandeza do Seu coração, que “não deseja que ninguém se perca”. A virtude da paciência consiste nisto: em carregar um fardo, um peso sobre as costas. Não foi justamente o que fez Nosso Senhor, ao carregar o fardo de nossos pecados e o peso da Santa Cruz? Não foi justamente a atitude do pai da parábola do filho pródigo, que esperou pacientemente a volta de seu filho mais novo, chegando a fazer uma grande festa com sua chegada?

Muitas vezes, comportamo-nos, diante dos maus, como aquele filho mais velho, enciumado com o amor do pai por seu irmão rebelde. Diante das injustiças, somos tomados pelo espírito de Tiago e João e queremos invocar a justiça divina... Mas, estamos realmente seguros de estar do lado do trigo? Se Nosso Senhor voltasse hoje para a colheita, não seríamos os primeiros a ser lançados no inferno, nós, “a quem muito foi dado” e, portanto, muito será exigido [6]?

A parábola do joio e do trigo é, na verdade, um resumo de toda a história da salvação. O Senhor desposa o Seu povo com uma aliança de amor, à qual é integralmente fiel; em troca, no entanto, só recebe infidelidades e prostituição. E, ao invés de assinar o libelo de divórcio, Ele é paciente e continua a amar-nos, mesmo em nosso egoísmo e amor-próprio desordenado. É que, como canta o Apóstolo, “o amor é paciente, é benfazejo; (...) não se encoleriza, não leva em conta o mal sofrido (...). Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo” [7].

Santa Faustina Kowalska escreve:
“Quando uma vez perguntei a Jesus como pode suportar tantos delitos e diversos crimes e não os castigar, respondeu-me o Senhor: – Para os punir, tenho a eternidade, por agora prolongo-lhes o tempo da Misericórdia (...).” [8]
Vivamos sob a luz dessa caridade, dessa misericórdia infinita de Deus. E, quando formos tentados a perder a paciência com os outros, lembremo-nos de somos objeto da paciência divina. T

Referências:

Ex 33, 11.
Jo 1, 18.
Lc 9, 54.
1 Tm 2, 4.
2 Pd 3, 9.
Lc 12, 48.
1 Cor 13, 4-5.7.
Diário, 1160.



sábado, 19 de julho de 2014

Missionários sem alarde


“Os fariseus saíram e fizeram um plano. Ao saber disso Jesus retirou-se dali. Grandes multidões o seguiram e ele curou a todos. E ordenou que não dissessem quem ele era…”

Jesus vai levando sua vida de missionário andarilho. As pessoas andam em seu encalço quase sempre por causa dos milagres que ele opera. Querem a cura de suas doenças. Jesus procura retirar-se. As pessoas, no entanto, não o deixam e andam em seu encalço. Diante de tudo isso, os fariseus querem urdir um plano para eliminar esse personagem incômodo.

Jesus pede aos seus discípulos que não revelem aos outros sua identidade. Ele quer realizar sua missão sem alarde, sem barulho. Ele se aplica uma passagem do livro de Isaías: “Eis o meu servo que escolhi; o meu amado no qual coloco a minha afeição; porei sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará às nações o direito”. Jesus quer agir nessa força do Senhor. Ele sabe que foi ungido pelo Espírito e quanto mais discretamente agir, sua missão será mais eficaz. Não quer o espetacular, aquilo que é vistoso demais.

“Hoje, como então, é preciso vencer a tentação do espetacular, do extraordinário. Jesus impõe silêncio acerca de suas intervenções miraculosas para impedir seja falseada sua missão, que tem por característica a humildade, a mansidão, o amor a todos; porque só assim, em seu nome os povos terão esperança. O discípulo de Cristo faz todo o bem que pode, com todos os meios de que dispõe, inclusive os mais modernos, mas sempre conservando as características da obra do Mestre” (Missal Cotidiano da Paulus, p. 1004)

O servo do profeta Isaías “não discutirá, nem gritará, ninguém ouvirá sua voz nas praças. Não quebrará o caniço rachado, nem apagará o pavio que ainda fumega até que faça triunfar o direito. Em seu nome as nações depositarão a sua esperança”. T



quarta-feira, 16 de julho de 2014

À Senhora Virgem do Carmo


Eu te saúdo, Maria, Mãe de Deus,
tesouro venerado por todo o universo,
luz que não se extingue, tu de quem nasceu o sol da justiça,
cetro da verdade,
templo indestrutível.

Salve, Maria,
morada daquele que não cabe em lugar nenhum,
tu que fizeste brotar um ramo
que não murchará.

Por meio de ti, os pastores dão glória a Deus,
por ti, é bendito no Evangelho
aquele que vem em nome do Senhor.
Por ti a Trindade é glorificada,
por ti a cruz é adorada
no universo inteiro.

Por meio de ti exultam os céus,
por meio de ti a humanidade decaída é reerguida,
por ti o mundo inteiro
finalmente conheceu a Verdade
Por ti se ergueram templos por toda a terra.

Por ti, o Filho único de Deus
fez brilhar sua luz
sobre os que estavam nas trevas,
sentados à sombra da morte.
Por meio de ti, os apóstolos puderam
anunciar a salvação às nações.

Como cantar dignamente teu louvor,
ó Mãe de Deus,
por quem a terra inteira explode de alegria?

São Cirilo de Alexandria (380-444)

T


domingo, 13 de julho de 2014

Homilia do 15º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo





Quatro terrenos e duas cidades

O Evangelho deste Domingo é a famosa parábola do semeador. Em seu caminho, ele encontra quatro tipos de terreno. O primeiro, à beira do caminho, significa “todo aquele que ouve a palavra do Reino e não a compreende”: “vem o Maligno e rouba o que foi semeado em seu coração”. Trata-se de pessoas que sequer chegaram a entrar na Igreja; que se detêm diante das ruínas da Civilização cristã, sem saber qual edifício existia antes delas.

Essas pessoas precisam ser conquistadas para Nosso Senhor. Por isso, em outra passagem, Ele diz que tornará os que O seguem “pescadores de homens” [1]. O trabalho de evangelização é como uma pescaria. Para que o peixe fisgue o anzol, é necessária uma isca atraente. Do mesmo modo, para que se traga as pessoas para a Igreja, é preciso que elas se sintam atraídas pela boa nova de Cristo. Não se trata de desfigurar o Evangelho, tornando-o menos exigente e adequando-o aos gostos do mundo moderno, mas de apresentar a Palavra de uma forma que o homem compreenda que “não só de pão vive o ser humano, mas de tudo o que procede da boca do Senhor” [2]; que Nosso Senhor é a única resposta à fome que todo ser humano carrega dentro de si.

O segundo tipo de terreno é “aquele que ouve a palavra e logo a recebe com alegria; mas (...) quando chega o sofrimento ou a perseguição, por causa da palavra, ele desiste logo”. São as pessoas que não compreenderam a analogia do grão de trigo, que só dá frutos se cai na terra e morre [3]; que não entenderam que é impossível seguir Cristo sem abraçar a Cruz e o sofrimento. E isto, não porque gostemos de sofrer, mas porque somos convidados por Deus ao amor e, nesta vida, não é possível amá-Lo sem a experiência da dor e da morte.

Infelizmente, uma ideologia frequente entre pessoas de Igreja tem pregado que a Cruz é algo “medieval” ou “romanista”. Mas o Evangelho não é medieval, tampouco as palavras de Cristo: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia, e siga-me” [4] são romanas. Trata-se, ao contrário, de pagar o preço por ser discípulo de Cristo. Evidentemente, essa não é a primeira coisa a ser apresentada a quem ainda não conhece a Palavra, mas, mesmo no início do seguimento de Jesus, é preciso que a pessoa se disponha a uma renúncia. São Pedro e Santo André, por exemplo, ao serem chamados, conta o Evangelho, “deixaram as redes e o seguiram” [5].

O terceiro terreno do qual fala Nosso Senhor é o dos espinhos: trata-se daquele “que ouve a palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a palavra, e ele não dá fruto”. Embora tenham entrado na Igreja, essas pessoas entregam-se ao amor próprio desordenado, vivendo segundo a lei: “foge da dor, busca o prazer”. Imersas em suas preocupações, elas tentam, a todo o custo, fazer que a sua casa, construída na areia, não caia; que aquilo que é do mundo não passe. Cultivam a ilusão de que o acúmulo de riquezas pode dar-lhes a felicidade. Colocam o coração nos bens deste mundo, ao invés de elevarem o seu coração a Deus, como exorta a Liturgia: “Sursum corda! – Corações ao alto!”

Tragicamente, são muitas as pessoas dentro da Igreja que vivem assim. Enquanto o primeiro terreno de que fala Jesus nunca fez parte da Igreja e o segundo, embora tenha entrado nela, não lhe pertence mais, do terceiro apenas se diz que “não dá fruto”. Trata-se de pessoas sentadas nos bancos de nossas igrejas, mas contaminadas por uma mentalidade mundana, aquela que Santo Agostinho ponta como fundando a cidade dos homens: “Dois amores fundaram, pois, duas cidades, a saber: o amor próprio, levado ao desprezo de Deus, a terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial” [6].

O quarto terreno, bom e fecundo, é o único sobre o qual se edifica a cidade de Deus. Refere-se a “aquele que ouve a palavra e a compreende. Esse produz fruto. Um dá cem, outro sessenta e outro trinta”. Para que o terreno de nosso coração seja assim, é preciso que procuremos compreender a Palavra de Deus – ao contrário do primeiro terreno –, que estejamos prontos para amar, abraçando de alguma forma a Cruz e o sofrimento – ao contrário do segundo – e, por fim, que renunciemos ao pensamento mundano, que pede que fujamos da dor e busquemos o prazer – ao invés do terceiro terreno. Sigamos esse itinerário e caminhemos juntos para a cidade celeste. T

Referências:

Mt 4, 19.
Dt 8, 3.
Jo 12, 24.
Lc 9, 23.
Mt 4, 20.
De Civitate Dei, 2, XIV, XXVIII.

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