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Recesso

Caros leitores, o Reflexões Franciscanas entra em recesso por algumas semanas. Como de costume, algumas publicações foram programadas e notícias urgentes podem ser postadas a qualquer momento. As Homilias aos Domingos e o Santoral diário, bem como os "Ditos do Papa Francisco" continuarão sendo atualizados diariamente.
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domingo, 14 de setembro de 2014

Homilia da Festa da Exaltação da Santa Cruz, por Pe. Paulo Ricardo




Elevado na Cruz, elevado no altar

Neste Domingo, celebra-se a festa da Exaltação da Santa Cruz. O Evangelho relata o encontro de Nosso Senhor com Nicodemos, no qual Ele anuncia: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”. A comparação de Jesus se relaciona com outra afirmação sua, contida no mesmo Evangelho de São João: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” [1].

Mas, como é possível que Cristo crucificado, “de quem a gente desvia o olhar” [2], atraia todos a Si, cumprindo a profecia de Zacarias: “Olharão para Aquele que transpassaram” [3]?

É assim porque a Cruz é um mistério de amor. De fato, ao celebrar a Exaltação da Santa Cruz, não se está exaltando o crime do homicídio de Cristo, nem a Sua dor [4], mas a vitória do amor de Deus, proclamada na famosa sentença também do Evangelho de hoje: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna”.

Se hoje se percebe uma tendência de falar de Cristo crucificado como um homem abandonado por Deus, não se deve perder de vista que, muito mais que isso, a Cruz é o drama de Deus abandonado pelos homens. Infelizmente, as pessoas esquecem-se da divindade de Nosso Senhor, esquecem-se de que unus ex Trinitate passus est pro nobis: uma Pessoa realmente divina, impassível, esvaziou-Se e fez-Se homem, a fim de nos amar.

Esse amor de Cristo é renovado em cada sacrifício da Santa Missa. Importa explicar bem as coisas: o sacrifício de Nosso Senhor aconteceu uma vez por todas no Calvário, mas é renovado em cada celebração da Missa sacramentalmente, isto é, na separação do pão e do vinho para a consagração [5]. Substancialmente, todavia, trata-se do mesmo sacrifício, pois uma só é a vítima e um só o sacerdote que Se oferece: Jesus Cristo. “Com efeito, uma só e mesma é a vítima, pois quem agora se oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que então se ofereceu na cruz; só o modo de oferecer é diferente” [6]. Ainda que o modo de oferecer seja incruento e sacramental, após a consagração, estão realmente presentes debaixo das espécies eucarísticas o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor.

Em cada Missa, portanto, é celebrada a exaltação da Santa Cruz. Quando o sacerdote eleva a hóstia e o cálice, após a consagração, Nosso Senhor está sendo novamente elevado e atraindo todos a Si, e a profecia está novamente se cumprindo: “Olharão para Aquele que transpassaram”.

Por isso, é importante que todos os fiéis tenham uma devoção especial pelo momento da consagração, que é, sem dúvida, o mais importante da Missa. Quando o sacerdote visível diz: Isto é o meu Corpo e Este é o cálice do meu Sangue, ele empresta suas palavras ao sacerdote invisível, Jesus, que oferece perpetuamente o Seu ato de amor a Deus pela salvação dos homens, na ação eucarística.

Para que bem participemos desse sacrifício, é preciso que nos unamos a Cristo oferente, entregando também a nossa vida a Deus, como resposta amorosa ao grande amor de Jesus: “Amavit nos, ut redamaremus eum; et ut redamare possemus, visitavit nos Spiritu suo - Amou-nos para que o amássemos de volta; visitou-nos com seu Espírito para que pudéssemos amá-Lo novamente” [7]. “Si amare pigebat, saltem nunc redamare non pigeat - Se antes nos custava amá-Lo, agora ao menos não nos custe corresponder ao Seu amor” [8].

Olhando para a Cruz, realmente somos curados em nossa capacidade de amar. Quando o Papa Bento XVI, em sua “reforma da reforma”, começou a celebrar a Santa Missa com o crucifixo no centro do altar, algumas pessoas sugeriram que a Cruz poderia “atrapalhar” a visão do celebrante. Na verdade, a visão de Cristo crucificado recorda ao sacerdote que ele se dirige não ao povo, mas a Deus; coloca diante dele o vínculo indissociável entre a Cruz e a Sagrada Eucaristia. Como diz o belo hino Adoro te devote, composto por Santo Tomás de Aquino, “na cruz estava oculta somente a tua divindade, mas aqui [na Eucaristia] se esconde também a humanidade.”

Por fim, como guia de oração, recomenda-se a bela súplica de São Nicolau de Flüe:
“Meu Senhor e meu Deus, arrancai de mim mesmo tudo o que me impede de ir a Vós. Meu Senhor e meu Deus, dai-me tudo aquilo que me conduz a Vós. Meu Senhor e meu Deus, tirai-me de mim mesmo e entregai-me todo a Vós.” [9] T

Referências:

Jo 12, 32.
Is 53, 3.
Zc 12, 10.
Algumas pessoas não aceitam que Jesus, em Sua Paixão, sofreu mais do que qualquer homem, alegando que outras pessoas, na história da humanidade, sofreram tormentos muito maiores que o Cristo. Ao contrário, Santo Tomás de Aquino, escrevendo sobre essa questão, explica, por exemplo, que Jesus “tinha uma ótima compleição física”, pela qual “era agutíssimo nele o sentido do tato, com o qual se percebe a dor” (Suma Teológica, III, q. 46, a. 6). Por esse e por outros motivos, o Aquinate prova que a dor da paixão de Cristo foi, sim, maior que todas as outras dores.
O Papa Pio XII explica isso bem claramente quando ensina que “as espécies eucarísticas, sob as quais [Cristo] está presente, simbolizam a cruenta separação do corpo e do sangue” (Mediator Dei, 63).
Concílio de Trento, Sessão XXII, 2: DS 1743.
Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmus, CXXVII, 8.
Santo Agostinho, De Catechizandis Rudibus, I, 4.
Cf. Catecismo da Igreja Católica, 226.




domingo, 7 de setembro de 2014

Homilia do 23º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo




Ganhaste o teu irmão 

O evangelho deste domingo faz parte do Sermão Eclesiástico, no qual Nosso Senhor ensina à futura Igreja o caminho da humildade, da correção fraterna e do perdão. O trecho deste domingo fala mais especificamente da correção fraterna, que tem por finalidade “ganhar o irmão”. Oferecemos como grande “comentário” a esta passagem evangélica uma carta circular de São João Bosco, na qual o santo ensina aos seus salesianos as atitudes interiores e exteriores com as quais devem corrigir os jovens. T

Arquivos citados no áudio:



domingo, 31 de agosto de 2014

Homilia do 22º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo





Inspirado pela prudência humana, Pedro não quer que Nosso Senhor passe pelo Calvário. A sabedoria de Deus mostra, no entanto, que este é o único caminho para a bem-aventurança eterna. “Se alguém quer me seguir, diz Jesus, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga.” T




segunda-feira, 25 de agosto de 2014

25 de Agosto: São Luís IX, Rei da França



São Luís IX, Rei da França, OFS
Afresco de Simone Martini
Basílica de São Francisco de Assis
Neste ano, a Ordem Franciscana Secular (OFS) comemora o jubileu do 8º centenário do nascimento de São Luís de França (Luís IX), seu padroeiro. Ele é festejado neste dia 25 de agosto pelos franciscanos por seus exemplos de caridade para com os pobres, pelas demonstrações de fé e por ter combatido as heresias em seu tempo.

Luís IX, rei da França nasceu aos 25 de abril de 1215. Foi educado rigidamente por sua mãe Branca de Castela e por ela encaminhado à santidade. Começou a ser rei da França em 1226. Casado com Margarida de Provença, ele impôs-se por toda vida exercício diário de piedade e penitência em meio de uma corte elegante e pomposa. Viveu na corte como o mais rígido monastério e tomou a todo o país como campo de sua inesgotável caridade. Quando o qualificavam de demasiado liberal com os pobres, respondia: “prefiro que meus gastos excessivos estejam constituídos por luminoso amor de Deus, e não por luxos para a vã glória do mundo”.

Sensível e justo, concedia audiência a todos debaixo do célebre bosque de Vincennes. Admirava-lhes sua serena justiça, objetiva supremo de seu reinado. A seu primogênito e herdeiro lhe disse uma vez: “preferiria que um escocês viesse da Escócia e governasse o reino bem e com lealdade, e não que tu meu filho, o governasse mal”. Toda sua vida sonhou em poder liberar a Terra Santa das mãos dos turcos. Por uma primeira cruzada promovida por ele terminou em fracasso. O exército cristão foi derrotado e dizimado pela peste. O rei caiu prisioneiro, precisamente a prisão de Luís IX foi o único resultado da expedição. As virtudes do rei impressionaram profundamente os muçulmanos, que o apontaram “o sultão justo”.

Em uma segunda expedição ao oriente, ele mesmo morreu de tifo em 1270. Antes de expirar mandou dizer ao Sultão de Túnez: “Estou resoluto a passar toda minha vida de prisioneiro dos sarracenos sem voltar a ver a luz, contanto que tu e teu povo possais fazer-se cristãos”.

Os terceiros franciscanos festejam neste dia 25 de agosto a seu patrono, São Luís, rei da França, ilustre coirmão na terceira Ordem da penitência. Foi sua mãe Branca de Castela que o encaminhou à santidade. Foi um terceiro franciscano que teve de Deus o encargo de exercitar a caridade em terras da França. Na história da França se recorda como um soberano sapientíssimo e também enérgico. O vemos praticar todas as obras de misericórdia convencional, traduz sua fé em ação e buscou no solo viver, e também governar segundo os preceitos da religião. São Luís IX, rei da França, morreu em 25 de agosto com a idade de 55 anos.

Os cruzados voltaram para a França trazendo o corpo do rei Luís IX, que já tinha fama e odor de santidade. O seu túmulo tornou-se um local de intensa peregrinação, onde vários milagres foram observados. Assim, em 1297 o papa Bonifácio VIII declarou santo Luís IX, rei da França, mantendo o culto já existente no dia de sua morte.

Muito do que atualmente se sabe sobre a vida de São Luís foi o que ficou registrado por Jean de Joinville, o seu principal biógrafo com a obra «A Vida de São Luís». Jean de Joinville era amigo, confidente e conselheiro do rei, e também foi uma das principais testemunhas no processo de canonização em 1297 pelo papa Bonifácio VIII. Duas outras biografias importantes foram escritas pelo confessor do rei, Godofredo de Beaulieu, e pelo seu capelão, Guilherme de Chartres, Grão-Mestre da Ordem dos Templários. A quarta notável fonte de informação é a biografia de Guilherme de Saint-Pathus, escrita usando o inquérito papal sobre a vida do rei para a sua canonização. T


Fonte: Santos Franciscanos para cada dia. Ed. Porziuncola.



domingo, 24 de agosto de 2014

Homilia do 21º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



O preço da fé em Cristo

À pergunta de Cristo sobre quem dizem os homens ser o Filho do Homem, São Pedro responde, com coragem: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. A expressão “Filho do Deus vivo”, segundo alguns exegetas, seria fora de mão. É esse o mesmo Pedro que é chamado de “pedra de tropeço” mais adiante [1]? O mesmo apóstolo que quer fazer três tendas, durante a Transfiguração de Cristo, no monte Tabor [2]? O mesmo que nega Jesus três vezes em Sua Paixão [3]? Sim, é o mesmo Pedro, mas, ao contrário dessas ocasiões em que mostra sua pouca fé e suas imperfeições, agora, “não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu”. Realmente, o apóstolo não era capaz de fazer a profissão de fé que acabara de fazer. Por isso, Cristo diz que foi Deus a inspirá-lo.

Se é verdade que a fé de Pedro é a pedra em que a Igreja foi edificada, também é verdade que a transmissão do poder de Cristo ao apóstolo ainda é expressa no futuro: “...sobre esta pedra construirei a minha Igreja”; “Eu te darei as chaves do Reino...”. Esses fatos só acontecerão mesmo após a Ressurreição, quando Cristo pede que ele apascente as Suas ovelhas [4].

O trecho do Evangelho deste Domingo com certeza aconteceu, e antes da Ressurreição. Em primeiro lugar, não se pode desconsiderar a historicidade dos Evangelhos. Depois, São Mateus é muito honesto em seu livro, não pretendendo divinizar a figura de São Pedro, mas mostrando também narrativas que o desabonam. Além disso, esse trecho do Evangelho apresenta traços da língua falada por Nosso Senhor, o aramaico, fato que conta não só para confirmar a solidez da tradição desse acontecimento, como para respaldar a interpretação católica de que a pedra aludida por Cristo é realmente Pedro – afinal, como se sabe, a única palavra aramaica para “pedra” é cefas.

Mas a pedra sobre a qual Cristo edifica a Sua Igreja é Pedro não enquanto pessoa privada, senão enquanto primeiro crente, em referência à sua fé na divindade de Cristo, fé que é confirmada ao longo dos séculos por seus sucessores no trono de Roma. Por isso é sempre possível aos católicos amarem o Papa, ainda que nem todos tenham sido santos ou virtuosos: a fé no Romano Pontífice, mais que a reverência a uma pessoa, é a confiança numa instituição divina, o papado.

Pedro, por exemplo, embora tivesse sido iluminado em sua resposta, ainda era muito fraco na fé, não estando disposto a pagar o preço por crer na divindade de Cristo. E que preço é este? A Cruz. A mesma confissão de São Pedro aparece, em forma de pergunta, na passagem de Nosso Senhor diante do sinédrio: “O sumo sacerdote disse-lhe: ‘Eu te conjuro, pelo Deus vivo, dize-nos se tu és o Cristo, o Filho de Deus’” [5]. Ao responder afirmativamente, Jesus se expõe a cusparadas, bofetões e zombarias. Mesmo assim, dá testemunho da verdade e não nega a Sua divindade.

Em nossa sociedade, muitos aceitam Jesus como um “iluminado” ou um “grande líder espiritual”, mas poucos se mostram dispostos a crer que Ele é Deus feito homem e menos ainda estão prontos para pagar o preço por essa fé. Mais tarde, São Pedro, imitando Jesus, enfrentou as consequências daquilo em que cria, sendo também crucificado. E nós? Como lidamos com essa realidade?

Hoje, no Oriente Médio, os cristãos estão sendo duramente perseguidos pelo califado islâmico que se tem imposto nas regiões do Iraque e da Síria. Os muçulmanos, que, assim como muitos de nossos contemporâneos, veem em Jesus apenas um profeta, têm tentado impor sua religião a todos os habitantes dos territórios que conquistam. Para permanecerem fiéis a Cristo, exigem dos cristãos o pagamento de um imposto, o êxodo ou a morte pelo fio da espada. Tragicamente, enquanto chega a milhares o número de cristãos desabrigados no Médio Oriente, o mundo inteiro permanece de braços cruzados, como se nada acontecesse.

Não nos devemos surpreender com as perseguições. Se Cristo promete que “portae inferi non praevalebunt – as portas do inferno não prevalecerão” contra a Igreja, é porque certamente as potências infernais se desencadeariam contra ela. As palavras de Nosso Senhor, no entanto, são claras: non praevalebunt – não prevalecerão!

Rezemos para que tenhamos coragem e força de professar a nossa fé. Oremos particularmente por nossos irmãos perseguidos no Oriente Médio, para que não cedam às facilidades de trair Jesus e abandonar a própria fé.

Para realizar uma ação mais concreta a fim de ajudar os cristãos que sofrem no Iraque, basta acessar o site da CNEWA (Catholic Near East Welfare Association) e realizar uma doação. T


Referências:

Mt 16, 23.
Cf. Mt 17, 4.
Cf. Mt 26, 69-75.
Cf. Jo 21, 15-19.
Mt 26, 63.



domingo, 17 de agosto de 2014

Homilia da Solenidade da Assunção da Virgem Maria, por Pe. Paulo Ricardo




A realeza de Maria Santíssima

Em 1950, o Papa Pio XII, por meio da constituição apostólica Munificentissimus Deus, definiu “ser dogma divinamente revelado que a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” [1]. Ou seja, Deus, em sua bondade, dispôs que o corpo de Maria, que carregou em seu ventre o próprio Verbo humanado, fosse poupado da corrupção do túmulo. Por mais que se usem argumentos para explicar logicamente esse mistério, a Assunção de Maria é um ato gratuito e livre de amor do Todo-Poderoso, que quis elevar a bem-aventurada Virgem Maria primeiro à glória do Céu.

O argumento mais convincente para a elevação de Nossa Senhora é o da ausência. Não existe nenhum lugar onde se possa dizer que o seu corpo esteja enterrado. Como é possível que os primeiros cristãos, que conservavam os sepulcros dos grandes santos e padres da Igreja primitiva, não tenham guardado o túmulo da mãe de Cristo? De fato, existe um túmulo no Getsêmani, mas ele frequentemente é referido como um “túmulo vazio”, pois os fiéis católicos, desde o começo, creem que Maria está ressuscitada na glória dos céus.

É interessante que, no mosaico da abside da Basílica de Santa Maria em Trastevere, em Roma, Nossa Senhora não só está à direita de Nosso Senhor – como indicam as palavras do salmista: “À vossa direita se encontra a rainha com veste esplendente de ouro de Ofir” [2] –, mas os dois se encontram sentados no mesmo trono. Jesus tem seu braço direito envolvendo Sua mãe e ela, que tem em uma mão um manuscrito do Cântico dos Cânticos, mantém os seus dedos apontados para Jesus – a Rainha que aponta para o Rei. É uma imagem do que acontece nas bodas de Caná, quando ela diz: “Fazei tudo o que ele vos disser” [3], e do que rezamos na Salve Rainha: Et Iesum, benedictum fructum ventris tui, nobis post hoc exsilium ostende. Depois deste desterro, ela realmente nos mostra Jesus.

Essa figura de Jesus e Maria sentados no mesmo trono está profundamente enraizada na teologia bíblica. No livro Queen Mother: A Biblical Theology of Mary’s Queenship [“Rainha Mãe: Uma Teologia Bíblica da Realeza de Maria”][4], Edward Sri explica como, no reino de Judá, o rei sempre reinava juntamente com sua mãe. Assim, por exemplo, Salomão, ao ser entronizado como rei, colocou sua mãe, Betsabéia, à sua direita: “Betsabéia foi até o rei Salomão para falar a respeito de Adonias. O rei levantou-se e veio a seu encontro, prostrou-se diante dela e, depois, sentou-se no trono. Puseram também um trono para a mãe do rei, a qual sentou-se à sua direita” [5]. Essa cerimônia do Antigo Testamento nada mais é que prefiguração do reinado de Cristo e de Sua mãe, Maria Santíssima, para quem também foi colocado um trono no Céu. Apenas São Gabriel Arcanjo diz a Maria que “o Senhor Deus lhe dará [a Jesus] o trono de Davi, seu pai” [6], ela tomou consciência de que seria rainha.

Santo Afonso Maria de Ligório ensina, citando São Pedro Damião, que o mistério da subida de Maria aos céus foi mais solene do que a ascensão de Jesus, “porque só os anjos saíram ao encontro de Jesus Cristo, mas Nossa Senhora foi assunta ao céu na presença do Senhor da glória e de toda a sociedade bem-aventurada dos anjos e dos santos” [7]. A Igreja recorda a realeza de Maria na Liturgia, quando lê a passagem do Apocalipse de São João que fala de “uma Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas (...). E ela deu à luz um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro” [8].

Quando celebramos o mistério da Assunção, não estamos simplesmente lembrando a elevação de Nossa Senhora, como também o mistério de Sua presença. Em uma introdução à encíclica Redemptoris Mater, de São João Paulo II, o cardeal Joseph Ratzinger, comentando o método usado pelo Papa para escrever esse documento, diz que ele nos apresenta uma “mariologia histórico-dinâmica”. Ou seja, ao invés de seguir a esteira da mariologia do século XIX e início do XX, a encíclica prefere apresentar os mistérios, não como realidades estáticas, mas como um dom que nos alcança:
“Maria não habita apenas no passado ou em altas esferas do céu sob a imediata ação divina; ela permanece presente neste momento histórico real; ela é uma pessoa agindo aqui e agora. Sua vida não é apenas uma realidade que está atrás de nós, ou acima de nós; mas ela vai à nossa frente, como o Papa faz questão de enfatizar” [9].
De fato, fazendo menção do ensinamento do Concílio Vaticano II [10], o Papa recorda que:
“Maria contribui de maneira especial para a união da Igreja peregrina na terra com a realidade escatológica e celeste da comunhão dos santos, tendo já sido ‘elevada ao Céu’. (...) No mistério da Assunção exprime-se a fé da Igreja, segundo a qual Maria está ‘unida por um vínculo estreito e indissolúvel a Cristo’, pois, se já como mãe-virgem estava a Ele unida singularmente na sua primeira vinda, pela sua contínua cooperação com Ele o estará também na expectativa da segunda: ‘Remida dum modo mais sublime, em atenção aos méritos de seu Filho’, ela tem também aquele papel, próprio da Mãe, de medianeira de clemência, na vinda definitiva, quando todos os que são de Cristo forem vivificados e quando ‘o último inimigo a ser destruído será a morte’ (1 Cor 15, 26).” [11]
É como “medianeira de clemência” que os cristãos invocam a Virgem Santíssima na oração da Salve Rainha: depois de manifestar a nossa condição de pecadores e “degredados filhos de Eva” “neste vale de lágrimas”, o texto pede à toda santa Mãe de Deus – eis a única graça que nos importa pedir – que nos mostre Jesus.

Essa bela prece, escrita pelo bem-aventurado Hermano Contractus, monge na abadia de Reichenau, no século XI, foi popularizada quando Pedro, o Venerável, abade de Cluny, ordenou que ela fosse cantada nas festas da Assunção. Rezemo-la com fervor, proclamando a realeza de Maria no Céu e a sua presença como mãe e medianeira em nossas vidas. T

Referências:

Sl 44, 10.
Jo 2, 5.
1 Rs 2, 19. Cf. também, sobre esse assunto, RC 187: Por que nós chamamos a Virgem Maria de Rainha e de Senhora?
Lc 1, 32.
Glórias de Maria, p. II, I, 8, 1.
Ap 12, 1.5.
Joseph Ratzinger, The Sign of the Woman, 21.
Cf. Lumen Gentium, 53.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Tentando criar um clima de entendimento...


No Evangelho de hoje, São Mateus convida os membros da comunidade a viverem em harmonia. Inevitável que, em qualquer grupo de discípulos haja diferenças e desentendimentos causados pela fragilidade, como também, pela fé imatura, não desenvolvida. O discurso de Jesus pede que se busque o entendimento e não se adote a postura da peremptória condenação. Por detrás das linhas hoje proclamadas há um convite à Igreja para que volte ao espírito do Senhor.

José Antonio Pagola fala da necessidade de a Igreja aprender a reunir-se em nome de Jesus.

“Para quem vive na Igreja buscando nela a comunidade de Jesus, a Igreja é quase sempre fonte de alegria e motivo de sofrimento. Por um lado a Igreja é estímulo e alegria; podemos experimentar dentro dela a lembrança de Jesus, escutar sua mensagem, rastrear seu espírito, alimentar nossa fé no Deus vivo. Por outro lado, a Igreja faz sofrer, porque observamos nela incoerências e rotina; com frequência é grande demais a distância entre o que prega e o que se vive; falta vitalidade evangélica; em muitas coisas foi-se perdendo o exemplo de Jesus. Esta é a maior tragédia da Igreja. Jesus não é amado nem venerado como nas primeiras comunidades. Não se conhece nem se compreende a sua originalidade. Muitos não chegarão sequer a suspeitar a experiência salvadora que viveram os que por primeiro se encontraram com ele. Fizemos uma Igreja onde não poucos cristãos imaginam que, pelo fato de aceitar algumas doutrinas e de cumprir algumas práticas religiosas, estão seguindo a Cristo como os primeiros discípulos. E, não obstante, é nisto que consiste o núcleo essencial da Igreja: em viver a adesão a Cristo em comunidade, reatualizando a experiência daqueles que encontraram nele a proximidade, o amor e o perdão de Deus. Por isso, talvez o texto eclesiológico mais fundamental são essas palavras de Jesus que lemos no Evangelho: “Onde dois ou três estiverem reunidos eu estarei no meio deles”. A primeira tarefa da Igreja é aprender a “reunir-se em nome de Jesus”. Alimentar sua lembrança, viver de sua presença, reatualizar sua fé em Deus, abrir novos caminhos a seu Espírito. Quando falta isto, tudo corre o risco de ficar desvirtuado por nossa mediocridade” (José A. Pagola, O caminho aberto por Jesus, Mateus, Vozes, p. 226-227). T



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Santa Clara de Assis: Mestra da união esponsal


O crescimento espiritual de uma pessoa depende, em boa parte, de um adensamento de seus relacionamentos com o Senhor e do cultivo de um amor ao próximo. Os que são responsáveis por orientar outros no caminho da vida interior sabem perfeitamente que precisam conhecer experimentalmente a Deus e, ao mesmo tempo, ter tino e tato de perscrutar, com o auxílio do Espírito, o coração dos que lhes foram confiados. Deverá ter clareza a respeito dos princípios teológicos do crescimento na vida espiritual. Para acompanhar os outros a crescerem será conveniente fazer o levantamento de suas potencialidades e possibilidades. E, em resumo, abrir os caminhos para que o Espírito possa agir.

Uma das dificuldades que experimenta uma pessoa que está à frente de outras na tarefa formativa é a da aquisição de uma habilidade teológica e psicológica para que possa ser feita uma leitura autêntica dos dinâmicos relacionamentos entre Deus e o homem. O Senhor já está em ação nas pessoas. Clara é verdadeira guia espiritual para a vida franciscana. Seus escritos revelam uma compreensão profunda da espiritualidade franciscana, dos grandes tema da espiritualidade monástica, assim como revelam uma aguçada compreensão da condição humana.

Clara não é uma substituta de Francisco que foi para ela pai e guia espiritual. Ela mesma faz questão de se autodefinir como plantinha do seráfico Pai. Clara tem títulos que a fazem mestra de espiritualidade franciscana. Em razão de seu relacionamento todo particular com São Francisco e da qualidade de seu conhecimento a respeito do “mistério” do Poverello e de sua visão mística da realidade humana e do mundo espiritual, fruto de muitos anos de vida contemplativa e de orientadora das irmãs pobres de São Damião e pelo fato de ser mulher, Clara, mais do que qualquer outra pessoa, é o complemento mais significativo e mais essencial de São Francisco e, desta forma, uma autêntica guia espiritual para vida franciscana. Na teia rica da espiritualidade seráfica, Clara nos leva à contemplação e nos convida a que a entremos no âmbito do relacionamento conjugal com Cristo.

Nos seus escritos transparece o tema do desejo de união com o Cristo esposo. A doutrina espiritual de Clara brota de sua experiência mística, experiência cristocêntrica e mariana. Mais do que teológico-conceitual seu cristocentrismo é, antes de tudo, afetivo e experiencial. Insiste na necessidade Absoluta de se procurar a comunhão de vida com o Cristo esposo, pobre e humilde, caminho para união com o Pai. Corolário deste tema basilar é o desejo do céu (união plena com Deus) para além dos atrativos deste mundo.

O tema do desejo da união com Cristo é dos mais importantes e singulares em Clara. A essência da vida para as irmãs pobres de São Damião é antes de tudo amar uma pessoa, Jesus Cristo, e assim responder ao seu amor. Trata-se de dar-se a Cristo. Nada querer que não seja Cristo Jesus (Legenda 13). Sua espiritualidade é ele: o Filho de Deus que por nós se fez caminho (Testamento 5). A pedra angular de todo o edifício religioso, de toda a vida espiritual de Clara e de suas irmãs, consiste em estarem ligadas por um afeto pessoal a Cristo Jesus com amor ardoroso e apaixonado. Por causa de Cristo, em vista de Cristo, perto de Cristo se realizam todas as suas experiências e se constrói o edifício da vida espiritual das irmãs.

Suas cartas a Inês de Praga estão repletas de expressões que, a princípio, poderiam ser simples observações de afetividade feminina. Em parte, assim, podem ser interpretadas. Elas são também ser um sinal da natureza afetiva da espiritualidade franciscana. Trata-se da linguagem do amor intenso e do desejo de união com o esposo divino que havia se apossado tanto do coração de Clara como do de Inês. O mesmo já havia acontecido com Francisco: “Quem seria capaz de narrar a caridade fervorosa que ardia em Francisco, o amigo do esposo? Parecia, de fato, todo absorto, como um carvão ardente, na chama do amor divino. Ao ouvir falar do amor do Senhor, subitamente se excitava, se comovia, se inflamava, como se com a palheta da voz exterior se tocassem as cordas mais íntimas do coração” (Legenda Maior IX, 1-2).

Servindo-se da imagem esponsal Clara define implicitamente a vida franciscana como caminho permanente de busca do Senhor, a única coisa necessária (2ª. Carta a Inês, 1), o tesouro incomparável (3ª. Carta), ligando-se a ele e a ele se unindo em contemplativo abraço para experimentar misticamente sua presença, para segui-lo e imitá-lo e conformar a vida e o pensamento a ele que a nós se entregou totalmente (2ª.Carta, 15).

Com as mesmas palavras usadas por Francisco na Regra, Clara sublinha a prioridade absoluta que deve ser dada ao desejo de união com Cristo, união que se realiza na alma pelo Espírito Santo: “lembrem-se, que acima de tudo devem desejar ter o Espírito do Senhor e sua santa operação (Regra de Clara X,9).

Assim, a linguagem do desejo ardente da união com Cristo aparece, antes de tudo e primordialmente nas Cartas a Inês: “…ficai firme no santo serviço do Pobre crucificado, ao qual vos dedicaste com amor ardente (1ª. Carta 13). Mais claramente ainda: “Achei bom suplicar a vossa excelência e santidade, na medida do possível, com humildes preces, nas entranhas de Cristo, que vos deixeis fortalecer em seu santo serviço, crescendo de bem para melhor, de virtude em virtude, para que aquele que servis com todo o desejo do coração se digne dar-vos os desejados prêmios (1ª Carta 31-32).

Quando se reflete sobre o amor esponsal de Clara pelo Cristo necessário ter em mente os dizeres da 4ª. Carta onde Clara mostra ter familiaridade com o Cântico dos Cânticos: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor de teus bálsamos (Ct 1,3), ó esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega (Ct 2,4), até que a tua esquerda esteja sobre a minha cabeça, sua direita me abrace (Ct 2,6) toda feliz e me dês o beijo mais feliz de tua boca (Ct 1,1)” ( 4ª. carta 27-32) T



domingo, 10 de agosto de 2014

Homilia do 19º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo




A provação da nossa fé

Narra o Evangelho deste Domingo que, “depois da multiplicação dos pães, Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar”. É o próprio Jesus quem manda os Seus discípulos para uma situação de perigo. Embora essa ordem nos possa deixar perplexos, São João Crisóstomo a explica: “Ele permite que eles passem toda a noite em perigo para, desta maneira, excitar o temor no coração dos discípulos e suscitar neles um desejo grandíssimo de Si e a Sua memória ininterrupta. Por isso não os ajudou imediatamente, mas, à quarta vigília da noite, veio até os discípulos, andando sobre o mar” [1].

Enquanto os discípulos permaneciam no mar agitado, escreve o evangelista que “Jesus subiu ao monte, para orar a sós”. Situação análoga enfrenta hoje a barca da Igreja: enquanto ela é confrontada pelo vento impetuoso e pelas ondas fortes, Jesus permanece no “monte”, intercedendo por ela. Comenta Santo Agostinho que:
“Em sentido místico, toda montanha designa altura. E, neste mundo, que há de mais alto que o céu? A fé conhece quem é Aquele que verdadeiramente sobe ao céu. Mas por que ascende sozinho? Porque ‘ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu’ (Jo 3, 13). Ainda quando vir no final dos tempos, para nos levar ao Céu, Ele subirá sozinho, porque a cabeça com o corpo formará um só Cristo. Agora, no entanto, sobe apenas a cabeça. Sobe para orar porque sobe ao Pai para interceder por nós” [2].

Por ora, então, a Igreja é provada, assim como foi provado São Pedro. Ao ver o Senhor andando sobre as águas, o discípulo, tomado de coragem, “lhe disse: ‘Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água’. E Jesus respondeu: ‘Vem!’ Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’”

O Apóstolo Pedro só começa a afundar por causa de sua pouca fé, como o Evangelho conta: “Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: ‘Homem fraco na fé, por que duvidaste?’” A palavra grega usada por São Mateus é “Ὀλιγόπιστε”, que significa, literalmente, “pouca fé”. Se ele tinha “pouca fé”, isso significa que a fé pode crescer.

Santo Tomás de Aquino explica que:
“A magnitude de um hábito se pode considerar sob dois aspectos: o objeto e a sua participação no sujeito. Também se pode considerar o objeto sob dois aspectos: ou segundo a razão formal ou atendendo materialmente às coisas propostas para crer. O objeto formal da fé é único e simples, isto é, a Verdade primeira, como já expusemos. Desde esse ponto de vista, a fé não se diversifica nos crentes, mas é especificamente uma em todos, como dizemos. Mas as verdades materialmente propostas para crer são muitas e podem ser acolhidas mais ou menos explicitamente. Sob esse aspecto se pode crer explicitamente mais coisas que outro, como também pode ser maior a fé no sentido de um maior desenvolvimento de seu objeto. Considerando a fé segundo a participação no sujeito, oferece-se a desigualdade de duas maneiras, enquanto, como já exposto, o ato de fé procede da inteligência e da vontade. Pode-se, portanto, dizer que a fé é maior em um que em outro, ou por parte da inteligência, por causa de sua maior certeza e firmeza, ou por parte da vontade, por causa de sua maior prontidão, entrega e confiança.” [3]
“O ato da fé – explica, noutra parte – é ato da inteligência determinado ao assentimento do objeto pelo império da vontade. O ato, pois, de fé está em relação tanto com o objeto da vontade – o bem e o fim – como com o objeto da inteligência, que é a verdade” [4]. Hoje em dia, muitas pessoas tendem a ver a fé como um sentimento. Mas, o Aquinate lembra que se trata de um ato da vontade: ela ordena a inteligência que, por sua vez, crê.

Para que cresçamos na fé, precisamos entrar na amizade com Deus, pois é o amor o que dá forma a todas as virtudes. Ao cometer um pecado mortal, embora restem as virtudes da fé e da esperança na alma – a menos que se tratem de faltas diretas contra a fé e a esperança –, extingue-se imediatamente a caridade. Urge recuperá-la, por meio da reconciliação, para praticar verdadeiros atos de amor a Nosso Senhor. Nesse processo, são importantes as provações que Jesus permite que soframos – assim como o mar agitado e o vento forte foram importantes para São Pedro –, porque a fé, uma vez provada, faz aumentar o nosso amor. Diante das dificuldades, lancemo-nos com destemor à vontade de Deus, confiando na palavra do Apóstolo: “Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” [5], e repetindo, com o pai do menino epilético do Evangelho: Senhor, “eu creio, mas ajuda-me na minha falta de fé” [6].

Também é importante destacar que, em nossa luta espiritual pela fé, a ação demoníaca para nos perder é viva e atuante. Não é raro que aconteça de o demônio suscitar em nós alguma dúvida, a qual se deve repelir com firmeza e prontidão. Essa dúvida não se confunde com um questionamento intelectual, que, ao invés de pôr em questão a autoridade de Deus, nos ajuda a estar “sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que a pedir” [7]. Como ensina o Bem-aventurado John Henry Newman, “dez mil dificuldades não geram a dúvida”.

Para que percamos a fé, Satanás também se utiliza das más leituras e de nossa própria soberba intelectual – o mais perigoso obstáculo que podemos enfrentar, pois que fecha o nosso coração à misericórdia divina. Como preleciona São Pedro, “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” [8]. Aproximemo-nos, pois, confiantemente de Deus, peçamos-Lhe que aumente a nossa fé, humilhemo-nos diante de Sua presença e, principalmente, busquemos amá-Lo, pois o “o amor é o vínculo da perfeição” [9]. T

Referências:

Homiliae in Matthaeum, 50, 1. Apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 5
Sermo 75, 2-3. Apud Santo Tomás de Aquino, Catena Aurea In Matthæum, 14, 5.
Suma Teológica, II-II, q. 5, a. 4.
Suma Teológica, II-II, q. 4, a. 1.
Rm 8, 28.
Mc 9, 24.
1 Pd 3, 15.
1 Pd 5, 5.
Cl 3, 14.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

08 de Agosto: Dia de São Domingos de Gusmão


Sacerdote fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos). (1170-1221). Canonizado por Gregório IX no dia 3 de julho de 1234.

Domingos (ou Dominique) nasceu no ano de 1170, em Caleruega, pequena localidade na Velha Castelha. O pai, Félix de Gusmão, pertencia a uma família de alta linhagem na Espanha; a mãe era Joana de Aza. Antes de Domingos nascer, sua mãe, em sonho misterioso, viu um cão que trazia na boca uma tocha acesa, de que irradiava luz sobre o mundo inteiro. Efetivamente, São Domingos veio a ser uma luz extraordinária de caridade e de zelo apostólico, que dissipou grande parte das trevas das heresias e restabeleceu a verdade em milhares de corações vacilantes. Domingos, foi o nome dado à criança, devido à uma devoção que a mãe do santo tinha com São Domingos de Silos, do qual um dia teve uma aparição, comunicando-lhe os planos divinos em referência ao recém-nascido. A esse aviso extraordinário, os pais corresponderam com esmerada atenção na educação do filho. Domingos, pequeno ainda, deu provas de inclinação declaradíssima às coisas de Deus.

Seis anos contava o menino quando os pais o confiaram à direção de um tio, reitor de uma igreja em Gumyel. Sete anos passou Domingos na escola daquele sacerdote, aprendendo, além das primeiras letras, como sejam, acolitar, enfeitar os altares e cantar no coro. Terminado este curso prático, transferiu-se para Valência, cidade episcopal no reino de Leon, onde existia uma universidade que mais tarde, em 1217, passou para Salamanca.

Durante o tempo dos estudos em Valência, isto é, durante seis anos, dedicou-se à arte retórica, além da filosofia e teologia. Acompanharam-lhe os trabalhos científicos às práticas da piedade, inclusive, severas penitências. Retraído por completo do mundo, visitava somente os pobres e doentes, protegia as viúvas e órfãos. Por ocasião de uma grande fome, vendeu os livros para poder socorrer os necessitados. Certa vez, ofereceu sua própria pessoa para resgatar um jovem que caíra nas mãos dos mouros.

A caridade de Domingos, não satisfeita com as obras corporais de misericórdia, estendia-se principalmente às necessidades espirituais do próximo. Para este fim, desenvolveu um zelo extraordinário, como pregador. O primeiro fruto deste labor apostólico, foi a conversão do amigo e companheiro dos estudos, Conrado, que mais tarde entrou para a ordem de Cister, elevado posteriormente à dignidade de Cardeal da Santa Igreja.

Domingos contava apenas vinte e quatro anos e era considerado um dos mais competentes mestres da vida interior. Dom Diego de Asebes, bispo de Osma, conhecendo os brilhantes dotes de Domingos, convidou-o a incorporar-se ao cabido da diocese, esperando desta aquisição uma reforma salutar do clero. O prelado não se viu iludido nas suas previsões. Domingos, em pouco tempo, foi objeto da admiração de todos, como modelo exemplaríssimo em todas as virtudes cristãs.

Como cônego de Osma, Domingos percorreu diversas províncias da Espanha, pregando por toda a parte a palavra de Deus, pela conversão dos pecadores, cristãos e maometanos. Uma das conversões mais sensacionais que Deus operou por intermédio de Domingos foi a de Reiniers, célebre heresiarca, que mais tarde tomou o hábito dos frades dominicanos.

Domingos não era ainda sacerdote. Do bispo de Osma recebeu a unção sacerdotal, continuando depois a missão apostólica de pregador. Quando, em 1224, por ordem do rei Afonso de Castelha, o bispo de Osma foi à França na qualidade de embaixador real, a fim de tratar dos negócios matrimoniais do príncipe herdeiro Fernando com a princesa de Lussignan, Domingos acompanhou-o. Na província de Languedoc, puderam de perto observar as horríveis devastações feitas pelos albingenses. Numa segunda viagem que empreenderam, cujo fim era buscar a princesa e entregá-la ao esposo, tiveram o grande desgosto de não a encontrar entre os vivos. Chegaram ainda a tempo de assistir-lhe ao enterro.

Preferiram, então, ficar na França, para dedicar-se à campanha contra os hereges. O bispo Diego, com o consentimento do Papa, ficou três anos na província de Languedoc. Passado este tempo, voltou à diocese.

São Domingos, que foi nomeado superior da Missão, associaram-se doze abades cistercienses. Pouco tempo, porém, durou o trabalho coletivo. Dom Diego voltou à Espanha, os cistercienses retiraram-se para os seus claustros e o próprio Legado pontifício abandonou o solo francês.

Domingos não desanimou, apesar da missão se tornar dificílima e perigosa. Com mais oito companheiros que lhe foram mandados, continuou os trabalhos apostólicos. A inconstância, porém, que encontrou nos coadjutores, fez nele amadurecer a ideia de fundar uma nova Ordem, cujos membros, por um voto, se dedicassem à obra da pregação. Os primeiros que se lhe associaram foram Guilherme de Clairel e Domingos, o Espanhol. Em 1215, a nova comunidade contava já dezesseis religiosos, com seis espanhóis, oito franceses, um inglês e um português.

Para assegurar-se da aprovação pontifícia, Domingos em companhia do bispo de Toulouse foi à Roma e apresentou-se ao Papa Inocêncio III. Coincidiu de ele chegar à capital da Cristandade na abertura do Concílio de Latrão. Opinaram os padres que em vez de aprovar as regras de novas ordens, devia o Concílio dirigir a atenção para as Ordens já existentes e aperfeiçoar-lhes as constituições. Inocêncio III, baseando-se nestas decisões, negou-se, por diversas vezes, em dar aprovação à regra da Ordem fundada por Domingos. Aconteceu, porém, que o Papa teve uma visão, quase idêntica à que lhe fez aprovar a Ordem de São Francisco de Assis, em 1209. Não querendo contrariar a obra do santo homem, deu consentimento à fundação da Ordem, prometendo a Domingos expedir a bula, logo que este tivesse adotado uma regra de ordem já aprovada pela Igreja. Domingos decidiu-se em favor da regra de Santo Agostinho, à qual acrescentou mais algumas constituições, como por exemplo, o silêncio, o jejum e a pobreza.

Quando Domingos, pela segunda vez chegou a Roma, já não encontrou o Papa Inocêncio III, mas o sucessor deste, Honório III. Contrariamente ao que receava, obteve a aprovação da Ordem, que veio a ser chamada Ordem dos Pregadores. Nomeado o primeiro superior, fez a profissão nas mãos do Papa.

Graças à generosidade do bispo de Toulouse e do conde Simão de Montfort, Domingos pode construir o primeiro convento em Toulouse. O número dos religiosos crescera consideravelmente, de modo que Domingos pode introduzir em a novel comunidade e regra recém-aprovada.

Pouco tempo depois, Domingos voltou à Roma e fundou diversos conventos na Itália. Em Roma, conheceu São Francisco de Assis, a quem se tornou um grande amigo. Em 1218 foi a Bolonha fundar um convento, perto da Igreja de Nossa Senhora de Mascarella. Um ano depois, teve Domingos a satisfação de fundar outro na mesma cidade, sendo que este, tempos depois, veio a ser um dos mais importantes da Ordem na Itália.

O exemplo de São Francisco de Assis e o admirável desenvolvimento da Ordem por ele fundada, influiu grandemente no espírito de são Domingos. Como o Patriarca de Assis, introduziu S. Domingos na sua ordem o voto de pobreza em todo o rigor.

São Domingos convocou três capítulos gerais e teve o prazer de ver a Ordem se estabelecer na Espanha, em Toulouse, na Provença e na França toda. Conventos surgiram na Itália, Alemanha e Inglaterra. O próprio fundador mandou emissários à Irlanda, Noruega, Ásia e Palestina.

São Domingos morreu no dia 06 de agosto de 1221, na idade de 51 anos. Numerosos milagres por seu intermédio Deus se dignou de fazer. O Papa Gregório IX inseriu-lhe o nome no catálogo dos Santo, em 23 de julho de 1234. Muito concorreu para o culto de São Domingos na Igreja Católica, a devoção do Santíssimo Rosário, de quem era grande Apóstolo.

A Ordem dos pregadores deu à Igreja, muitos Santos, entre estes o grande São Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, Santa Catarina de Siena, São Vicente Ferrer, o Papa Pio V. T

Referências bibliográficas:
1. Na luz Perpétua, 5ª. ed., Pe. João Batista Lehmann, Editora Lar Católico – Juiz de Fora – Minas Gerais, 1959. 2. 
Oração das Horas – Editora Vozes, Paulinas, Paulus e Ave-Maria, 1996. 



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