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Caros leitores, o Reflexões Franciscanas entra em recesso por algumas semanas. Como de costume, algumas publicações foram programadas e notícias urgentes podem ser postadas a qualquer momento. As Homilias aos Domingos e o Santoral diário, bem como os "Ditos do Papa Francisco" continuarão sendo atualizados diariamente.
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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Nomeação de Bispo Franciscano: Bispo de Hyderabad - Paquistão


O Santo Padre o Papa Francisco nomeou ontem, 16 de Dezembro de 2014, o reverendíssimo Frei Samson Shukardin, OFM, como Bispo de Hyderabad, no Paquistão. O Bispo eleito nasceu em 1961 em Hyderabad (Paquistão) e foi ordenado sacerdote em 1993. É licenciado em Direito Civil. Em seu ministério pastoral foi, entre outros, vigário paroquial, procurador, custódio da Ordem dos Frades Menores, presidente da Conferência dos Superiores Maiores no Paquistão, pároco, diretor diocesano e vigário geral. Sucede ao Bispo Max John Rodrigues, cuja renúncia ao governo pastoral da diocese foi aceita por limite de idade.  T

Fonte: news.va





domingo, 14 de dezembro de 2014

Homilia do 3º Domingo do Advento (Domingo Gaudete), por Pe. Paulo Ricardo



Neste Domingo da Alegria, a Igreja convoca todos os cristãos a se alegrarem à espera do nascimento de Cristo. Mas, o que é a alegria? O que ela tem a ver com o amor? Como curar um coração triste e abatido pelas contrariedades da vida? Neste Testemunho de Fé, o Padre Paulo Ricardo oferece o ensinamento tradicional da Igreja sobre a alegria e um remédio espiritual para a depressão. Quem encontra a Deus, alegra-se por ter encontrado um grande amor. T


sábado, 13 de dezembro de 2014

2ª Pregação do Advento ao Papa e à Cúria Romana, por Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap.


A paz como tarefa

Depois de meditar, na primeira pregação, sobre a paz como dom de Deus, vamos refletir agora sobre a paz como tarefa e compromisso pelo qual devemos trabalhar. Somos chamados a imitar o exemplo de Cristo, tornando-nos canais para que a paz de Deus chegue aos nossos irmãos. É a tarefa que Jesus dá aos seus discípulos quando proclama “bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (Mt 5, 9). O termo eirenopoioi não significa “pacíficos” (estes pertencem à bem-aventurança dos mansos, dos não violentos); significa “pacificadores”, isto é, as pessoas que trabalham pela paz.


1. A paz de Jesus e a paz de César Augusto

Jesus não só nos exortou a ser pacificadores como também nos ensinou, pelo exemplo e pela palavra, de que modo podemos nos tornar pacificadores. Ele diz aos discípulos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não como a dá o mundo eu a dou a vós” (Jo 14, 27). Naquela mesma época, outro grande homem proclamava a paz ao mundo. Foi encontrada na Ásia Menor uma cópia do famoso “Atos do Divino Augusto”, redigido pelo próprio imperador César Augusto. Nele, entre as suas grandes conquistas, o imperador romano também cita a de ter estabelecido no mundo a paz de Roma: uma paz, como ele escreve, “obtida através de vitórias” (parta victoriis pax) [1].

Jesus revela que existe outro modo de realizar a paz. A dele também é uma “paz fruto de vitórias”, mas de vitórias sobre nós mesmos, não sobre os outros; de vitórias espirituais, não militares. Na cruz, escreve São Paulo, Jesus “destruiu em si mesmo a inimizade” (Ef 2, 16): destruiu a inimizade, não o inimigo, e a destruiu em si mesmo, não nos outros.

O caminho para a paz indicado pelo Evangelho não faz sentido só no âmbito da fé: ele vale também na esfera política. Hoje vemos com clareza que o único caminho para a paz é a destruição da inimizade, não do inimigo. Os inimigos são destruídos com armas, a inimizade com o diálogo. Eu li que, certa vez, alguém repreendeu Abraham Lincoln por ser cortês demais com seus adversários políticos e lhe recordou que o seu dever como presidente era destruí-los. Ele respondeu: “Por acaso não destruo meus inimigos quando os torno amigos?”.

É a situação do mundo que exige dramaticamente que o método de Augusto seja trocado pelo de Cristo. O que há no fundo de certos conflitos aparentemente insolúveis se não, precisamente, a vontade e a secreta esperança de chegar um dia a destruir o inimigo? Infelizmente, vale também para os inimigos aquilo que Tertuliano disse dos primeiros cristãos perseguidos: “Semen est sanguis christianorum”: o sangue dos cristãos é semente de outros cristãos. O sangue dos inimigos também é semente de outros inimigos: em vez de destruí-los, ele os multiplica.

“Não podemos nos resignar”, disse o papa na recente visita à Turquia, referindo-se à situação no Oriente Médio, “com a continuação dos conflitos, como se não fosse possível uma mudança da situação para melhor! Com a ajuda de Deus, podemos e devemos renovar sempre a coragem da paz!”. Um modo de ser operadores da paz, e, muitas vezes, o único que resta, é rezar pela paz. Quando não é mais possível agir sobre as causas segundas, podemos sempre, com a oração, “agir sobre a causa primeira”. A Igreja não se cansa de fazê-lo todos os dias na missa com aquela invocação em coro: “Concedei, Senhor, a paz aos nossos dias”, Da pacem, Domine, in diebus nostris.

Além da paz política, o Evangelho pode contribuir com a paz social. Repete-se com frequência a afirmação do profeta Isaías: “A paz é fruto da justiça” (Is 32,17). A “Evangelii gaudium”, a este respeito, põe o dedo na ferida e denuncia, sem panos quentes, a maior injustiça que obstaculiza a paz:

“A paz social não pode ser entendida como irenismo ou como mera ausência de violência, obtida pela imposição de uma parte sobre as outras. Também seria uma paz falsa aquela que servisse como desculpa para justificar uma organização social que silencie ou tranquilize os mais pobres, de modo que aqueles que gozam dos maiores benefícios possam manter o seu estilo de vida sem sobressaltos, enquanto os outros sobrevivem como podem. As reivindicações sociais, que têm a ver com a distribuição de renda, com a inclusão social dos pobres e com os direitos humanos, não podem ser sufocadas com o pretexto de se construir um consenso de escritório ou uma paz efêmera para uma minoria feliz. A dignidade da pessoa humana e o bem comum estão acima da tranquilidade de alguns que não querem renunciar aos seus privilégios”[2].

2. Paz entre as religiões

Diante dos pacificadores, abre-se hoje um campo de trabalho novo, difícil e urgente: promover a paz entre as religiões. O parlamento mundial das religiões, na sessão de Chicago em 1993, lançou esta proclamação: “Não há paz entre as nações sem paz entre as religiões e não há paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões”.

O motivo de fundo que permite um diálogo leal entre as religiões é que “todos temos um único Deus”. O papa São Gregório VII, em 1076, escreveu a um príncipe muçulmano da África do Norte: “Acreditamos e confessamos um só Deus, embora de modo diferente; todos os dias, nós o louvamos e veneramos como criador dos séculos e governador deste mundo”[3]. É a verdade que serviu de ponto de partida também para São Paulo em seu discurso no areópago de Atenas: “Nele todos vivemos, nos movemos e somos” (cf. At 17,28).

Subjetivamente, temos ideias diversas sobre Deus. Para nós, cristãos, Deus é “o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, que não conhecemos plenamente a não ser “por meio dele”; mas, objetivamente, sabemos bem que Deus só pode haver um. Todo povo e língua tem o seu nome e a sua teoria sobre o sol, algumas mais exatas, outras menos, mas o sol é só um e o mesmo!

Fundamento teológico do diálogo é também a nossa fé no Espírito Santo. Como Espírito da redenção e Espírito da graça, ele é o vínculo da paz entre os batizados das diversas confissões cristãs; mas, como Espírito da criação, ou Espírito criador, ele é um vínculo de paz entre os crentes de todas as religiões e, mais ainda, entre todos os homens de boa vontade. “Toda verdade, seja dita por quem quer que seja, vem do Espírito Santo”, escreve Santo Tomás de Aquino[4]. Como esse Espírito criador guiava para Cristo os profetas do Antigo Testamento (1Pt 1,11), assim nós, cristãos, acreditamos que, de um modo que só Deus conhece, ele guia para Cristo e para o seu mistério pascal as pessoas que vivem fora da Igreja (cf. Gaudium et spes, 22).

Falando-se da paz entre as religiões, é necessário dedicar um pensamento paralelo à paz entre Israel e a Igreja. Na “Evangelii gaudium”, o papa presta uma atenção particular a este diálogo e conclui com estas palavras:

“Embora algumas convicções cristãs sejam inaceitáveis para o judaísmo e a Igreja não possa deixar de anunciar Jesus como Senhor e Messias, há uma rica complementaridade que nos permite ler juntos os textos da Bíblia hebraica e ajudar-nos mutuamente a desentranhar as riquezas da Palavra, bem como compartilhar muitas convicções éticas e a preocupação comum pela justiça e pelo desenvolvimento dos povos” (EG, 249).

A paz entre judeus e gentios é, para Paulo, a primeira paz que Jesus realizou na cruz. Ele escreve na Carta aos Efésios:

“Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições. Desse modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade” (Ef 2, 14-16).

Este texto deu lugar, na tradição cristã, a duas representações iconográficas diferentes e opostas. Em uma, vemos duas mulheres, ambas voltadas para o crucificado. É o caso do Crucifixo de São Damião em Assis. As duas mulheres, aos lados das mãos do crucificado, contrariamente às explicações costumeiras, não são dois anjos (não têm asas e são figuras femininas); elas representam, segundo a mais genuína visão da Carta aos Efésios, uma a Sinagoga e a outra a Igreja, unidas, não separadas, pela cruz de Cristo.

Basta, para nos convencermos, confrontar este ícone com outro mais tardio, da escola de Dionísio (séc. XV), em que também vemos duas mulheres, mas uma, a Igreja, conduzida por um anjo rumo à cruz, e a outra expulsa por um anjo para longe dela.

A primeira imagem representa o ideal e a intenção divina, conforme manifestada por São Paulo; a segunda representa como as coisas aconteceram, infelizmente, na realidade da história. Certa vez, mostrei a um amigo rabino as duas imagens. Quase comovido, ele comentou: “Talvez a história das nossas relações tivesse sido outra se, em vez da segunda, tivesse prevalecido a primeira visão”. A fidelidade à história nos obriga a dizer que, se não foi assim, pelo menos no início, não foi por responsabilidade apenas dos cristãos.

Devemos nos alegrar e agradecer a Deus porque hoje, ao menos em espírito, tendemos todos a preferir a visão do crucifixo de São Damião e não a outra. Queremos que a cruz de Cristo ajude a reaproximar os judeus e os cristãos, não a contrapô-los; que mesmo a celebração da cruz da Sexta-Feira Santa favoreça, em vez de obstaculizar, este diálogo fraterno.

3. Think globally, act locally

Um slogan em voga hoje diz: “Think globally, act locally”; pense globalmente, aja localmente. Ele é particularmente verdadeiro para a paz. Temos que pensar na paz mundial, mas agir pela paz em nível local. A paz não se faz como a guerra. Fazer guerra exige longos preparativos: formar grandes exércitos, montar estratégias, estabelecer alianças e depois passar ao ataque. Ai daqueles que começassem antes, sozinhos ou por grupos separados; estariam condenados à derrota certa.

Fazer a paz é exatamente o contrário: começar já, antes, mesmo sozinhos, mesmo com um simples aperto de mão. A paz é feita, disse o papa Francisco em certa ocasião recente, “de modo artesanal”. Assim como bilhões de gotas de água suja nunca formarão um oceano limpo, assim bilhões de pessoas e famílias sem paz jamais formarão uma humanidade em paz.

Também nós, que estamos aqui reunidos, temos que fazer alguma coisa para ser dignos de falar de paz. Jesus, escreve ainda o Apóstolo, veio anunciar “a paz aos que estão longe e aos que estão perto” (cf. Ef 2, 18). A paz com “os que estão perto” é muitas vezes mais difícil do que a paz com “os que estão longe”. Como podemos nós, cristãos, nos dizer promotores da paz se depois brigamos entre nós? Não me refiro, neste momento, às divisões entre católicos, ortodoxos, protestantes, pentecostais, as várias denominações cristãs; refiro-me às divisões que muitas vezes existem entre os pertencentes à nossa própria Igreja católica, por causa de tradições, tendências ou ritos diferentes.

Recordemos as palavras severas do Apóstolo aos coríntios:

“Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento. Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: Eu sou discípulo de Paulo; eu, de Apolo; eu, de Cefas; eu, de Cristo. Então estaria Cristo dividido? É Paulo quem foi crucificado por vós? É em nome de Paulo que fostes batizados?” (1 Cor 1, 10-13).

O tema da Jornada Mundial pela Paz deste ano é “Fraternidade, fundamento e caminho para a paz”. Cito as primeiras palavras da mensagem:

“A fraternidade é uma dimensão essencial do homem, que é um ser relacional. A viva consciência desta relacionalidade nos leva a ver e tratar toda pessoa como verdadeira irmã e verdadeiro irmão; sem ela, torna-se impossível a construção de uma sociedade justa, de uma paz sólida e duradoura”.

É na família que o texto aponta o primeiro âmbito em que se constrói e se aprende a ser irmãos. Mas a mensagem também se aplica a outras realidades da Igreja: às famílias religiosas, às comunidades paroquiais, ao sínodo dos bispos, à cúria romana. “Vós sois todos irmãos!” (Mt 23, 8), disse-nos Jesus, e se esta palavra não se aplica dentro da Igreja, ao círculo mais estreito dos seus ministros, então a quem se aplica?

Os Atos dos Apóstolos nos apresentam o modelo de uma comunidade verdadeiramente fraterna, “concorde”, ou seja, com “um só coração e uma só alma” (At 4, 32). É claro que nada disso pode se realizar a não ser “pelo Espírito Santo”. O mesmo aconteceu com os apóstolos. Antes de Pentecostes, eles não eram um só coração e uma só alma; discutiam com frequência quem era, dentre eles, o maior e mais digno de sentar-se à direita e à esquerda de Jesus. A vinda do Espírito Santo os transformou completamente; tirou-os do centro de si mesmos e os recentrou em Cristo.

No relato de Pentecostes, os Padres antigos e a liturgia entenderam a intenção de Lucas de criar um paralelo entre o que aconteceu no dia de Pentecostes e o que tinha acontecido em Babel. Nem sempre, porém, se capta a mensagem contida nesta comparação. Por que em Babel todos falam a mesma língua e, em dado momento, ninguém mais entende o outro, enquanto no dia de Pentecostes, mesmo falando línguas diferentes (partas, elamitas, cretenses, árabes…), todos entendem os apóstolos?

Primeiro, um esclarecimento. Os construtores da torre de Babel não eram ateus que queriam desafiar o céu, mas homens piedosos e religiosos que queriam construir um daqueles templos de terraços sobrepostos, chamados zigurates, dos quais ainda restam ruínas na Mesopotâmia. Isto os torna mais próximos de nós do que imaginamos. Onde está, então, o seu grande pecado? Eles se põem a trabalhar dizendo entre si:

“E disseram uns aos outros: Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo. Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa. Depois disseram: Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra” (Gn 11, 3-4).

Querem construir um templo à divindade, mas não pela glória da divindade, e sim para se tornarem famosos, para obter renome, não para exaltar o nome de Deus. Deus é instrumentalizado a serviço da glória deles. Também os apóstolos, em Pentecostes, começam a construir uma cidade e uma torre, a cidade de Deus, que é a Igreja, mas não para tornar célebre o seu próprio nome, e sim para exaltar o de Deus: “Nós os ouvimos proclamar nas nossas línguas as grandes obras de Deus, exclamam os presentes” (At 2, 11). Eles ficam completamente tomados pelo desejo de glorificar a Deus, esquecendo-se de si mesmos e do próprio renome.

Santo Agostinho tirou daqui a inspiração para a sua grandiosa obra “A Cidade de Deus”. Há, diz ele, duas cidades no mundo: a cidade de Satanás, chamada Babilônia, e a cidade de Deus, chamada Jerusalém. Uma é construída sobre o amor por si mesmo levado até o desprezo de Deus; a outra, sobre o amor por Deus levado até o sacrifício de si mesmo. Estas duas cidades são dois canteiros de obras até o fim do mundo e cada um tem que escolher em qual dos dois quer empregar a própria vida.

Qualquer iniciativa, até mesmo a mais espiritual, como, por exemplo, a da nova evangelização, pode ser ou Babel ou Pentecostes (inclusive, é claro, esta meditação que eu estou dando). É Babel se cada um, com ela, tenta ganhar renome; é Pentecostes, se, apesar do sentimento natural de fazer sucesso e receber aprovação, cada um retifica constantemente a própria intenção, colocando a glória de Deus e o bem da Igreja acima de todos os seus desejos pessoais. Às vezes, é de valia repetirmos para nós mesmos as palavras que Jesus disse um dia diante dos seus adversários: “Eu não busco a minha glória” (Jo 8, 50).

O Espírito Santo não apaga as diferenças, não aplana automaticamente as divergências. Vejamos o que acontece imediatamente após o Pentecostes. Primeiro, surge a divergência sobre a distribuição de víveres para as viúvas; depois, outra muito mais grave sobre receber ou não, e em quais condições, os pagãos na Igreja. Mas não vemos formar-se entre eles partidos ou agrupamentos. Cada um expressa as próprias convicções com respeito e liberdade; Paulo vai a Jerusalém para consultar Pedro e, em outra ocasião, não tem receio de fazê-lo notar uma incoerência (cf. Gal 2,14). Isto lhes permite, no final da discussão de Jerusalém, anunciar o resultado à Igreja com as palavras: “Pareceu oportuno ao Espírito Santo e a nós…” (Atos 15, 28).

Foi traçado assim o modelo para toda assembleia da Igreja, com a diferença de que, ali, ela está na fase embrionária, em que ainda não estão claramente delineados os vários ministérios e ainda não se destacou (porque não houve tempo nem necessidade) o primado dado a Pedro, pelo qual cabe a ele fazer a síntese e dar a última palavra.

Mencionei a cúria. Que presente seria para a Igreja se ela fosse um exemplo de fraternidade! Ela já é, pelo menos muito mais do que o mundo e os seus meios de comunicação querem fazer parecer; mas pode ser cada vez mais. A diversidade de opiniões, como já vimos, não deve ser um obstáculo intransponível. Com a ajuda do Espírito Santo, basta recolocar Jesus e o bem da Igreja no centro das próprias intenções todos os dias, e não o triunfo da própria opinião. São João XXIII, na encíclica “Ad Petri cathedram”, de 1959, usou uma frase famosa, de origem incerta, mas de atualidade perene: “In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus vero caritas”: nas coisas necessárias, unidade; nas coisas dúbias, liberdade; e em todas as coisas, caridade.

“Se me é possível, pois, alguma consolação em Cristo, algum caridoso estímulo, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai a minha alegria, permanecendo unidos. Tende um mesmo amor, uma só alma e os mesmos pensamentos. Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros” (Fil 2, 1-4).

São palavras dirigidas por São Paulo aos seus amados fiéis filipenses, mas tenho certeza de que elas exprimem também o desejo do Santo Padre para com os seus colaboradores e para com todos nós.

Encerremos com a oração que a liturgia nos convida a recitar na missa votiva pela paz: “Ó Deus, que chamais todos os vossos filhos de operadores da paz, fazei com que nós, fiéis vossos, trabalhemos incansáveis para promover a justiça que pode garantir uma paz autêntica e duradoura. Por Cristo, nosso Senhor. Amém”. T

[1] Monumentum Ancyranum, ed. Th. Mommsen, 1883.
[2] Evangelii gaudium, 218.
[3] S. Gregorio VII, Epistolae, III, 21 (PL 148, 451).
[4] S. Tomas de Aquino, Summa theologica, I-IIae q. 109, a. 1 ad 1




domingo, 7 de dezembro de 2014

Homilia do 2º Domingo do Advento, por Pe. Paulo Ricardo



A virtude da humildade

O Evangelho deste Domingo apresenta a figura de São João Batista, que foi o precursor (πρόδρομος) de Nosso Senhor. Como disse o próprio Zacarias: "Serás profeta do Altíssimo, ó menino, pois irás andando à frente do Senhor para aplainar e preparar os seus caminhos, anunciando ao seu povo a salvação, que está na remissão de seus pecados" [1].

É com uma citação do profeta Isaías que São Marcos introduz o seu Evangelho. O "Livro da Consolação" – a segunda parte do livro de Isaías – foi escrito à época do exílio do povo de Israel na Babilônia. Depois de muito advertir e ameaçar os israelitas, Deus começa a consolar o seu povo, agora em cativeiro. Assim começa o capítulo 40: "Consolai o meu povo, consolai-o! – diz o vosso Deus". É deste contexto que vem a frase usada pelo Evangelista: "Esta é a voz daquele que grita no deserto: 'Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!'"

Quem examina, porém, a frase de Marcos e a de Isaías, percebe que há uma diferença no modo como estão construídas. O profeta diz que uma voz grita para que se prepare, no deserto, o caminho do Senhor; no Evangelho, ao contrário, é a voz que clama no deserto. Por que essa mudança de pontuação? Porque São Marcos – assim como sempre fizeram os cristãos – lê o Antigo Testamento à luz do Novo. O sentido literal da passagem de Isaías existe e é importante, mas é preciso entendê-la também e principalmente a partir de Cristo. Assim, preparar "o caminho do Senhor" nada mais é que preparar o caminho de Jesus.

Mas, como fazer isso? O exemplo de São João Batista ilustra bem o que Isaías quer dizer com os verbos aplainar, nivelar e rebaixar, usados na Primeira Leitura [2]. Ele diz: "Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias". Para preparar "o caminho do Senhor", é necessária a virtude da humildade. Ao pregar ao povo um batismo de conversão e o arrependimento dos pecados, São João quer que os homens reconheçam a sua miséria, desfaçam-se de seu orgulho e de sua soberba, sejam humildes.

Para entender em que consiste essa virtude, é preciso entender que, no homem, existem apetites naturais, que se encontram desordenados por conta do pecado original. O desejo de comer, por exemplo, pode degenerar em gula; o desejo sexual, em luxúria; e, do mesmo modo, o desejo de glória – porque o ser humano foi feito para a glória do Céu – pode transformar-se no vício da soberba, que é justamente um apetite desordenado da própria excelência. A humildade consiste, pois, em refrear esse apetite e imitar Nosso Senhor que, "existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano" [3]. Não é justamente este o mistério que se celebra no Natal – a saber, o do Verbo que se fez carne, do Deus que se rebaixa, se humilha, para salvar a humanidade? Não foi também este o fato que Simeão considerou "causa de queda" e "sinal de contradição" [4] em Israel?

Para sondar a natureza da humildade, é importante recorrer à definição de Santa Teresa de Ávila, em suas Moradas:
"Certa vez, pensando eu por que Nosso Senhor aprecia tanto a virtude da humildade, deparei logo (a meu ver, sem que eu o considerasse, de modo repentino) com o seguinte: sendo Deus a suma Verdade, e a humildade, andar na verdade, eis a razão da sua importância. E é grandíssima verdade o fato de nada de bom proceder de nós; só o fazem a miséria e a insignificância. E quem não entende isso anda na mentira. Quem mais o compreender mais agradará à suma Verdade, porque anda nela. Praza a Deus, irmãs, dar-nos a graça de nunca abandonar esse conhecimento próprio. Amém." [5]
"Andar na verdade", eis o que é a humildade. Não se trata de inventar algo a respeito de si mesmo, vivendo uma espécie de teatro, mas de reconhecer uma "grandíssima verdade": que nada de bom procede de nós, senão "a miséria e a insignificância".

Santo Tomás de Aquino, ao responder se o homem deve, por humildade, sujeitar-se a todos, ensina coisa semelhante:
"Duas coisas podem ser consideradas no homem: o que é de Deus e o que é do homem. É do homem, certamente, tudo o que é falho e é de Deus tudo o que é de salvação e perfeição, conforme está escrito: 'Tua perdição é obra tua, Israel; tua força é somente minha' (Os 13, 9). Ora, a humildade, como se viu, visa, propriamente, à reverência com que o homem se submete a Deus. E, por isso, todo homem, por aquilo que é seu, deve sujeitar-se ao próximo, quem quer que seja, por causa daquilo que é de Deus nessa pessoa." 
(...) 
"Se preferimos o que há de divino no próximo ao que há de humano em nós mesmos, não podemos incorrer em falsidades. Por isso, comentando o que diz o Apóstolo: 'Considerai os outros superiores a vós' (Fl 2, 3), diz a Glosa: 'Não devemos entender essas palavras, fingidamente; pelo contrário, pensemos que pode haver no outro um bem oculto que o faz superior a nós, mesmo que o nosso bem, pelo qual nos achamos superiores a ele, não esteja oculto'." [6]
Neste tempo do Advento, sigamos o exemplo de São João Batista e coloquemos em prática a virtude da humildade, consciente de que "Deus resiste aos soberbos, mas concede a graça aos humildes" [7]. T

Referências:

Lc 1, 76-77.
Cf. Is 40, 3-4.
Fl 2, 6-7.
Lc 2, 34.
Castelo Interior, Sextas Moradas, X, 7.
Suma Teológica, II-II, q. 161, a. 3.
Tg 4, 6; cf. Pr 3, 34.



sábado, 6 de dezembro de 2014

Primeira Pregação de Advento: "Eu vos dou minha paz"


"Eu vos dou a minha paz!"

Primeira pregação de Advento ao Papa e à Cúria Romana, Por Frei Raniero Cantalamessa, OFMCap.

1. Estamos em paz com Deus!

Se pudéssemos ouvir o grito mais forte que existe no coração de bilhões de pessoas, ouviríamos, em todas as línguas do mundo, uma única palavra: paz! A dolorosa atualidade deste tema, junto com a necessidade de se devolver à palavra “paz” a riqueza e a profundidade de significado de que ela se reveste na Bíblia, me levou a dedicar a este tema as meditações de Advento deste ano. Ela nos ajudará, espero eu, a escutar com ouvidos novos o anúncio natalino, “Paz na terra aos homens que Deus ama”, e a começar a viver em nosso interior a mensagem que a Igreja, todos os anos, apresenta ao mundo na jornada mundial da paz.

Comecemos ouvindo o anúncio fundamental da paz. São palavras de Paulo na Carta aos Romanos:

“Justificados, pois, pela fé, estamos em paz com Deus por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor, mediante o qual também tivemos, pela fé, o acesso a esta graça em que estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus (Rm 5, 1-2).

Eu ainda me lembro do que aconteceu no dia em que acabou, para a Itália, a segunda guerra mundial. Os gritos de “Armistício! Paz!” ribombaram da cidade ao campo, de casa em casa. Era o fim de um pesadelo: basta de terror, basta de bombardeios, basta de fome. Parecia que finalmente se voltava a viver. Algo assim deve ter sido provocado, no coração dos leitores, por aquele anúncio do Apóstolo: “Nós estamos em paz com Deus! Foi selada a paz! Uma era nova começou para a humanidade na sua relação com Deus!”. A época deles já foi definida como “de angústia”[1]. Os homens daquele tempo tinham a impressão (nada infundada, aliás) de que uma condenação pesava sobre a sua cabeça; Paulo a chamava de “cólera de Deus que se revela do céu contra toda impiedade” (Rom 1, 18). Daí os ritos e cultos esotéricos de propiciação que pululavam na sociedade pagã daquele tempo.

Quando falamos de paz, somos levados a pensar quase sempre numa paz horizontal: entre os povos, entre as raças, entre as classes sociais, entre as religiões. A palavra de Deus nos ensina que a paz primeira e mais essencial é a vertical, entre o céu e a terra, entre Deus e a humanidade. Dela dependem todas as outras formas de paz. Isto nós vemos no próprio relato da criação. Enquanto Adão e Eva estão em paz com Deus, há paz dentro de cada um deles, entre a carne e o espírito (estavam nus e não se envergonhavam), há paz entre o homem e a mulher (“carne da minha carne”), entre o ser humano e o resto da criação. Tão logo eles se rebelam contra Deus, tudo se transforma em luta: a carne contra o espírito (eles se dão conta de estarem nus), o homem contra a mulher (“a mulher me seduziu”), a natureza contra o homem, o irmão contra o irmão, Caim contra Abel. 

Por este motivo, pensei em dedicar esta primeira meditação à paz como dom de Deus em Cristo Jesus. Na segunda meditação, falaremos da paz como tarefa pela qual trabalhar e, na terceira, da paz como fruto do Espírito, ou seja, da paz interior da alma. São os três âmbitos da paz evocados num hino da liturgia das horas: “Paz entre céu e terra, paz entre todos os povos, paz em nossos corações”[2].

2. A paz de Deus, prometida e dada

O anúncio de Paulo, recém-ouvido, pressupõe o acontecimento de algo que mudou o destino da humanidade. Se agora estamos em paz com Deus, isto quer dizer que antes não estávamos; se agora “não há mais nenhuma condenação” (Rm 8,1), quer dizer que antes havia uma condenação. Vejamos o que foi que provocou uma mudança tão decisiva na relação entre o homem e Deus.

Diante da rebelião do homem – o pecado original – Deus não abandona a humanidade ao seu azar, mas decide um novo plano para reconciliá-la consigo. Uma comparação trivial, mas útil para entendermos, pode ser feita com os chamados sistemas de navegação por satélite, instalados hoje nos carros. Se em algum momento o motorista não segue a indicação do navegador, fazendo uma conversão à esquerda, por exemplo, em vez de à direita, o navegador em poucos instantes lhe traça uma nova rota, a partir da posição em que ele está localizado, para chegar ao destino desejado. Foi isto o que Deus fez em relação ao homem, decidindo, depois do pecado, o seu plano de redenção.

A longa preparação começa com as alianças bíblicas. Elas são, por assim dizer, “acordos de paz separados”. Primeiro com indivíduos: Noé, Abraão, Jacó; depois, por meio de Moisés, com todo Israel, que se torna o povo da aliança. Essas alianças, ao contrário das humanas, são sempre alianças de paz, nunca de guerra contra inimigos.

Mas Deus é Deus de toda a humanidade: “Acaso Deus é Deus somente dos judeus? Não é Deus também dos gentios?”, exclama São Paulo (Rm 3, 29). Estas alianças antigas eram temporárias, destinadas a ser prorrogadas um dia para todo o gênero humano. De fato, os profetas começaram a falar cada vez mais claramente de uma “aliança nova e eterna”, de uma “aliança de paz” (Ez 37, 26), que, a partir de Sião e de Jerusalém, se estenderá a todos os povos (cf. Is 2, 2-5).

Esta paz universal é apresentada como um retorno à paz inicial do Éden, com imagens e símbolos que a tradição judaica interpreta em sentido literal e a cristã em sentido espiritual:

“De suas espadas forjarão relhas de arados, e de suas lanças, foices. Uma nação não levantará a espada contra outra, e não se arrastarão mais para a guerra” (Is 2,4). “O lobo habitará com o cordeiro, a pantera se deitará junto ao cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos e um menino pequeno os guiará” (Is 11, 6-7). 

O Novo Testamento vê realizadas todas essas profecias com a vinda de Jesus. Seu nascimento é revelado aos pastores com o anúncio: “Paz na terra aos homens que Deus ama!” (Lc 2, 14). O próprio Jesus diz que veio ao mundo para trazer a paz de Deus: “Eu vos deixo a paz; eu vos dou a minha paz” (Jo 14, 27). Na noite de Páscoa, no cenáculo, sabe-se lá com que divinas vibrações, sai da sua boca de ressuscitado a palavra “shalom!”, “a paz esteja convosco!”. Como no anúncio dos anjos no Natal, este não é apenas um cumprimento ou um augúrio, mas algo real, algo que é transmitido. Todo o conteúdo da redenção estava contido naquela palavra.

A Igreja apostólica nunca se cansa de proclamar o cumprimento, em Cristo, de todas as promessas de paz feitas por Deus. Falando do Messias que nasceria em Belém da Judeia, o profeta Miqueias tinha predito: “Ele será a nossa paz!” (Mi 5,4); exatamente o que a Carta aos Efésios diz de Cristo: “Ele é a nossa paz” (Ef 2, 14). “O Natal do Senhor”, diz São Leão Magno, “é o natal da paz”[3].

3. A paz, fruto da cruz de Cristo

Coloquemos agora uma pergunta mais precisa. Foi com a sua simples vinda à terra que Jesus restaurou a paz entre o céu e a terra? É realmente o nascimento de Cristo “o natal da paz” ou é também, e acima de tudo, a sua morte? A resposta se encontra na palavra de Paulo da qual partimos: “Sendo, pois, justificados pela fé, estamos em paz com Deus por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 5,1). A paz vem da justificação pela fé e a justificação vem do sacrifício de Cristo na cruz (cf. Rm 3, 21-26)!

Além disso, a paz é o próprio conteúdo da justificação. Esta não consiste apenas na remissão (ou, de acordo com Lutero, na não imputação) dos pecados, isto é, em algo puramente negativo, um “remover” algo que havia; ela envolve também e acima de tudo um elemento positivo, uma colocação de algo que não havia: o Espírito Santo e, com Ele, a graça e a paz.

Uma coisa é clara: não se entende a mudança radical ocorrida no relacionamento com Deus se não se entende o que aconteceu na morte de Cristo. Oriente e Ocidente são unânimes em descrever a situação da humanidade antes de Cristo e fora de Cristo. Por um lado, havia os homens que, pecando, tinham contraído com Deus uma dívida e precisavam lutar contra o demônio que os mantinha escravos: situações, estas, que eles não podiam resolver, sendo a dívida infinita e eles prisioneiros de Satanás, de quem tinham de se livrar. Por outro lado, Deus podia expiar o pecado e vencer Satanás, mas não devia fazê-lo, não era obrigado a fazê-lo, já que não era Ele o devedor. Tinha de ser alguém que unificasse em si mesmo o combatente e o capaz de vencer: é o caso de Cristo, Deus e homem. Assim se expressam, com termos muito parecidos, Nicolau Cabasilas, entre os gregos, e Santo Anselmo de Aosta, entre os latinos[4].

A morte de Jesus na cruz é o momento em que o Redentor cumpre a obra da redenção, destruindo o pecado e derrotando Satanás. Como homem, aquilo que Ele realiza nos pertence: “Cristo Jesus foi feito por Deus, para nós, sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1 Cor 1, 30); para nós! Por outro lado, como Deus, o que Ele realiza tem valor infinito e pode salvar “todos aqueles que recorrem a Ele” (Hb 7,25).

Em tempos recentes, tem-se repensado profundamente no sentido do sacrifício de Cristo. Em 1972, o pensador francês René Girard lançou a tese que considerava que “a violência é o coração e a alma secreta do sagrado”[5]. Na origem, de fato, e no centro de toda religião, incluída a hebraica, está o sacrifício, o rito do bode expiatório que sempre envolve destruição e morte. Já antes dessa data, porém, aquele estudioso tinha se reaproximado do cristianismo e, na Páscoa de 1959, tinha tornado pública a sua “conversão”, declarando-se crente e retornando à Igreja.

Isto lhe permitiu não ficar apenas, em seus estudos posteriores, na análise do mecanismo da violência, mas salientar também a forma de sair dele. A seu ver, Jesus desmascara e despedaça o mecanismo que sacraliza a violência tornando-se o voluntário “bode expiatório” da humanidade, a vítima inocente de toda a violência. Cristo, já dizia a Carta aos Hebreus (Hb 9, 11-14), não veio com o sangue dos outros, mas com o próprio. Não fez vítimas, mas fez-se vítima. Não colocou os seus pecados sobre os ombros dos outros, homens ou animais; colocou, sim, os pecados dos outros sobre os próprios ombros: “Ele tomou sobre si os nossos pecados no madeiro da cruz” (1 Pd 2, 24).

Pode-se então continuar falando sobre o “sacrifício” da cruz e, por conseguinte, da missa como sacrifício? Durante muito tempo, o estudioso mencionado rejeitou este conceito, considerando-o marcado demais pela ideia de violência, mas, depois, com toda a tradição cristã, acabou admitindo a sua legitimidade, desde que, afirma ele, se veja no de Cristo um novo tipo de sacrifício e se perceba nesta mudança de significado “o fato central da história religiosa da humanidade”[6].

Tudo isto nos permite entender melhor em que sentido aconteceu na cruz a reconciliação entre Deus e os homens. Em geral, o sacrifício de expiação servia para aplacar um Deus enfurecido com o pecado. O homem, oferecendo a Deus um sacrifício, pede à divindade a reconciliação e o perdão. No sacrifício de Cristo, a perspectiva é invertida. Não é o homem quem exerce uma influência sobre Deus para que Ele se aplaque. Antes, é Deus quem age para que o homem desista da própria inimizade com Ele. “A salvação não começa com o pedido de reconciliação do homem, mas com o pedido de Deus de nos reconciliarmos com Ele”[7]. Neste sentido, entende-se a afirmação do Apóstolo: “É Deus quem reconciliou consigo o mundo em Cristo” (cf. 2 Cor 5, 19), e ainda: “Sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho” (Rm 5,10).

4. “Recebei o Espírito Santo!”

A paz que Cristo nos mereceu com a sua morte na cruz se torna ativa e operante em nós mediante o Espírito Santo. Por isto, no cenáculo, depois de ter dito aos apóstolos “Paz a vós”, Ele soprou sobre eles e acrescentou, como de um só fôlego: “Recebei o Espírito Santo!” (Jo 20, 22).

Em realidade, a paz vem, sim, da cruz de Cristo, mas não nasce dela. Nasce de mais longe. Na cruz, Jesus destruiu o muro do pecado e da inimizade que impedia a paz de Deus de se difundir entre os homens. A fonte suprema da paz é a Trindade. “Ó Trindade beata, oceano de paz!”, exclama a liturgia em um dos seus hinos. Segundo Dionísio Areopagita, “Paz” é um dos nomes próprios de Deus[8]. Ele é paz em si mesmo, como é também amor e luz.

Quase todas as religiões politeístas falam de divindades em permanente estado de rivalidade e de guerra entre si. A mitologia grega é o exemplo mais conhecido. A rigor, não se pode falar de Deus como fonte e modelo de paz, nem mesmo no contexto de um monoteísmo absoluto e numérico. A paz, assim como o amor, não pode existir a não ser entre duas pessoas. Ela consiste em relações de beleza, em relações de amor, e a Santíssima Trindade é precisamente essa beleza e perfeição de relações. O mais impressionante, quando contemplamos o ícone da Trindade de Rublev, é a sensação de paz sobre-humana que emana dele.

Quando Jesus diz “shalom” e “Recebei o Espírito Santo”, Ele comunica aos discípulos algo da “paz de Deus que excede todo entendimento” (Fl 4,7). Neste sentido, a paz é quase um sinônimo de graça e, de fato, os dois termos são usados em conjunto, como uma espécie de binômio, no início das cartas apostólicas: “Graça e paz a vós da parte de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 1, 7; 1 Tes 1, 1). Quando se proclama na missa “A paz esteja convosco”, “Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz” e, no final, “Ide em paz”, é desta paz, como dom de Deus, que se está falando.

5. “Reconciliai-vos com Deus!”

Gostaria de destacar agora como este dom da paz, recebido ontologicamente e de direito por meio do batismo, deve mudar pouco a pouco, também de fato e psicologicamente, a nossa relação com Deus. O premente apelo de Paulo, “Suplicamo-vos em nome de Cristo: deixai-vos reconciliar com Deus” (2 Cor 5, 20), é dirigido aos cristãos batizados que vivem há tempos na comunidade. Não se refere, portanto, à primeira reconciliação, nem, evidentemente, ao que chamamos de “sacramento da reconciliação”. Neste sentido atual e existencial, ele é dirigido também a cada um de nós, que tentamos entender em que ele consiste.

Uma das razões, talvez a principal, da alienação da religião e da fé por parte do homem moderno é a imagem distorcida que ele tem de Deus. Esta é também a causa de um cristianismo apagado, sem impulso e sem alegria, vivido mais como um dever do que como um presente. Eu penso no quanto era grandiosa a imagem de Deus Pai na Capela Sistina quando a vi pela primeira vez, toda recoberta por uma pátina escura, e como é agora, após a restauração, com as cores vivazes e os contornos nítidos com que tinha saído do pincel de Michelangelo. Uma restauração mais urgente da imagem de Deus Pai deve acontecer no coração dos homens, incluídos nós, os crentes.

Qual é a imagem “predefinida” de Deus (na linguagem dos computadores, de funcionar como um padrão) no inconsciente coletivo humano? Basta, para descobrirmos, perguntar a nós mesmos e aos outros: “Que ideias, que palavras, que realidades surgem espontaneamente em mim, antes de qualquer reflexão, quando digo ‘Pai nosso, que estais no céu... Seja feita a vossa vontade’”? Inconscientemente, associamos a vontade de Deus a tudo o que é desagradável, doloroso, àquilo que, de uma forma ou de outra, pode ser visto como uma mutilação da liberdade e do desenvolvimento individual. É como se Deus, de certa forma, fosse o inimigo de toda festa, alegria, prazer.

Outra pergunta reveladora: o que é que sugere para nós a invocação “Kyrie eleison”, “Senhor, tende piedade de nós”, que pontua a oração cristã e, em algumas liturgias, acompanha a missa do início ao fim? Ela acabou se tornando apenas o pedido de perdão da criatura que vê Deus sempre no processo (e no direito) de puni-la. A palavra “piedade” foi tão aviltada a ponto de ser usada frequentemente em sentido negativo, como algo mesquinho e desprezível: “causar piedade” como sinônimo de “dar pena”, “causar vergonha alheia”. De acordo com a Bíblia, “Kyrie eleison” deve ser traduzido como “Senhor, cobri-nos com a vossa ternura!”. Basta ler como Deus fala do seu povo em Jeremias: “Meu coração se comove com ele e sinto por ele uma profunda ternura" (eleos) (Jr 31, 20). Quando os doentes, os leprosos e os cegos gritam para Jesus, como em Mateus 9, 27, “Senhor, tem piedade (eleeson) de mim!”, eles não querem dizer “Perdoa-me”, e sim “Tem compaixão de mim”.

Deus é visto, geralmente, como o Ser Supremo, o Todo-Poderoso, o Senhor do tempo e da história, ou seja, como uma entidade que se impõe ao indivíduo a partir de fora; nenhum detalhe da vida humana lhe escapa. A transgressão da sua lei introduz inexoravelmente uma desordem que exige reparação. Não podendo, esta reparação, ser jamais considerada adequada, surge a angústia da morte e do julgamento divino.

Eu confesso que quase estremeço ao ler as palavras que o grande Bossuet dirige a Jesus na cruz, num discurso da Sexta-Feira Santa: “Lanças-te, Jesus, nos braços do Pai, e te sentes rejeitado; sentes que é Ele próprio quem te persegue, quem te golpeia, quem te abandona; que é Ele próprio que te esmaga sob o peso enorme e insuportável da sua vingança... A cólera de um Deus enfurecido: Jesus reza e o Pai, irado, não o escuta; é a justiça de um Deus vingador perante as ofensas recebidas; Jesus sofre e o Pai não se aplaca!”[9]. Se assim falava um orador do alto nível de Bossuet, podemos imaginar a que tipo de coisa se abandonavam os pregadores populares daquele tempo. Entende-se, assim, como foi se formando aquela imagem “predefinida” de Deus no coração do homem.

É claro que nunca se ignorou a misericórdia de Deus! Mas a ela foi confiada apenas a tarefa de moderar os irrenunciáveis rigores da justiça. Aliás, na prática, fez-se com que o amor e o perdão de Deus dependessem do amor e do perdão que damos ao próximo: se perdoarmos a quem nos ofendeu, então Deus poderá, por sua vez, nos perdoar também. Criou-se com Deus um relacionamento de barganha. Não se diz que é preciso acumular méritos para ganhar o Paraíso? E não se atribui grande importância aos esforços a ser feitos, às missas a mandar rezar, às velas a ser acesas, às novenas a realizar?

Tudo isso, que permitiu no passado a muita gente demonstrar a Deus o próprio amor, não pode ser jogado fora: deve ser respeitado. Deus faz desabrocharem as suas flores – e os seus santos – em qualquer clima. Não há como negar, porém, o risco de se cair numa religião utilitária, no “do ut des”, “dou para que dês”. Por trás de tudo está o pressuposto de que a relação com Deus depende do homem. Ele não pode se apresentar diante de Deus de mãos vazias: deve ter sempre algo a lhe dar. E é verdade que Deus diz a Moisés: “Ninguém se apresentará diante de mim com as mãos vazias” (Ex 23,15; 34, 20), mas este é o Deus da lei, não ainda o Deus da graça. No reino da graça, o homem deve se apresentar diante de Deus justamente “de mãos vazias”; a única coisa que ele precisa trazer “nas mãos”, ao se apresentar a Ele, é o seu Filho Jesus.

Vejamos como o Espírito Santo, quando nos abrimos a Ele, transforma esta situação. Ele nos ensina a olhar para Deus com olhos novos: como o Deus da lei, é claro, mas, ainda mais, como o Deus do amor e da graça, como o Deus “misericordioso e compassivo; lento à ira e grande no amor” (Ex 34, 6). Ele nos revela Deus como um aliado e amigo, como quem “não poupou o próprio Filho, mas o entregou por todos nós” (é assim que deve ser entendida a passagem de Rm 8, 32!); em suma, como um Pai de imensa ternura. Aflora então o sentimento filial que se traduz espontaneamente no grito: “Abba, Pai!”. Como quem diz: “Eu não te conhecia, ou só te conhecia por ouvir dizer; agora te conheço, sei quem és; sei que me amas de verdade e que me és propício”. O filho tomou o lugar do escravo; o amor, o lugar do medo. É assim que se chega verdadeiramente à reconciliação com Deus, inclusive no âmbito subjetivo e existencial.

Repitamos nós também, de tanto em tanto, com a íntima alegria e a jubilosa certeza do Apóstolo: “Justificados pela fé, estamos em paz com Deus!”. T

[1] E. R. Dodds, Pagani e cristiani in un'epoca di angoscia. Aspetti dell'esperienza religiosa da Marco Aurelio a Costantino, Florença, La Nuova Italia 1993.
[2] Hino de louvor do III domingo do tempo comum.
[3] São Leão Magno, In Nativitate Domini, XXXVI, 5 (PL 54, 215).
[4] N. Cabasilas, Vita in Cristo, I, 5 (PG 150, 313); Cf. Anselmo, Cur Deus homo?, II, 18.20; Tomás de Aquino, Summa theologiae, III, q. 46, art. 1, ad 3.
[5] Cf. R. Girard, La violence et le sacré, Grasset, Paris 1972.
[6] Cf. R. Girard, Il sacrificio, Milão 2004.
[7] G. Theissen - A. Merz; Il Gesú storico, Queriniana, Brescia 2003, pág. 573.
[8] Pseudo-Dionísio Areopagita, Nomes divinos, XI, 1 s (PG 3, 948 s).
[9] J.B. Bossuet, Œuvres complètes, IV, Paris 1836, pág. 365.



domingo, 30 de novembro de 2014

Homilia do 1º Domingo do Advento (Ano B), por Pe. Paulo Ricardo



Convertei-nos, para que sejamos salvos!

Diante das infidelidades do povo de Israel, o pedido do profeta Isaías para que Deus "volte atrás" mostra a consciência de que, sem a Sua graça, nada podemos. "Deus é fiel", e é Ele mesmo quem vai garantir, com a Sua graça, que alcancemos a santidade. Para tanto, resta-nos clamar, com o salmista: "Convertei-nos, Senhor, para que sejamos salvos!" T





domingo, 23 de novembro de 2014

Homilia do 34º Domingo do Tempo Comum ~ Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo ~ por Pe. Paulo Ricardo



Jesus Cristo, Rei das nações

Em 1925, com a Encíclica Quas Primas, o Papa Pio XI instituía a Festa de Cristo, Rei do Universo. O que o Santo Padre queria com este gesto? Em que sentido se diz que Jesus é "Rei"? Neste Testemunho de Fé, Padre Paulo Ricardo explica em que consiste o reinado social de Nosso Senhor e como isto interfere diretamente nas realidades políticas e temporais de nossa época. T





domingo, 16 de novembro de 2014

Homilia do 33º Domingo do Tempo Comum, por Pe. Paulo Ricardo



Servo mau e preguiçoso!

O patrão da parábola dos talentos repreende seu último empregado, que “escondeu o seu talento no chão”, como “mau e preguiçoso”. Mas, qual é a maldade desse servo? Por que é tratado com tanta severidade por seu senhor? Neste Testemunho de Fé, descubra o pecado por trás da letargia espiritual: a soberba de Lúcifer. T






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